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A descoberta da justa medida

“Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos darão; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”(Lucas 6.38).

O efeito férias, diga-se de passagem, é recompensador quando alivia o “stress” de um ano cheio de trabalhos e preocupações. Mas, quando provoca sedentarismo, aumenta o tédio e desenvolve o apetite comestível devido à quietude agradável do ambiente familiar, traz consequências sérias para a nossa saúde.

Se por um lado, as férias promovem descanso e recarregamento das baterias gastas, por outro lado facilita o acúmulo de gordura em nosso organismo, acarretando doenças como o diabetes, altas taxas de triglicerídeos e de colesterol no sangue, uma vez que se levam as férias sem atividades  físicas e num alto comodismo, entregues ao parasitismo.

Digo isso porque vivi essa experiência nas últimas férias. Tive que retomar imediatamente as atividades físicas e levar a vida com uma alimentação balanceada. Uma alimentação mais saudável e muito mais equilibrada, à base de frutas, legumes e bastante líquido.

Foi assim que acabei percebendo na prática a valiosa sabedoria dos gregos antigos ao falar e ao passar a viver de Filosofia. Eles tinham uma fascinação incomparável pelo corpo e pelo cuidado da alma. Eram obcecados por uma vida virtuosa.

O que antes era uma exigência natural e espontânea da própria “phýsis”(natureza), hoje parece ser uma necessidade maior de se desprender dos excessos imputados por uma liberal sociedade demasiadamente consumista. O mundo respira consumo e desperdício, futilidades, gerando uma má qualidade de vida nas pessoas. Muitas, por não conseguirem pautar um ritmo de vida adequado conforme a natureza, acabam por submeter-se a produtos light e diet, quando não a remédios para emagrecimentos relâmpagos.

No entanto, a questão fundamental da ética grega é propor a existência de limites para a natureza humana que não venham a ser transgredidos, a fim de obter equilíbrio necessário, constituindo assim uma vida sábia.

Sem dúvida, com essa busca constante pela cultura da macerridade em função de uma qualidade de vida a duras penas com dietas variadas, como não lembrar maravilhosamente dos termos “hýbris” e “sophrosýne”.

“Hýbris” é excesso, desmedida, transgressão. Também significa impetuosidade, violência, orgulho, arrogância. No dicionário Liddel e Scott (Cf. H. G. Liddel and R. Scott, Greec-English Lexicon, p. 1841), a primeira definição de “hýbris” é “violência temerária que resulta do orgulho pela força ou pelo poder que se possui”. Traduz-se “hýbris” ainda por paixão, luxúria e lascívia. Na contramão vem o substantivo “sophrosýne” com a mesma raiz do verbo “sophronéo” que significa ter a mente sã; ser temperante, adquirir moderação. Daí também o adjetivo “sóphron”, prudente, moderado, aquele que tem controle sobre os apetites e os desejos.

É evidente que qualquer experiência com dietas possibilita ao indivíduo uma descoberta da “hýbris” e uma ligação imediata com “sophrosýne”, de modo que, segundo Aristóteles, passamos à existência moral com relação aos prazeres indicando o meio termo, a justa medida. É a dieta, atualmente, responsável por nos fazer compreender e respeitar a medida certa, nossos limites. Porém, se as dietas não nos fazem repensar o que comemos ao invés de trazer sofrimento e inconformismo, certamente ainda não descobrimos o grandioso valor que há por trás deste novo modo de reeducação alimentar. Precisamos desbanalizar a falsa ideia corriqueira da dieta, que é o de trazer benefícios fantásticos e milagrosos para a beleza, em curto prazo.

Na contracultura do individualismo é precioso comer com, comer junto. Na contracultura do consumismo é saudável comer o menos possível, na medida da saciedade e do bom senso, terminando a refeição com vontade de “quero mais”. Este é o segredo. Não há milagres. A descoberta da justa medida, de certo modo, acaba se encontrando com a felicidade, segundo as palavras de Sólon, “no nada em demasia” e “no conhece-te a ti mesmo”, como estava escrito no oráculo de Delfos. Portanto, continuemos a nossa dieta com sabedoria!

