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Umas pequenas práticas de saberes II

É possível criar uma ontologia particular sem citar a Tradição com base na música, no teatro e na poesia, bem como na literatura.

Segundo Nietzsche, a tarefa do saber é: “ver a ciência sob a ótica do artista, mas a arte sob a ótica da vida”. É a dialética entre a Tradição(História) e a Ruptura(indivíduo). Foucault é filho dessa cultura que não precisa pressupor a  História para desenvolver a estrutura lógica de seu pensar.

É sabido por todos que, após as duas grandes guerras mundiais, a razão como modelo único entra em crise porque não atendeu as necessidades básicas que levam o homem ao progresso. “A razão é a imperfeição da inteligência”, segundo Tomás de Aquino, pois, fora quem melhor compreendeu a modernidade da modernidade.

A modernidade fracassou por duas maneiras: a pretensão de um estado nação assumir o controle do mundo com a queda do muro de Berlim; depois, com a Física quântica, derrogando a razão positivista que acreditava esquadrinhar todas as coisas, inclusive o átomo.

O Racionalismo frustra a modernidade como também a desigualdade social mundial, isto é, com o desenvolvimento econômico sustentado das nações.

O grande pecado da modernidade foi espiritualizar o material e materializar o espiritual, tornando o consumismo a sua marca fundamental.

Massificação e sociedade de consumo são as razões do capitalismo.

A ciência não foi capaz de dar estabilidade e segurança social frente às imprevisibilidades do futuro. Não é suficiente para integrar o homem à cultura que lhe é própria. Newton e Descartes são as duas pernas com as quais andamos. Newton com a gravidade universal e Descartes com o Método.

Sendo assim, ciência e razão nos conduziram a sofrimentos e a desorientações pela garantia de um progresso tecnológico. Não foi capaz de sanar a sede de saúde, paz mundial, importância antropológica, política, social e histórica. Frustrou as perspectivas de progresso no século XX.

Edgar Morin nos ensina que o dever principal da educação é armar cada um para o combate vital à lucidez.

Do séc. passado recebemos a lição de que “não sabemos tudo de nada”. Lutamos contra nossas pretensões bélicas, econômicas e racionalistas, mas nos esquecemos de promover o bem-estar social, ecológico, político sustentado pelo mundo afora.

Daí, passamos por uma devastadora crise de paradigma. Os modelos educacionais ou até do próprio conhecimento não dão conta das exigências complexas por que passa a humanidade.

“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital. É o problema universal de todo cidadão do novo milênio: como ter acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global ( a relação todo/partes), o Multidimensional, o complexo? Para articular e organizar os conhecimentos e assim reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é necessária a reforma do pensamento”(Edgar Morin, in Sete Saberes necessários à Educação do Futuro, pág. 35).

Para Morin, a Reforma é paradigmática e, não, programática. Uma educação que fomente a nossa aptidão para organizar o conhecimento.

Aqui é o ponto: Estamos inseridos numa sociedade altamente tecnológica informatizada, onde a Educação precisa mais do que nunca incluir esses valores para tentar responder as expectativas dos alunos e de uma nova compreensão de mundo. Todavia, como unir velocidade de informações e conteúdos via Internet/meios tecnológicos com a capacidade do aluno introjetar/refletir essas mesmas informações? Ou será que a educação está formando sujeitos de desejos ao invés de sujeitos reflexivos?

Uma alternativa ou uma das alternativas para indicar saídas é favorecer a atividade da arte e da filosofia na Educação, ou seja, implementar ações educativas complementares: jogos; filmes; jornal; teatro; música. Tudo isso unido ao poder da reflexão para possibilitar a descoberta de talentos críticos que contribuam na construção de valores e de preservação do meio ambiente.

A consequência de tudo isso foi o nosso afastamento de uma vida contemplativa(razão) para nos familiarizar, agora como nunca, com uma vida ativa, interativa audiovisual e lúdica. O desencanto da razão levou-nos ao encanto da música e dos jogos, isto é, do entretenimento midiático. Eis, no entanto, o desafio: educar toda essa massa humana advinda da cultura do entretenimento para as escolas. Se quisermos impactar crianças, adolescentes e jovens com a Educação basta oferecermos a música e o esporte nesse processo, e depois, formar indivíduos reflexivos, cuja meta é a multiplicação dessas práticas de saberes.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
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Umas pequenas práticas de saberes I

Segundo a tendência racionalista, herdada de Descartes e Spinoza, prevalece o inatismo, pelo qual o sujeito que conhece seria o pólo mais importante no processo do conhecimento.

Conforme a tendência empirista, iniciada com Bacon, Hume e Locke, o sujeito que conhece é passivo, recebendo de fora – da experiência – os elementos para a elaboração do conteúdo mental.

