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Umas pequenas práticas de saberes I

Segundo a tendência racionalista, herdada de Descartes e Spinoza, prevalece o inatismo, pelo qual o sujeito que conhece seria o pólo mais importante no processo do conhecimento.

Conforme a tendência empirista, iniciada com Bacon, Hume e Locke, o sujeito que conhece é passivo, recebendo de fora – da experiência – os elementos para a elaboração do conteúdo mental.

Tais pressupostos de uma educação moderna são oriundos dos conceitos clássicos de Educação:

“A educação deve dar ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”(Platão) – idealista.

“Não há nada na inteligência que antes não se tenha passado pelos sentidos”(Aristóteles) – realista.

As quais se fundamentam num problema antiquiquíssimo, chamado de APORIA: No séc. VI – V a.C., Parmênides disse que nada pode mudar; que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são dignas de confiança.

Já Heráclito, na mesma época, disse: que tudo se transforma(“tudo flui”) – “panta rei”; que as impressões dos sentidos são confiáveis.

Assim, muitos tentavam, assustadoramente, solucionar o impasse entre razão e sentidos.

Empédocles afirmava que ambos têm razão, pois a água pura será água pura por toda a eternidade e a natureza está em constante transformação. Ele acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de raízes. Estes quatro elementos eram a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Supera, assim, a dicotomia com uma belíssima síntese entre o imóvel e o móvel, entre o ser e devir.(séc V a.C.).

Immanuel Kant, por sua vez, conhecia muito bem tanto os racionalistas quanto os empiristas e concordava com ambos: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão? Para Kant, não importa o que possamos ver, sempre perceberemos com as “formas da sensibilidade”. Isto significa que podemos saber antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes de tirar os óculos da razão!(séc. XVIII d. C.).

Conforme Maria Lúcia de Arruda Aranha, a Educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora entre sujeito e objeto, no seio da prática social global.

A Pedagogia é a necessidade sistemática de tornar a prática social global mais eficaz, a fim de definir os fins a serem atingidos.

A Filosofia da Educação acompanha reflexivamente os problemas educacionais.

As Ciências da Educação propõem processos de ensino(sistemas) mais sofisticados que superam o mero empirismo em educação.

As pequenas práticas de saberes supõem tudo isso que dissemos até agora, na medida em que o educador luta contra qualquer tipo de generalização.

Segundo Foucault na Microfísica do Poder, o educador precisa ser um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Os saberes são fragmentados, compartimentados, enquadrados nas específicas exigências dos indivíduos, por isso mesmo práticos e pequenos que penetram na singularidade da vida.

Parece-me que fora Nietzsche, na segunda metade do século XIX até meados do século XX, a desencadear essa nova modalidade de pensamento. Não segue necessariamente uma escala contínua e progressiva da estrutura do Pensamento, pois rompe com a Tradição para voltar às fontes, às origens da tragédia humana(Dionísio e Apolíneo), a fim de valorizar nossas potencialidades enquanto artistas de pensar o próprio pensamento. Acontece assim, uma ruptura do patrimônio histórico do pensamento humano.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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Geração do ineditismo

2271350Ao que muitos poderiam chamar ligeiramente de imediatismo, evoco aqui a compreensão de ineditismo. A geração do ineditismo transparece a sensação de que tudo o que se faz é inovação, por isso mesmo inédito, sobretudo no campo dos valores: ninguém fez, ninguém pensou, alguém jamais descobriu. “A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.”(LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 26). Na verdade, como afirma Lewis, “O Inovador ataca os valores tradicionais em nome daquilo que ele inicialmente supõe serem (num sentido próprio) os valores ‘racionais’ ou ‘biológicos’”( A abolição do homem, p. 25).

De repente, a imagem do pretensioso vem à tona achando que descobriu a pólvora, a penicilina, o papel impresso ou a luz elétrica. Mas o que se percebe é uma falsa compreensão do que seja ‘moderno’, as novas gerações têm uma grande dificuldade de olhar para trás e enxergar o passado como um ensinamento. “O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos.” (LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 09).

Olhar o passado como algo velho e ultrapassado, no sentido de arcaico, é um equivoco porque sem o antigo não há o novo, sem o passado não há sequer um caminho, um processo para o futuro. As ditas novas gerações não só querem apagar o passado como têm medo dele. Estufam o peito não somente de ar, mas do orgulho que os fazem acreditar que a história começa com eles.