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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As três fases da vida de um Professor em Roland Barthes por Rubem Alves…

 

Explicando a Filosofia com arte 001.jpgCerta vez, numa palestra de Educação para a cidadania, em Santos São Paulo, o educador e escritor Rubem Alves pediu para que ninguém tomasse nota de suas palavras porque essa não era a maneira de levar a sério um assunto, mas o contrário, não levar a sério. Dizia ele que quando se está envolvido numa conversa afetuosa é até indelicadeza tomar nota. E brincava: “Não se toma nota quando se está fazendo amor”. Segundo ele, toda experiência de conversa é uma experiência de fazer amor. Tal motivo, o levou, na palestra, a citar o comentado Roland Barthes que emprestou algumas ideias suas para ilustrar o caminho da exposição de Rubem Alves naquela ocasião. Para Rubem Alves, este é o educador que ele mais ama, pois tinha a capacidade de extrair a beleza das coisas que seus alunos falavam. Era de uma delicadeza incomparável, uma vez que todos se sentiam inteligentes em sua companhia, afirmou Rubem.

Sendo assim, transcrevo um pouco aqui da sensibilidade de Roland Barthes em sua obra “A Aula”(Texto que produziu para uma aula inaugural como Professor de Semiologia no Collège de France) sobre as três fases da vida de um professor a partir das palavras de Rubem Alves.

“Na primeira fase, ensina-se o que se sabe. E é verdade, a gente ensina o que sabe, a gente ensina a criança a dar nó no sapato, a andar de bicicleta, a somar, a subtrair, a escrever, a gente ensina as coisas que sabe, a gente ensina a subir numa árvore, a pintar, a desenhar, enfim. Esse “ensinar as coisas que sabe” é um ato de transmitir as receitas de como viver o que a gente aprendeu. Parte dos nossos saberes são receitas, como receita culinária do livro da Dona Benta. Na segunda fase, então ele diz: mas a gente vive um pouco mais e começa a ensinar as coisas que a gente não sabe. Aí as pessoas perguntam: mas como é que a gente pode ensinar aquilo que a gente não sabe? Imagine que a minha filha me pergunte: pai, onde é que fica a Rua Sampainho? Sampainho é uma rua lá em Campinas. Então eu digo a ela: não sei onde fica a Rua Sampainho, mas na lista telefônica tem uma série de mapas, você procura o nome da rua, na lista dos endereços, e lá tem indicação do mapa e você vai achar. Eu não sei onde é a Rua Sampainho, mas, apesar de não saber, ensinei minha filha a achar a Rua Sampainho. Essa é uma das coisas mais lindas sobre a vida de um professor. Não é aquele professor que sabe o programa, isso é banal. Os programas estão em livros, os professores que sabem o programa vão desaparecer: eles serão substituídos por disquetes, programas e livros. Mas ensinar a encontrar é a coisa mais importante: isso tem o nome de “fazer pesquisa”… É isso que a gente faz, não é? Quando a gente está ensinando a fazer pesquisa, está ensinando a coisa que a gente mesmo não sabe. O orientador da pesquisa é aquele que não sabe nada, quem sabe é o aluno, o aluno vai lá, visita a coisa, vem e conta para o professor e o professor aprende. Na situação de pesquisa, o orientador se torna aluno do aluno que faz a pesquisa.Finalmente, com a terceira fase, chegou o momento supremo da minha vida, eu me entrego à maior de todas as forças da vida viva. Eu me entrego ao poder do esquecimento, procuro esquecer, desaprender tudo o que eu aprendi. Vejam que coisa curiosa, dizer que ele, professor de semiologia, estava se dedicando a desaprender tudo. Parece o contrário do ideal de aprendizagem, de educação, de que a gente vai cada vez saber mais. Ele está dizendo que queria saber menos, saber menos”(Rubem Alves, in Palestra sobre Educação para a Cidadania).

Estas são as três fases da vida de um professor na concepção de Roland Barthes conforme o jeito e o linguajear de contar do escritor Rubem Alves. Todo bom professor que se preze deveria ler e reler esse texto, antes de acharmos que estamos envelhecendo no prazeroso percurso do ensino-aprendizagem.