Tais pressupostos de uma educação moderna são oriundos dos conceitos clássicos de Educação:

“A educação deve dar ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”(Platão) – idealista.

“Não há nada na inteligência que antes não se tenha passado pelos sentidos”(Aristóteles) – realista.

As quais se fundamentam num problema antiquiquíssimo, chamado de APORIA: No séc. VI – V a.C., Parmênides disse que nada pode mudar; que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são dignas de confiança.

Já Heráclito, na mesma época, disse: que tudo se transforma(“tudo flui”) – “panta rei”; que as impressões dos sentidos são confiáveis.

Assim, muitos tentavam, assustadoramente, solucionar o impasse entre razão e sentidos.

Empédocles afirmava que ambos têm razão, pois a água pura será água pura por toda a eternidade e a natureza está em constante transformação. Ele acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de raízes. Estes quatro elementos eram a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Supera, assim, a dicotomia com uma belíssima síntese entre o imóvel e o móvel, entre o ser e devir.(séc V a.C.).

Immanuel Kant, por sua vez, conhecia muito bem tanto os racionalistas quanto os empiristas e concordava com ambos: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão? Para Kant, não importa o que possamos ver, sempre perceberemos com as “formas da sensibilidade”. Isto significa que podemos saber antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes de tirar os óculos da razão!(séc. XVIII d. C.).

Conforme Maria Lúcia de Arruda Aranha, a Educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora entre sujeito e objeto, no seio da prática social global.

A Pedagogia é a necessidade sistemática de tornar a prática social global mais eficaz, a fim de definir os fins a serem atingidos.

A Filosofia da Educação acompanha reflexivamente os problemas educacionais.

As Ciências da Educação propõem processos de ensino(sistemas) mais sofisticados que superam o mero empirismo em educação.

As pequenas práticas de saberes supõem tudo isso que dissemos até agora, na medida em que o educador luta contra qualquer tipo de generalização.

Segundo Foucault na Microfísica do Poder, o educador precisa ser um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Os saberes são fragmentados, compartimentados, enquadrados nas específicas exigências dos indivíduos, por isso mesmo práticos e pequenos que penetram na singularidade da vida.

Parece-me que fora Nietzsche, na segunda metade do século XIX até meados do século XX, a desencadear essa nova modalidade de pensamento. Não segue necessariamente uma escala contínua e progressiva da estrutura do Pensamento, pois rompe com a Tradição para voltar às fontes, às origens da tragédia humana(Dionísio e Apolíneo), a fim de valorizar nossas potencialidades enquanto artistas de pensar o próprio pensamento. Acontece assim, uma ruptura do patrimônio histórico do pensamento humano.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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Uma escola mangue

O texto Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação” se apropria de uema bela imagem, a imagem do Mangue, utilizado aqui pelo autor Daniel Lins para nos mostrar a riqueza do pensamento rizomático de Deleuze atrelado a uma pedagogia.

Na vida acadêmica ou na vida de um professor é muito salutar quando se alcança o estágio maduro do magistério e, desaprendendo a falar academicamente uma linguagem técnica, aprende-se a falar por meio de imagens. As imagens vêm mais facilmente à cabeça e são deliciosas, pois, quando se usa uma imagem que fala mais do que o texto, percebe-se “a diferenciação, a contemplação vibrátil, sem determinação, mergulhada numa visão que inventa a visão do que é visto sem pontos de referência nem muletas”. (Lins, 2005, p.10). Eis a imagem:

“- Seu Pedro, onde começa o mangue?

– Professor! Olhe o mangue! Não tem nem começo, nem fim: O mangue só tem meio!”

(Diálogo com um velho pescador, na Ilha do Pinto, em Fortim, Ceará, abril de 2004, in Lins, 2005, p. 10)

Assim deve ser uma escola, sem princípio e sem fim, mas com meio, inteiramente inserida na vivência do mundo e mergulhada no aqui e agora das situações existenciais. Uma escola que simboliza um “imenso manguezal” a se espraiar “no entrelaçamento de proteínas, calorias, gazes, lama, gozos, prazeres, detritos e… ouro”(Lins, 2005, p.10). O seu ouro é a diferença ou a riqueza do manguezal, como se a criança/aluno representasse o grande tesouro da escola que, talvez, fosse uma obra em construção e que a escola sua intercessora privilegiada na autoconstrução, sob a condição de que a transmissão de saber não se confunda com a transmissão de poder em que o aluno é tratado supostamente a querer, a ouvir, a aceitar e a obedecer.