A pretensão humana – principalmente a dos mais jovens – de que sua ação no presente é inédita cheira a um certo imediatismo no modo de interferir neste mundo e no próprio cotidiano. As mediações com o antigo praticamente não existem, desconstruindo uma liga de memórias com o passado, responsável por sustentar os valores tradicionais mais sólidos na formação do caráter, da personalidade.

O resultado desse desligamento com o passado pode contribuir por gerar um exército de cabeças mimadas, refém de uma visão extremamente ideológica e superficial da história, da própria vida. Estamos diante de uma geração que quer o futuro, mas não se prepara para o futuro. Preparar-se para o futuro, para o amanhã, para o dia seguinte requer dedicação, trabalho e aprendizado, – “Disse o Mestre: ‘Amai aprender e, caso sejais atacados, estejais prontos para morrer pelo Bom Caminho.’”(Chinês antigo. Analectos, viii. 13) – principalmente paciência. Obedecer ao movimento do tempo de “um dia após o outro” é fundamental.

Talvez aqui esteja uma das funções mais necessárias à educação de nossos jovens: não permitir que pensem ou achem que eles não aprendem mais nada com os que vieram antes. Como já fora dito aqui, este é o equívoco da compreensão moderna do conceito de geração, de que o mundo nasce com eles. Os jovens ou as novas gerações precisam continuar aprendendo com seus pais, professores, com os mais velhos, com os que vieram antes.

Para isso, é imprescindível ler os clássicos: a Odisseia e a Ilíada de Homero; a República de Platão; a Bíblia; Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes; Shakespeare; Machado de Assis; João Guimarães Rosa e muitos outros. Eles jogam nossas conversas para um nível muito mais interessante, além do que melhoram nosso repertório nas discussões. Em Por que ler os clássicos, bem disse o renomado escritor italiano, Ítalo Calvino: “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram [ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes]” (p. 11).

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

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O cinismo à sombra da filosofia de Diógenes, “o cão do céu”

(foto: Breno Bastos)

Geralmente o cínico é avesso à sensibilidade alheia. É bastante indiferente ao outro. Parece que o mundo à sua volta não lhe agrada tanto quanto deveria. Tudo parece girar em torno de seu eixo e de suas verdades. O cínico é mesmo louco por suas ideias, vez por outra solta uns lampejos firmes de refinada inteligência e perspicaz visão da realidade, destruindo opiniões óbvias e correntes de seu tempo. Na maioria das vezes, é dissimulado, ríspido com os afetos e constantemente contrário a quase tudo. Nada ou quase nada lhe satisfaz, aliás, a satisfação não faz parte de seu vocabulário irônico, a não ser que esteja em jogo a natureza, puro e simplesmente. A saciedade não é coisa para espíritos fortes e intragáveis como os do cínico.

A pessoa cínica parece sofrer de síndrome da super sinceridade. É um super sincero em potencial. A verdade, custe o que custar, é para o cínico como o seu pão de cada dia. Ele gosta, tem o maior prazer em falar a verdade na hora mais indelicada, no momento mais inconveniente. O cínico é despojado de bons costumes, de luxo, de uma vida opulente e assim por diante. Um exemplo disso é a famosa vida desprendida do cínico Diógenes de Sinope que, dentre outras curiosidades que cerceiam sua história, morava num tonel e gostava de fazer suas necessidades sexuais nas ruas e praças, também fazia suas refeições ao ar livre sem escrúpulo algum. Vivia como um cão: “Perguntaram-lhe que espécie de cão ele era; sua resposta foi: ‘Quando estou com fome, um maltês; quando estou farto, um molosso – duas raças muito elogiadas, mas as pessoas, por temerem a fadiga, não se aventuram a sair com eles para a caça. Da mesma forma não podeis conviver comigo; porque receais sofrer’. A alguém que lhe disse: ‘Muita gente ri de ti’, sua resposta foi: ‘Mas eu não rio de mim mesmo’”(LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília, UNB. 1977. p. 166). A despeito disso, “enquanto Diógenes fazia sua primeira refeição na praça do mercado os circunstantes repetiam: ‘cão’, e Diógenes dizia: ‘Cães sois vós, que estais à minha volta enquanto faço a minha refeição!’ Certa vez, Alexandre o encontrou e exclamou: ‘Sou Alexandre, o Grande Rei’; ‘E eu’, disse ele, ‘sou Diógenes, o cão’. Perguntaram-lhe o que havia feito para ser chamado de cão, e a resposta foi: ‘Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes”(idem, p. 167).