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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O politicamente correto

(foto: cena do filme “Intrigas de estado” – State of play, 2009- , de Kevin MacDonald, …)

Há quem diga que não se sente à vontade agindo assim; tendo que frear as emoções; abraçar quem não gosta; conviver com quem é intragável; tratar bem os inimigos; superar com sorrisos as antipatias; cumprimentar o vizinho que não suporta falar com você… E por aí vai. São inúmeras as circunstâncias de dissabores que nos arrematam para a famosa ideia do politicamente correto, bastante difícil de engolir e de aceitar.

As pessoas politicamente corretas, na maior parte das vezes, são absolutamente extremas e escrupulosas, fugindo, de quando em vez, das dosagens naturais de respeito e educação. Não é tão forçoso pedir um pouco mais de educação a um sujeito, mesmo que não concorde ou não aceite determinada opinião. Lembro-me de uma entrevista de Dodô, jogador do fluminense na época, que estava no banco de reservas imerecidamente. Ao ser perguntado pelo jornalista se ele concordava com a atitude de Renato Gaúcho, então treinador do fluminense, em deixá-lo no banco de reservas já que vinha de uma sequência de boas atuações pelo time, goleador, fazia a diferença, mas era sempre colocado no banco como uma segunda opção para os minutos finais da partida. Quanto a isso, Dodô afirmou de modo contundente: “Não concordo com a opinião do treinador, mesmo assim tenho que respeitá-lo e conviver bem com ele, afinal ele é o treinador e não eu, não vou sair do time por causa disso”. O fato de uma pessoa não concordar com alguém não quer dizer que ela tenha que ofendê-lo ou brigar com ele, mas o mínimo que se pede para um bom profissional é educação e modos amistosos de tratamento sociável, pois, do contrário, seria impossível conviver uns com os outros num ambiente de trabalho ou até mesmo numa vida em comunidade.

Em nossas relações temos que encontrar sempre uma porta aberta à generosidade, mesmo contra toda indiferença e toda ignorância. Afinal de contas, não custa nada uma pitada de humor para abrir esta porta ao outro. O humor, nesse caso, ajuda muito. Seriedade demais engessa as relações e acaba atrapalhando. É preciso muita leveza para não nos intrigarmos com o mundo todo, o que não é nada agradável. A intriga fecha portas; a amizade abre portas… A intriga só é interessante no campo das ideias, o que não tem nada a ver com isso que estamos falando agora. A intriga das ideias mexe com a curiosidade e a pesquisa. Esta, sim, é bem-vinda. Àquela das relações, não. Não edifica em nada, não constrói, não torna as relações entre as pessoas tão humanas quanto fidalgas.

Temos que ultrapassar a barreira do politicamente correto com a leveza dos gestos de gratidão e de amor. Apesar de termos nossas restrições com outras pessoas, nada nos impede de convivermos bem com elas. Todos temos nossas limitações. Eu sou assim e acabou. Sou diferente; o politicamente correto uniformiza. Nada de ficar se escondendo no politicamente correto com expressões do tipo: “Ah, cara, sua cor afrodescendente é bacana”; “Desculpe, não tomo refrigerante, estou fazendo dieta”, e etc. Palavras como “negro” e “gordo” foram omitidas do vocabulário do politicamente correto. Pensar assim é muito complicado, uma vez que há um sério risco de perdermos a identidade e de não contribuirmos para a formação de nossa personalidade. Acabamos por deixar de nos conhecer para conhecer o politicamente correto. Que coisa!

Diria mais, mesmo com aquelas pessoas super-avessas a nós, até mesmo inabordáveis, que não falam conosco, mesmo assim é preciso exercitar nossa fidalguia, nossa destreza nos bons modos. Nada de ofender, tampouco agredir as pessoas, simplesmente porque não gostamos delas. Afinal, ninguém é perfeito e nem será.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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Homenagem ao Dia dos Pais

Às vésperas de comemorarmos data tão significativa, temos a alegria de dispensar calorosamente nossas palavras, nossos abraços, nossos apertos de mãos, nossos cumprimentos, nossos afetos em direção àqueles que são referências na célula familiar, os pais.

