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A “mosca” de Atenas, de Raul, de todos nós…

Passados quatro dias rápidos de carnaval, em que muitos foram levados pela ventania do barulho do momento, a tendência agora será o despertar para outras realidades, como as chuvas de março e com elas as moscas, a política, o salário, a inflação e, talvez, a situação de trabalho de cada um de nós, pobres mortais. Passada a anestesia da folia, a realidade volta com toda a sua força ao dia a dia do brasileiro!

As chuvas são a marca do mês de março em nosso sertão; nuvens carregadas de água trazem do céu a esperança natural de boas colheitas para o humilde agricultor, bem como doenças de toda sorte para o povo do sertão. Também com as chuvas vêm as moscas para nos incomodar, chatear e aborrecer. Quem, em meio à umidade e ao calor, não se aborrece com as moscas? Aqui e ali estão pousando e hospedando seus excrementos, suas larvas em águas e alimentos. É preciso lavar bem e cobrir com muito cuidado os alimentos.

As moscas são muito frequentes nesta época do ano. Tão comuns que podemos encontrá-las em qualquer ambiente. Aparentemente inofensiva e inútil, ao contrário, a mosca pode causar diversos danos à saúde. Inseto asqueroso, de anatomia quase irreparável a olho nu, apresenta certas peculiaridades, dentre elas os olhos por toda a cabeça (formados por 3.000 lentes de seis lados); não veem muitos detalhes, mesmo vendo 360º graus, tudo está fora de foco; asas finas, batem 330 vezes por segundo (4 vezes mais do que o beija-flor) e o segundo par dessas asas influencia as manobras aéreas, e por serem finas e frágeis, ficam invisíveis durante o voo. As moscas são incrivelmente ágeis e importante para a natureza.

No entanto, a mosca é vista por quase todas as pessoas como um inseto nojento, perturbador e incômodo, principalmente nos momentos de um cochilo, de um bom sono, de uma sesta rápida. É o estraga prazer de todos quantos estão a saborear um caldo, uma sopa ou uma boa bebida. Dificilmente alguém não se sentiria incomodado ao ver cair uma mosca no seu copo ou na sua comida.

Certamente aqui encontra-se o gancho para o qual Raul Seixas construiu uma ponte da mosca para a política. Tal como a mosca incomoda aos nossos prazeres; assim o é para os que se lambuzam nas regalias do poder. Vejamos o trocadilho da mosca com o poder na música inteligente de Raul: “Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar…”
Raul foi maravilhosamente perspicaz e sagaz ao jogar com palavras cheias de ironia e sarcasmo, transparecendo uma indignação com a sociedade, com o poder, com a política.

O filósofo é como uma mosca; perturbadora, incômoda, abusada, chata, estraga prazer, enfim. Talvez por isso, a Filosofia, tenha ficado distante da grade curricular das escolas públicas por muitos anos, inclusive no regime ditatorial, período de perseguição aos direitos democráticos do cidadão. Não devia ser perigoso falar de direitos humanos, tampouco de direitos ao cidadão, da dignidade da pessoa humana. Porém, a mosca está de volta, a Filosofia está mais forte do que nunca. Jamais se produziu tanto nesta área.

Platão pintou a imagem de Sócrates como uma “mosca” na sociedade ateniense. Sócrates era uma espécie de perturbador da aristocracia ateniense, das autoridades em geral, dos que se diziam uma coisa e não eram. “A perturbação que causava, no entanto, não seria à toa. Segundo sua própria interpretação relatada por Platão, ele foi sendo tomado pelo espírito da ‘mosca’, de pousar em cada lugar de Atenas para importunar, e foi assim que conseguiu, finalmente, entender sua missão”(GHIRALDELLI, Paulo Jr. A Aventura da Filosofia. S. Paulo: Manole. 2010. p. 32). Acabou condenado à morte por não concordar com um governo corrupto, com base na venda de homens livres; e por ser acusado injustamente de corromper a juventude com ideias voltadas para a alma. Sócrates, como filósofo, sábio de Atenas e cosmopolita, jamais aceitava a ignorância e a corrupção política. Daí ser visto por Platão como a “mosca” de Atenas.

Voltando a Raul Seixas, a “mosca” quer dizer os insatisfeitos com a situação política que aí está. Os que corajosamente, como Sócrates, tiram a cortina, tiram o véu da mentira para encontrar a verdade. A “sopa” é a delícia do dinheiro público. A “sopa” quer dizer as regalias do poder, o despotismo, contratações sem necessidade, altas diárias, mordomias, nepotismo, troca de favores com cargos públicos, desvio de verbas, licitações escusas e assim por diante.

Nesse sentido, quem, tal como Raul, tal qual Sócrates, filósofo, quer ser uma “mosca”?


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho

(Imagem do filme “Onde vivem os monstros”, 2009, EUA, direção de Spike Jonze).

            A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida… Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.

A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.

O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!

Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.

Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.

Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.

Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.

Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar…


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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Cidadãos do céu…

Difícil tergiversar sobre tamanha cidadania já que muitos não a admitem. Se exercer uma cidadania terrena, da cidade mesmo, é um tanto quanto difícil, imagine então quando essa cidadania implica trazer para o mundo real as novidades eternas difundidas pelo Evangelho! Para tanto, requer de nossa parte uma intensa dedicação ao Reino de Deus, uma vez que o projeto de uma cidade dos céus estaria sendo relegado por muitos: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Apesar de uma realidade de rejeição ao exercício de uma cidadania celeste, o anúncio e o testemunho das palavras e dos atos do Senhor se fazem pertinentes por causa da escassez de um poder espiritual no mundo contingente. O mundo sente cada vez mais a ausência de Deus! Quanto mais os cidadãos do mundo, os cosmopolitas como diria Sócrates, rejeitam uma cidadania diferente, de um Reino dos céus, mais e mais se faz urgente a Palavra do Senhor que diz:“(…) o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”(Mc 1. 15).

É muito próprio do cidadão comum cumprir suas obrigações, obedecer às leis, participar do governo de uma cidade, como também exigir a garantia de seus direitos à Educação, à Saúde, à Liberdade, de modo que venha a sentir-se incluído no meio social de crescimento e realização pessoal, mas nada disso lhe garante a salvação. Do contrário, há de se perceber uma insaciável busca do cidadão por valores imperecíveis, eternos, isto é, embora tenha um exercício de cidadania razoável para viver, o cidadão em algum momento é capaz de se dar conta da sua insatisfação, onde a procura pela verdadeira vida, por milagres e sinais dos céus são muito latentes. Lembrem-se da pergunta dramática do jovem rico: “Senhor, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”(Cf. Mt 19.16-22)

Enquanto Jesus veio para os seus, mas os seus não o conheceram, conforme está dito logo no início do Evangelho de João, viraram-lhe as costas, o mataram, o eliminaram, porém não foram muito longe, não conseguiram viver baseados apenas nas forças deste mundo porque viram que todas as coisas passam, os reinos passam, a soberania e a soberba temporais passam, as perseguições e injustiças também passam, mas as palavras do Senhor não passam e permanecem ecoando aos ouvidos dos cidadãos do mundo. Viram ainda que estavam errados quanto aos feitos maravilhosos do Senhor direcionados para a salvação da humanidade. A intenção de Jesus, obediente ao Pai, era impregnar nos corações humanos a realização de todas as promessas eternas, de felicidade e bonança tais que o mundo inteiro não podia conter. Sedentos de paz definitiva, de amor verdadeiro, de alegrias eternas, de comunhão com os céus, os cidadãos do mundo preferiram aceitar a morte à vida.

A verdade é dura, mas é verdade. Permitam o trocadilho. Não somos deste mundo, apenas passamos por ele. Somos peregrinos por aqui. Na verdade, somos passantes, migrando por aqui e por ali, sem pátria, mais nômades do que nunca, forasteiros, pois nossa terra é o céu, nossa pátria é o céu. O mundo não nos pertence, tampouco pertencemos a ele. Ora, se aqui, apesar de  tudo, é tão bom, como não será o céu! Se os frutos da terra são tão bons, como não serão os galardões do céu! Os frutos do Espírito são: “o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio” (Gálatas 5.22).

Nossa cidadania comum está muito aquém da cidadania celestial, pois o reino celestial não é como os reinos deste mundo, ser cidadão do mundo não é o mesmo que ser cidadão do céu. Ser cidadão do céu implica estar submetido ao governo de Deus que está em nosso coração e em nossa consciência, norteando nossa vida. Agora, antes de receber o título de cidadão do céu, é necessário reconhecer-se pecador, aceitar o Senhor como seu salvador, e sobretudo, renascer pela água e pelo espírito, mudar de vida pela Palavra de Deus, ouvindo a voz de Deus: “A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus…Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3,5). “Tendo purificado a vossa alma pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Ped 1.22-23).

Portanto, é fato. Não somos daqui. Como transeuntes pelo mundo, mais nos damos conta de que marchamos para os céus, haja vista que esta vida não se basta nela mesma, mas se completa com a vida eterna. “(…)Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. (…)Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido”(1Cor 13. 9-12). Atribui-se a Sócrates o dito de que “Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo“. Completaríamos o legado oral assim: “Não sou nem ateniense, nem grego, nem cidadão do mundo, mas sim um cidadão do céu”.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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A fascinação do estrangeiro

(obra de arte de Salvador Dalí – Metamorfose de Narciso – 1937)

Pasmem. Mas o estrangeiro acrescenta e muito ao nosso “território” cultural, ao nosso eu cultural. Acrescenta em diálogo, em conhecimento e em aprendizagem. Sem muito esforço, conseguimos, logo de cara, perceber que se trata de alguém bastante diferente de nós.