Na verdade, Diógenes, tratado por Platão e pela tradição filosófica de cão, talvez por possuir dentes finos e língua afiada, era muito sábio para ceder aos limites das convenções sociais e políticos de sua época. Sua vida foi toda ela ligada ao jeito socrático, irônico e impassível de ser. “A alguém que lhe disse: ‘És velho, repousa!’ Diógenes respondeu: ‘Como? Se estivesse correndo num estádio eu deveria diminuir o ritmo ao me aproximar da chegada? Ao contrário, deveria aumentar a velocidade. Conta Hecáton, no primeiro livro de suas Sentenças que certa vez Diógenes gritou: ‘Atenção, homens!’, e quando muita gente acorreu, ele brandiu o seu bastão dizendo: ‘Chamei homens, e não canalhas’. Conta-se que Alexandre, o Grande, disse que se não tivesse nascido Alexandre gostaria de ter nascido Diógenes”(idem, p. 160). 

Não se incomoda em incomodar. É um inconformado por natureza. Não é passional a nada, a coisa alguma, menos ainda a algum tipo de sentimento. Resiste às críticas de modo infalível, e sai ileso de cada uma delas. Dificilmente um cínico se aborrece com palavras de alguém. É muito nobre na arte de ironizar. Afinal de contas, a ironia é o seu grande negócio ou, até mesmo, sua arma de defesa contra seus inimigos, isto é, seus opositores. “Durante o dia Diógenes andava com uma lanterna acesa dizendo: ‘Procuro um homem!’ Certa vez, ele estava imóvel sob forte chuva; enquanto os circunstantes demonstravam compaixão, Platão, que estava presente, disse: ‘Se quiserdes compadecer-vos dele, afastai-vos’, aludindo à sua vaidade. Um dia alguém o golpeou com o punho e Diógenes disse: ‘Por Heraclés! Esqueci-me de que se deve caminhar protegido por um capecete!’ Alexandre, o Grande, chegou, pôs-se à sua frente e falou: ‘Pede-me o que quiseres!’ Diógenes respondeu: ‘Deixa-me o meu sol’”(idem, p. 162).

Aptos em atingir seus oponentes com palavras afiadíssimas, o cínico é semelhante à pedra ou ao ferro, forte e cortante, devido à extraordinária resistência aos conflitos de ideias. Mostra-se hábil na arte de falar e de persuadir as pessoas. O cínico é uma verdadeira máquina de pensar e de guerrear com palavras. Os argumentos de um cínico são incrivelmente convincentes, aguçados e lógicos. Frio e pusilânime, por inúmeras peculiaridades, o cínico é encantador na forma de debater variados assuntos sobre a vida e de celebrar maravilhosamente a liberdade de expressão: “A alguém que lhe perguntou qual era a coisa mais bela entre os homens, esse filósofo respondeu: A LIBERDADE DA PALAVRA”(idem, p. 169). Após a morte de um dos mais famosos cínicos da Grécia Antiga, ao lado de Antístenes, que difundiu tal escola, Diógenes legou supostamente uma imagem boa, de um homem abnegado das coisas materiais e supérfluas, que difundiu a ideia da felicidade pelos esforços requeridos à natureza, conforme à natureza simplesmente. Dele falaram: “Já não existe, ele, que foi cidadão de Sinope, famoso por seu bastão, pelo manto dobrado e por viver ao ar livre; foi para o céu, apertando os lábios contra os dentes e prendendo a respiração, tendo sido realmente um verdadeiro Diógenes de Zeus, cão do céu”(idem, p. 171).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos

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Viver com ou sem justiça?

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O anel do ancestral de Giges, invisível,seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!

Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”.  Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.

Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.

Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.

Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Estranhamento e entranhamento, um estranho trocadilho

(Imagem do filme “Onde vivem os monstros”, 2009, EUA, direção de Spike Jonze).

            A vida é cheia de reações. Há momentos que nos fazem sentir e outros que nos fazem pensar; ora somos extrovertidos, ora introvertidos; vezes agimos para fora, vezes agimos para dentro. Há momentos em que precisamos ser ativos, outros em que precisamos ser absolutamente passivos. Porém, na maior parte do tempo, somos simultaneamente um e outro, ativos e passivos, como numa sala de aula, como num diálogo, por exemplo, no trabalho, enfim, na vida… Imagino a vida como um grande novelo de linha que se desenrola pouco a pouco nas mãos da vovozinha que incansavelmente faz e refaz suas casas no pano de linho. Ao final, meio que tomada de ímpeto, a vovozinha se depara com uma belíssima imagem, antes não vista, mas imaginada em sua memória. Só que, do início ao fim, o novelo guarda múltiplas experiências até concretizar a tão sonhada imagem. O novelo se desfia para se fiar e se desfiar novamente na existência.

