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Qual é a sua opinião?…

            Nesses dias dei-me conta de que estava a pensar sobre o quanto é importante uma boa formação de opiniões, até mesmo para convivermos melhor em sociedade, expressar com mais objetividade nossas ideias, ajudar outros a formarem as suas, dirimir equívocos, afastar incoerências. Paira sobre nós um certo relaxamento em relação a isso. A nossa malemolência em lidar com o assunto é absurda.

Vejam que alguns de nós passam anos a fio dentro de uma Universidade ou de uma Escola tentando construir algo, uma carreira talvez, um arcabouço de informações, uma base a mais para crescer na vida, enfim, mas quando somos consultados simplesmente não temos o que dizer. No entanto, quer entremos ou não numa Universidade, o certo é que muitos de nós, senão todos, passamos a vida toda e não conseguimos sequer formar, tampouco viver de nossas opiniões, o que mostra o quanto não somos senhores de nós mesmos. Num ponto, Heidegger estava certo: “A maioria dos homens não pensa por si mesmo; não julga com a própria cabeça; não decide por conta própria: pensa, julga, decide conforme ou vem dizer dos outros”. Creio que está na hora de aprender a pensar com a própria cabeça. Ser cabeça bem feita e não cabeça cheia, no dizer de Montaigne, uma recorrente no pensamento de Edgar Morin.

Absortos a uma cultura capitalista democrática de interesses meramente econômicos que, de quando em quando, abandona seus ideais democráticos e dá lugar as ditaduras mais toscas e aberrantes como aquelas vistas recentemente em cadeia internacional com proporções violentas na Tunísia, no Egito e agora, no Iêmen, tal como na Líbia, nos sentimos seriamente vulneráveis quanto à solidez de algumas opiniões enraizadas na ética, na tolerância e no amor. A ditadura é a prova cabal de que “o controle da expressão leva à morte da expressão”(Márcia Tiburi). Se com expressão a democracia é o que é, o que dizer então sem ela!

Tão logo nascemos, de imediato nossos pais descarregam sobre nós os mais belos pensamentos, os mais velhos conselhos de respeito e de bons costumes, fruto de uma tradição herdada por nossos avós ou pela família inteirinha. O certo é que nem sempre se percebe a tradução de velhos ensinamentos em vida. Refiro-me a velhos não por serem menos ou mais importantes do que os novos, mas porque afirmam uma tradição distante de nós. Não é por serem velhos ou antigos que não prestam, mas por não virem acompanhados de ação, de vida, de autenticidade. É aquela história, dar conselhos é razoavelmente maravilhoso, mas vivê-los, aí são outros quinhentos. Não é em vão que o corriqueiro ditado popular teima em vigorar: “As palavras passam, mas os exemplos arrastam”. Quantas vezes não ouvimos de nossos pais: “Meu filho, cuidado com as companhias, com a bebida, com as drogas, ….” No entanto, quantos pais ou familiares não têm os mesmos cuidados, o mesmo zelo, acabando por errar muito mais.

Para a maior parte de nós, pouco importa o que acontece embaixo de nossos narizes ou em volta de nós. Na verdade, damos mais interesse para o que há dentro de nós, da subjetividade, do nosso eu arranhado, nossos recalques, culpas e ressentimentos. A atmosfera que nos arrebata não é a que está fora, mas a que está dentro de nós. Respondemos muito, mas muito mais aos estímulos da nossa subjetividade e nos distraímos, voluntariamente ou não, para o que responde o outro, para o que pensa o outro, para o que precisa o outro, para o que sente o outro… Vamos destruindo aos poucos toda uma construção ou desconstrução de valores dada às formas da nossa mais inata causalidade. Segundo Kant, há, em nós, uma intuição inata de ver ou perceber as coisas. É, portanto, esta dimensão que a Escola, a Universidade, os pais, os amigos e familiares, a sociedade e mesmo nós, cada um de nós, deve dinamizar para melhor formar opiniões que visem ao diálogo e à desconstrução de preconceitos. Resgatando, assim, a luminosidade de novas pessoas, o fulgor de novos sujeitos que deem também importância ao que está fora, perto e longe, a alteridade, o altruísmo, a caridade, o apreço pelo diferente.

Na minha opinião, a sociedade não pode ficar órfã de homens e mulheres adeptos de uma boa leitura; afeitos à música; dedicados à família; focados no trabalho; zelosos à cidadania; fiéis ao cristianismo; compromissados com a verdade; fazedores da justiça; eleitores da honestidade e não da força econômica; sabedores e cumpridores da ética; protagonistas do amanhã; formadores de si mesmos. Qual a sua opinião? Por que não tenta começar a expressá-la agora mesmo?


