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Nietzsche, pronto para explodir

Talvez com Nietzsche, mais do que com Descartes ou Kant, mais ainda do que com os Renascentistas, a Filosofia tenha atingido seu estágio mais original e mais inovador, por isso mais moderno porque faz duras declarações de que a ciência não era tudo isso que se vislumbrava, destronando seu “status” de deusa do século XIX e tempos vindouros. Nietzsche levanta a sua voz contra a ciência de seu tempo, antecipando uma Filosofia marcadamente poderosa porque propõe desafiar valores sociais, religiosos, morais e científicos autoritários, sem razão alguma para a vida. Para Nietzsche, o que mais importa, antes de tudo, de quaisquer padronização moral, é a vontade de viver. Tanto é que, para isso ocorrer, é sensivelmente aceitável para o homem de hoje a volta ao Nascimento da Tragédia, ao modelo de homem dotado de poder para viver com base na Ilíada, na Odisseia… Um homem visto elevado ao quadrado, inserido no movimento fabuloso da vida com todos os seus riscos. O homem de Nietzsche é o do puro devir, cujos perigos não são obstáculos, mas motivações imprescindíveis para o crescimento cultural, como uma espécie de dinamite pronta para explodir.

Sendo assim, a partir do que disse antes, da Ilíada, da Odisseia, dos gregos pré-socráticos, da arte como mediação de todas as coisas, do devir e, evidentemente, da vida como processo de transformação constante e interminável, claro que isso varia um pouco até mesmo entre os pré-socráticos, mas no geral, todos estão em torno da ideia de mudança, Nietzsche constrói uma máquina de guerra contra o pensamento dito “moderno” com base na ciência e em valores caducos. Segundo ele, a história do pensamento humano é a história da negação da vida, é a história de uma ilusão, é a história da construção de um modelo. É a história da frustração de um modelo de homem que não existe e não existia e não existirá nunca. O homem construiu uma imagem muito superior do que consegue ser ou alcançar. Então, ele corre atrás dessa imagem, a imagem platônica de ser e de se viver.

“Finalmente, minha desconfiança em relação a Platão robustece-se cada vez mais: parece-me que ele se desviou de todos os instintos fundamentais dos gregos; acho-o tão impregnado de moral, tão cristão antes do cristianismo – já apresentou a ideia do bem como ideia superior – que me sinto tentado a empregar, com relação a todo o fenômeno Platão, antes de qualquer outro qualificativo, aquela de alta mistificação ou, melhor ainda, de idealismo. – Custou-nos caro o fato desse ateniense ter ido à escola dos egípcios (ou talvez entre os judeus do Egito?…). Na grande fatalidade do cristianismo, Platão é essa fascinação de duplo sentido chamada ‘ideal’ que permite aos caracteres nobre da Antiguidade de se enganar a si mesmos e abordar a ponte que se chama ‘cruz’…”(NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Ed. Escala, 2009. p. 102-103).

Essa crítica à Platão, no Crepúsculo aos Ídolos de 1888, é sem dúvida uma Filosofia a golpes de marteladas ou como o próprio Nietzsche afirma no capítulo final de seu ensaio Ecce Homo, num parágrafo onde mostra que mesmo tendo rumado da solidão para as trevas ele tinha ainda consciência do que o seu pensamento iria provocar no Século que se avizinhava. Afirma ele: “Conheço minha sorte. Alguma vez o meu nome estará unido a algo gigantesco – de uma crise como jamais houve na Terra, a mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até este momento se acreditou, se exigiu, se santificou. Eu não sou um homem, eu sou dinamite.”

Portanto, Nietzsche declarou guerra à tradição do pensamento ocidental por meio do poderoso argumento de Heráclito sobre o devir e sobre a guerra dos contrários. Este movimento presente na Filosofia de Nietzsche causa um verdadeiro impacto aos costumes tradicionais de sua época, de modo que todos os valores até então passam por uma reviravolta a partir do crivo da figura avassaladora de “Dioniso” no Nascimento da Tragédia. Daí, um pensamento pronto para explodir a qualquer momento!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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A filosofia e o “Agon” (luta) de Ulisses

Aquela expressão muito feliz do Prof. Delfim Leão ainda ecoa em meus ouvidos: HOMERO É UM MANANCIAL DE INFORMAÇÕES QUE NÃO PÁRA, QUE NÃO CESSA DE NOS SURPREENDER (in Ulisses e o espírito agónico grego: o herói da imaginação, do sacrifício e do conhecimento, Universidade de Coimbra, 2011).

Permitam-me, com isso, puxar um pouco a sardinha pro meu lado, já que tenho uma formação filosófica.

Partindo da ideia grega de Agon, de que a vida é como uma luta sem fim, presente inclusive nas guerras descritas por Homero, o filósofo moderno Nietzsche, pelo seu filtro filosófico e filológico, nos brinda com um texto belíssimo de sustentação das qualidades humanas e naturais dos gregos antigos, especialmente na epopeia e na tragédia. “O Agon em Homero”, in Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Nesse texto, Nietzsche aponta o homem grego como sendo movido pela relação entre suas qualidades humanas e qualidades profundamente naturais. Quer mostrar que o homem grego é fiel aos seus instintos naturais, aos seus impulsos, fazendo-o aproximar-se ainda mais das condições naturais de sua existência. Segundo ele, os gestos violentos, impulsivos e aterradores, a crueldade, os excessos todos são a fonte, o sólo fértil de onde brotam as grandes ações e as grandes obras da humanidade.