A existência nos prega muitas peças. Umas de estranhamento, outras de entranhamento. O estranhar uma realidade é inquietar-se com ela. Estranhar uma viagem que nos levará para um lugar desconhecido. Estranhar uma escola nova. Estranhar um novo membro da família que chega de imediato. Estranhar uma mudança de domicílio. Estranhar está muito ligado ao “páthos” em Aristóteles, uma espécie de afecção da alma, tem a ver com os sentimentos que nos provocam uma determinada experiência de vida. Ao entrarmos em contato com algo novo, com um fato inusitado, temos a impressão de que alguma coisa estranha mexe conosco. Esta coisa estranha é a reação da nossa mais fina natureza.

O estranhamento está muito presente no exercício do filosofar, tanto em Aristóteles quanto em Platão. “A admiração, o estranhamento é o modo de ver daquele para quem o filosofar é um modo de viver. Os gregos denominaram thaumátzein esta atitude originante do filosofar”(Cf. Aristóteles, Metafísica A,2,17-19. Platão: Teeteto, 155d). Realmente, a gente só pergunta porque estranha!

Se somos acometidos constantemente pela experiência do estranhar, uma vez que alguma mudança está ocorrendo, o que dizer então da experiência do entranhar. Entranhar está para Sócrates como Sócrates está para a Filosofia. Esta palavra me faz lembrar Fenarete, a mãe de Sócrates, parteira ou tratadeira das mulheres gestantes, prontas para dar a luz. Imagino Fenarete saindo pelas ruelas da Grécia antiga, de casa em casa, cuidando de muitas mulheres que engravidavam e ansiosas esperavam seus filhos. Sócrates, certamente muito pequeno a seguia por essas ruas estreitas da Grécia a fim de acompanhar zelosamente o trabalho da mãe. Imaginem o pequenino menino filósofo ali, à sombra da mãe, vendo o ofício das mãos afinadas com a enfermagem. Sem saber ao certo, Sócrates já estava antecipando os traços visíveis de sua mais nobre filosofia, a arte de fazer parto de almas e não de corpos. Com a mãe, parteira de corpos, viu maravilhado, entranhado, a maneira com que ela habilmente ajudava suas pacientes a dar a vida.

Talvez, a partir dessa experiência de Sócrates com sua mãe, o filósofo tenha adquirido os dois principais métodos da sua filosofia, o “elénkos” e a “maiêutica”. O primeiro é pura refutação, o segundo é o nascimento da verdade pelo diálogo. Principalmente, na linha do segundo é que se encontra o entranhamento da Filosofia. Argumento demasiadamente os elementos da justiça que tenho a possibilidade de me tornar justo. Argumento frequentemente as categorias da bondade que me torno bom. Falo por demais sobre Deus que me torno um religioso ou cristão ao falar muito de Cristo. Falo tanto de Filosofia que, com isso, passo a me tornar um filósofo. Entende-se assim a maneira de se entranhar do filósofo Sócrates, de modo que seus pensamentos chegam ao coração, promovendo nos seus interlocutores uma forma de impregnar suas convicções. Os seus ouvintes ficavam tão imbuídos com suas ideias que, de pronto, assumiam suas convicções devido ao poder de suas argumentações. Entranhar é embrenhar-se disso. Estar profundamente penetrado ou impregnado de suas ideias e convicções.

Estou aqui a viajar um pouco em minhas ideias filosóficas para atribuir a Sócrates, talvez, as duas maneiras de se sentir afetado por suas ideias. Quando Sócrates interrompia um juiz e o perguntava sobre justiça é porque aquilo o estava estranhando, perturbando, de alguma maneira. Como é que um homem que se diz juiz não sabe nada de justiça!? Por outra, o entranhamento acontecia quando, o tal indivíduo se convencia da sua ignorância e aceitava aprender para encontrar, de fato, a verdade. Perguntar-se é estranhar. Convencer-se em buscar a verdade é o entranhar. Estar convicto da verdade é, sim, a meu ver, uma espécie de entranhamento.