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

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O filósofo prefeito

Não precisa ser nenhum “expert” em gestão pública para saber que governar uma cidade é, com dúvidas, um desafio. Digo “com dúvidas” porque nem sempre se entra numa prefeitura com tanto ímpeto assim. Se para alguns é um desafio, e aí se percebe uma certa preocupação com a coletividade, em fazer mais pelo bem comum, um bem que compete mais a todos do que a uma parte. Para outros, é uma ciranda de roda(brincadeira), onde o centro das atenções está voltado para o umbigo de quem administra e de suas ambições, relativamente mesquinhas. E, para um filósofo, como seria administrar? Tiraria o umbigo ou faria de conta que ele não existe?

O umbigo aqui representa interesses particulares, ambição no seu mais alto grau. Na época de Michel de Montaigne, por volta da segunda métade do séc. XVI, administrar não era um ofício dos mais encantadores, mas esse filósofo foi prefeito por duas vezes na cidade de Bordeaux, na França. Ligado às campanhas  militares entre os nobres, não abria mão de escrever. Aceitou ser prefeito, mas com uma condição, não abdicar de seus escritos por hipótese alguma. Isso o fazia primeiro filósofo, depois prefeito. Certamente, herdeiro de algumas convicções da burguesia francesa, portou-se muito mais como um aristocrata no poder do que como um democrata populista afeito aos camponeses e aos pobres das províncias.

Ora, estamos no contexto do avanço do humanismo racionalista, em pleno Renascimento,  com as roupas sujas da Idade Média. A política ainda estava se aperfeiçoando. Teorias políticas como as de Hobbes, Maquiavel, Tocqueville, Marx e outros ainda estavam em germe. Montaigne se destacou justamente por desafiar, com suas dúvidas pertinentes, um humanismo dogmático que pretendia imputar ao homem um poder ilimitado e centralizador. Como bom renascentista, Montaigne cultivou bom humor, imaginação, e um determinado tipo de realismo ao discutir questões do cotidiano humano.

Porém, o que marca talvez o seu humanismo, embora cético e limitado, é a humildade, pois coloca o homem como um grão de areia comparado às infinitas espécies de seres que existem sobre a terra. Via o homem em relação aos outros animais, não mais nem menos do que eles, a não ser pela filosofia e pela religião. É possível encontrar inúmeras referências de animais nos “Ensaios” de Montaigne, algumas até com uma preciosidade em detalhes, o que endossa a tese de que não somos seres tão perfeitos assim, uma vez que somos falhos e passíveis a cometer tolices, sobretudo na esfera pública(Cf. Ghiraldelli Jr. A Aventura da Filosofia. Vol 1. São Paulo: Manole, 2010, p. 103-113).

É óbvio que não tenho a pretensão de colocar Montaigne como um prefeito de referência para o universo dos prefeitos de hoje. As cidades estão cheias de problemas de urbanização; não são mais províncias, pelo menos no estilo de vida; poluição; desemprego; superpopulação; transportes públicos sucateados; estradas e rodovias esburacadas. A industrialização chegou, a tecnologia também; a servidão diminuiu com o ganho de liberdade; a democracia abriu as portas à participação popular no poder central; as guerras militares praticamente diminuíram, o terror surgiu como a maior das armas de guerra, depois da bomba atômica. O capitalismo transformou o trabalho feudal de sobrevivência humana em trabalho industrial que visa concorrência, exploração e acúmulo de bens(riqueza).

Com isso, não pensem que Montaigne foi superado. Não. Montaigne apenas foi modificado. O homem se transformou desde Montaigne até aqui e continua a se transformar. O fato é que problemas como a corrupção que já existia na época de Montaigne estão mais visíveis. A história não mente quanto à burguesia absolutista na França nesse período e logo depois o clima de insatisfação popular que eclodiu com uma tremenda revolução em 1789, fazendo surgir a tão sonhada República e a emancipação dos direitos humanos.

Todavia, algo de Michel de Montaigne os prefeitos deviam herdar, a sua humildade e o seu zelo para com a coisa pública. Diferentemente de Luís XIV que reinou a França de 1643 a 1715 e que ficou conhecido pela frase: “C’était c’est moi” – “O estado sou eu”, Montaigne advertia em seus “Ensaios” que em cada cidade devia haver um lugar onde as pessoas pudessem ir até lá a fim de resolver seus problemas e satisfazer suas necessidades, este lugar era a prefeitura, imagino eu, de modo a abrigar os que não tem casa, salários, roupas e comida. Este era um conselho de seu pai que preenche as lacunas de uma administração, lamenta Montaigne por não ter seguido tal conselho a risca. Já naquela época, o pai de Montaigne orientava o filho que para administrar uma casa era necessário registrar as transações financeiras, inscrever as contas, exigir que o secretário anote todas as informações num diário, enfim…(Cf. MONTAIGNE. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1972, p. 113-114).