Tal cogitação entre escola e mangue merece, como dissemos, uma deferência no texto de Daniel Lins, haja vista a feliz metáfora que estabelece com a ideia de rizoma deleuziana:

“Por meio da questão do novo, a função da Mangue’s School não é mais a de responder a uma necessidade de verdade, ou de abrir ao conhecimento do real, mas provocar novas possibilidades de vida. O novo é assim retomado como uma exigência de criação que instiga a promoção de forças capazes de transformar o presente levando-o para novas vias, segundo a formulação de Nietzsche: ‘Agir contra o passado, e desse modo sobre o presente em favor de um tempo por vir’”(Lins, 2005, p. 12).

In: LINS, Daniel. Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação”. In Educ. Soc. Vol. 26. nº 93. Campinas. Sept./Dec. 2005.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Amor à repetição

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“Que coisa, amanhã já é segunda-feira (?!), mal passou o final de semana”; “Não aguento mais a mesma comida, a mesma bebida”; “Tenho que limpar meus óculos de novo”; “Preciso ir ao banheiro de novo”… Expressões como essas são muito corriqueiras e acabam mostrando como o ser humano está condicionado a uma repetição infinita de acontecimentos e situações no curso de sua vida. Algumas repetições necessárias ao cuidado com a higiene do corpo são até menos conscientes do que uma dura e trágica fatalidade, mas demonstram o quanto são importantes para a saúde e para uma incansável luta contra o imobilismo, a inércia, bem como uma luta incessante a favor da vida.

A simplicidade dos atos de alimentar-se, escovar os dentes, tomar sucessivos banhos, vestir-se, andar, ir e voltar do trabalho, conversar. Tudo isso faz parte de atos espontâneos ou avulsos, nos quais o ser humano encontra-se envolvido num eterno retorno de eventos do cotidiano. Na maioria das vezes, aparentemente, não apresentam sentido algum. Mas, o interessante é que não tenham, de fato, sentido, significado, pois obedecem a uma ordem cosmológica, em que se poderia entender o mundo muito mais do ponto de vista grego do que moderno. Os gregos viam o mundo finito, fechado, e constituído por um certo número de forças com suas combinações infinitas, um mundo que se repete. “[…] o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para a frente e para trás! Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna.”(NIETZSCHE, F. O eterno retorno [texto de 1881]. São Paulo: Nova cultural, 1996. p. 439 [Col. Os pensadores]).

Deitar, dormir e levantar-se para continuar a viver obedecem a uma ordem cíclica de repetições infindáveis. Instantes de prazer e dor acabam indo e voltando com mais ou menos intensidade do que de outras vezes, mas acabam voltando. Retornar às mesmas coisas diversas vezes de um modo estético nos leva a fazê-las cada vez melhor. Atitudes isoladas como uma corrida ou uma caminhada numa tarde qualquer, quando repetidas, tornam-se habituais e promovem a qualidade de vida. Com isso, o ético vem puxado pelo estético.

É oportuno resgatar repetidamente o filósofo bigodudo Nietzsche, crítico ferrenho da cultura ocidental, quando pensou que o “eterno retorno ao mesmo” não deve ser encarado com piedade, compaixão e resignação, mas com coragem, determinação e vigor. O resultado de uma vida sem fugas, subterfúgios, muito menos sem mania de conspiração, é certamente uma vida pautada no “amor fati”, no amor ao próprio destino. “[…] vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor.” (NIETZSCHE, F. A gaia ciência. 5ª ed. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães & C., 1996. p. 173-174).

Amar o próprio destino é uma das ideias mais preciosas e geniais do Nietzsche, porque combate fortemente o sentimento de culpa, um tal de “mi mi mi” do qual se reveste nossa cultura. Significa pensar o destino como os gregos o pensavam, de modo participativo.

Portanto, a repetição, a rotina inevitável de nossas vidas, as idas e vindas das segundas-feiras, os momentos tristes e os dias de sofrimento não precisariam ser enfrentados com um amor de tipo nietzschiano? “A minha fórmula de grandeza do homem é ‘amor fati’: não pretender ter nada de diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A Necessidade não existe apenas para suportar-se – todo o idealismo é uma mentira em face da Necessidade – mas para que a amemos…”(Ecce homo: como se chega a ser o que se é. Trad. José Marinho. Lisboa: Guimarães & C. 1979, p. 72).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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A alegria de viver

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(A ilustração ao lado é de Henri Matisse, a alegria de viver, “joie de vivre” – 1905)

 

O interessante é que a alegria, para nós, está muito mais condicionada a fatores externos do que às condições ou potências internas. Muitas vezes são as coisas que produzem a minha alegria do que eu mesmo a produzo, como se eu precisasse de tudo que me envolve para estar alegre. Estranho isso, não! Eu não tenho condições próprias e naturais para ser alegre? Por que, afinal, dependo de outros para ser alegre? Uma boa notícia nos faz alegres. Dinheiro nos faz alegres. Família nos faz alegres. Amigos nos faz alegres. Passar no Vestibular nos deixa alegres. A oração nos faz alegres. A música, a ginástica, o futebol, uma viagem, o amor, a arte…

Costumo dizer que quando se está alegre, é possível estar com todo o corpo minado de alegria, pronto para explodir alegrias. Alegrias explodindo pelo corpo inteirinho. Seria como uma espécie de corpo aberto para qualquer motivo se transformar em alegria, e o ajuntamento dessas sucessivas alegrias geraria um ser feliz, um indivíduo feliz, uma pessoa cheia de felicidade.