Para ilustrar essa leitura de Nietzsche no que diz respeito ao Agon grego, podemos citar Aquiles, o guerreiro mais amado e admirado da Grécia que, guiando seu carro, profana o corpo de Heitor, arrastando-o ao redor da cidade de Troia, para desespero da família, que assistia a tudo do alto da muralha. Ou, de outro modo, para exemplificar Ulisses, na leitura de Delfim Leão, como o “herói dos mil artifícios”(polymetis ou polymechanos), o que faz dele a ilustração mais paradigmática dos poderes da imaginação, da capacidade inventiva, de uma diplomacia intuitiva. A imaginação fulgurante de Ulisses, afirma Delfim, incarnada na curiosidade e no espírito agónico da mentalidade grega e do ser humano em geral, comporta de igual modo um processo de sujeição ao perigo, pois a aventura do conhecimento pressupõe sempre uma exposição aos riscos da incerteza, à experiência do sofrimento vivido. O Agon grego está representado na figura engenhosa de Ulisses como o “herói que muito sofreu”(polytlas).

A luta e o prazer da vitória, bem como do regresso de Ulisses à Itaca, em si mesmos, foram legitimados pelos gregos, que concebiam o ódio, a inveja, a disputa, os artifícios humanos muito diferentes do nosso.

É da natureza e de toda extensão da cultura do grego, sob expressões diversas, como polemos, eris, meikos, esse poder de confrontação, que Heráclito de Éfeso, filósofo grego, absorve como princípio(arché) do universo. Heráclito, diretamente influenciado pelo Agon da vida grega, faz dele o princípio do mundo. Pensar o mundo como devir, vir-a-ser, é concebê-lo como uma luta constante. Diz ele: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos”(Heráclito, Alegorias, 24).

O mesmo sentimento de luta de Ulisses, certamente, tivera sido uma fonte riquíssima, um legado precioso para o desenvolvimento ainda mais próspero da cultura grega nas bases da Filosofia. Outro exemplo disso é Sócrates, arraigado neste gosto(beleza também, estética) pela disputa, inventa a dialética e dá os primeiros passos em direção à Filosofia, propriamente dita.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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A filosofia e o clássico em Grande sertão: veredas

      (capa da obra Grande Sertão: veredas)

Considerando a tessitura ou a forma mesma, tal como se apresenta o texto Grande sertão: veredas, como um fator de determinada interpretação filosófica do mundo, concebemos uma fragmentação intensa, muito marcada por tensões, por ambiguidades, por elementos acentuadamente trágicos.

Num gesto de rara ousadia, Guimarães Rosa constrói, no interior de Grande sertão: veredas, aforismas, versos dispersos ao longo de toda a obra, de modo a pausar, a silenciar, a dar um tom de mistério no ritmo do mote do narrador. À medida que o enredo vai se desdobrando, o leitor é tomado pela estranheza: “viver é muito perigoso” (In COSTA, Gilmário Guerreiro da. Parte II  – Aforismos e abismos – fragmentação e tragicidade no Grande sertão: veredas, p. 01). Motes como este forçam o leitor a parar diante do texto, não havendo alternativa a não ser pensar para uma tomada de posição.

Ao dialogar conosco, através de uma linguagem fragmentada, não certinha e indiferente de capturar o sofrimento e o trágico, o texto de Guimarães se faz como um ato precisamente filosófico, como um modo filosófico de ver o mundo, em que revisita uma série de temas peculiares à tragédia grega, dos quais pretende sublinhar a esfera trágica de suas questões sobre a condição humana. Uma questão que se levanta é a do julgamento.

A partir de um estudo de Jean-Pierre Vernant, é muito recorrente a menção de um tribunal, onde se julga a vida, a existência, como sentido das tensões e ambiguidades na tragédia grega e em obras desse gênero. Algo semelhante ocorre em Grande sertão: veredas, seguindo a tradição das tragédias, de obras clássicas como Apologia, de Platão, onde o tribunal é marca diferencial. O corte fragmentário e elucidativo a esse particular é o julgamento do jagunço Zé Bebelo, bastante emblemático e profundo. Isso é notório no diálogo entre Joca Ramiro e Zé Bebelo:

– “O senhor pediu julgamento…   – ele perguntou, com voz

cheia, em beleza de calma.

– Toda hora eu estou em julgamento.

Assim Zé Bebelo respondeu. Aquilo fazia sentido? [ROSA, 1994, p. 168]” (idem,  p.12).

Em seguida, compõe-se o tribunal. O tom da narrativa é extremamente tenso e cheio de intervenções recorrentes aos tópoi da antiguidade clássica, dentre estes, as fortes referências à areté da Ilíada de Homero que povoam nosso imaginário com homens semelhantes a Ulisses, a Aquiles, a Heitor, enfim.

Questões como honra, valentia, coragem, sofrimento, justiça, culpa, vingança, traição, morte, vida, acolhidos pela inteligência do autor mineiro, ganham proporções cada vez mais singulares e significativas, típicas do interior do sertão brasileiro. Filosófica e artisticamente, mas com proeza literária, Guimarães Rosa soube trazer à tona, em circunstâncias totalmente adversas do sertão, elementos como silêncio e serenidade, atitudes decorrentes de uma consciência trágica. E, por ser trágica, sua obra é um ato extremamente filosófico.

Portanto, não podemos deixar de destacar a figura de Riobaldo e de Diadorim, cheios de amor um pelo outro; amor também recorrente aos tópoi trágicos, passando por Platão e por Shakespeare; amor instigante e fecundo. No seu nome, Diadorim parece comunicar seu amor, dom e errância, para Riobaldo, que assim a trata: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura[ROSA, 1994, p. 200]” (idem, p.19). O aforisma adiante é surpreendente: “Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas[ROSA, 1994, p. 264]” (idem).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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