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A verdade (Alétheia em grego) para Heidegger…

Daí, a ética, segundo este filósofo, vir acompanha de uma noção de ética originária, e não simplesmente normativa, nem tampouco moralista. O “Dasein” sabe que sua implicação na vida deve ser sem qualquer norma, pois é constituído dessa liberdade. Esta é a essência da verdade, o “ser aí” dotado de mostração e manifestação, mas que preserva sua ocultação. A verdade é o desvelamento do ser conforme um movimento por dentro da idéia do mundo. “A essência da verdade se desvelou como liberdade. Esta é o deixar-ser ek-sistente que desvela o ente. Todo comportamento aberto se movimenta no deixar-ser do ente e se relaciona com este ou aquele ente particular. A liberdade já colocou previamente o comportamento em harmonia com o ente em sua totalidade…”(HEIDEGGER. Conferências e escritos filosóficos. In Col. Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1991. p. 130)

Verdade é o desoculto, aquilo que se mostra. Desocultar e ocultar não são separáveis, mas aquilo que no aparecer se oculta. Revelação. É o jogo luz e sombra na cultura barroca. Na arte, as obras se manifestam nesse tom, nessa linha. É um jogo de mostração e de ocultamento. “Justamente, na medida em que o deixar-ser sempre deixa o ente, a que se refere, ser, em cada comportamento individual, e com isto o desoculta, dissimula ele o ente em sua totalidade. O deixar-ser é, em si mesmo, simultaneamente, um dissimulação. Na liberdade ek-sistente do ser-aí acontece a dissimulação do ente em sua totalidade, é o desvelamento”(ibidem, p. 131).

O homem está sempre na verdade e na inverdade, para Heidegger. Ouvir e escutar são duas formas de dizer. O silêncio é uma forma de discurso. Este é originariamente silêncio. É radicalmente a fala que fala. Somos nós que falamos a fala que nos fala. A linguagem do silêncio está fora da razão. Através do silêncio é possível encontrar a verdade.

O ser mesmo é abertura, como vimos na analítica do Dasein.

Falar da verdade não é outra coisa senão expressar o Dasein. O lugar da verdade não é o juízo, mas o juízo que está na verdade. O fato de julgar não me diz a verdade, é absolutamente o contrário, a verdade é quem me diz o ato de julgar.

Heidegger desconstrói o tradicional conceito de verdade. O Dasein é transcendente a todas as possibilidades intramundanas de mudar. As coisas que estão aí são puras possibilidades de mudar.

Sem querer mudar de assunto, qual é o motivo da vontade humana? A vontade age sempre em função do bem. O que faz com que a vontade permaneça livre em escolher o bem? Não é o bem maior que determina a minha vontade de escolha, mas a vontade que escolhe o bem maior. Quanto mais um ato escolhe, mais totalmente envolve a existência e mais facilmente será livre.

Se a vontade estiver diante da totalidade do bem, ela não escolhe, mas necessariamente vai querê-lo. Mas só há um bem capaz de determinar a liberdade, Deus, Ser perfeitíssimo. Os outros bens particulares são livres para que o homem escolha ou não.

“O homem é uma paixão inútil”(Sartre).

“Nasce sem razão, vive sem sentido e morre inutilmente”(Heidegger).

“Seja como for, uma coisa se torna clara: a questão da Alétheia, a questão do desvelamento como tal, não é a questão da verdade. Foi por isso inadequado e, por conseguinte, enganoso denominar a Alétheia, no sentido da clareira, de verdade. O discurso sobre a Verdade do ser tem seu sentido justificado na ciência da lógica de Hegel, porque nela verdade significa a certeza do saber absoluto. Mas tampouco Hegel como Husserl questionam, como também não faz qualquer metafísica, o ser do ente, isto é, não perguntam em que medida pode haver presença como tal. Só há presença quando impera clareira. Esta, não há dúvida, é nomeada com a Alétheia, com o desvelamento, mas não como tal pensada”(ibidem, p. 80).

