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A redescoberta do outro em Levinas

É gratificante ler Levinas por um motivo muito simples, a minha subjetividade vem afirmada pela proximidade do outro. Sou eu quando o meu eu se permite entrar em contato com o outro. No dizer de Levinas é assim: “Próximo é o que permite que o Eu seja Eu, se constitua como subjetividade pelo que a significação própria da subjetividade é a proximidade”. É muito comum entre nós se dizer “bom dia”, “como vai?”, “você está bem?”, “Olá”, enfim, antes de se falar com o outro, segundo Lévinas, é uma saudação como esta que provoca abertura a. Num certo sentido, o pensamento, a própria dúvida de Descartes, é sempre palavra. Não se trata aqui da questão meramente psicológica, sentimental, de saber se pode um pensamento sem palavra. Mesmo se isso existir, o pensamento quer ser palavra. E, falando(dirigindo-lhe a palavra), já se encontrou o outro.

Sua proposta filosófica é bastante íngreme, porém permeada de doçura e inteligência a partir do momento em que a relação com o outro se torna uma relação fundamental, pois é sobre ela que se enxertam o ser e o saber. “A partir da experiência da totalidade, pode-se passar a uma situação na qual a totalidade se despedaça, pois essa situação condiciona a própria totalidade. Essa situação é o fulgor da exterioridade ou da transcendência no rosto dos outros. O conceito dessa transcendência rigorosamente desenvolvido se exprime com o termo infinito”(Totalidade e Infinito, p. 23). O outro, pelo simples fato de existir, é razão do viver e do viver junto, porque é desafio a sair de si, a viver o êxodo sem retorno do amor.

Lado a lado com a alteridade, Levinas afirma que a felicidade baseada no consumo decadente visa apenas alcançar objetivos desenfreados a fim de consumir o sujeito num vácuo de sentido sempre maior. Ao passo que se entrevê a possível felicidade quando se entende que as razões do viver estão em outros e há um motivo verdadeiro para viver na medida em que se tem a quem amar. Contudo, vê-se em Lévinas ou com Lévinas o rosto dos outros, em sua nudez, em sua concretude, no simples pôr-se de seu olhar, é a medida para a falta de fundamento de todas as pretensões totalizantes do eu (Cf. ibidem, p. 23-25).

Portanto, “o outro não é a encarnação de Deus, mas é através de seu rosto, no qual está desencarnado, que a manifestação da majestade de Deus se revela”(Ibidem, p. 77).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

 

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Levinas e o trato com o dinheiro

O dinheiro é um assunto por si mesmo delicado, de modo que o nosso bolso vem a ser, nos dias de hoje, uma das partes mais delicadas e sensíveis do nosso corpo. Como se o bolso fosse um membro inerente ao corpo. Algo inteiramente absurdo.

A bem da verdade, é assim mesmo que tratamos o dinheiro, como algo essencial e imprescindível para a sobrevivência. Ao longo do tempo, o dinheiro vem sendo um fator preponderante nas relações econômicas, invadindo as relações do homem com o outro, com Deus, com o planeta e com a própria vida, o que é absolutamente questionado.

Levinas observa um aspecto interessante nesse valor monetário: “Na economia – elemento em que uma vontade pode dominar outra – sem destruí-la como vontade – opera-se a totalização de seres absolutamente singulares dos quais não há conceitos e que, em virtude de sua própria singularidade, se recusam à adição. Na transação realiza-se a ação de uma liberdade sobre a outra. O dinheiro, cuja significação metafísica talvez não foi ainda medida”(LEVINAS, E. Entre Nós. Rio de Janeiro: Petrópolis, Vozes. pp.63. 2004). Para Levinas, a pessoa está fora da totalidade quando na transação e no comércio o próprio indivíduo é comprado ou vendido, visto que o dinheiro sempre é, em qualquer grau, salário. “Contravalor de um produto, ele age sobre a vontade, que ele tenta, e apodera-se da pessoa”(ibidem, pp.64). Na visão de Levinas, o dinheiro jamais deverá usurpar a dignidade de ninguém, sobretudo seus direitos, seus afetos, sua paz, além disso, sua vida e sua fé, elementos constitutivos da consciência humana.