Quase sempre estamos confundindo alegria com felicidade. Claro, tal como a alegria, a felicidade também é passageira, só que mais constante do que a alegria. A alegria sinaliza mais ou menos como o corpo está, mais ou menos como uma potência para agir.

Pensando um pouco nisso, o filósofo Spinoza fala da alegria como uma relação de corpos, incluindo o corpo humano. Afetar e ser afetado por outros corpos é uma característica de sua filosofia. Segundo ele, se um corpo nos afeta, se algo nos afeta é porque houve uma composição daquele corpo ao nosso provocando, com isso, um aumento de nossa potência. Isto se chama alegria!

Quando um corpo não combina conosco, não tem nada a ver conosco, a tendência é a diminuição de potência e, consequentemente, a tristeza. Esse mesmo movimento dos corpos também ocorre com a alma.

O afeto é, então, a potência de agir de um corpo, o que levou Spinoza a afirmar admiravelmente: “Evitemos as paixões tristes e vivamos com alegria para ter o máximo de nossa potência; fugir da resignação, da má consciência, da culpa e de todos os afetos tristes que padres, juízes e psicanalistas exploram”. Quando a potência de agir aumenta, sinto alegria; e, quando diminui, sinto tristeza. Spinoza diz, de modo contundente, que a única afeição é a alegria. Todos os outros afetos derivam da alegria. Tão somente a tristeza é ausência de alegria.

No Abecedário de Giles Deleuze, há uma compreensão ainda mais clara a respeito da alegria ligada a ideia de potência. “A alegria é tudo o que consiste em preencher uma potência. Sente alegria quando preenche, quando efetua uma de suas potências. Eu conquisto, por menor que seja, um pedaço de cor. Entro um pouco na cor.”

Por isso, embora estejamos todos sujeitos à relatividade externa dos encontros e desencontros da vida, e efetivamente marcados pela impotência de agirmos conforme a nossa natureza, mesmo assim a alegria, quando existir, será apenas uma força impulsionadora que nos levará a uma experiência muito maior: a potência de viver. “Toda alegria é alegria de viver”(Cf. Viviane Mosé, Spinoza e a alegria, Série “Ser ou não ser”).

Contudo, aprendamos a nos alegrar, pois só assim poderemos afastar de nós os afetos tristes. Façamos como diz Nietzsche: “Aprendamos a nos alegrar: é a melhor maneira de desaprender a magoar os outros”.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN, Esp. em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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Nietzsche, pronto para explodir

Talvez com Nietzsche, mais do que com Descartes ou Kant, mais ainda do que com os Renascentistas, a Filosofia tenha atingido seu estágio mais original e mais inovador, por isso mais moderno porque faz duras declarações de que a ciência não era tudo isso que se vislumbrava, destronando seu “status” de deusa do século XIX e tempos vindouros. Nietzsche levanta a sua voz contra a ciência de seu tempo, antecipando uma Filosofia marcadamente poderosa porque propõe desafiar valores sociais, religiosos, morais e científicos autoritários, sem razão alguma para a vida. Para Nietzsche, o que mais importa, antes de tudo, de quaisquer padronização moral, é a vontade de viver. Tanto é que, para isso ocorrer, é sensivelmente aceitável para o homem de hoje a volta ao Nascimento da Tragédia, ao modelo de homem dotado de poder para viver com base na Ilíada, na Odisseia… Um homem visto elevado ao quadrado, inserido no movimento fabuloso da vida com todos os seus riscos. O homem de Nietzsche é o do puro devir, cujos perigos não são obstáculos, mas motivações imprescindíveis para o crescimento cultural, como uma espécie de dinamite pronta para explodir.

Sendo assim, a partir do que disse antes, da Ilíada, da Odisseia, dos gregos pré-socráticos, da arte como mediação de todas as coisas, do devir e, evidentemente, da vida como processo de transformação constante e interminável, claro que isso varia um pouco até mesmo entre os pré-socráticos, mas no geral, todos estão em torno da ideia de mudança, Nietzsche constrói uma máquina de guerra contra o pensamento dito “moderno” com base na ciência e em valores caducos. Segundo ele, a história do pensamento humano é a história da negação da vida, é a história de uma ilusão, é a história da construção de um modelo. É a história da frustração de um modelo de homem que não existe e não existia e não existirá nunca. O homem construiu uma imagem muito superior do que consegue ser ou alcançar. Então, ele corre atrás dessa imagem, a imagem platônica de ser e de se viver.

