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Ver-se no espelho

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O possível é um extraordinário espelho”

(Kierkegaard).

Embora seja uma prática muito banal e corriqueira hoje em dia, “ver-se no espelho” significa a possibilidade de enfrentar sua própria vida, a sua e a de mais ninguém. Você pode levar até um longo tempo flertando consigo mesmo diante do espelho, mas o instante de “ver-se no espelho” um dia chega para todo mundo. É preciso ter coragem para ver sua própria tragédia refletida no espelho, sua alma. “Ver-se no espelho” acaba sendo um exercício brutal da consciência. 
Personagens marcantes da literatura passaram pela experiência arrebatadora de “ver-se no espelho”. Narciso, famoso pela sua beleza, nunca havia contemplado seu rosto, até que um dia, num lago, encontrou-se com sua imagem e ficou paralisado, entorpecido. Tomado pela impressão de embaraço que sua imagem lhe causou, Narciso não se conteve e afogou-se no lago. Essa história foi tão propagada que as pessoas alienadas ao mundo e aos outros são chamadas hoje de “narcisistas”, egoístas.

Ainda mais cortante é a história da Medusa, uma das três filhas de Fórcis e Ceto na mitologia grega, pois quem se atrevesse a olhar para ela transformava-se em pedra. Conta-se que ao dormirem profundamente, o herói Perseu aproximou-se, sem poder olhar diretamente para Medusa, e refletiu seu escudo de bronze para ela que não se conteve ao ver-se no escudo de Perseu e gritou assustadoramente. O herói aproveitou a oportunidade de assombro da Medusa e cortou-lhe o pescoço. O pintor Caravaggio, no séc. XVI, representa a cabeça da Medusa num escudo com cabelos de serpente, olhos esbugalhados e a boca terrivelmente aberta, querendo mostrar o estado de agonia diante de sua condição refletida no espelho de bronze.

Ver-se no espelho” implica perguntar: “Quem sou eu?” Você é jogado num realismo incomum e surpreendente, porque é uma pergunta que afronta sua condição humana. A mortalidade, o efêmero, a soberba, a ambição, o egoísmo, a vaidade, vícios e virtudes são refletidos no espelho da vida. Você pode simplesmente não querer se ver, recusar-se a ver, porque sua ação aqui coloca em questão a sua liberdade. Ou então ver-se numa outra pessoa paradigmática, isto é, ver-se em alguém que você deseja ser; um pai, irmão, mãe, artista de novela, cantor, escritor, jogador de futebol, modelo. De qualquer forma, a metáfora do espelho aponta para um realismo vital, a condição humana, mas nos abre a possiblidade do enigma frente ao imponderável. Ninguém sabe o quê, quem ou como seremos amanhã.

Para Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no séc. XIX, o “ver-se no espelho” está condicionado à sua liberdade. Ser humano para ele é conhecer a sua existência, seu nome, sua história, dramas, conflitos e contradições. Segundo ele, “ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém.” (In KIERKEGAARD, Soren Aabye. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. Trad. de Carlos Grifo, Maria José Marinho, Adolfo Casais Monteiro. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 212).

A metáfora do espelho põe o eu frente a frente com a sua liberdade. Ou ele tem consciência de si ao ver-se no espelho ou ele perde a consciência de si deixando que o seu eu se reflita imaginariamente no possível. “O possível”, afirma Kierkegaard, “é um extraordinário espelho, que só pode ser usado com a maior prudência. É na verdade um espelho ao qual podemos chamar mentiroso. Um eu que se olha no seu próprio possível só é semiverdadeiro, porque, nesse possível, está muito longe de ser ele próprio, ou só o é parcialmente (…). O possível lembra a criança que recebe um convite agradável e diz logo sim; resta saber se os pais darão licença… e os pais desempenham o papel da necessidade.”(idem).

De qualquer modo, “ver-se no espelho” é um ato de coragem que requer liberdade; e sendo a liberdade o próprio eu (Cf. idem, p. 207) para Kierkegaard, admitamos que o espelho, ao refletir o eu formado de finito e infinito, reflete também a liberdade como relação (dialética) entre o possível e o necessário.
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

www.umasreflexoes.wordpress.com
 

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Eu e meu irmão Kierkegaard

por Luiz Felipe Pondé para Folha
obras do amor

Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.

A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.

Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.

Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.

É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.

Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.

Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

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Kierkegaard e o amor

Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. […]

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta. A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori. Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. […]

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. […] Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente. Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço. […]

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem. […]

Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.

(Luiz Felipe Pondé jornal FSP – 13.06.2011)

FONTE do ARTIGO COMPLETO: AQUI

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