Ser clareira aqui, viver na clareira não tem nada a ver com luz, iluminação, mas mostração, desocultamento, verdade. O homem é apenas o lugar desta mostração.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
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Amor à repetição

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“Que coisa, amanhã já é segunda-feira (?!), mal passou o final de semana”; “Não aguento mais a mesma comida, a mesma bebida”; “Tenho que limpar meus óculos de novo”; “Preciso ir ao banheiro de novo”… Expressões como essas são muito corriqueiras e acabam mostrando como o ser humano está condicionado a uma repetição infinita de acontecimentos e situações no curso de sua vida. Algumas repetições necessárias ao cuidado com a higiene do corpo são até menos conscientes do que uma dura e trágica fatalidade, mas demonstram o quanto são importantes para a saúde e para uma incansável luta contra o imobilismo, a inércia, bem como uma luta incessante a favor da vida.

A simplicidade dos atos de alimentar-se, escovar os dentes, tomar sucessivos banhos, vestir-se, andar, ir e voltar do trabalho, conversar. Tudo isso faz parte de atos espontâneos ou avulsos, nos quais o ser humano encontra-se envolvido num eterno retorno de eventos do cotidiano. Na maioria das vezes, aparentemente, não apresentam sentido algum. Mas, o interessante é que não tenham, de fato, sentido, significado, pois obedecem a uma ordem cosmológica, em que se poderia entender o mundo muito mais do ponto de vista grego do que moderno. Os gregos viam o mundo finito, fechado, e constituído por um certo número de forças com suas combinações infinitas, um mundo que se repete. “[…] o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para a frente e para trás! Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna.”(NIETZSCHE, F. O eterno retorno [texto de 1881]. São Paulo: Nova cultural, 1996. p. 439 [Col. Os pensadores]).

Deitar, dormir e levantar-se para continuar a viver obedecem a uma ordem cíclica de repetições infindáveis. Instantes de prazer e dor acabam indo e voltando com mais ou menos intensidade do que de outras vezes, mas acabam voltando. Retornar às mesmas coisas diversas vezes de um modo estético nos leva a fazê-las cada vez melhor. Atitudes isoladas como uma corrida ou uma caminhada numa tarde qualquer, quando repetidas, tornam-se habituais e promovem a qualidade de vida. Com isso, o ético vem puxado pelo estético.

É oportuno resgatar repetidamente o filósofo bigodudo Nietzsche, crítico ferrenho da cultura ocidental, quando pensou que o “eterno retorno ao mesmo” não deve ser encarado com piedade, compaixão e resignação, mas com coragem, determinação e vigor. O resultado de uma vida sem fugas, subterfúgios, muito menos sem mania de conspiração, é certamente uma vida pautada no “amor fati”, no amor ao próprio destino. “[…] vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor.” (NIETZSCHE, F. A gaia ciência. 5ª ed. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães & C., 1996. p. 173-174).

Amar o próprio destino é uma das ideias mais preciosas e geniais do Nietzsche, porque combate fortemente o sentimento de culpa, um tal de “mi mi mi” do qual se reveste nossa cultura. Significa pensar o destino como os gregos o pensavam, de modo participativo.

Portanto, a repetição, a rotina inevitável de nossas vidas, as idas e vindas das segundas-feiras, os momentos tristes e os dias de sofrimento não precisariam ser enfrentados com um amor de tipo nietzschiano? “A minha fórmula de grandeza do homem é ‘amor fati’: não pretender ter nada de diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A Necessidade não existe apenas para suportar-se – todo o idealismo é uma mentira em face da Necessidade – mas para que a amemos…”(Ecce homo: como se chega a ser o que se é. Trad. José Marinho. Lisboa: Guimarães & C. 1979, p. 72).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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Geração do ineditismo

2271350Ao que muitos poderiam chamar ligeiramente de imediatismo, evoco aqui a compreensão de ineditismo. A geração do ineditismo transparece a sensação de que tudo o que se faz é inovação, por isso mesmo inédito, sobretudo no campo dos valores: ninguém fez, ninguém pensou, alguém jamais descobriu. “A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.”(LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 26). Na verdade, como afirma Lewis, “O Inovador ataca os valores tradicionais em nome daquilo que ele inicialmente supõe serem (num sentido próprio) os valores ‘racionais’ ou ‘biológicos’”( A abolição do homem, p. 25).