Acho que nos entranhamos mais do que nos estranhamos. Devia ser o contrário. Somos mais políticos do que filósofos na prática. Políticos gostam mais de acordos, filósofos não. Percebo que o filósofo se lança mais a favor do estranhar. Parece próprio do pensamento estranhar, independentemente das certezas que advenham dele. O pensar é autônomo e não se prende ao entranhar, à verdade. É melhor, a meu ver, desentranhar do que entranhar para o filósofo. Porém, em se tratando de pessoas comuns, as duas formas de atitudes frente à vida são muito pertinentes e merecem toda a nossa atenção. Para alguns, as certezas(entranhamento) trazem paz e tranquilidade à alma. Para outros, as dúvidas(estranhamento) nos lançam em direção à inquietação, o que também alimenta uma alma curiosa, sábia.

Todavia, estranhamento e entranhamento, como em Sócrates, parecem admiravelmente se completarem de modo estranho a favor do filosofar…


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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A força das ilusões

Desde que somos pequenos, muito pequenos até, feito crianças, vivemos sendo alimentados por sonhos ou ilusões. Sonhos, pelo tamanho de nossas certezas. Ilusões, pela dimensão ou vastidão das dúvidas. Gastar-se a vida, melhor dizendo, construindo-a para dirimir dúvidas é o sentido de todo homem, pois poucos suportam tê-las por perto, uma vez que convivem com elas bem dentro de si, de modo angustiante. Grande parte de nós passa a vida toda por força das ilusões, e ai de nós se não fossem elas, já teríamos tornado a vida um fardo de existência sem igual. Com as ilusões, a vida  mescla dois sabores, um amargo da realidade, e o outro doce das perfeições e ilusões verdadeiras. As ilusões, assim, proporcionam à vida um sabor agridoce.

Quando Deus criou o homem e a mulher no sexto dia, conforme nos contam as narrativas bíblicas do Livro do Gênesis, e viu que tudo que havia criado era muito bom, entregou às mãos do ser humano o poder de dominar sobre tudo, sobre animais silvestres e répteis que se arrastam na terra, enfim(Cf. Gn. 1.26). A forma como Deus age nesse instante da criação parece autorizar o ser humano a possuir voluntariamente uma primeira ilusão, a de dar nome e dominar a terra e tudo o que há nela. A partir daí, começa-se a conjecturar que a saga da ilusão humana de crescer e multiplicar-se por conta própria, achando que tudo é seu, parece tomar conta de seu ego. A emancipação da autonomia do homem aqui é, sem dúvida uma doce ilusão que cai por terra justamente com o pecado. Mesmo assim, sendo da terra até a raiz, o homem não se contém em fazer valer esse mandado divino de marcar, nomear todos os seres, segundo seu bel prazer.

A soberba humana e racional de achar que tudo é seu se radicaliza ainda mais e ganha corpo,  à medida que o homem se emancipa da natureza e atribui valor às coisas. As relações de troca com as coisas, os negócios comerciais de compra e venda de mercadorias para o enriquecimento próprio e não para sobrevivência e manutenção da vida, a busca ilimitada pelo lucro e acúmulo incomensurável de capital, a hipoteca social, o direito à propriedade, enfim, fazem do homem um mero possuidor de coisas alheias, que não são suas, mas lhe foram dadas.

O tomar para si o que não é seu por natureza, prova disso é que se morre e as coisas ficam, transforma o homem e tudo à sua volta numa mera ilusão de propriedade. Ser proprietário de algo nesta vida é pura ilusão. Mas, quem não vive com ela? Uma dura ilusão que nos come por dentro é o desejo de se tornar igual aos outros. Quantos não sonharam com realidades perfeitas, tomando o real por ideal! Olhem que não foram poucos. Lembrem-se de Thomas More no seu livro “Utopia”, Platão em “A República” e, na mesma direção, Campanella em “Cidade do Sol”, bem como Agostinho em “A cidade de Deus”, todos viveram movidos por suas ilusões de um lugar perfeito, de realidades ideais e inalcançáveis, de ilusões irrealizáveis, mas que nem por isso, deixaram de sonhar em concretizá-las. Quanta força há nas ilusões!

As obras e personagens reais mostrados acima declaram afirmativamente o peso da força das ilusões em nossa vida, assim como as palavras do filósofo alemão F. Nietzsche: “A vida tem necessidade de ilusões, isto é, de não-verdades tidas por verdades… Devemos estabelecer a proposição: só vivemos graças a ilusões”.

Se a ilusão pode ser entendida no horizonte dos sentidos, da mesma feita vem lida aqui na perspectiva da vida. A verdade é que estamos sempre cheios de ilusões para mover, muitas vezes, a nossa triste, crua e dura realidade.