Apesar das famílias modernas estarem perdendo a figura do pai como autoridade e como cabeça do lar, mesmo assim, ainda se percebe, aqui e ali, a necessidade do fortalecimento da convivência familiar sob a educação e a orientação dos pais. Família e sociedade andam de mãos conjugadas quando o assunto é a presença real de um pai exemplar. Precisamos urgentemente de um pai não só em nossas famílias, mas também nas escolas, nas associações, nos sindicatos, nas prefeituras, nas creches, nas instituições religiosas e sociais, enfim… Pais que venham recuperar a autoestima, a ética, o desejo de viver e um horizonte cheio de serenidade muito além da VIOLÊNCIA e da MALDADE com as quais muitas vezes convivemos.

Um pai bondoso na família é como uma bússola nas mãos, não se perde o norte, não se perde nos caminhos da vida; Um pai responsável é como se estivéssemos debaixo de uma frondosa árvore, cuja sombra refrigera a alma; Um pai amável é como ter no coração um sossego infinito; Um pai espiritual é como encontrar na oração uma voz conselheira e sábia do pai eterno, pai de todos os pais, nosso Pai maior, DEUS.

Que todas as famílias de Florânia, neste dia, sintam-se apoiadas pelos ombros dos pais que assumem com gratidão tamanho ofício. Um afetuoso dia dos pais para todos!

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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Umas pequenas práticas de saberes I

Segundo a tendência racionalista, herdada de Descartes e Spinoza, prevalece o inatismo, pelo qual o sujeito que conhece seria o pólo mais importante no processo do conhecimento.

Conforme a tendência empirista, iniciada com Bacon, Hume e Locke, o sujeito que conhece é passivo, recebendo de fora – da experiência – os elementos para a elaboração do conteúdo mental.

Tais pressupostos de uma educação moderna são oriundos dos conceitos clássicos de Educação:

“A educação deve dar ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”(Platão) – idealista.

“Não há nada na inteligência que antes não se tenha passado pelos sentidos”(Aristóteles) – realista.

As quais se fundamentam num problema antiquiquíssimo, chamado de APORIA: No séc. VI – V a.C., Parmênides disse que nada pode mudar; que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são dignas de confiança.

Já Heráclito, na mesma época, disse: que tudo se transforma(“tudo flui”) – “panta rei”; que as impressões dos sentidos são confiáveis.

Assim, muitos tentavam, assustadoramente, solucionar o impasse entre razão e sentidos.

Empédocles afirmava que ambos têm razão, pois a água pura será água pura por toda a eternidade e a natureza está em constante transformação. Ele acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de raízes. Estes quatro elementos eram a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Supera, assim, a dicotomia com uma belíssima síntese entre o imóvel e o móvel, entre o ser e devir.(séc V a.C.).

Immanuel Kant, por sua vez, conhecia muito bem tanto os racionalistas quanto os empiristas e concordava com ambos: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão? Para Kant, não importa o que possamos ver, sempre perceberemos com as “formas da sensibilidade”. Isto significa que podemos saber antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes de tirar os óculos da razão!(séc. XVIII d. C.).

Conforme Maria Lúcia de Arruda Aranha, a Educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora entre sujeito e objeto, no seio da prática social global.

A Pedagogia é a necessidade sistemática de tornar a prática social global mais eficaz, a fim de definir os fins a serem atingidos.

A Filosofia da Educação acompanha reflexivamente os problemas educacionais.

As Ciências da Educação propõem processos de ensino(sistemas) mais sofisticados que superam o mero empirismo em educação.

As pequenas práticas de saberes supõem tudo isso que dissemos até agora, na medida em que o educador luta contra qualquer tipo de generalização.

Segundo Foucault na Microfísica do Poder, o educador precisa ser um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Os saberes são fragmentados, compartimentados, enquadrados nas específicas exigências dos indivíduos, por isso mesmo práticos e pequenos que penetram na singularidade da vida.