É super atual o tema em questão porque convivemos, a todo o momento, com uma mentalidade mundial global chamada de “neoliberalismo econômico” que escraviza ou redimensiona o ser humano a uma espécie de objeto de valor de mercado, onde não há limites. Se vamos ao banco para fazer um empréstimo e saldar nossas dívidas, pagamos o dobro do valor real pelo empréstimo. Um absurdo! Enlouquecemos analisando juros aqui e juros ali. É uma verdadeira guerra de vantagens e desvantagens. O valor econômico, no caso, o dinheiro vem diminuindo as possibilidades humanas de ampliar sua vida cultural e espiritual, pois as vontades da consciência ficam restritas ao que você pode ou não pode comprar. Se queremos viajar, o dinheiro vem na frente. Se queremos ler um bom livro é preciso analisar o preço pra ver se é suficiente ou não para comprá-lo. Se queremos melhorar a mobília da casa o orçamento não dá para cobrir. Se queremos comprar um carro não temos dinheiro. Se queremos fazer um curso melhor não temos dinheiro. Se queremos ter um filho não temos como mantê-lo. Se moramos de aluguel e queremos comprar uma casa o dinheiro novamente não dá. Ora, tudo nesse país esbarra no dinheiro, pois é ele que restringe nossas vontades de vivermos com mais qualidade.
Agora, deveríamos ter a consciência de que o dinheiro pode comprar muitas coisas menos nós mesmos. Ele não compra o homem, por mais pretensioso e ambicioso que seja este indivíduo. Do ponto de vista espiritual, a situação é mais grave ainda porque o homem de hoje tem a petulância de comprar tudo, mas aí é que se engana. Compra remédio, mas não compra saúde. Compra cama, mas não compra o sono. Compra casa, carro, mas não compra paz espiritual. Compra o poder político, mas não compra o Espírito Santo. Compra gado, fazendas e ações na bolsa de valores, mas não compra Deus. De fato, se pararmos um pouco e pensarmos, o que acumulamos na vida poderia servir tanto para concretizar a justiça, o amor e a partilha tão raros nesse mundão de uma economia neoliberal como para agradar maravilhosamente o nosso Deus. Mas, o homem já não sabe o que fazer com tanto dinheiro!
Não foi à toa que o Profeta Amós assim nos transmitiu o brado de Deus pelos pobres: “Por três transgressões de Israel e por quatro não retirei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sapatos”(Am 2.6). A justiça na Bíblia tem a ver com santidade, pois é fruto da caridade e do amor. Segundo Levinas, a totalidade se dá quando o eu e o outro assumem uma reciprocidade tal que nada exterior a eles pode condicioná-los ou alienar, como se o mundo inteiro não existisse, somente aquela relação, é o que constitui o Nós. A cumplicidade do “nós” está fora no momento em que há usurpação pelo dinheiro, isto é, ao invés de ser dono do dinheiro, este é que é o seu dono. O dinheiro passa a ser seu dono, quando deveria ser o contrário! Daí ser oportuna, para concluir, a voz humanizadora de Levinas: “Não podemos atenuar a condenação que, desde o versículo 6 do capítulo II de Amós até o Manifesto Comunista, pesa sobre o dinheiro, exatamente por causa de seu poder de comprar o homem. Mas a justiça que deve salvá-lo não pode, contudo, renegar a forma superior da economia – ou seja, da totalidade humana – em que aparece a quantificação do homem, a medida comum entre homens, da qual o dinheiro – seja qual for sua forma empírica – fornece a categoria. É decerto muito chocante ver na quantificação do homem uma das condições essenciais da justiça. Mas concebe-se uma justiça sem quantidade e sem reparação?”(ibidem, pp. 65).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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O outro não é o “mesmo”(mesmice)

Muito recentemente, tenho descoberto uma renovada alegria, encontrar-me com a inteligência do pensamento de Emmanuel Levinas. Sua linguagem bem elaborada faz, de quem o lê, balançar-se, sacolejar-se prá lá e prá cá em temas açucarados da atualidade, como: paz, guerra, violência, pluralismo, responsabilidade, alteridade, liberdade, entre outros.

Filósofo celebrado em seu meio acadêmico, Levinas é marcadamente aquele que é conhecido, de certo modo, por popularizar a cultura judaica em discussões altamente filosóficas ao rigor ocidental. Faz isso com muita habilidade e maestria, uma vez que transparece uma forte docilidade humana no modo de manifestar suas contundentes ideias em vista de uma concretude fenomenológica, isto é, o desejo de expressar o que realmente a consciência das coisas significa.

Estamos o tempo todo sendo engolidos por uma mentalidade gravíssima de consumismo. Não nos satisfazemos com o que temos, tampouco com o que somos. Não tínhamos um celular ao gosto, logo passamos a tê-lo, mais rápido ainda o desejo de possuí-lo acaba passando. O mesmo ocorre com uma televisão, com um carro, com uma casa, com o casamento, com a namorada, enfim, com quase tudo. Quase tudo é descartável e, rapidamente, num piscar de olhos, tudo isso passa a não mais implicar sentido às nossas vidas. Como escapar dessa mentalidade artificial, passageira, consumista, fútil, monótona que insere o homem moderno num tremendo vazio existencial? Levinas ousa explicar melhor esse problema e aponta uma possível solução.