De repente, a imagem do pretensioso vem à tona achando que descobriu a pólvora, a penicilina, o papel impresso ou a luz elétrica. Mas o que se percebe é uma falsa compreensão do que seja ‘moderno’, as novas gerações têm uma grande dificuldade de olhar para trás e enxergar o passado como um ensinamento. “O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos.” (LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 09).

Olhar o passado como algo velho e ultrapassado, no sentido de arcaico, é um equivoco porque sem o antigo não há o novo, sem o passado não há sequer um caminho, um processo para o futuro. As ditas novas gerações não só querem apagar o passado como têm medo dele. Estufam o peito não somente de ar, mas do orgulho que os fazem acreditar que a história começa com eles.

A pretensão humana – principalmente a dos mais jovens – de que sua ação no presente é inédita cheira a um certo imediatismo no modo de interferir neste mundo e no próprio cotidiano. As mediações com o antigo praticamente não existem, desconstruindo uma liga de memórias com o passado, responsável por sustentar os valores tradicionais mais sólidos na formação do caráter, da personalidade.

O resultado desse desligamento com o passado pode contribuir por gerar um exército de cabeças mimadas, refém de uma visão extremamente ideológica e superficial da história, da própria vida. Estamos diante de uma geração que quer o futuro, mas não se prepara para o futuro. Preparar-se para o futuro, para o amanhã, para o dia seguinte requer dedicação, trabalho e aprendizado, – “Disse o Mestre: ‘Amai aprender e, caso sejais atacados, estejais prontos para morrer pelo Bom Caminho.’”(Chinês antigo. Analectos, viii. 13) – principalmente paciência. Obedecer ao movimento do tempo de “um dia após o outro” é fundamental.

Talvez aqui esteja uma das funções mais necessárias à educação de nossos jovens: não permitir que pensem ou achem que eles não aprendem mais nada com os que vieram antes. Como já fora dito aqui, este é o equívoco da compreensão moderna do conceito de geração, de que o mundo nasce com eles. Os jovens ou as novas gerações precisam continuar aprendendo com seus pais, professores, com os mais velhos, com os que vieram antes.

Para isso, é imprescindível ler os clássicos: a Odisseia e a Ilíada de Homero; a República de Platão; a Bíblia; Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes; Shakespeare; Machado de Assis; João Guimarães Rosa e muitos outros. Eles jogam nossas conversas para um nível muito mais interessante, além do que melhoram nosso repertório nas discussões. Em Por que ler os clássicos, bem disse o renomado escritor italiano, Ítalo Calvino: “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram [ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes]” (p. 11).

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

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O que vocês acham? O político vive “da” política ou “para” a política?

Há pouco mais de uma semana do pleito mais importante, talvez, para os destinos do país, vemos a discussão política nos debates televisivos migrar da área moral, pessoal e religiosa dos candidatos para uma dimensão mais social, programática e política, propriamente dita, com questões que tocam em problemas sérios para o desenvolvimento do povo, de interesses do público, como Educação, saúde, geração de emprego e renda, privatizações, salários, previdência social, de modo que podemos distinguir cada candidato e poder escolher um dos dois com suas peculiaridades. Dilma ou Serra? Eis a questão. A escolha é nossa, tornando mais uma vez legítima a Democracia brasileira.

Contudo, faz-se oportuna uma ligeira orientação da política no dizer de Max Weber para os dias de hoje, haja vista o próximo pleito eleitoral que nos aguarda.

Na obra Ensaios de Sociologia de Max Weber, encontra-se uma concentrada visão da política alemã do séc. XIX focada na égide da ciência. Mas Weber, como filho de mãe culta e obstinada pela cultura, soube seguir firme e com educação, através das muitas leituras que fazia, uma ideologia íntegra e segura capaz de deixar um legado político, econômico, social e filosófico para toda a humanidade.