Além do mais, ser prefeito do quilate de Montaigne significa admitir erros, incoerências e duvidar das certezas. Jamais pensou que governava sozinho, muito menos para um grupo. Ele governava com humildade e com muita naturalidade. Sua responsabilidade com as dívidas era de impressionar, basta conferir o que diz acerca das orientações do pai em relação às contas da família, avalie então o que seu pai não diria a respeito das contas públicas!

Cidadão, como estão as contas de seu município?


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia

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“Platões” de um mesmo Platão

Pelas evidências da vasta produção literária sobre o assunto, pude perceber que Platão ainda continua mexendo conosco, o caráter poliédrico ou polivalente de sua filosofia, segundo Reale (1990: 133) fora capaz de incomodar muita gente, inclusive o próprio Popper. Se Popper provocou todo esse rebuliço na dimensão política de Platão, é porque algo mexeu com ele, alguma coisa que veio de Platão o instigou.

O texto “Defender Platão de Popper (ou de si mesmo?)” de Vegetti(2010: 193-230) é muito sugestivo para nos ajudar a tirar Platão do estado de crisálida e alçar voo em sua dimensão política, tão mal compreendida por Popper. Quero dizer que para defender Platão até de si mesmo quanto mais de Popper exige-se despertar os estudiosos do século XX para uma análise do Platão clássico, historiográfico e autêntico, ligado às suas fontes literárias.

Certamente, as provocações de Popper serviram até certo ponto para nos tirar de uma posição confortável quanto a um Platão de absoluta autoridade com que a tradição cristã e boa parte da histórica do Ocidente o haviam considerado. Platão não é dogmático e nunca poderá se esquivar de qualquer contrassenso. Platão responde a si mesmo em suas obras.

Ao sugerir pelo silogismo: “que o pensamento liberal-democrata fosse o único modo aceitável de conceber a política”(Vegetti, 2010: 193), Popper não só abre um forte precedente para tirar Platão do pedestal teórico/doutrinário em que o haviam colocado, como também é possível admitir que motivava estudiosos, filólogos, filósofos e hermeneutas a desconfiar que “Platão estava errado”.

Parece, e aqui estou conjecturando, que Platão começa a ser amplamente revisado. O mais ousado de Popper é que, na posição de filósofo, em pleno séc XX, sua tentativa de atacar o criador da Academia provoca um efeito contrário ao esperado por ele. Suas críticas efusivas ao aspecto político liberal-democrata de Platão não apenas põem em evidência o pensamento clássico do contexto histórico ao qual vivia Platão, como também são responsáveis pelas abundantes produções no tocante à “coisa política” do “multifacetado”(Reale, 1990: 133) pensamento do filósofo, conhecido por sua alegoria da caverna e por sua temática política, ou melhor, ético-político-educativa(Reale, 1990: 133).

Dessas produções que nos fazem olhar para o Platão político, Vegetti é certeiro: Primeiro, “Platão era verdadeiramente, de alguma forma, um pensador político liberal-democrata”(2010: 194); Segundo, contrário a uma tradição milenar de Aristóteles a Popper, “Platão verdadeiramente não defendia que as posições expressadas nos seus diálogos políticos fossem, na realidade, desejáveis e de certa forma realizáveis”(Vegetti, 2010: 194), uma vez que “a) seus textos são do gênero literário da utopia e não apresentam nenhum aspecto projetual” e “b) seus diálogos políticos têm uma intenção irônica, que consiste em defender o contrário do que aparece à superfície do texto”(Vegetti, 2010: 194); Terceiro, “não obstante as aparências e o consenso quase unânime da tradição exegética, os ditos diálogos políticos de Platão não pertencem absolutamente ao âmbito da filosofia política, pois visam exclusivamente os problemas da moral individual(a polis é, quando muito uma metáfora da alma)”(Vegetti, 2010: 194).

Decorre daí, então, que o silogismo ou estratagema lógico de Popper não resistiu à panóplia de argumentos emanados dos textos políticos de Platão, sobretudo em larga escala a partir da segunda metade do séc. XX em diante, mostrando claramente que Popper, e não Platão, estava errado.

Curioso, pois “de Platão disse Montaigne: ‘Queiram sacudir e agitar Platão: cada qual, orgulhando-se de apossar-se dele, coloca-o do lado que quer’”(Reale, 1990: 124). Muito feliz essa expressiva citação de Montaigne feita por Reale em sua clássica obra que revigora os nervos da filosofia antiga de Platão em constante diálogo com o presente.

Na esteira do texto de Vegetti, é possível discutir ainda mais o Platão da “coisa política” em três dimensões importantíssimas: Platão liberal-democrata; Platão Utópico; e Platão irônico.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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Bibliografia:

REALE, Giovanni.(1990).História da filosofia: Antiguidade e Idade Média/Giovanni Reale, Dario Antiseri. São Paulo: Paulinas.

VEGETTI, Mário.(2010). Um paradigma no céu. Platão político de Aristóteles ao século xx. São Paulo: Annablume, p. 193-230.

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