“‘Mesmo no riso o coração sofre e na tristeza termina a alegria?’(Prov. 14.13) O mundo contemporâneo, científico, técnico e gozador se vê sem saída – isto é, sem Deus – não porque tudo lhe é permitido e, pela técnica, tudo possível, mas porque nele tudo é igual. O desconhecido logo faz-se familiar e o novo, costumeiro. Nada é novo sob o sol. A crise inscrita no Eclesiastes não está no pecado, mas no tédio. Tudo se absorve, se deturpa pouco a pouco e se enclausura no Mesmo, encantamento dos lugares pitorescos, hipérbole dos conceitos metafísicos, artifício da arte, exaltação das cerimônias, magia das solenidades – em todas as situações se suspeita e se denuncia um aparato teatral, uma transcendência de pura retórica, o jogo. Vaidade das vaidades: o eco de nossas próprias vozes tomado como resposta às poucas orações que ainda nos restam; em toda parte, recaída sobre nós mesmos, como após o êxtase da droga. Com exceção de outrem que, em todo esse tédio, não se pode abandonar.(…) As noções do antigo e do novo, entendidas como qualidades, não são suficientes à noção do absolutamente outro. A diferença absoluta não pode delinear ela mesma o plano comum àqueles que diferem. O outro, absolutamente outro, é Outrem. OUTREM NÃO É UM CASO PARTICULAR, UMA ESPÉCIE DA ALTERIDADE, MAS A ORIGINAL EXCEÇÃO À ORDEM. NÃO É PORQUE OUTREM É NOVIDADE QUE SURGE UMA RELAÇÃO DE TRANSCENDÊNCIA; MAS É PORQUE A RESPONSABILIDADE POR OUTREM É A TRANSCENDÊNCIA QUE PODE SURGIR ALGO DE NOVO SOB O SOL”(In LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à ideia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes. 2008. Pág. 31).

É no finalzinho, lá no fim da linha do horizonte, ou se preferirem, “para além do horizonte” que há um clarão, contraponto da fria existência desmotivadora e monótona, o outro. Como contraponto do Mesmo surge o Outro. A novidade do outro responde aqui as questões da existência humana e aponta, segundo Levinas, uma saída concreta para a sociedade moderna, bastante louvável aos que amargam a uma vida pessimista e sem sentido algum.

O outro nos motiva. O outro nos renova. O outro nos faz viver. O outro nos eleva. O outro nos cura. O outro nos faz outro. O outro não é o mesmo. O outro nos arranca da mesmice!

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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A glória de Deus, sua Palavra e a natureza do ser na ética de Levinas.

Quando se encontra com o movimento e os trejeitos de capturar a natureza do ser em Emmanuel Levinas, descobre-se não só a importância que ele dá à ética, como também à Palavra de Deus, sobretudo em tempos que equivocadamente, a meu ver, exclui-se a relação da Filosofia com a Revelação divina. Acredito que essa aproximação traz uma riqueza formidável para o alargamento de nossa compreensão do mundo e da Natureza do ser.

Para Levinas, deve-se por em questão a “essencial natureza” . O que Levinas quer fazer é dar uma reviravolta no pensamento de sua época. Conheceu Heidegger, Sartre. Fora aluno de Husserl e contemporâneo de duas grandes guerras mundiais do Século passado. Não bastasse isso, Lévinas propõe superar seus contemporâneos, de tal modo que rompe com o subjetivismo individualista e psicológico de seus colegas de discussão filosófica. Dá à fenomenologia todo um estranhamento que lhe é própria.

Sua visão parte do outro homem. Pra começar, Levinas desconstrói uma metafísica inteiramente emotiva e caminha em direção à liberdade do outro, do rosto do outro, descobrindo aí o próprio âmago do fenômeno, um excedente de significação que chama de “glória” . A superação de Levinas tem uma saída que passa pela “glória”, a qual lhe suplica, reclama, convoca responsabilidade. Uma súplica, uma reclamação e uma convocação bastante coerente à sua visão do rosto de outrem. Daí, uma pergunta se faz oportuna: “Não se deveria chamar palavra de Deus esta súplica ou esta interpelação ou esta convocação à responsabilidade?” .

Mas Levinas recorre à palavra glória nesta obra, é bom que se fique claro, para falar do rosto que é, segundo ele, o excesso de significado pelo outro. Chegar ao extremo pelo outro. “A orientação da consciência sobre o ser na sua perseverança ontológica ou no seu ser-para-a-morte, em que a consciência está segura de ir ao extremo – tudo isto é interrompido frente ao rosto do outro homem. É, talvez, este além do ser e da morte que significa a palavra glória, à qual recorri ao falar do rosto” .

Levinas parece entender “glória” quase como um grito da natureza. Para lembrar Spinoza, o próprio Levinas afirma: “O humano por detrás da perseverança no ser”. Em outras palavras é ver o humano por trás do “conatus” de Spinoza, como se a natureza ficasse nua diante de nossos olhos.

Vejamos, assim, o que Levinas fala do natural para endossarmos esta ideia: “No natural do ser-ao-qual-importa-seu-próprio-ser, em relação ao qual todas as coisas, como o que está ao alcance da mão, como utensílio – e até o outro homem – parecem tomar sentido, a essencial natureza põe-se em questão. Reviravolta a partir do rosto de outrem em que, no seio mesmo do fenômeno em sua luz, significa um excedente de significância que se poderia designar como glória que me interpela e me ordena” .