No universo dos Ensaios aqui mencionados, um deles se destaca pelo modo autêntico de tratar as questões políticas, “A política como vocação”. O autor dá um verdadeiro show de transparência e sensibilidade. Sua sensibilidade no assunto “política” é fulcral, de modo que inicia seu ensaio com uma pergunta cortante: “O que entendemos por política?” Daí começa sua exposição que vai desde os variados tipos de política até a noção mais cuidadosa de associações e instituições, redimensionando a questão ao aspecto do Estado.

O mais interessante disso tudo é que a política, para ele, possui dois modos principais, de certo modo escassos, no atual contexto brasileiro quando nos deparamos com indivíduos que pretendem concorrer a um cargo eletivo e que se propõem a seguir uma carreira política, gerindo e administrando a coisa pública.

Ao administrar, o que vocês acham, o político vive “para” a política ou vive “da” política?

“Há dois modos principais pelos quais alguém pode fazer da política a sua vocação: viver “para” a política, ou viver “da” política. Esse contraste não é, de forma alguma, exclusivo. Em geral, o homem faz as duas coisas, pelo menos em pensamento e, certamente, também a ambas na prática. Quem vive “para” a política faz dela a sua vida, num sentido interior. Desfruta a posse pura e simples do poder que exerce, ou alimenta seu equilíbrio interior, seu sentimento íntimo, pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma “causa”. Nesse sentido interno, todo homem sincero que vive para uma causa também vive dessa causa. A distinção, no caso, refere-se a um aspecto muito mais substancial da questão, ou seja, o econômico. Quem luta para fazer da política uma fonte de renda permanente, vive “da” política como vocação, ao passo que quem não age assim vive “para” a política. Sob o domínio da ordem da propriedade privada, algumas – se quiserem – precondições muito triviais devem existir, para que uma pessoa possa viver “para” a política, nesse sentido econômico. Em condições normais, o político deve ser economicamente independente da renda que a política lhe pode proporcionar. Isto significa, muito simplesmente, que o político deve ser rico ou deve ter uma posição pessoal na vida que lhe proporcione uma renda suficiente”(WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. A política como vocação. Rio de Janeiro, LTC, 1982, p. 105).

Quem estiver pensando em entrar na política para se beneficiar economicamente, cuidado, pois o caminho não é tão bem sucedido assim, uma vez que muitos cidadãos acabam por sair da política precocemente porque viram nela uma fonte de renda e um atalho mais curto para enriquecerem às custas do patrimônio público, sem qualquer realização profissional, sem qualquer tipo de identidade vocacional com os interesses do povo. Daí a pedida de Weber, o bom mesmo é que o sujeito tenha uma certa independência econômica antes de se propor administrar uma cidade, um estado ou um país.

Nem sempre isto acontece, o que compromete a administração pública e incha de corrupção a estrutura política da nação, do contrário ocorre o inverso, “em troca de serviços leais, hoje, os líderes partidários distribuem cargos de todos os tipos – nos  partidos, jornais, sociedades cooperativas, companhias de seguros, municipalidades, bem como no Estado. Todas as lutas partidárias são lutas para o controle de cargos, bem como lutas para metas objetivas”(idem, p. 107)

Fica, portanto, o alerta, antes de qualquer tentativa para lidar com a administração  pública ou com uma carreira política, autoavalie se é mesmo ou não a sua praia, se é ou não a sua vocação. Identifica-se ou não com a profissão? Viverás para ela ou se servirás dela?