Nesse ponto, não há como não evocar e provocar Lévinas, filósofo lituano, que nos diz algo mais ou menos assim: “Com o estrangeiro nos permitimos sair do mesmo em direção ao outro”. Se no pensamento de Lévinas é sempre o outro quem tem autonomia, o que dizer então do estrangeiro?!

Na cultura greco-romana, o estrangeiro era, de certo modo, repudiado, visto como inimigo, pronto para guerrear, sua presença era uma ameaça ao poder estabelecido naquele território. O império romano não tolerava os bárbaros, os excluía e os ameaçava a qualquer custo. Os bárbaros não representavam nada para os que detinham a hegemonia cultural. No entanto, cabe a pergunta: O que representava o Império Romano para os bárbaros?

Seguindo uma direção contrária à expansão dominadora e usurpadora do Império Romano, os cristãos são orientados por Jesus a amar o estrangeiro, bem como a viúva e o órfão, de modo a colocá-lo no centro do seu discurso, no episódio da cura dos dez leprosos: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”(Lc 17.18-19).

Mesmo sendo de outro mundo, falando uma língua diferente, de aparência, às vezes, diferente, de costumes diferentes, de uma visão de mundo estranhamente contrária à nossa, o estrangeiro cria uma atmosfera inteiramente curiosa nos ambientes onde chega e com quem conversa. Quem não lembra da chegada avassaladora do Estrangeiro de Eléia no diálogo platônico Sofista em que Sócrates parece ironizar com ele ao sentir-se bem à vontade no meio deles?! A impressão que se tem é que o Estrangeiro causa um certo “frisson” ao chegar no meio da conversa de Sócrates com seus discípulos. Sem ser um deles, o estrangeiro se faz um deles!

Não sei se essa sensação hoje em dia estaria um pouco minimizada devido ao grande processo de globalização por que passamos. Vivemos tempos de uma enorme aproximação dos mundos, das distâncias e etc. No entanto, não queremos abandonar nossos territórios, nossas coisas, nossas ideias, nossos apegos… Apegamo-nos a nós mesmos. Apegamo-nos muitíssimo às nossas vaidades pessoais. A verdade é que, enquanto nos prendemos a nós mesmos e aos nossos hábitos ao ponto de divinizá-los; um outro ser fascinante chama e continua a chamar por nós pedindo relacionamento, querendo aproximação e descoberta.

Ao revisitar um livro que guarda Grandes Indagações Filosóficas, Café Philo, deparei-me mais uma vez com o texto dialógico entre Paul Ricoeur e Jean Daniel sobre A estranheza do estrangeiro que me impressionou bastante, sobretudo porque trata o estrangeiro com fascinação, mas que poderia ser visto também com aversão. Aproprio-me aqui de um aspecto da sua fascinação, em que o estrangeiro, admite Paul Ricoeur, “é uma espécie de lugar vazio. Sabemos a que pertencemos, mas não sabemos quem são os outros em suas terras. Só por uma espécie de reação é que nos sentimos nós mesmos estrangeiros, conforme o modelo da estranheza do estrangeiro. A consciência disso é que nos põe num caminho de reconhecimento mútuo, na via da hospitalidade em suas dimensões morais e políticas, e permite assim tratar positivamente a pluralidade humana como algo insuperável”(pág. 13).

Mais adiante, numa certa altura das intervenções, Ricoeur reconhece ainda mais nossa condição humana de sermos estrangeiros de nós mesmos. “Acreditamos saber quem somos, ou mais exatamente acreditamos saber a que pertencemos, ali onde estamos instalados: a uma classe, a uma família, a uma nação etc. O estrangeiro é um desconhecido. Ao procurarmos num dicionário a palavra ‘estrangeiro’, encontramos: aquele que não é de nosso lugar, que é de outra nação, que é de outro país; é, pois, um lugar vazio. É por isso que acho que devemos começar por descobrir nossa própria estranheza nos ‘desinstalando’ de algum modo. Eu estava pensando um pouco na proposição do Levítico: ‘Fostes estrangeiros no Egito…’ Se não tivermos sido estrangeiros alhures, temos que descobrir nosso Egito. Nossa ‘estrangeireza’ simbólica. Ser estrangeiro simbolicamente”(pág. 16).

Reconhecer o estrangeiro na sua singularidade especial, como o fez Jesus, o próprio Lévinas, bem como Paul Ricoeur e Jean Daniel, significa superar a nós mesmos, partir de nosso “status quo”, de nossa zona de conforto e ir migrar, senão visitar ou até mesmo morar em outros mundos, em outras pessoas, em outras experiências. Que se trave, portanto, uma relação amistosa de hospitalidade com o outro, em que ambos se recebam mutuamente, de modo que nada os impeça de ampliar ainda mais suas diferenças culturais.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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Natalidade

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O nascimento do novo homem de Salvador Dalí

Conforme dados da ONU, nascem mais pessoas do que morrem a cada segundo. Só para termos uma ideia, nascem aproximadamente três pessoas ou mais por segundo no mundo. São cento e oitenta (180) nascimentos contra cento e três (103) mortes por minuto, portanto, a espécie humana é uma máquina de fazer nascer. Mesmo contra alguns prognósticos, teimamos em nascer, queremos nascer.