Parece-me que fora Nietzsche, na segunda metade do século XIX até meados do século XX, a desencadear essa nova modalidade de pensamento. Não segue necessariamente uma escala contínua e progressiva da estrutura do Pensamento, pois rompe com a Tradição para voltar às fontes, às origens da tragédia humana(Dionísio e Apolíneo), a fim de valorizar nossas potencialidades enquanto artistas de pensar o próprio pensamento. Acontece assim, uma ruptura do patrimônio histórico do pensamento humano.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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Uma escola mangue

O texto Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação” se apropria de uema bela imagem, a imagem do Mangue, utilizado aqui pelo autor Daniel Lins para nos mostrar a riqueza do pensamento rizomático de Deleuze atrelado a uma pedagogia.

Na vida acadêmica ou na vida de um professor é muito salutar quando se alcança o estágio maduro do magistério e, desaprendendo a falar academicamente uma linguagem técnica, aprende-se a falar por meio de imagens. As imagens vêm mais facilmente à cabeça e são deliciosas, pois, quando se usa uma imagem que fala mais do que o texto, percebe-se “a diferenciação, a contemplação vibrátil, sem determinação, mergulhada numa visão que inventa a visão do que é visto sem pontos de referência nem muletas”. (Lins, 2005, p.10). Eis a imagem:

“- Seu Pedro, onde começa o mangue?

– Professor! Olhe o mangue! Não tem nem começo, nem fim: O mangue só tem meio!”

(Diálogo com um velho pescador, na Ilha do Pinto, em Fortim, Ceará, abril de 2004, in Lins, 2005, p. 10)

Assim deve ser uma escola, sem princípio e sem fim, mas com meio, inteiramente inserida na vivência do mundo e mergulhada no aqui e agora das situações existenciais. Uma escola que simboliza um “imenso manguezal” a se espraiar “no entrelaçamento de proteínas, calorias, gazes, lama, gozos, prazeres, detritos e… ouro”(Lins, 2005, p.10). O seu ouro é a diferença ou a riqueza do manguezal, como se a criança/aluno representasse o grande tesouro da escola que, talvez, fosse uma obra em construção e que a escola sua intercessora privilegiada na autoconstrução, sob a condição de que a transmissão de saber não se confunda com a transmissão de poder em que o aluno é tratado supostamente a querer, a ouvir, a aceitar e a obedecer.

Tal cogitação entre escola e mangue merece, como dissemos, uma deferência no texto de Daniel Lins, haja vista a feliz metáfora que estabelece com a ideia de rizoma deleuziana:

“Por meio da questão do novo, a função da Mangue’s School não é mais a de responder a uma necessidade de verdade, ou de abrir ao conhecimento do real, mas provocar novas possibilidades de vida. O novo é assim retomado como uma exigência de criação que instiga a promoção de forças capazes de transformar o presente levando-o para novas vias, segundo a formulação de Nietzsche: ‘Agir contra o passado, e desse modo sobre o presente em favor de um tempo por vir’”(Lins, 2005, p. 12).

In: LINS, Daniel. Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação”. In Educ. Soc. Vol. 26. nº 93. Campinas. Sept./Dec. 2005.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Geração do ineditismo

2271350Ao que muitos poderiam chamar ligeiramente de imediatismo, evoco aqui a compreensão de ineditismo. A geração do ineditismo transparece a sensação de que tudo o que se faz é inovação, por isso mesmo inédito, sobretudo no campo dos valores: ninguém fez, ninguém pensou, alguém jamais descobriu. “A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.”(LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 26). Na verdade, como afirma Lewis, “O Inovador ataca os valores tradicionais em nome daquilo que ele inicialmente supõe serem (num sentido próprio) os valores ‘racionais’ ou ‘biológicos’”( A abolição do homem, p. 25).

De repente, a imagem do pretensioso vem à tona achando que descobriu a pólvora, a penicilina, o papel impresso ou a luz elétrica. Mas o que se percebe é uma falsa compreensão do que seja ‘moderno’, as novas gerações têm uma grande dificuldade de olhar para trás e enxergar o passado como um ensinamento. “O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos.” (LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 09).