“Finalmente, minha desconfiança em relação a Platão robustece-se cada vez mais: parece-me que ele se desviou de todos os instintos fundamentais dos gregos; acho-o tão impregnado de moral, tão cristão antes do cristianismo – já apresentou a ideia do bem como ideia superior – que me sinto tentado a empregar, com relação a todo o fenômeno Platão, antes de qualquer outro qualificativo, aquela de alta mistificação ou, melhor ainda, de idealismo. – Custou-nos caro o fato desse ateniense ter ido à escola dos egípcios (ou talvez entre os judeus do Egito?…). Na grande fatalidade do cristianismo, Platão é essa fascinação de duplo sentido chamada ‘ideal’ que permite aos caracteres nobre da Antiguidade de se enganar a si mesmos e abordar a ponte que se chama ‘cruz’…”(NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Ed. Escala, 2009. p. 102-103).

Essa crítica à Platão, no Crepúsculo aos Ídolos de 1888, é sem dúvida uma Filosofia a golpes de marteladas ou como o próprio Nietzsche afirma no capítulo final de seu ensaio Ecce Homo, num parágrafo onde mostra que mesmo tendo rumado da solidão para as trevas ele tinha ainda consciência do que o seu pensamento iria provocar no Século que se avizinhava. Afirma ele: “Conheço minha sorte. Alguma vez o meu nome estará unido a algo gigantesco – de uma crise como jamais houve na Terra, a mais profunda colisão de consciência, de uma decisão tomada, mediante um conjuro, contra tudo o que até este momento se acreditou, se exigiu, se santificou. Eu não sou um homem, eu sou dinamite.”

Portanto, Nietzsche declarou guerra à tradição do pensamento ocidental por meio do poderoso argumento de Heráclito sobre o devir e sobre a guerra dos contrários. Este movimento presente na Filosofia de Nietzsche causa um verdadeiro impacto aos costumes tradicionais de sua época, de modo que todos os valores até então passam por uma reviravolta a partir do crivo da figura avassaladora de “Dioniso” no Nascimento da Tragédia. Daí, um pensamento pronto para explodir a qualquer momento!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Serenidade

Antes mesmo de encerrar algumas linhas sob o aspecto da serenidade, é importante ressaltar que desde Epicuro até Heidegger, o grande sábio é aquele que atinge a serenidade, a paz.

No correr desses dias, de altos assuntos tecnológicos, principalmente pela morte recente de Steve Jobs, acionista majoritário da “apple”, um gênio da informática e idealista do “imac”, do “iphone” e do “ipad”, insurge-se em torno de nós uma preocupação extrema com as próximas novidades tecnológicas, uma vez que Steve era obcecado pelo novo, pelas mudanças. A pergunta que não quer calar vem à tona: O que virá agora? Muitos jovens, adolescentes e até adultos, bem como uma parte considerável da população mundial, certamente, está se perguntando agora. O que virá depois da morte de Steve Jobs? Mas, pergunto-me, o que tem a ver a serenidade com tudo isso? Ah! Veremos.

Com tantos achados tecnológicos e a incrível emancipação humana frente à ciência, será possível ainda que o mundo venha a se perguntar por novidades tecnológicas? É… Não estamos satisfeitos! Quanto mais entramos e nos infiltramos no interior das máquinas de ponta do mundo contemporâneo, mais e mais nos sentimos seduzidos por elas. Quem seduz quem? É a inversão(confusão) do sistema capitalista. Nos relacionamos muito mais com os nossos notbooks, iphones e ipads; do que com os nossos irmãos, pais e amigos. Isso produz, compulsivamente, sujeitos de desejos que se atraem por novas e cada vez mais novíssimas máquinas com designers diferentes. As pessoas não se contêm e correm avassaladoramente para as incríveis, não menos tentadoras, invenções tecnológicas.

Dessa forma, dificilmente conseguimos pensar. A esfera tecnológica, repleta de entretenimentos, nos faz suspender o pensamento, ou pelo menos, pensar de outro modo. Porém, se sentimos falta da reflexão, do pensamento, do verdadeiro pensar, é porque precisamos repensar a serenidade. Coisa parecida escreve Heidegger: “Há dois tipos de pensar, cada um dos quais é, por sua vez e a sua maneira, justificado e necessário: o pensar calculador (rechenende Denken) e a reflexão meditativa (besinnliche Nachdenken). É a esta última a que nos referimos quando dizemos que o homem de hoje foge ante o pensar”(Cf. M. Heidegger,Serenidade, trad. M.M. Andrade e O. Santos, Lisboa, Ed.Instituto Piaget, 1959, p.13-13).