Independente da exatidão dos números acima, até porque vivemos atropelados pelos acontecimentos e pela onipresença da tecnologia, é interessante notar a força da espécie humana em querer nascer contra as desfavoráveis condições de vida.

Com o passar dos anos, a vida do ser humano está cada vez mais dura em várias frentes. Na frente climática, os dias têm sido de calor insuportável. A sensação térmica vem dificultando o bem-estar físico, o trabalho e até mesmo o convívio social. Na frente econômica, a inflação não deixa nosso dinheiro parar no bolso, sequer conhece o bolso, ganhá-lo está cada vez mais difícil e a oferta de emprego não é das melhores. Na frente política, mesmo com a globalização e o desaparecimento das fronteiras via internet, não conseguimos ser tão políticos como deveríamos, juntando esforços para causas mais coletivas, solidárias e sociais. Na frente religiosa, o Outro na sua diversidade passa ao largo dos interesses humanos, abrindo precedentes absurdos de intolerância, terrorismo e fundamentalismo religioso.

Todas essas frentes, e poderíamos citar mais, representam a dura realidade local e global tentando impedir ou obstaculizar a “natalidade”, o natal, o novo nascimento, o milagre do início, de um novo começo. Porém, as dificuldades da vida apontadas aqui não conseguem impedir a potência, a força, a ação deste nascimento, tal como está descrito nas Escrituras, a partir das perguntas de um fariseu, chamado Nicodemos: “Como pode um homem nascer sendo velho? Poderá entrar de novo no ventre materno para nascer?”(Jo 3.4). Jesus não o deixa sem resposta: “Eu te asseguro que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus”(Jo 3. 5).

Na esteira do que disse Jesus sobre o novo nascimento, a filósofa Hannah Arendt escolhe o conceito de “natalidade” para desenvolver suas ideias de liberdade, amor e educação. Uma liberdade que extrapola os apelos da necessidade. No amor, vale retomar o que disse Agostinho sobre as duas cidades. A cidade dos homens como o amor de si até ao desprezo de Deus. A cidade de Deus como o amor a Deus até ao desprezo de si. Por sua vez, a relação da Educação com a natalidade é que “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo” (ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1990. p. 223).

Para instaurar o nascimento na lei cíclica da mortalidade, interromper o curso inexorável e automático da ordem cotidiana da vida que nos arrasta lenta ou rapidamente até a morte é urgente aplicar nossa faculdade de agir. A ação, segundo Arendt, parece um milagre. “A ação é, de fato, a única faculdade milagrosa que o homem possui, como Jesus de Nazaré, que vislumbrou essa faculdade com a mesma originalidade e ineditismo com que Sócrates vislumbrou as possibilidades do pensamento…”(ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 7ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 258).


Assim como a capacidade de agir interfere no processo biológico da vida, esse mesmo agir também nos adverte que, embora todos devam morrer, “não nascem para morrer, mas para começar”.

A radicalidade, portanto, da capacidade de agir está na natalidade. O agir é essa capacidade humana de interromper a ruína, a destruição e a morte para iniciar algo novo. “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança, as duas características essenciais da existência humana que a antiguidade ignorou por completo, desconsiderando a fé como virtude muito incomum e pouco importante, e considerando a esperança como um dos males da ilusão contidos na caixa de Pandora. Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós'”(idem, p. 259).

Feliz Natal!

Ilustração: O nascimento do novo homem de Salvador Dalí.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.
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O mito da Medusa

Discutir um pouco sobre a mortalidade da Medusa é, no mínimo intrigante, porque só ela entre as irmãs era mortal. Carregar a marca da mortalidade em sua natureza parece ser paradoxal entre os deuses, uma vez que surge naturalmente o clássico problema: Que te parece pior ou melhor, viver como um deus entre os homens ou como um homem entre os deuses? Parece-me que a questão da mortalidade de Medusa guarda esse problema. Mesmo não participando do mundo dos deuses e de seus privilégios por serem mais poderosos e gozarem da imortalidade, enfim, Medusa tem um poder que é dado a ela, o de assumir com autoridade as medidas apropriadas. Só ela é mortal, mas só ela também é Górgona, pelo menos em tese, pois se serve de um olhar habilidoso, feminino e terrível que petrifica, que mede e que julga. Ela Joga sobre nós o peso da mortalidade, transformando-nos em pó, mas também nos proporciona um alívio através do olhar cortante de morte. A morte também é bela e indica libertação, pois para Sócrates, bem mais tarde, a filosofia é um exercício para a morte. A morte segundo Sócrates, no Fédon, é um misto de prazer e dor. Aqui já estou conjecturando e nessa linha não vejo o que é pior nem o que é melhor, mas vejo a cara da força da vida que precisa de cuidado e de reflexão. A mortalidade não é obstáculo algum para o grego, mas superação de seus limites através dos jogos, das guerras, onde os heróis buscam assemelhar-se aos deuses com as suas conquistas, as glórias e a honra em perpetuar um nome. Talvez, para Medusa, a mortalidade não traga tanto enfado quanto a imortalidade para um deus. Independentemente das narrativas históricas que envolvem a figura de Medusa, o que mais me impressiona nela é sua autonomia frente aos homens e aos deuses, pois era temida. Os que são temidos geralmente sentem-se ameaçados. Sem dúvida, pela história, Medusa tinha todas as qualidades para ser uma grande ameaça que, por sinal, daí possa vir a razão da trama de sua morte. A simbologia que cerca sua morte mereceria todo um estudo, bem mais atenção e renderia belíssimas produções textuais, assim eu penso.

