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Natalidade

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O nascimento do novo homem de Salvador Dalí

Conforme dados da ONU, nascem mais pessoas do que morrem a cada segundo. Só para termos uma ideia, nascem aproximadamente três pessoas ou mais por segundo no mundo. São cento e oitenta (180) nascimentos contra cento e três (103) mortes por minuto, portanto, a espécie humana é uma máquina de fazer nascer. Mesmo contra alguns prognósticos, teimamos em nascer, queremos nascer.

Independente da exatidão dos números acima, até porque vivemos atropelados pelos acontecimentos e pela onipresença da tecnologia, é interessante notar a força da espécie humana em querer nascer contra as desfavoráveis condições de vida.

Com o passar dos anos, a vida do ser humano está cada vez mais dura em várias frentes. Na frente climática, os dias têm sido de calor insuportável. A sensação térmica vem dificultando o bem-estar físico, o trabalho e até mesmo o convívio social. Na frente econômica, a inflação não deixa nosso dinheiro parar no bolso, sequer conhece o bolso, ganhá-lo está cada vez mais difícil e a oferta de emprego não é das melhores. Na frente política, mesmo com a globalização e o desaparecimento das fronteiras via internet, não conseguimos ser tão políticos como deveríamos, juntando esforços para causas mais coletivas, solidárias e sociais. Na frente religiosa, o Outro na sua diversidade passa ao largo dos interesses humanos, abrindo precedentes absurdos de intolerância, terrorismo e fundamentalismo religioso.

Todas essas frentes, e poderíamos citar mais, representam a dura realidade local e global tentando impedir ou obstaculizar a “natalidade”, o natal, o novo nascimento, o milagre do início, de um novo começo. Porém, as dificuldades da vida apontadas aqui não conseguem impedir a potência, a força, a ação deste nascimento, tal como está descrito nas Escrituras, a partir das perguntas de um fariseu, chamado Nicodemos: “Como pode um homem nascer sendo velho? Poderá entrar de novo no ventre materno para nascer?”(Jo 3.4). Jesus não o deixa sem resposta: “Eu te asseguro que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus”(Jo 3. 5).

Na esteira do que disse Jesus sobre o novo nascimento, a filósofa Hannah Arendt escolhe o conceito de “natalidade” para desenvolver suas ideias de liberdade, amor e educação. Uma liberdade que extrapola os apelos da necessidade. No amor, vale retomar o que disse Agostinho sobre as duas cidades. A cidade dos homens como o amor de si até ao desprezo de Deus. A cidade de Deus como o amor a Deus até ao desprezo de si. Por sua vez, a relação da Educação com a natalidade é que “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo” (ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1990. p. 223).

Para instaurar o nascimento na lei cíclica da mortalidade, interromper o curso inexorável e automático da ordem cotidiana da vida que nos arrasta lenta ou rapidamente até a morte é urgente aplicar nossa faculdade de agir. A ação, segundo Arendt, parece um milagre. “A ação é, de fato, a única faculdade milagrosa que o homem possui, como Jesus de Nazaré, que vislumbrou essa faculdade com a mesma originalidade e ineditismo com que Sócrates vislumbrou as possibilidades do pensamento…”(ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 7ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 258).


Assim como a capacidade de agir interfere no processo biológico da vida, esse mesmo agir também nos adverte que, embora todos devam morrer, “não nascem para morrer, mas para começar”.

A radicalidade, portanto, da capacidade de agir está na natalidade. O agir é essa capacidade humana de interromper a ruína, a destruição e a morte para iniciar algo novo. “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança, as duas características essenciais da existência humana que a antiguidade ignorou por completo, desconsiderando a fé como virtude muito incomum e pouco importante, e considerando a esperança como um dos males da ilusão contidos na caixa de Pandora. Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós'”(idem, p. 259).

Feliz Natal!

Ilustração: O nascimento do novo homem de Salvador Dalí.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.
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A política como espaço público

“Essa concepção, de que só pode ser livre quem está disposto a arriscar sua vida, nunca mais desapareceu de todo de nossa consciência; o mesmo vale para a ligação entre a coisa política e perigo e risco. A coragem é a mais antiga das virtudes políticas e ainda hoje pertence às poucas virtudes cardeais da política, porque só podemos chegar no mundo público comum a todos nós — que, no fundo, é o espaço político — se nos distanciarmos de nossa existência privada e da conexão familiar com a qual nossa vida está ligada. Aliás, o espaço no qual entravam aqueles que ousavam ultrapassar a soleira da casa já deixou de ser, em nossa época, um âmbito de grandes empreendimentos e aventuras, no qual o homem só podia entrar e no qual só podia esperar sair vitorioso se se ligasse a outros que eram seus iguais. Além disso, é verdade que surge no mundo aberto para os corajosos, os aventureiros e os ávidos por empreendimento uma espécie de espaço público, mas ainda não-político no verdadeiro sentido. Torna-se público esse espaço no qual avançam os ávidos por façanhas, porque eles estão entre seus iguais e se podem conceder aquele ver, ouvir e admirar o feito, cuja tradição vai fazer com que o poeta e o contador de histórias mais tarde possam assegurar-lhes a glória para a posteridade. Ao contrário do que acontece na vida privada e na família, no recolhimento das quatro paredes, aqui tudo aparece naquela luz que só pode ser criada em público, o que quer dizer na presença de outros. Mas essa luz, condição prévia de toda manifestação real, é enganadora enquanto for apenas pública e não-política. O espaço público da aventura e do empreendimento desaparece assim que tudo chega a seu fim, logo que dissolvido o acampamento do exército e os ‘heróis’ — que em Homero nada mais significam que os homens livres — retornam para suas casas. Esse espaço público só se torna político quando assegurado numa cidade, quer dizer, quando ligado a um lugar palpável que possa sobreviver tanto aos feitos memoráveis quanto aos nomes dos memoráveis autores, e possa ser transmitido à posterioridade na seqüência das gerações. Essa cidade a oferecer aos homens mortais e a seus feitos e palavras passageiros um lugar duradouro constitui a polis — que é política e, desse modo, diferente de outros povoamentos (para os quais os gregos tinham uma palavra específica), porque originalmente só foi construída em torno do espaço público, em torno da praça do mercado, na qual os livres e iguais podiam encontrar-se a qualquer hora”

In ARENDT, Hannah. O que é política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. 20. 2002.

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