Aí está o caminho da reflexão. Nessa direção se dá o anúncio dessa estranha tendência filosófica que supõe a Serenidade no dizer de Heidegger:“Podemos utilizar os objetos técnicos tal como eles têm de ser utilizados. Mas podemos, simultaneamente, deixar esses objetos descansar em si mesmos, como algo que não interessa àquilo que temos de mais íntimo e de mais próprio. Podemos dizer sim à utilização inevitável dos objetos técnicos e podemos ao mesmo tempo dizer não impedindo que nos absorvam e, desse modo, verguem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natureza (…) Deixemos os objetos técnicos entrar em nosso mundo cotidiano e ao mesmo tempo deixemo-los repousar em si mesmos como coisas que não são algo de absoluto, mas que dependem elas próprias de algo superior”(idem, p. 22-23s).

Heidegger viveu numa época de deslumbramento da técnica, ao ponto de reivindicar uma melhor relação da ciência com a filosofia. Aliás, dificilmente se fazia filosofia sem ciência. Nietzsche, Heidegger e outros foram o grande contraponto desse momento. Mesmo assim, a ciência insistia em se impor. Os dias de Heidegger não eram tão diferentes dos nossos. O início do séc. XX provou ser o alvorecer dos encantos e desencantos da ciência: Criação e testes da bomba atômica, criação de armas químicas, guerras, fome no mundo, doenças… Um século que se mostrou contraditório e por demais desumano que viu morrer 6 milhões, senão mais, de judeus e outras inúmeras pessoas, submissas ao ódio de um tirano no poder. Tempos horríveis que despertaram no humano uma tremenda sede de paz, de serenidade. Fomos marcados, injustificavelmente, por duas grandes guerras mundiais com consequências terríveis de destruição em massa.

Os tempos são outros, mas com algumas semelhanças. Como se não bastasse, já somos herdeiros de uma ideologia norte-americana que tem ódio do terror do Oriente Médio. Vimos o assustador 11 de setembro de 2001. Não obstante, há um certo maravilhamento comparado à época de Heidegger, em que se vislumbram inovações tecnológicas capazes de nos deixar perplexos pelo conforto, pela praticidade, pela mobilidade e, mais que isso, pelo entretenimento oferecido aos usuários das inventividades de Steve Jobs. Este é o mundo de Bill Gates, Steve Jobs e de outros mais. Querendo ou não, este é o nosso mundo!

Todavia, não é deste mundo que vem a nossa paz, tal como afirma a Sagrada Escritura: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”(Jo 14.27). Somente com a experiência da serenidade é que podemos dizer sim ou não a este mundo, pois a serenidade ou o estado sereno diante da vida ou das coisas nos permite ascender a um outro estágio de mistério e contemplação que é a sabedoria segundo Heidegger. Na linha da natureza e da vida sem ascendê-las, Epicuro nos assegura que a serenidade é uma espécie de imperturbabilidade da alma que culmina numa vida boa, não numa boa vida, chamando a isso também de vida sábia. Portanto, serenidade é sim sabedoria.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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A mentira…

Às vezes me pego a pensar livremente, de um modo estranhamente natural e instintivo, sobre o dado da mentira. A mentira tem várias faces. Tal qual moeda, certamente, tem uma cara e uma coroa. Na política então… Há mais cara do que coroa.

Quando ela mostra sua cara é terrível, pois vem quase sempre carregada ou a serviço de quem amamos. É bem por isso que a Bíblia trata a mentira, lá em Jo. 8. 44, de filha do diabo. Se satanás, na inspiração bíblica, é o pai da mentira é porque algo de muito nefasto, mal e perverso tem a ver com a mentira. A mentira atrapalha vidas de casais, possivelmente quando uma das partes se utiliza dela para esconder uma traição ou uma verdade que implica dor e sofrimento a ambos. A mentira separa velhos amigos e é a causa de conflitos entre pais e filhos. A mentira joga com o engano para nos oferecer o reino das ilusões imediatas. Uma mentira está sempre puxando outra e alimentando a desconfiança de muita gente. Ninguém confia no mentiroso!