Todavia, se a crise de seu tempo encontrava-se numa autonomia do eu que nega toda alteridade pelo assassinato ou pelo pensamento englobante e totalizante geradores de guerras e conflitos entre os povos, é preciso então erradicar a deposição pelo eu de sua soberania de eu: “Na deposição pelo eu de sua soberania de eu, sob sua moralidade de eu detestável, significa a ética, mas também, provavelmente, a própria espiritualidade da alma e, certamente, a questão do sentido do ser, isto é, seu apelo à justificação”.

Portanto, a deposição do eu(mesmo) como eu(outro) ou do velho eu a um novo eu também se inscreve assim: “A maravilha do eu reivindicado por Deus no rosto do próximo – a maravilha do eu desembaraçado de si e temente a Deus – é assim como a suspensão do eterno e irreversível retorno do idêntico a si mesmo” .

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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A santidade em Levinás

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Todos nós temos uma vocação à santidade. Ou a acolhemos ou a renunciamos, porém não a eliminamos, visto que nos comportamos, nos movemos e agimos não só pelo que nos falta, pelo que nos carece, mas também pelo que nos basta, pelo que nos excede. Não à toa, estamos sempre a procura do que é verdadeiro, que não é uma simples adequação do meu pensamento à coisa ou vice-versa, mas uma inadequação pura, um paradoxo, que nos perturba e incomoda porque nos ultrapassa, o humano. “Nunca pretendi descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas o que a própria depravação humana não saberia eliminar: a vocação humana à santidade”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

Um pensamento marcadamente humano, certamente consequência do sentimento trágico da segunda guerra mundial, a visão de Levinás é fruto da discussão que há na primeira metade do século XX: o que é o meu direito sobre o direito dos outros? Aqui ele mostra como os homens têm uma vocação à santidade que a violência não consegue eliminar ou não sabe eliminar. Seu valor à santidade deve vir da força da sua biografia, filósofo lituano, judeu, que acaba conseguindo a cidadania francesa em 1938. Vive num período histórico bastante conturbado entre as duas grandes guerras. É testemunha do surgimento e do esgotamento do Nazismo imposto por Hitler, responsável por destituir o caráter do outro e dizimar milhares de vidas humanas. Além disso, sua motivação é exatamente a perseguição ao terror promovida pelo Nazismo e por todo o movimento histórico em que passa a Europa, a partir da segunda década do séc. XX.

Em virtude disso, Levinás institui uma ética baseada na responsabilidade pelos outros. O caráter do indivíduo se reconhece numa dimensão de coletividade. Ele admite ainda que há uma transcendência em nossas relações: o eu que se reconhece nos outros porque é uma transcendência de mim mesmo que acontece no rosto do outro. Quando eu me reconheço no rosto do outro está acontecendo uma radicalidade ética: o primado do outro sobre o primado do eu.

A santidade, para Levinás, segue esse viés de abertura ao outro, muito afinado até com o rigor ético presente na Bíblia. Conceitos como o de bondade, justiça, hospitalidade, estrangeiro, são acolhidos no seu discurso filosófico. Afirma que não é ridículo, pelo contrário, é incontestável pensar o valor à santidade. “Ela não se prende inteiramente às privações, ela está na certeza de que é preciso deixar o outro sempre em primeiro lugar em tudo – desde o ‘depois do senhor’ diante da porta aberta até a disposição – quase impossível mas que a santidade o pede – de morrer pelo outro”(POIRIÉ, François. Emmanuel Levinás: ensaios e entrevistas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84).

Guardadas as devidas proporções de contexto, o mundo hoje tem uma tremenda dificuldade de lidar com as questões éticas, talvez por causa do politicamente correto, da política da boa vizinhança, do jeitinho, da camaradagem, das conveniências e do excesso de ideologias. No coletivo, paira uma certa superficialidade entre os sujeitos. Um encontro que requer a presença autêntica, sincera do outro. Tudo é muito politicamente correto ao ponto de absorver a importância do caráter de cada um. A impressão que se tem é que os espaços sociais estão cheios de gente que se tratam como gente, fazem acordos, assumem compromissos, etc, mas, em algum momento, tudo pode ser quebrado e desfeito. A sensação é de que a santidade se faz cada vez mais urgente. Menos ideologia, mais ética, mais santidade.

Levinás deixa claro que a santidade precisa ser valorizada para uma sociedade e um indivíduo se tornarem mais humanos: “Não afirmo a santidade humana, digo que o homem não pode contestar o supremo valor da santidade. Em 1968, ano da contestação dentro e em torno da Universidade, todos os valores estavam no ar, exceto o valor do outro homem ao qual era preciso dedicar-se. Os jovens que por várias horas se entregavam a todas as diversões e a todas as desordens, no fim do dia, iam visitar, como a uma oração, os operários em greve na Renault. O homem é o ser que reconhece a santidade e o esquecimento de si. O para si expõe-se sempre à suspeição”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