No entanto, um aspecto que envolve a figura da Medusa é o senso de justa medida, bastante divulgado pela expressão grega sophrosyne. Essa noção é bastante comum entre os gregos, mas Medusa é paradoxal em relação ao equilíbrio, à justiça, vejam o verbete: “Só se pode combater a culpabilidade oriunda da exaltação frívola dos desejos pelo esforço em realizar a harmonia, a justa medida, que é, em última análise, exatamente a etimologia de Medusa. Quem olha para a cabeça da Gorgo se petrifica. Não seria por que ela reflete a autoimagem de uma culpabilidade pessoal? O reconhecimento da falta, porém, baseado num justo conhecimento de si mesmo pode se perverter em exasperação doentia, em consciência escrupulosa e paralisante. Em síntese, Medusa simboliza a imagem deformada, que petrifica pelo horror, em lugar de esclarecer com equidade”(In BRANDÃO, Junito. Dicionário Mítico-Etimológico. Vol I. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991, p. 471).

Desculpe-me um pouco a divagação nesse tema, mas tentei fazer uma aproximação com a Filosofia a fim de enxergar o lado dramático da morte da Medusa. Fazendo a leitura apressada do mito da Medusa, a Górgona por excelência, que espraia seu olhar de morte por onde passa, podemos concluir que a tragédia de sua morte vem recheada de beleza no momento em que ela é decapitada por Perseu, o sangue jorra da asquerosa Górgona e evidencia seu poder criativo como se apenas a morte desse-lhe de volta o que havia perdido para sua rival Atená, sua beleza e seu orgulho. Portanto, a morte de Medusa é um encontro consigo mesma, com sua beleza e orgulho perdidos.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica em Estudos Clássicos

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Éros e paideia: Alcebíades e Sócrates no Banquete

O Prof. Gabriele Cornelli, com cândida felicidade, nos permite refletir sobre uma personagem riquíssima e emblemática da literatura platônica porque arrebata a todos os convivas do Sympósion(Banquete) com sua famosa declaração de amor a Sócrates. Alcebíades é esta personagem extremamente dramática e arrebatadora, segundo a qual, Cornelli, in Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico, abre o leque de possibilidades para uma acertada construção dos reais motivos que tenham injustamente levado Sócrates à morte, bem como, a partir do diálogo Banquete, investiga o desenho do tecido dramático e retórico dos discursos entre paideiae éros, de modo especial, como já disse, pinta um belo quadro da relação entre Sócrates e Alcebíades.

Especificamente, na altura do texto sobre a política da memória no Alcebíades, Cornelli aponta, para além dos outros simposiarcas e através dos discursos eróticos, para algo muito preciso: Uma relação significativa entre Sócrates e Alcebíades(Cf. p. 09). Segundo Cornelli, todos os discursos do Banquete ansiavam e sentiam falta da entrada da própria máscara do amante, encarnação de Eros: Alcebíades. No dizer de Cornelli, Platão parece conseguir fazer convergir todos os discursos para o mise-en-scène final da entrada de Alcebíades. Veja que Alcebíades, embriagado, muda o rumo do jogo do diálogo dos erotikoí lógoi, admitindo falar só de Sócrates, isto é, somente da verdade. Há uma mudança na conversa: da teoria para a história, do elogio para a verdade(uma verdade dionisíaca, marcada pela mania e parresía da embriaguez):

“Ouve então, disse Erixímaco. Entre nós, antes de chegares, decidimos que devia cada um à direita proferir em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora, todos nós já falamos; tu porém como não o fizeste e já bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu discurso ordenes a Sócrates o que quiseres, e este ao da direita, e assim aos demais.

Mas, Erixímaco! tornou-lhe Alcibíades, é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso amigo, convence-te Sócrates em algo do que há pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua presença eu louvar alguém, ou um deus ou um outro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.

Não vais te calar? disse Sócrates.

Sim, por Posidão, respondeu-lhe Alcibíades; nada digas quanto a isso, que eu nenhum outro mais louvaria em tua presença.