No decorrer da história, criamos direitos e deveres legais para aplicar socialmente a ânsia de igualdade que há em nós, mesmo contra toda a correnteza de injustiças e de capitalização das riquezas naturais e materiais que costumam trair também essa ilusão de igualdade. Em tese, a igualdade existe por ser constitucional, mas na prática é uma tremenda ilusão.

Como contraponto de toda cultura material capitalista, teima em prevalecer, insiste em existir no homem, a sede de transformação do mundo, oriundo da ideologia cristã ou da fé cristã, de que é preciso viver em comunhão, pondo tudo na mesa da partilha, como irmãos uns dos outros, numa união profunda de “todos com todos” para servir e amar – diferentemente da ideia de “todos contra todos” de Thomas Hobbes no “Leviatã” – , perseverando no desprendimento pessoal de que nada é seu, mas tudo é de Deus, num movimento ascendente que eleva a todos.

Portanto, as ilusões, por não se concretizarem, não quer dizer que não existam e não sejam verdadeiras, mas justamente por serem fortes e contundentes em suas ideias é que as ilusões, de fato, existam e sejam verdadeiras, a ponto de nos alimentar diariamente com o doce sabor de viver, o que também não passa de uma ilusão.


Matéria do Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharelado em Teologia e Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Nietzsche, pronto para explodir

Talvez com Nietzsche, mais do que com Descartes ou Kant, mais ainda do que com os Renascentistas, a Filosofia tenha atingido seu estágio mais original e mais inovador, por isso mais moderno porque faz duras declarações de que a ciência não era tudo isso que se vislumbrava, destronando seu “status” de deusa do século XIX e tempos vindouros. Nietzsche levanta a sua voz contra a ciência de seu tempo, antecipando uma Filosofia marcadamente poderosa porque propõe desafiar valores sociais, religiosos, morais e científicos autoritários, sem razão alguma para a vida. Para Nietzsche, o que mais importa, antes de tudo, de quaisquer padronização moral, é a vontade de viver. Tanto é que, para isso ocorrer, é sensivelmente aceitável para o homem de hoje a volta ao Nascimento da Tragédia, ao modelo de homem dotado de poder para viver com base na Ilíada, na Odisseia… Um homem visto elevado ao quadrado, inserido no movimento fabuloso da vida com todos os seus riscos. O homem de Nietzsche é o do puro devir, cujos perigos não são obstáculos, mas motivações imprescindíveis para o crescimento cultural, como uma espécie de dinamite pronta para explodir.

Sendo assim, a partir do que disse antes, da Ilíada, da Odisseia, dos gregos pré-socráticos, da arte como mediação de todas as coisas, do devir e, evidentemente, da vida como processo de transformação constante e interminável, claro que isso varia um pouco até mesmo entre os pré-socráticos, mas no geral, todos estão em torno da ideia de mudança, Nietzsche constrói uma máquina de guerra contra o pensamento dito “moderno” com base na ciência e em valores caducos. Segundo ele, a história do pensamento humano é a história da negação da vida, é a história de uma ilusão, é a história da construção de um modelo. É a história da frustração de um modelo de homem que não existe e não existia e não existirá nunca. O homem construiu uma imagem muito superior do que consegue ser ou alcançar. Então, ele corre atrás dessa imagem, a imagem platônica de ser e de se viver.

“Finalmente, minha desconfiança em relação a Platão robustece-se cada vez mais: parece-me que ele se desviou de todos os instintos fundamentais dos gregos; acho-o tão impregnado de moral, tão cristão antes do cristianismo – já apresentou a ideia do bem como ideia superior – que me sinto tentado a empregar, com relação a todo o fenômeno Platão, antes de qualquer outro qualificativo, aquela de alta mistificação ou, melhor ainda, de idealismo. – Custou-nos caro o fato desse ateniense ter ido à escola dos egípcios (ou talvez entre os judeus do Egito?…). Na grande fatalidade do cristianismo, Platão é essa fascinação de duplo sentido chamada ‘ideal’ que permite aos caracteres nobre da Antiguidade de se enganar a si mesmos e abordar a ponte que se chama ‘cruz’…”(NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Ed. Escala, 2009. p. 102-103).

Essa crítica à Platão, no Crepúsculo aos Ídolos de 1888, é sem dúvida uma Filosofia a golpes de marteladas ou como o próprio Nietzsche afirma no capítulo final de seu ensaio Ecce Homo, num parágrafo onde mostra que mesmo tendo rumado da solidão para as trevas ele tinha ainda consciência do que o seu pensamento iria provocar no Século que se avizinhava. Afirma ele: “Conheço minha sorte. Alguma vez o meu nome estará unido a algo gigantesco – de uma crise como jamais houve na Terra, a mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até este momento se acreditou, se exigiu, se santificou. Eu não sou um homem, eu sou dinamite.”