A santidade se caracteriza como extravasamento da compreensão do ser, na medida em que se vive para outrem, apropriando-se de uma outra ordem, a ordem do humano. A santidade é mais do que racional, é um mandado divino que rompe com a ordem natural e nos insere na dimensão de reconhecimento do rosto do outro: “Vivemos em um Estado em que a ideia de justiça sobrepõe-se a essa caridade inicial, mas nessa caridade inicial reside o ser humano; a ela remonta a própria justiça. O homem não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como queria Heidegger, mas é o ser que já ouviu e compreendeu o mandamento da santidade no rosto do outro homem. Também quando se diz que originariamente há instintos altruístas, reconheceu-se que Deus já falou. Ele começou muito cedo a falar. Significado antropológico do instinto! Na liturgia hebraica cotidiana, a primeira oração da manhã diz: ‘Bendito seja Deus, Senhor do mundo, que ensinou ao galo a distinguir o dia da noite’. No canto do galo, o despertar para a luz”(Idem, p. 40).
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.
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“Alter-ego” na filosofia de Levinás…

(Imagem: Cena que encerra o filme “Tempos Modernos”, à medida que o filme vai acabando, o casal vai sumindo na estrada junto com o filme. Maravilha! O filme nos mostra a ideia de continuidade em que nos coloca além dos padrões da modernidade. O que chama a atenção e enche a tela não é o fim, mas um horizonte que parece não ter fim).

É muito comum em nossas atividades diárias experimentarmos um certo gozo incontido, principalmente nas pequenas coisas. Mesmo aquelas coisas mais repetidas do dia a dia como escovar os dentes, andar até a escola, visitar um amigo, encontrar-se com um membro familiar, ir até ao mercado, tomar um sorvete, saborear uma boa comida, aliviar-se da bexiga cheia… A propósito, um judeu que se preze, nascido em Israel, educado segundo às Escrituras, certamente já viveu alguma vez na vida a fabulosa experiência da “beraká”, uma alegria extraordinária que inunda a alma de amor próprio, de autoconhecimento e de intensa consciência de si mesmo. Para o judeu, das coisas mais simples às mais complexas, até mesmo urinar ou saciar a sede com um simples copo d’água é motivo de gozo, de ação de graças. O judeu dá graças a Deus por tudo! Parece que há um pouco disso na filosofia da alteridade de Levinás, principalmente quando se descobre os limites do eu.

Na contramão do que pensava Kant sobre a consciência do eu transcendental como fundamento e medida do conhecimento e da moralidade, Levinás admitia originariamente que “ser eu é existir de tal maneira que se esteja já para além do ser, na felicidade. Para o eu, ser não significa nem se opor, nem se representar alguma coisa, nem se servir de alguma coisa, nem aspirar a alguma coisa, mas gozar dela”(LEVINAS, Emmanuel. Totalité et infini. Trad. José P. Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 124). Nessa direção pessoal de Levinás, temos um eu que se identifica no gozo que sente em viver bem com a realidade do mundo, em fazer bem as coisas na sua simplicidade, como que se a identidade do eu viesse junto com a felicidade. Uma espécie de ação de graças por cada ato do dia realizado, como se isso constituísse o eu de uma grandeza e elevação tal que o mundo todo se bastasse nele. “O gozo é a própria produção de um ser que nasce, que rompe a eternidade tranquila da sua existência seminal ou uterina, para se encerrar numa pessoa que, vivendo no mundo, vive em sua casa”(idem, p. 54).

Segundo Levinás, antes de duvidar, o eu é pura sensibilidade. Antes de abstrair-se, o eu é concreto e pura relação de si com o mundo. “O eu é sempre mais do que a sua posse. Aliás, não há posse. Há o indivíduo que se produz a partir de si, de sua própria subjetividade em um mundo concreto, no qual ele tem poderes e se mantém apoderando-se das coisas. O eu não se dissolve na totalidade da história e no absoluto; possui uma identidade que se faz a partir de si na relação com o mundo”(KUIAVA, Evaldo Antônio. Subjetividade Transcendental e Alteridade: um estudo sobre a questão do outro em Kant e Levinas. Caxias do Sul, RS: EDUCS. 2003. p. 152).

Mesmo admitindo que existe uma identidade do eu em relação ao mundo, Levinás dá ênfase a um dado extremamente sólido em sua filosofia, a alteridade. A leitura que se faz do ego em Levinás é inteiramente submetida à noção de outro, de alter. Daí, sua disposição em orientar seu pensar para o fulcro da alteridade. “Ao contrário de Kant, para o qual a autonomia do sujeito era o princípio supremo da moralidade, para Lévinas a categoria chave do universo ético será a alteridade. O outro não figurará simplesmente como um alter-ego, um ego como eu. O seu objetivo consistirá em destituir o eu autônomo e soberano, incapaz de perceber no outro nada além de si mesmo. Sendo assim, romperá com o primado do eu sobre o outro”(idem, p. 147).