Pois faze isso então, disse-lhe Erixímaco, se te apraz; louva Sócrates.”(PLATÃO. O Banquete ou Do Amor. Trad. J. Cavalcante de Souza. 7ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995, p. 181, 214c-d).

O fio condutor de leitura do grande novelo da obra platônica, o Banquete, proposto por Cornelli é um dado bastante inovador, haja vista sua preocupação política, literária e histórica com que delineia toda a investigação, não só teorética, mas profundamente prática, recheada de detalhes. Num destes detalhes, o que me salta aos olhos é o caso da travessura das hermas e suas implicações histórico-políticas para o tempo de Sócrates: “Enquanto Sócrates e outros passam a noite bebendo em casa, e moderadamente, Alcebíades chega de madrugada, bêbado e – é o que sugere o texto – tendo perambulado por Atenas em estado alterado. Não era preciso muita fantasia para um ateniense imaginar Alcebíades e os seus, bêbados, cometendo qualquer tipo de profanação. A insistência de Platão com esta versão deve ser também um dos motivos da narração da segunda interrupção do banquete, no final dele(223b), realizada também por diversos outros jovens bêbados. Isto é, Platão parece querer insistir em representar em seu diálogo noites de baderna na rua, e justamente na época da mutilação das hermas, referendando assim a versão mais light relativa aos motivos que estavam por trás do sacrilégio.(…) Nas fontes da época, de fato, a suspeita pela profanação não recaía tanto sobre jovens bêbados: ao contrário, pensava-se mais facilmente em um complô, urdido de maneira articulada, por grupos que, querendo com isso enfraquecer a confiança de Atenas e sua democracia num momento tão delicado de sua história, pretendiam com isso restaurar a oligarquia ou a tirania”(CORNELLI, Gabriele. Seduzindo Sócrates: retórica de gênero e política da memória no Alcebíades platônico.UnB. p. 11)

Não nos esqueçamos que o ilustre Alcebíades estava em plena prosperidade política à frente do movimento democrático de então. Sob o fascínio daquela beleza interior mencionada no Sympósion, o ambicioso e belo jovem Alcebíades tenta conquistá-la, através do lógos socratikós, na estranha ideia de cumular o acervo de seus dotes e atingir assim a plenitude de poder nos negócios da pólis. Político arrebatador das Assembleias, Alcebíades extravasa na bebida e na declaração de amor a Sócrates, uma vez que o mesmo não corresponde ao afeto que lhe é dedicado.

Todavia, o elogio de Sócrates por Alcebíades, conforme G. Cornelli, pode ser considerado mais uma apologia do primeiro. “Se pense, por exemplo, ao próprio uso das imagens das estátuas dos silênos, que ilustram a necessidade de superar a aparência, a máscara histórica incômoda de Sócrates, para olhar para uma verdade sobre sua vida e seu legado, que ainda permanece escondida para a maioria. Pois afirma Alcebíades ‘nenhum de vocês o conhece'(216c-d). Não é difícil pensar que, na voz de Alcebíades, seja o próprio Platão a dizer isso para Atenas”(idem, p. 15).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, Licenciado em Filosofia/UERN, Bacharel em Teologia e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB, parceria com Archai Unesco

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Sócrates, personagem dramática da cidade

Aquilo que a ética homérica, a maneira de se pensar a estruturação social, as relações sociais entre os exércitos fora dos muros de Tróia, esta ética da força e da violência não comporta mais uma exigência necessária para se viver na pólis, como algo necessário à pólis, à cidade.

Contudo, quem vence a guerra não é o herói Aquiles, mas Ulisses, a inteligência em pessoa, a astúcia, a enganação. Como contraponto à selvageria, Ulisses é a personagem conceitual de um salto maior do que Aquiles, do que o cratos(poder) e a bia(violência), sinalizando o que virá a ser a figura do sóphos, um novo homem que não será mais Ulisses, nem Aquiles, tampouco Agamenon, mas um homem mais sábio do que todos estes, um homem mais sábio politicamente, personificado dramaticamente na figura de Sócrates.

Entre o VII e o V séculos a.C., a Grécia está comprometida em elaborar uma solução para esta crise da ética e da cultura arcaicas em que se resume de maneira muito didática, mas com uma certa tentativa de acertar na descrição um pouco global do que está acontecendo de poesia, filosofia, teatro, até medicina, história, nesse período. As soluções apontadas são duas: a solução da Lei e a solução da alma. Pela construção da cidade, se dá a solução da lei. Pela construção de um indivíduo, da alma, se dá a solução da Filosofia.