Portanto, Nietzsche declarou guerra à tradição do pensamento ocidental por meio do poderoso argumento de Heráclito sobre o devir e sobre a guerra dos contrários. Este movimento presente na Filosofia de Nietzsche causa um verdadeiro impacto aos costumes tradicionais de sua época, de modo que todos os valores até então passam por uma reviravolta a partir do crivo da figura avassaladora de “Dioniso” no Nascimento da Tragédia. Daí, um pensamento pronto para explodir a qualquer momento!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Senso de humor

O senso de humor é uma das qualidades mais admiradas numa pessoa, desde que seja natural e sincero, autêntico, como uma marca registrada talvez. Tudo se transfigura quando existe alguém bem-humorado no ambiente. O bom humor e uma brincadeira agradável são suficientes para quebrar o gelo de um ambiente frio e sem graça. A pessoa bem-humorada é uma força da natureza que entretém e irradia de alegria quem quer que seja, onde esteja. Não se trata de estar rindo à toa fingindo simpatia ou fazendo a política da boa vizinhança, mas viver naturalmente essa experiência de humor, de modo que seja uma sinergia entre você e todos à sua volta. Quando isso acontece, sua presença enche de luz todo o ambiente e contagia a todos. E a verdade seja dita: É insuportável tolerar um ambiente sem humor, sem graça, sem risos e boas gargalhadas, sem vida. Dizendo isso, como não lembrar do pensamento de Charles Chaplin: “Um dia sem riso é um dia perdido”. Não foi essa incrível sensação de humor que contagiou o Apóstolo Paulo na Prisão?! O Apóstolo, em meio a um caldeirão de adversidade por que passava, fruto da terrível perseguição que o Império Romano impôs aos cristãos, agradece a Deus pela diversão e recreação que recebeu de Onesíforo na prisão: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou e não se envergonhou das minhas cadeias”(2Tm 1.16).

Vejam a realidade: a indignação pelo clima de impunidade que se espalha na política brasileira; a indisposição de grande parte dos políticos, senão todos, em fazer valer a justiça social e coletiva; os ambientes públicos carregados de injustiças, perseguições políticas e corrupção; relações pessoais que não se acertam; casamentos cheios de problemas que se arrastam sem diálogo; amizades frias com inúmeros interesses; empregos rígidos e burocráticos; lideranças cansadas; chefes chatos; problemas econômicos; dívidas; problemas de saúde; a rotina; baixos salários; desemprego… O que seria de nós sem um pouco de humor? Vinícius de Morais, numa de suas canções, nos diz afirmativamente: “Ponha um pouco de humor na sua vida!”. E continua: “É melhor ser alegre que ser triste. A alegria é a melhor coisa que existe”. O bom humor é uma das saídas sábias da vida, além do que acrescenta leveza em vez de rigidez; alegria em vez de seriedade demais; graça em vez de ignorância; paz em vez de truculência.

Nada melhor do que uma boa dosagem de humor em nosso dia a dia. Fico pensando o que seria de nós sem uma pitada de bom humor no trabalho, em casa ou até mesmo entre os amigos. Estaríamos todos fadados à burocracia da vida. Sim, a vida também, assim como o trabalho, pode ser levada com muita burocracia, chegando a ser insuportável às vezes, mas com muito humor o que é pesado torna-se leve, o que dá enfado torna-se agradável. O humor traz de volta o encanto e a beleza que os infortúnios da vida fizeram questão de sucumbir. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias do momento, não há nada que justifique a ausência de bom humor para contornar ou superar todas elas.

Um filósofo clássico que viveu por volta do séc IV a.C. expressou sua indignação pelo riso. O senso de humor é a marca registrada desse filósofo, pois admitia que o riso torna o homem sábio. Conta a tradição que ria de tudo e dava grandes gargalhadas, o que não diminuía em nada a importância de suas pesquisas filosóficas ao ponto de desafiar o próprio Platão.  Tenho a impressão de que Demócrito com o seu bom humor tenha nos levado à sabedoria, mas seus estudos da sensação nos levou à Aristóteles.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bacharel e Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Cuidemos de nossos animais

Tão logo me casei e mal me dei conta de que havia em companhia da minha esposa um cachorro mui amigo da família. Seu nome é Black(preto). Minha esposa cuidava dele desde seu nascimento, desde muito pequeno mesmo. Contava-me que, assim que nasceu, era a coisa mais fofa do mundo, uma espécie de bolinha bem peludinha. A vontade de qualquer pessoa que o via era só mesmo a de apalpar e cheirar. Todos queriam abraçá-lo, apertá-lo e fazer carinho nele, inclusive a família. O cachorro faz parte essencial da família. É um membro que integra, e ao passar o tempo, faz uma falta danada à família.