Ocorre assim, na ontologia de Levinás, como já era esperado, uma primazia do outro sobre o eu, uma vez que somente um eu destituído da sua soberania e soberba poderá ser, de fato, ético. Não se trata de decretar a morte da subjetividade, mas de combater ao monologismo e ao monarquismo, ou até mesmo, à uma espécie de ranço da modernidade em promover uma racionalização legalista no campo da moral de dos valores. Depõe-se, sem dúvida, com a atividade filosófica de Levinás voltada para a alteridade, o caráter normativo da subjetividade kantiana. “Apresentará a subjetividade como acolhendo Outrem, como hospitalidade”(LEVINAS, E. Totalité et infini…op. cit., p. 12).

Portanto, o eu que pensa, duvida, dorme, come, respira, sonha, ama, conhece, odeia, imagina, urina e tem sede, descobre a presença de algo que ultrapassa seus limites, a sua finitude, por isso, a possibilidade de acolher outrem. É possuindo a ideia de infinito que se destitui o eu de sua autonomia e de seu pedantismo racional, como se o eu se dobrasse aos seus próprios limites. Entende-se, com isso, a famosa expressão de Levinás: “Possuir a ideia do infinito é já ter acolhido outrem”(idem, p. 94).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Responsabilidade

(Imagem: E. Levinás em diferentes ângulos, filósofo lituano, um mestre)

      Você já se deu conta da responsabilidade em sua vida? Melhor dizendo: Você se acha responsável? Repare bem. Há algum rastro de responsabilidade em sua existência? Não seja tão rápido assim ao responder. Pense bem ou espere até ler esse texto. Você vai ver que não é tão responsável quanto pensava ser.

A responsabilidade é uma expressão muito usual, demasiadamente corrente e recorrente em nossas vidas, talvez por essa razão estejamos dando pouca importância ao que ela realmente é ou dizem dela ser o que é. Da antiguidade ao existencialismo, o homem vem se debruçando sobre esta problemática ética, e por mais que queira, não conseguiu de todo se afastar de uma exigência tão cara à voz e ao coração do outro. Pois, contrariamente ao que achamos, a responsabilidade não nasce de mim, mas do outro. “A responsabilidade não nasce de uma boa vontade, de um sujeito autônomo que quer livremente se comprometer com o outro ser. Ela nasce como resposta a um chamado”(KUIAVA, Evaldo Antônio. A responsabilidade como princípio ético em H. Jonas e E. Lévinas: Uma aproximação. Porto Alegre, RS. Veritas, v. 51, nº 2, junho, 2006, p. 55-60). Não vem de mim, mas do outro. Não é uma exigência da liberdade, mas uma exigência do outro. É por isso que muitas vezes, sem explicação alguma, contrariando toda lógica, liberamos o bem a quem não nos quer bem, agimos em direção ao outro contra nossa própria vontade. A responsabilidade, segundo E. Levinás, filósofo lituano de nacionalidade francesa, é anterior à minha consciência, aos meus interesses e às minhas mesquinhas intenções.

Quem não contrariou a si próprio por causa de um chamado, de um clamor, de uma voz, de uma necessidade sem voz, não experimentou o sabor da responsabilidade. Quem não renunciou a si mesmo, às suas intenções e à sua consciência, para atender a um chamado, ainda não é digno de responsabilidade. Os que cumprem horários rigorosamente pensando que, só por isso, estão agindo de modo responsável, precisam se abrir a algo muito maior descoberto por Levinás. Aqueles que se esmeram em cumprir suas responsabilidades cheias de boas intenções, ainda não imaginam que há uma responsabilidade que ultrapassa os limites da liberdade de decidir ou não por uma outra pessoa. E aqui se encontra a guinada da Filosofia de Levinás que põe a Responsabilidade acima da sua e da minha liberdade, porque só somos livres, se formos de fato responsáveis. Não é aquela responsabilidade das empresas, nem tampouco a do cotidiano como varrer uma casa, fazer compras, ir à escola, não faltar ao trabalho, ir à igreja a que se refere Levinás, mas uma responsabilidade impregnada de desprendimento pelo outro em que o sujeito não se afasta do olhar do outro. Uma responsabilidade ilimitada que se oponha a uma outra que se mede pelos compromissos livres de uma consciência egoísta e gananciosa.

A responsabilidade como “ética da ética”, conforme apontam alguns estudiosos na Filosofia de Levinás, vem compreendida a partir de uma frase conhecidíssima de  Dostoievsky: “Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e eu mais do que os outros”(EI 105). A responsabilidade do eu é infinita. Ele é responsável, não só pelos atos ilícitos que comete, mas também por aqueles que não são de sua autoria, e até mesmo pelas perseguições que sofre. Como justificar tal concepção utópica? Não seria ela inumana? Eis a resposta de Levinás: “Ser humano significa: viver como se não se fosse um ser entre os seres. Como se, pela espiritualidade humana, se invertessem as categorias do ser, em um ‘de outro modo que ser’” (EI 107). O humano emerge, quando o eu, ao invés de procurar satisfazer seus interesses, estende a mão a outrem, carregando o peso do mundo nos seus próprios ombros(Cf. KUIAVA, Evaldo Antônio. A responsabilidade como princípio ético em H. Jonas e E. Levinás: Uma aproximação. Porto Alegre, RS. Veritas, v. 51, nº 2, junho, 2006, p. 55-60).