Sócrates, personagem histórico central da filosofia platônica, de fato, revoluciona o modo de se viver na cidade que agora vem afirmado pela ética e pela obediência às leis. É um movimento simultâneo de transformação que vai do individual para o coletivo, para a cidade. Viver virtuosamente na pólis é isso. À medida que construo a mim mesmo, construo também uma nova cidade, e assim por diante. Esta posição revoluciona o modo de se fazer política e o próprio cuidado de si. “É evidente que, se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo significa cuidar da própria alma mais do que do corpo. E ensinar os homens a cuidarem da própria alma é a tarefa suprema do educador, precisamente a tarefa que Sócrates considera ter recebido de deus, como se lê na Apologia: ‘Que é isto(…) é a ordem de deus. E estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência a Deus. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar do corpo, nem das riquezas, nem de qualquer outra coisa antes e mais do que a alma, de modo que ela se torne ótima e virtuosíssima, e de que não é das riquezas que nasce a virtude, mas da virtude que nasce a riqueza e todas as outras coisas que são bens para os homens, tanto individualmente para os cidadãos como para o Estado’”(in REALE, Giovanni. História da filosofia: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Paulinas, 1990, p. 88). A partir disso, instaura-se uma nova paideia.

Mostra-se aí também a função do sóphos de que nos falava Platão, pois, encontrando-se com Sócrates, a pessoa encontrava-se com um sábio que nos leva a descobrir o nosso valor interior, o valor da alma. Foi assim com Platão ao encontrá-lo. Ao ver Sócrates pela primeira vez como um dos grandes acontecimentos de sua mocidade, Platão se envolve com seus discursos, presencia sua condenação e morte, marcando-o por toda a vida, de modo a inspirar os seus escritos.

“Enquanto se preparava para participar de um concurso de tragédias, ouviu Sócrates em frente ao teatro de Dionísio, e então jogou os poemas, dizendo: ‘Efesto!, avança assim, Platão precisa de ti!’ Dizem que a partir de então, aos 20 anos, tornou-se discípulo de Sócrates” (D.L. 3.5-6).

Sócrates se baseia no encontro com as pessoas em Atenas para fluir suas ideias. A função do sábio não é tanto a de ensinar coisas, também claro, como o faz Sócrates publicamente, mas sobretudo de ajudar as pessoas na descoberta da verdade. O encontro com Sócrates tornava-se possível e mais fácil o encontro com a própria verdade presente em nós. A função do sábio, na minha opinião, é a de facilitar a experiência da verdade. Portanto, o valor de Sócrates se manifesta em dois níveis: no nível do conhecimento da verdade e no nível da responsabilidade moral com esta própria verdade. Sua filosofia nos abre a possibilidade de descobrir o sentido da alma e, com isso, pautar uma transformação política da cidade.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e em Estudos Clássicos pela UnB, parceria com Archai Unesco

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O desejo político de Platão

Algumas informações essenciais que fruem da Carta VII, provavelmente uma autobiografia platônica escrita de próprio punho ou de autoria de um amigo muito próximo, Espeusipo, são histórica e filosoficamente pertinentes para entendermos o envolvimento político de Platão com o seu tempo, sobretudo, após a morte de seu valoroso mestre, Sócrates.

Nota-se uma propensão inicial para a atividade política, absolutamente normal num jovem ateniense do séc V a.C., nascido numa família de elevada condição social e de evidente vocação política que continha personagens importantes, como os tios Pirilampo(de parte pericleia), Crítias e Cármides(que se destacariam no regime dos Trinta Tiranos): “Quando era jovem, partilhei uma paixão comum a muitos jovens: assim que alcançasse a minha independência, queria entrar na vida política da cidade”(324b).

A convicção, adquirida depois destas experiências, da impossibilidade de uma intervenção pessoal nas vicissitudes políticas atenienses, e da extrema dificuldade em encontrar ‘amigos’ decididos a comprometerem-se em uma obra radicalmente reformadora, embora “continue a guardar sempre o momento oportuno para a ação”:

“No final, apercebi-me de que todas as cidades de hoje são mal governadas(o seu sistema legislativo é praticamente incurável a não ser que se lhe dediquem extraordinários preparativos acompanhados de fortuna). E fui obrigado a dizer, elogiando a autêntica filosofia, que só ela consente que se identifiquem todas as formas de justiça, no âmbito quer da vida política, quer da pessoal: as gerações humanas não serão libertadas dos seus males enquanto aquele tipo de homens que praticam a filosofia de modo autêntico e verdadeiro não chegarem ao poder político, ou aqueles que governam as cidades, por uma qualquer sorte divina, não começarem a praticá-la(326a-b).

Cf. VEGETTI, Mario. Um paradigma no céu. Platão político, de Aristóteles ao século XX. São Paulo: Annablume, 2010, p. 28-29

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e em Estudos Clássicos pela UnB, parceria com Archai Unesco.

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Medicina filosófica

(hipócrates)

Não é incomum ouvirmos queixas do tipo: “Isso é tão caro!”. Sobretudo, quando vamos ao mercado, às lojas ou quando planejamos alguma viagem. Já disse por aqui, muitas vezes, que quase tudo nesse país esbarra em dinheiro, principalmente para aqueles que mais carecem dele; trabalhadores assalariados e os menos favorecidos socialmente.