Blackinho, como o chamamos, já está conosco há 70 anos no tempo dele e há 10 anos na idade das contas da gente. É um animal espertíssimo que, além de proteger a casa e a família, alegra e contagia o ambiente em que estamos. Ele nos disciplina. Faz-nos entender que não existe só o nosso mundo, mas também o mundo dele. É impressionante, mas quando chega a hora de passear, seu relógio biológico não falha. Começa a latir, a pular em cima de nós, a cheirar, dando sinais de que está chamando para andar, pois está na hora. Seu relógio é mais sensível às necessidades do que o nosso. Queremos controlar tudo, até mesmo o nosso relógio biológico, imagine o de um cachorro! É aí que entra o aprendizado. Deixamos tudo e partimos para atender às necessidades do outro, no caso aqui, o meu companheiro de todas as horas, o meu estimado blackinho. Aprendemos a não ser tão egoístas.

É engraçado. Dizemos que somos um povo civilizado, educado, avançado e extremamente inteligente, mas esquecemos ou anestesiamos a consciência ética de que pertinho de nós tem vida animal circulando, até porque os animais, quer sejam gatos, cachorros, aves, etc, são indispensáveis para o equilíbrio ambiental. Se há animais em nosso meio é um ótimo sinal, pois as esferas de vida vegetativa, mineral e humana geralmente estão em boas condições de qualidade de vida. O ecossistema precisa da existência desses seres, que extinguimos, maltratamos e, muitas vezes ignoramos, para preservar os recursos naturais à nossa sobrevivência.

É lamentável, mas não entendemos nossos animais! Pouco, muito pouco sabemos a respeito dos animais, até que um dia passemos a criar algum ou alguns e logo mudemos nossa maneira, muitas vezes, de vê-los e aceitá-los em nosso convívio. Já perdi as contas dos gatos de estimação que criei, tratei e cuidei, tendo que amargar a dor de perdê-los por envenenamento, simplesmente porque pessoas não gostam, não aceitam, melhor dizendo, não entendem seus comportamentos. Animais morrem atropelados, são eliminados todos os dias com tiros e exterminados. Vocês sabiam que nós somos os únicos animais que matamos por maldade!?

Inúmeros fatos ocorrem frequentemente em nossas cidades, bairros e ruas, de pessoas que maltratam sem piedade os animais. Animais existem para ser protegidos, não sacrificados sem motivo algum, só porque vivem soltos na rua. Ora, se são sadios, se não ameaçam a vida de ninguém e são alimentados por moradores, qual a razão para sacrificá-los? Talvez, isso ocorra por falta de punição à altura do dano. As pessoas deveriam ser punidas por isso. Quantos de nós conhecem a Declaração Universal dos Direitos dos Animais pela UNESCO?

Quem chuta animais por bel-prazer ou joga pedras neles precisa rever suas ações e princípios. Os animais são criaturas de Deus e têm uma importância fundamental para o meio ambiente. Segundo a UNESCO, todos os animais têm o mesmo direito à vida; Todos os animais têm direito ao respeito e à proteção do homem; Nenhum animal dever ser maltratado e por aí vai…

Olhem que curioso, no Japão existe um restaurante com uma enorme e variada quantidade de gatos espalhados por todos os lados. Cada um de dar gosto de ver e de acariciar. Muito bonitos e bem cuidados. A maioria dos clientes que vai ao restaurante está interessada em se divertir e entreter-se com os felinos. Os bichinhos são mimosos, atenciosos e acalmam o pior dos clientes, que escolhem os gatos de sua preferência e pagam pelo serviço. A ideia do restaurante, diz o dono do negócio, é trazer bem-estar, tranquilidade e propor uma terapia natural aos clientes por meio dos pichanos, enquanto se servem dos deliciosos pratos da casa. Uma coisa é certa, tudo vem incluído na conta.

Estaria certo Platão ao afirmar que o homem nada mais é do que “um bípede sem penas”?!


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica

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