Após esse breve estranhamento acerca da responsabilidade, que é o ponto de discussão sobre as respostas éticas de Levinás, observamos não ser tão simples assim ser responsável nesse contexto, uma vez que o humano está cercado de pretensões que o impedem de viver saindo de si em direção a outrem, numa espécie de obediência acolhedora da face do outro. Que possamos responder a essa RESPONSABILIDADE!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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A fascinação do estrangeiro

(obra de arte de Salvador Dalí – Metamorfose de Narciso – 1937)

Pasmem. Mas o estrangeiro acrescenta e muito ao nosso “território” cultural, ao nosso eu cultural. Acrescenta em diálogo, em conhecimento e em aprendizagem. Sem muito esforço, conseguimos, logo de cara, perceber que se trata de alguém bastante diferente de nós.

Nesse ponto, não há como não evocar e provocar Lévinas, filósofo lituano, que nos diz algo mais ou menos assim: “Com o estrangeiro nos permitimos sair do mesmo em direção ao outro”. Se no pensamento de Lévinas é sempre o outro quem tem autonomia, o que dizer então do estrangeiro?!

Na cultura greco-romana, o estrangeiro era, de certo modo, repudiado, visto como inimigo, pronto para guerrear, sua presença era uma ameaça ao poder estabelecido naquele território. O império romano não tolerava os bárbaros, os excluía e os ameaçava a qualquer custo. Os bárbaros não representavam nada para os que detinham a hegemonia cultural. No entanto, cabe a pergunta: O que representava o Império Romano para os bárbaros?

Seguindo uma direção contrária à expansão dominadora e usurpadora do Império Romano, os cristãos são orientados por Jesus a amar o estrangeiro, bem como a viúva e o órfão, de modo a colocá-lo no centro do seu discurso, no episódio da cura dos dez leprosos: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”(Lc 17.18-19).

Mesmo sendo de outro mundo, falando uma língua diferente, de aparência, às vezes, diferente, de costumes diferentes, de uma visão de mundo estranhamente contrária à nossa, o estrangeiro cria uma atmosfera inteiramente curiosa nos ambientes onde chega e com quem conversa. Quem não lembra da chegada avassaladora do Estrangeiro de Eléia no diálogo platônico Sofista em que Sócrates parece ironizar com ele ao sentir-se bem à vontade no meio deles?! A impressão que se tem é que o Estrangeiro causa um certo “frisson” ao chegar no meio da conversa de Sócrates com seus discípulos. Sem ser um deles, o estrangeiro se faz um deles!

Não sei se essa sensação hoje em dia estaria um pouco minimizada devido ao grande processo de globalização por que passamos. Vivemos tempos de uma enorme aproximação dos mundos, das distâncias e etc. No entanto, não queremos abandonar nossos territórios, nossas coisas, nossas ideias, nossos apegos… Apegamo-nos a nós mesmos. Apegamo-nos muitíssimo às nossas vaidades pessoais. A verdade é que, enquanto nos prendemos a nós mesmos e aos nossos hábitos ao ponto de divinizá-los; um outro ser fascinante chama e continua a chamar por nós pedindo relacionamento, querendo aproximação e descoberta.

Ao revisitar um livro que guarda Grandes Indagações Filosóficas, Café Philo, deparei-me mais uma vez com o texto dialógico entre Paul Ricoeur e Jean Daniel sobre A estranheza do estrangeiro que me impressionou bastante, sobretudo porque trata o estrangeiro com fascinação, mas que poderia ser visto também com aversão. Aproprio-me aqui de um aspecto da sua fascinação, em que o estrangeiro, admite Paul Ricoeur, “é uma espécie de lugar vazio. Sabemos a que pertencemos, mas não sabemos quem são os outros em suas terras. Só por uma espécie de reação é que nos sentimos nós mesmos estrangeiros, conforme o modelo da estranheza do estrangeiro. A consciência disso é que nos põe num caminho de reconhecimento mútuo, na via da hospitalidade em suas dimensões morais e políticas, e permite assim tratar positivamente a pluralidade humana como algo insuperável”(pág. 13).

Mais adiante, numa certa altura das intervenções, Ricoeur reconhece ainda mais nossa condição humana de sermos estrangeiros de nós mesmos. “Acreditamos saber quem somos, ou mais exatamente acreditamos saber a que pertencemos, ali onde estamos instalados: a uma classe, a uma família, a uma nação etc. O estrangeiro é um desconhecido. Ao procurarmos num dicionário a palavra ‘estrangeiro’, encontramos: aquele que não é de nosso lugar, que é de outra nação, que é de outro país; é, pois, um lugar vazio. É por isso que acho que devemos começar por descobrir nossa própria estranheza nos ‘desinstalando’ de algum modo. Eu estava pensando um pouco na proposição do Levítico: ‘Fostes estrangeiros no Egito…’ Se não tivermos sido estrangeiros alhures, temos que descobrir nosso Egito. Nossa ‘estrangeireza’ simbólica. Ser estrangeiro simbolicamente”(pág. 16).