Olhar o passado como algo velho e ultrapassado, no sentido de arcaico, é um equivoco porque sem o antigo não há o novo, sem o passado não há sequer um caminho, um processo para o futuro. As ditas novas gerações não só querem apagar o passado como têm medo dele. Estufam o peito não somente de ar, mas do orgulho que os fazem acreditar que a história começa com eles.

A pretensão humana – principalmente a dos mais jovens – de que sua ação no presente é inédita cheira a um certo imediatismo no modo de interferir neste mundo e no próprio cotidiano. As mediações com o antigo praticamente não existem, desconstruindo uma liga de memórias com o passado, responsável por sustentar os valores tradicionais mais sólidos na formação do caráter, da personalidade.

O resultado desse desligamento com o passado pode contribuir por gerar um exército de cabeças mimadas, refém de uma visão extremamente ideológica e superficial da história, da própria vida. Estamos diante de uma geração que quer o futuro, mas não se prepara para o futuro. Preparar-se para o futuro, para o amanhã, para o dia seguinte requer dedicação, trabalho e aprendizado, – “Disse o Mestre: ‘Amai aprender e, caso sejais atacados, estejais prontos para morrer pelo Bom Caminho.’”(Chinês antigo. Analectos, viii. 13) – principalmente paciência. Obedecer ao movimento do tempo de “um dia após o outro” é fundamental.

Talvez aqui esteja uma das funções mais necessárias à educação de nossos jovens: não permitir que pensem ou achem que eles não aprendem mais nada com os que vieram antes. Como já fora dito aqui, este é o equívoco da compreensão moderna do conceito de geração, de que o mundo nasce com eles. Os jovens ou as novas gerações precisam continuar aprendendo com seus pais, professores, com os mais velhos, com os que vieram antes.

Para isso, é imprescindível ler os clássicos: a Odisseia e a Ilíada de Homero; a República de Platão; a Bíblia; Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes; Shakespeare; Machado de Assis; João Guimarães Rosa e muitos outros. Eles jogam nossas conversas para um nível muito mais interessante, além do que melhoram nosso repertório nas discussões. Em Por que ler os clássicos, bem disse o renomado escritor italiano, Ítalo Calvino: “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram [ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes]” (p. 11).

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

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Educação: uma expectativa para o incerto

A cena do desfecho do filme “Sociedade dos poetas mortos” nos coloca dentro da experiência educacional marcadamente incerta, imprevista e nova, imponderável, porém vital.

Pelas pistas que possuímos do mundo que espera nossos jovens, só sabemos que será muito diferente do presente, com inevitável mudança de paradigma(s). Se melhor ou pior, impossível prever. Apenas precisamos não permanecer como espectadores, mas tomar nas mãos o desafio de construir o novo.

Se não podemos prever, pelo menos temos noções sobre o que não queremos: com tantas incertezas, seríamos capazes de construir um mundo mais humano? Tal pergunta nos leva ao campo da incerteza e do imponderável já que não estamos prontos para tudo, até porque a vida é cheia de incertezas e não cabe nos limites da razão e nos limites de nossos programas. Por isso dirá Morin:

“A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados. O programa é a determinação a priori de uma seqüência de ações tendo em vista um objetivo. O programa é eficaz, em condições externas estáveis, que possam ser determinadas com segurança. Mas as menores perturbações nessas condições desregulam a execução do programa e obrigam a parar. A estratégia procura incessantemente reunir as informações e os acasos encontrados durante o percurso. Todo nosso ensino tende para o programa, ao passo que a vida exige estratégia e, se possível, serendipidade e arte”(Edgar Morin).

Serendipidade vem a ser entendida aqui como ato de procurar uma coisa e achar outra; o imprevisto. “Serendip” era o nome de uma ilha ao sul da Índia, que depois se chamou Ceilão e hoje é denominada Sri Lanka; segundo um conto oriental, três príncipes de serendip, percorrendo seus territórios, fizeram importantes e inesperadas descobertas. Usa-se o termo para designar a descoberta fortuita, mas fértil para quem é capaz de combinar “acaso” e “sagacidade”.