A bem da verdade, é que volta e meia somos flagrados, até involuntariamente, a certos sobressaltos de admiração pelo alto custo das coisas. Porém, a muitos que andam tão indignados com a inflação, é bom que se faça a seguinte reflexão: Se você tivesse que deixar oitocentos reais ou mais do seu orçamento mensal numa farmácia para manter-se vivo? Certamente, a situação seria outra e as queixas não se repetiriam tanto. Pensando bem, antes de levantar qualquer indignação nesse sentido, parece ser mais razoável agradecer. O ato de agradecer também nos deixa mais resistentes, muito embora não concorde com toda esta exploração financeira do mercado.

O que pretendemos com essa simples demonstração de humanidade? De imediato, tirarmos nosso foco existencial da economia, do capitalismo e da baboseira de que sem dinheiro não somos nada. Não somos nada sem saúde. Este é o ponto de nosso interesse aqui. Com o país em situação econômica estável, pelo menos até agora, a indústria farmacêutica tende a acelerar-se cada vez mais, enriquecendo, em função da prática de uma medicina paliativa e não preventiva, tampouco educativa e filosófica. Contudo, tal prática vem mudando com a orientação médica de caminhadas, exercícios físicos, regimes, dietas, práticas de higiene e o cuidado com o corpo.

A medicina antiga, dos tempos de Hipócrates, era extremamente preventiva, ética e, por isso, filosófica. Estamos falando da segunda metade do séc. V a.C. e das primeiras décadas do séc. IV a.C., o mundo era outro, a cultura também, os valores eram diferentes, mas o corpo era o mesmo. Afinal, a medicina sempre operou sobre ele. Hipócrates era contemporâneo de Sócrates, Platão e Aristóteles que o consideraram como o grande médico.

Da mesma linha ascendente a que se remetiam os médicos no passado, Hipócrates herdou um ofício divinizado de Esculápio, o primeiro a ser chamado de “médico” ou “salvador” por ter aprendido do centauro Quíron a arte de curar os males. Com Hipócrates, a medicina alcança o status de ciência e passa a compreender as doenças como causas naturais do homem. Assim como Sócrates na Filosofia, Hipócrates com a medicina desenvolve toda uma observação racional acerca do ser humano, seu corpo e alma. O “conhece-te a si mesmo” e o “meden agan”, isto é, o nada em excesso, vão nortear os princípios sábios da medicina hipocrática.

Curiosamente, os regimes, dietas, reeducação alimentar, passeios, atividades físicas, higiene e tudo a que nos submetemos hoje para preservarmos uma boa saúde era observado com precisão e justa “medida” por Hipócrates no IV livro das Epidemias: “os exercícios (ponoi), os alimentos (sitia), as bebidas (pota), os sonos (hupnoi), as relações sexuais (aphrodisia) – todas sendo coisas que devem ser ‘medidas’. A reflexão dietética desenvolveu essa enumeração. Dentre os exercícios distingue-se  aqueles que são naturais (andar, passear), e aqueles que são violentos (a corrida, a luta); fixa-se quais são os que convém praticar, e com que intensidade, em função da hora do dia, do momento do ano, da idade do sujeito e da sua alimentação. Aos exercícios são relacionados os banhos, mais ou menos quentes, e que também dependem da estação, da idade, das atividades e das refeições que foram feitas ou que ainda se vai fazer. O regime alimentar – comida e bebida – deve levar em conta a natureza e a quantidade do que se absorve, o estado geral do corpo, o clima, as atividades que se exercem…”(In FOUCAULT, M. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998, p. 93).

Interessante notar como a medicina, na aurora da Filosofia, exercia um papel de formidável educação das pessoas, na medida em que ela levava a pensar a conduta humana; a maneira pela qual se conduzia a própria existência, despertando um comportamento em função de uma natureza, de modo que o homem compreendesse sua “physiologia”, a fim de saber preservá-la e conformar-se a ela. A dietética hipocrática se constituía, para os antigos, uma arte de viver.

As práticas de cuidado com o corpo de Hipócrates eram tão presentes no modo de vida, no cotidiano das pessoas da antiguidade que influenciaram fortemente a Filosofia em seu nascimento, tanto é que Platão faz ressalvas, em seus diálogos, aos excessivos exercícios e dietas que visam apenas à longevidade, e não a uma vida útil e feliz. Relatos de Xenofonte, nas Memoráveis, traz Sócrates orientando seus discípulos para serem “capazes de se bastarem a si próprios”(IV, 7); “Que cada um se observe a si próprio e anote que comida, que bebida, que exercício lhe convêm e de que maneira usá-los a fim de conservar a mais perfeita saúde”(idem). Portanto, o mestre Sócrates ensina a ter autonomia para com sua saúde: “Se vos observardes desse modo, dificilmente encontrareis um médico que possa discernir melhor do que vós próprios o que é favorável à vossa saúde”(idem).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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