Sinto muito aqui ser tão pragmático, mas é o que ocorre quando achamos que podemos enganar as pessoas a vida toda com nossas mentiras. O mentiroso está sempre na linha da falsidade, uma vez que se esconde num “mundinho” só seu. Quase sempre o mentiroso é egoísta e não tolera a verdade. É capaz até de falar a verdade para os outros, mas não suporta a sua verdade. É óbvio que a mentira em si não existe, só passa a existir quando a praticamos, é por isso que as ações incoerentes nos denunciam assustadoramente. Da mesma forma que a honestidade enquanto tal não existe, mas a partir do momento em que tomamos ações honestas, justas e bondosas, aí sim somos honestos, uma vez que praticamos a honestidade. Assim, é preciso praticar a mentira para ser, de fato, mentiroso. Negando a mentira, não significa dizer que sejamos verdadeiros, mas negando a prática da mentira, não a praticando, é que, sem dúvida, somos verdadeiros. Essa é a cara da mentira.

Mentir tornou-se uma constante no mundo da política, haja vista a pauta de planos e de estratégias que os políticos, na sua imensa maioria, têm de cumprir. Estratégias estas, claro, tendo em vista as eleições, os votos, e nada mais. Para conquistá-los, a mentira entra em jogo voluntariamente fazendo qualquer negócio. Ao contrário de muitos de nós que mentem involuntariamente, – até pensando em amenizar a dose da verdade para os outros, e talvez esteja aqui a outra face da moeda, a coroa – o político mente caprichosa e ardilosamente, uma vez que vive mais dela do que ela dele. Explico. O político se serve mais da mentira para atingir seus objetivos, do que a maior parte das pessoas, que são pegas de surpresa por ela, são usadas por ela, quando não gostariam.

Todavia, não sem razão, disse Platão sobre a mentira no diálogo Hípias Menor, algo assim: “Os mentirosos são capazes, e inteligentes, e conhecedores, e sábios naquilo em que mentem…”(PLATÃO. Sobre a inspiração e Sobre a mentira. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, p. 64). É óbvio que o mentiroso ignorante também se engana e acaba falando a verdade. Portanto, é próprio do homem mentir e falar a verdade, quer voluntária ou involuntariamente. Nesse diálogo que ora cito, vem considerada a possibilidade humana de agir com consciência de modo vergonhoso ou não, aí entra a mentira, pois quem mente é versátil e multiforme. Aqui está, sem dúvida, a coroa da mentira, na sua linguagem em parecer-se criativamente com a verdade. O modo de falar a mentira como se fosse verdade, com persuasão, é uma de suas curiosas artimanhas. O sofista era muito habilidoso nesse aspecto. Daí, a mentira ser tão importante para a política.

À deriva de um olhar bíblico-cristão, a mentira vem relativizada, sobretudo, na esfera política, na esfera filosófica até certo ponto, como também no campo da linguagem, da arte e da ética numa visão “extramoral”. Nietzsche foi um exemplo claro de tratar a mentira num sentido artístico, poético e filosófico além dos padrões culturais em que vivia e no qual se sentia aprisionado, talvez por isso seu espírito livre esteja tão presente em sua obra. “Ora, o homem esquece sem dúvida que é assim que se passa com ele: mente, pois, da maneira designada, inconscientemente e segundo hábitos seculares e justamente por essa inconsciência, justamente por esse esquecimento, chega ao sentimento da verdade(…) O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”(NIETZSCHE, F. Col. Os Pensadores. São Paulo: Ed. Abril. 1999. p. 46-49).

Joguemos, pois, a moeda para cima e esperemos cair. Se for cara, bastante cuidado com a mentira, ela poderá arruinar sua honra e sua fama. Se for coroa, prudência, a mentira poderá ser um sinal de que não é hora de falar a verdade, porém mais cedo ou mais tarde, a verdade aparecerá com toda a sua força e mais viva do que nunca. De qualquer modo, tenhamos muito cuidado com a moeda da mentira por mais sedutora que ela seja!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos

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O “homo otarius”

Como filhos do Ocidente no séc. XXI, não mais herdeiros saudosistas de um tonto racionalismo que nos levou à duas grandes guerras mundiais, menos ainda dispostos a zombar de uma ciência que quis ilusoriamente exterminar a doença e a fome no mundo, mas descendentes da máscara do terror disseminado pelos EUA, pós-11 de setembro de 2001, de onde partiu para o mundo todo imagens fortíssimas de desabamento de uma das mais poderosas potências econômicas da terra, mostrando a nossa real fragilidade, estamos sendo agora tentados a perpetuar a espécie em vários campos da atividade humana. Na ciência ou na política, na ecologia ou na religião, nas artes ou na culinária, na filosofia ou no mundo do trabalho, o discurso é o mesmo: “Que mundo queremos deixar para os nossos filhos?” Isso gera conformismo, passividade política e, ao mesmo tempo, subestima outros povos ao risco, uma vez que odiamos o risco. Queremos controlar a vida, não mais arriscá-la!