Reconhecer o estrangeiro na sua singularidade especial, como o fez Jesus, o próprio Lévinas, bem como Paul Ricoeur e Jean Daniel, significa superar a nós mesmos, partir de nosso “status quo”, de nossa zona de conforto e ir migrar, senão visitar ou até mesmo morar em outros mundos, em outras pessoas, em outras experiências. Que se trave, portanto, uma relação amistosa de hospitalidade com o outro, em que ambos se recebam mutuamente, de modo que nada os impeça de ampliar ainda mais suas diferenças culturais.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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A paciência

Ilustraçao da pacienciaÉ impressionante porque é verdade. A paciência é importante até para tomar água, avalie então o que ela pode fazer em diversos acontecimentos da vida. Ela também nos revela um relacionamento maduro com o tempo. Para simplificarmos, a paciência ainda nos alerta sobre a necessidade de conviver com a vontade do outro e suspender um pouco o ego, uma vez que “o egoísmo da vontade coloca-se à margem de uma existência que já não tem a tônica em si própria”(LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. 3ª ed. Lisboa, Portugal: Edições 70, junho de 2008, p. 237).
O desconforto físico pode ser evitado ou moderado respeitando o tempo, principalmente ao dormir, levantar ou trabalhar, tendo consciência da abertura de sua vontade em relação ao presente e ao futuro. Uma consciência que se articule com a ideia de tempo necessária para a nossa prevenção, como afirma Levinas: “Ser consciente é ter tempo. Não extravasar o presente, antecipando e apressando o futuro, mas ter uma distância em relação ao presente”(idem, p. 235).
A paciência precisa trabalhar com o verbo esperar. Esperar o melhor momento para agir; a oportunidade certa de decidir que caminho tomar. A isso dá-se o nome de obediência; saber ouvir a voz das coisas; observar a ordem na desordem; intuir a sutilidade do extraordinário nas mazelas do ordinário. Não é nada fácil conter os deslumbramentos do agir. Queremos fazer não importa como, nem quando, nem o quê. Somos tomados pela urgência do fazer, o que também é muito virtuoso, mas o polimento da paciência em nossas decisões pode nos levar a enxergar um sentido bondoso, generoso e feliz no simples agir. Repare que a paciência não exclui a ação de nossas vidas, pelo contrário, produz uma forma diferente de agir mediada pela espera, pela “passio”, pelo sofrimento.

(…); a passividade última que se transmuda, no entanto, desesperadamente em ato e em esperança, é a paciência – a passividade do suportar e, entretanto, o próprio domínio” (idem, p. 236).

O fazer por fazer nos põe num círculo repetitivo onde o mais importante acaba sendo eu mesmo, o apego a mim mesmo, constituindo assim o amor-próprio. Romper com esse círculo implica construir pontes que nos vinculem aos interesses de outros, familiares ou até estranhos a nós, constituindo-nos como um ser em relação.

Na paciência, a vontade perfura a crosta do seu egoísmo e como que desloca o centro da sua gravidade para fora dela a fim de querer como Desejo e Bondade que nada limita” (idem, p. 238).
Há inúmeros exemplos de paciência na literatura. Um episódio clássico é o de Telêmaco, filho de Ulisses, ao ter de esperar cerca de vinte anos para encontrar-se com o seu pai e, finalmente, vingar-se dos que cortejavam sua mãe e destruíam o trono de Ítaca. Ao voltar para casa, seu pai o encontra tomado pela ira, porém, o sábio Ulisses pede-lhe para controlar a ira até o amanhecer, pois tinha um plano em mente. Novamente, Telêmaco tinha que ter paciência e esperar até o dia amanhecer. A paciência o ajudou a ouvir seu pai, a controlar a ira e a não precipitar-se frente ao que estava por acontecer.
Na Bíblia, existe um outro clássico episódio em que vemos a mulher de Jó dizer-lhe palavras duras de blasfêmia contra Deus (Cf. Jó 2.9), mas o sábio, abençoado e, por isso, paciente Jó resistiu à prova da “passio”(sofrimento), da pura passividade, depurado de toda vaidade, ego, orgulho, viu seu cativeiro ser revirado de cima para baixo e tornou-se um homem ainda mais feliz e abençoado junto a Deus.
Diante desses exemplos e de tantos outros que conhecemos de sofrimento, de abnegação, de renúncia mesmo, não podemos mais ser reféns de nossa irritabilidade, falta de esperança, impaciência, quando simplesmente a vida não corresponde como planejamos; quando adoecemos; quando não recebemos o salário ou atrasa; quando não somos bem atendidos num restaurante, por exemplo; quando ouvimos desaforos; quando vemos as injustiças; quando o mundo parece cair sobre nossas cabeças; quando as chuvas não vêm e tudo fica mais difícil; quando temos que cumprir os horários de expediente no trabalho; quando estamos desempregados; quando…
Portanto, não perca a paciência com as adversidades da vida. Exercite-a!

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo

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