Edgar Morin, que divulga a teoria da complexidade no Brasil e no mundo a fora, enxerga a possibilidade da Educação se inserir num processo ousado de estratégia, segundo ele, arte e serendipidade, afastando-se do programa e promovendo uma Educação cada vez mais criativa e surpreendente. Para o mundo atual, tamanho desafio não é tão fácil, por isso complexo, mas de uma exigência vital para a leitura de valores que frequentemente entram no diálogo educacional sem pedir licença.

Com isso, a preocupação da Educação não é o uno, mas o múltiplo e a complexidade, no olhar de Morin, com a vida que se afirma e que se insere num movimento constante de mudança. Remontamos, assim, a algumas citações oportunas que Morin faz jus na sua obra “A cabeça bem feita”, a qual levanta provocações filosóficas sobre o pensamento de Michel de Montaigne e outros como Rousseau e Nietzsche. Vejamos:

“Quero ensinar-lhe a viver”(Rousseau).

“Queremos ser poetas de nossa própria vida, e primeiro, nas menores coisas”(Nietzsche).

“O grande problema da Educação é conseguir que o aluno transforme a informação impessoal, no vídeo, no papel ou na fala, em conhecimento(apropriação e assimilação) e o aluno converta essa informação em sabedoria ou sapiência e empregá-la para orientar sua vida”(Edgar Morin).


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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O ENEM é um novo Vestibular? Tome sofrimento


Como não bastassem os vestibulares a cada ano ou a cada seis meses em todo o Brasil para trazer medo, insegurança, ansiedade e muito sofrimento aos alunos, ainda surge o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio para tirar o sossego dos jovens que batalham por uma vaga nas Universidades. Transformado equivocadamente a Vestibular, o que não deveria acontecer, o ENEM é uma prática, segundo o Ministério da Educação,  de averiguar o andamento da qualidade do Ensino Médio em todo o território brasileiro.

Todavia, o ENEM dá a possibilidade de ingressar em Universidades públicas e privadas dependendo da nota, a qual possivelmente será cadastrada pelo candidato no PROUNI, espécie de Programa do Gov. Federal que dá acesso às Universidades. Daí, a nota do candidato passa por uma triagem ou peneira para saber se vai ou não ingressar numa tão sonhada Universidade.

A Educação brasileira, a meu ver, está transformando os alunos em máquinas de memorizar, em burocratas da aprendizagem. Aprender por uma nota, por um resultado, para passar de ano, para entrar na Universidade a troco de muito estudo e sofrimento. Nada mais além disso. Cadê a alegria de aprender? O gosto de estudar? O prazer de conhecer?

Lembro-me de um livro de Rubem Alves, cujo título é  “A alegria de ensinar” em que o autor diz lá pras tantas algo assim: “Não critico a máquina educacional por ineficiência. Critico a máquina educacional por aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação que ela produz aparece de forma mais acabada”. Não somos máquinas, somos humanos inteligentes com uma grande capacidade de esquecimento e como uma incrível sensibilidade de compreender nossos limites. Continua Rubem Alves: “Fico pensando no enorme desperdício de tempo, energias e vida. Como disse o Charlie Brown, os que tirarem boas notas entrarão na universidade. Nada mais. Dentro de pouco tempo quase tudo aquilo que lhes foi aparentemente ensinado terá sido esquecido. Não por burrice. Mas por inteligência. O corpo não suporta carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida”.

Impressionante visão revolucionária de Rubem Alves que mais acrescenta ao crescimento educacional brasileiro do que inúmeras notas acumuladas a cada edição de ENEM, na intenção de apenas satisfazer a uma política neoliberal de aprovação automática em virtude de índices educacionais para impressionar lá fora. Quanta ilusão. Precisamos acordar. Encontrar uma maneira mais leve de avaliar se os jovens estão ou não preparados para ingressar numa Universidade. Deveria ser uma progressão, saía-se do Ensino Médio, optava-se logo por um curso e buscava sua formação ou realização pessoal, sua felicidade.

Tenho a honra de terminar esta reflexão sobre o ENEM com as palavras de Rubem Alves, exatamente no dia em que se realiza mais um ENEM em todo o Brasil: “Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar…”


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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