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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A alegria de viver

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(A ilustração ao lado é de Henri Matisse, a alegria de viver, “joie de vivre” – 1905)

 

O interessante é que a alegria, para nós, está muito mais condicionada a fatores externos do que às condições ou potências internas. Muitas vezes são as coisas que produzem a minha alegria do que eu mesmo a produzo, como se eu precisasse de tudo que me envolve para estar alegre. Estranho isso, não! Eu não tenho condições próprias e naturais para ser alegre? Por que, afinal, dependo de outros para ser alegre? Uma boa notícia nos faz alegres. Dinheiro nos faz alegres. Família nos faz alegres. Amigos nos faz alegres. Passar no Vestibular nos deixa alegres. A oração nos faz alegres. A música, a ginástica, o futebol, uma viagem, o amor, a arte…

Costumo dizer que quando se está alegre, é possível estar com todo o corpo minado de alegria, pronto para explodir alegrias. Alegrias explodindo pelo corpo inteirinho. Seria como uma espécie de corpo aberto para qualquer motivo se transformar em alegria, e o ajuntamento dessas sucessivas alegrias geraria um ser feliz, um indivíduo feliz, uma pessoa cheia de felicidade.

Quase sempre estamos confundindo alegria com felicidade. Claro, tal como a alegria, a felicidade também é passageira, só que mais constante do que a alegria. A alegria sinaliza mais ou menos como o corpo está, mais ou menos como uma potência para agir.

Pensando um pouco nisso, o filósofo Spinoza fala da alegria como uma relação de corpos, incluindo o corpo humano. Afetar e ser afetado por outros corpos é uma característica de sua filosofia. Segundo ele, se um corpo nos afeta, se algo nos afeta é porque houve uma composição daquele corpo ao nosso provocando, com isso, um aumento de nossa potência. Isto se chama alegria!

Quando um corpo não combina conosco, não tem nada a ver conosco, a tendência é a diminuição de potência e, consequentemente, a tristeza. Esse mesmo movimento dos corpos também ocorre com a alma.

O afeto é, então, a potência de agir de um corpo, o que levou Spinoza a afirmar admiravelmente: “Evitemos as paixões tristes e vivamos com alegria para ter o máximo de nossa potência; fugir da resignação, da má consciência, da culpa e de todos os afetos tristes que padres, juízes e psicanalistas exploram”. Quando a potência de agir aumenta, sinto alegria; e, quando diminui, sinto tristeza. Spinoza diz, de modo contundente, que a única afeição é a alegria. Todos os outros afetos derivam da alegria. Tão somente a tristeza é ausência de alegria.

No Abecedário de Giles Deleuze, há uma compreensão ainda mais clara a respeito da alegria ligada a ideia de potência. “A alegria é tudo o que consiste em preencher uma potência. Sente alegria quando preenche, quando efetua uma de suas potências. Eu conquisto, por menor que seja, um pedaço de cor. Entro um pouco na cor.”

Por isso, embora estejamos todos sujeitos à relatividade externa dos encontros e desencontros da vida, e efetivamente marcados pela impotência de agirmos conforme a nossa natureza, mesmo assim a alegria, quando existir, será apenas uma força impulsionadora que nos levará a uma experiência muito maior: a potência de viver. “Toda alegria é alegria de viver”(Cf. Viviane Mosé, Spinoza e a alegria, Série “Ser ou não ser”).

Contudo, aprendamos a nos alegrar, pois só assim poderemos afastar de nós os afetos tristes. Façamos como diz Nietzsche: “Aprendamos a nos alegrar: é a melhor maneira de desaprender a magoar os outros”.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN, Esp. em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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A santidade em Levinás

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Todos nós temos uma vocação à santidade. Ou a acolhemos ou a renunciamos, porém não a eliminamos, visto que nos comportamos, nos movemos e agimos não só pelo que nos falta, pelo que nos carece, mas também pelo que nos basta, pelo que nos excede. Não à toa, estamos sempre a procura do que é verdadeiro, que não é uma simples adequação do meu pensamento à coisa ou vice-versa, mas uma inadequação pura, um paradoxo, que nos perturba e incomoda porque nos ultrapassa, o humano. “Nunca pretendi descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas o que a própria depravação humana não saberia eliminar: a vocação humana à santidade”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