A notícia de que assumimos a colocação de 6ª economia mundial nos deixou meio tontos, senão bestas. O tão almejado sonho de viver uma realidade econômica semelhante ao dos países mais desenvolvidos sempre foi uma marca presa ao imaginário cultural coletivo de nosso povo. A cultura do conforto e da pasmaceira ideológica de que está tudo bem, três refeições ao dia, salário no final do mês, estabilidade econômica, casa própria, emprego e renda sendo criados, dinheiro no bolso 24 horas, “nunca antes na história desse país”, enfim, toda essa zona de conforto e “calmaria” apenas nos afoga numa dimensão de “sobrevivencialismo” , cuja ideia importo aqui da filosofia de Zizek: “(…) Parece que a divisão entre o Primeiro Mundo e o Terceiro está mais na oposição entre viver uma vida longa e satisfatória cheia de riqueza material e cultural e viver uma vida dedicada a uma Causa transcendente(…). Duas referências filosóficas se apresentam imediatamente a propósito do antagonismo ideológico entre o modo de vida consumista do Ocidente e o radicalismo muçulmano: Hegel e Nietzsche. Não seria esse antagonismo o que existe entre o niilismo ‘passivo’ e o ‘ativo’ de Nietzsche? Nós, no Ocidente, somos os Últimos Homens de Nietzsche, imersos na estupidez dos prazeres diários, ao passo que os radicais muçulmanos engajados na luta estão prontos a arriscar tudo, até a autodestruição(…)”(S. Zizek, Bem-vindo ao Deserto do Real, São Paulo, Boitempo, 2003, p. 57).

Segundo Zizek, paira sobre nós uma distorcida ideologia de que o bom mesmo é prolongar a vida, conservá-la ao máximo e purificá-la. Esse falso clima de sustentabilidade econômica e tudo mais é gritante em nossos dias. As pessoas estão estagnadas no conforto e na burocracia. A fajuta ideia de zona de conforto econômico pelo estado brasileiro está produzindo pessoas não só sedentárias, cômodas e preguiçosas, mas indivíduos bestas que renunciaram sua subjetividade em função de um estado de coisas prontas, dotadas do espírito do capitalismo, cheias de fantasias, insensíveis ao que há em volta, amargas com a realidade, seduzidas pelo virtual. É tão patente essa mentalidade que o próprio Zizek expressou-se assim sobre a importância que damos ao virtual: “Hoje encontramos no mercado uma série de produtos desprovidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme de leite sem gordura, cerveja sem álcool, sexo sem sexo, guerra sem guerra, a realidade virtual é sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo de virtualização é que começamos a sentir a própria ‘realidade real’ como uma entidade virtual”(idem, p. 24-25). É o que está acontecendo conosco no Brasil. Vivemos uma certa satisfação econômica sem saber até quando e qual a real implicação que tem tudo isso para a totalidade da população e não apenas para uma parte.

O mais engraçado disso é que achamos que conquistamos algo. Não conquistamos nada ainda, basta olharmos o nosso mais recente IDH, a infraestrutura de nossos municípios, as estradas, a educação que não avança, os serviços públicos à saúde que sucumbem diariamente, altos gastos  em campanhas eleitoreiras para políticos corruptos e analfabetos, pousando de letrados. Além de acharmos que somos a 6ª, porém falsa economia mundial, ainda criamos o engodo de que vivemos o melhor dos mundos possíveis. Não temos vida boa coisa nenhuma. Estamos sendo enganados o tempo todo por discursos políticos desgastados e por índices de pesquisa que não sabemos se correspondem aos fatos.

Somos esses homens prenunciados por Nietzsche, o “homo otarius”, que não sabe realmente a vida que tem, a vida que leva, a vida sem vida talvez. Vejamos o que diz Slavoj Zizek ao retomar a pergunta paulina, “Quem está realmente vivo hoje?”: “E não se percebe claramente a mesma reversão no impasse dos Últimos Homens, indivíduos pós-modernos que rejeitam como terroristas todos os objetivos mais altos e dedicam a própria vida a sobreviver, a uma vida cheia de prazeres menores cada vez mais refinados e artificialmente excitados?(…) O que torna a vida digna de ser vivida é o próprio excesso de vida: a consciência da existência de algo pelo que alguém se dispõe a arriscar a vida(podemos chamar esse excesso de liberdade, honra, dignidade, autonomia, etc.). Somente quando prontos a assumir esse risco estamos realmente vivos”(idem, p. 108-109).

Deixamos o risco de vida pra lá e optamos por essa pasmaceira econômica que camufla a vida até a raiz da sua realidade, de tal modo que está anestesiando as nossas condições subjetivas de fazer a clínica, a análise da existência com toda sua carga de dramaticidade, transformando-nos em “homo otarius”.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia

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