Um pensamento marcadamente humano, certamente consequência do sentimento trágico da segunda guerra mundial, a visão de Levinás é fruto da discussão que há na primeira metade do século XX: o que é o meu direito sobre o direito dos outros? Aqui ele mostra como os homens têm uma vocação à santidade que a violência não consegue eliminar ou não sabe eliminar. Seu valor à santidade deve vir da força da sua biografia, filósofo lituano, judeu, que acaba conseguindo a cidadania francesa em 1938. Vive num período histórico bastante conturbado entre as duas grandes guerras. É testemunha do surgimento e do esgotamento do Nazismo imposto por Hitler, responsável por destituir o caráter do outro e dizimar milhares de vidas humanas. Além disso, sua motivação é exatamente a perseguição ao terror promovida pelo Nazismo e por todo o movimento histórico em que passa a Europa, a partir da segunda década do séc. XX.

Em virtude disso, Levinás institui uma ética baseada na responsabilidade pelos outros. O caráter do indivíduo se reconhece numa dimensão de coletividade. Ele admite ainda que há uma transcendência em nossas relações: o eu que se reconhece nos outros porque é uma transcendência de mim mesmo que acontece no rosto do outro. Quando eu me reconheço no rosto do outro está acontecendo uma radicalidade ética: o primado do outro sobre o primado do eu.

A santidade, para Levinás, segue esse viés de abertura ao outro, muito afinado até com o rigor ético presente na Bíblia. Conceitos como o de bondade, justiça, hospitalidade, estrangeiro, são acolhidos no seu discurso filosófico. Afirma que não é ridículo, pelo contrário, é incontestável pensar o valor à santidade. “Ela não se prende inteiramente às privações, ela está na certeza de que é preciso deixar o outro sempre em primeiro lugar em tudo – desde o ‘depois do senhor’ diante da porta aberta até a disposição – quase impossível mas que a santidade o pede – de morrer pelo outro”(POIRIÉ, François. Emmanuel Levinás: ensaios e entrevistas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84).

Guardadas as devidas proporções de contexto, o mundo hoje tem uma tremenda dificuldade de lidar com as questões éticas, talvez por causa do politicamente correto, da política da boa vizinhança, do jeitinho, da camaradagem, das conveniências e do excesso de ideologias. No coletivo, paira uma certa superficialidade entre os sujeitos. Um encontro que requer a presença autêntica, sincera do outro. Tudo é muito politicamente correto ao ponto de absorver a importância do caráter de cada um. A impressão que se tem é que os espaços sociais estão cheios de gente que se tratam como gente, fazem acordos, assumem compromissos, etc, mas, em algum momento, tudo pode ser quebrado e desfeito. A sensação é de que a santidade se faz cada vez mais urgente. Menos ideologia, mais ética, mais santidade.

Levinás deixa claro que a santidade precisa ser valorizada para uma sociedade e um indivíduo se tornarem mais humanos: “Não afirmo a santidade humana, digo que o homem não pode contestar o supremo valor da santidade. Em 1968, ano da contestação dentro e em torno da Universidade, todos os valores estavam no ar, exceto o valor do outro homem ao qual era preciso dedicar-se. Os jovens que por várias horas se entregavam a todas as diversões e a todas as desordens, no fim do dia, iam visitar, como a uma oração, os operários em greve na Renault. O homem é o ser que reconhece a santidade e o esquecimento de si. O para si expõe-se sempre à suspeição”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

A santidade se caracteriza como extravasamento da compreensão do ser, na medida em que se vive para outrem, apropriando-se de uma outra ordem, a ordem do humano. A santidade é mais do que racional, é um mandado divino que rompe com a ordem natural e nos insere na dimensão de reconhecimento do rosto do outro: “Vivemos em um Estado em que a ideia de justiça sobrepõe-se a essa caridade inicial, mas nessa caridade inicial reside o ser humano; a ela remonta a própria justiça. O homem não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como queria Heidegger, mas é o ser que já ouviu e compreendeu o mandamento da santidade no rosto do outro homem. Também quando se diz que originariamente há instintos altruístas, reconheceu-se que Deus já falou. Ele começou muito cedo a falar. Significado antropológico do instinto! Na liturgia hebraica cotidiana, a primeira oração da manhã diz: ‘Bendito seja Deus, Senhor do mundo, que ensinou ao galo a distinguir o dia da noite’. No canto do galo, o despertar para a luz”(Idem, p. 40).
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A Crise da Memória na Educação

A tão badalada decoreba está com os seus dias contados no universo de nossas Escolas! Estamos como que decretando a morte da memorização no ensino-aprendizagem dos alunos. Durante muito tempo, este método levou muitos alunos a sofrer nos bancos das Escolas e Universidades, dificultando muitas vezes formar uma consciência crítica e aberta à imaginação, à criação.

Com o avanço da tecnologia e com as novas mídias ocupando o tempo e o espaço de nossas vidas, memorizar informações parece ser quase desnecessário hoje em dia. Vivemos uma crise da memória principalmente na educação.  Mais ainda, estamos a mercê de inúmeros recursos que nos eximem de vasculhar os anais de nossa memória. Se queremos guardar dados que iremos precisar futuramente, utilizamos várias alternativas tais como: cds, dvds, pendrives, HDs externos ou nosso próprio PC com memórias gigantescas.

Esse assunto tem a ver com o famoso tempo no qual estamos vivendo, a era das informações velozes. Estamos pulverizados de informações a todo instante. Quando menos esperamos, somos logo acometidos por uma enxurrada de informações que nos colocam de imediato no contexto. Seria como se o virtual nos pusesse de volta no real. Que coisa! À medida que somos tomados pelo virtual, vem logo uma informação e nos derruba para o real.

Estava estes dias, por ocasião do dia do Repórter, assistindo a uma entrevista do jornalista Tino Marcos da Rede Globo, no Programa “Redação Sportv”, ao afirmar que o repórter, diferentemente de há vinte anos, não tem mais tanto prazer em ir atrás da notícia, do fato, do ocorrido. Isso já não importa tanto, pois as informações, as notícias estão chegando rapidamente via celular pela internet ,“on line”, 24 horas por dia, sem que se precise correr aonde elas estão. Mas o desafio do repórter hoje mudou, é importante agora sua competência no contar bem a história. Aquele que contar melhor a notícia sai na frente e sua matéria sai estampada nas principais páginas dos jornais, sites e blogs.

Ora, se na imprensa muita coisa mudou com o avanço das mídias, o que dizer então da Educação, uma área que se alimenta de conhecimento, de dados informativos para o ganho formativo da humanidade.

Como disse, as informações em nosso dia a dia estão cada vez mais disponíveis na memória de um aparelho celular, no PC e no “google”. Sendo assim,  qual o destino de nossa própria memória? Para que decorar uma imensa quantidade de dados, se o acesso às informações está mais democrático, e se podemos contar com aparelhos de memórias portáteis?

Frente a isso, a Dra. em Filosofia e Educação Viviane Mosé discute com propriedade as imensas transformações que caracterizam o mundo contemporâneo e quais a suas inferências na Educação. Afinal, o que se torna fundamental aprender? Que tipo de conteúdos a escola deve ensinar?

Para Viviane Mosé, numa sociedade em que cada vez mais as máquinas fazem o trabalho manual e mental, resta a atividade em que o homem é imprescindível e essencial: criar. Inovação, criatividade, atitude, são moedas de alto valor na sociedade que se configura. Além disso, com as constantes inovações, próprias da era tecnológica, é fundamental aprender a aprender, para que o processo educativo permaneça depois da escola. A invasão de informações também deve ser filtrada e processada, por isto é essencial desenvolver métodos de pesquisa. Estas são algumas das inúmeras questões que precisamos pensar, quando educamos no mundo contemporâneo.

Portanto, a memória ou a decoreba não é mais um sinal de avanço na Educação, porque há aparelhos que agora fazem esta função com muito mais qualidade, no entanto é fundamental educar para os valores, educar na formação da opinião e na criação de conceitos necessários à vida em todos os seus aspectos. Uma máquina não pode valorar, criar, imaginar, inovar, ter atitudes. Isso sim, ela não pode fazer: Que seja possível formar um homem sábio!


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB
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Parafraseando-me

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