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Umas pequenas práticas de saberes II

É possível criar uma ontologia particular sem citar a Tradição com base na música, no teatro e na poesia, bem como na literatura.

Segundo Nietzsche, a tarefa do saber é: “ver a ciência sob a ótica do artista, mas a arte sob a ótica da vida”. É a dialética entre a Tradição(História) e a Ruptura(indivíduo). Foucault é filho dessa cultura que não precisa pressupor a  História para desenvolver a estrutura lógica de seu pensar.

É sabido por todos que, após as duas grandes guerras mundiais, a razão como modelo único entra em crise porque não atendeu as necessidades básicas que levam o homem ao progresso. “A razão é a imperfeição da inteligência”, segundo Tomás de Aquino, pois, fora quem melhor compreendeu a modernidade da modernidade.

A modernidade fracassou por duas maneiras: a pretensão de um estado nação assumir o controle do mundo com a queda do muro de Berlim; depois, com a Física quântica, derrogando a razão positivista que acreditava esquadrinhar todas as coisas, inclusive o átomo.

O Racionalismo frustra a modernidade como também a desigualdade social mundial, isto é, com o desenvolvimento econômico sustentado das nações.

O grande pecado da modernidade foi espiritualizar o material e materializar o espiritual, tornando o consumismo a sua marca fundamental.

Massificação e sociedade de consumo são as razões do capitalismo.

A ciência não foi capaz de dar estabilidade e segurança social frente às imprevisibilidades do futuro. Não é suficiente para integrar o homem à cultura que lhe é própria. Newton e Descartes são as duas pernas com as quais andamos. Newton com a gravidade universal e Descartes com o Método.

Sendo assim, ciência e razão nos conduziram a sofrimentos e a desorientações pela garantia de um progresso tecnológico. Não foi capaz de sanar a sede de saúde, paz mundial, importância antropológica, política, social e histórica. Frustrou as perspectivas de progresso no século XX.

Edgar Morin nos ensina que o dever principal da educação é armar cada um para o combate vital à lucidez.

Do séc. passado recebemos a lição de que “não sabemos tudo de nada”. Lutamos contra nossas pretensões bélicas, econômicas e racionalistas, mas nos esquecemos de promover o bem-estar social, ecológico, político sustentado pelo mundo afora.

Daí, passamos por uma devastadora crise de paradigma. Os modelos educacionais ou até do próprio conhecimento não dão conta das exigências complexas por que passa a humanidade.

“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital. É o problema universal de todo cidadão do novo milênio: como ter acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global ( a relação todo/partes), o Multidimensional, o complexo? Para articular e organizar os conhecimentos e assim reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é necessária a reforma do pensamento”(Edgar Morin, in Sete Saberes necessários à Educação do Futuro, pág. 35).

Para Morin, a Reforma é paradigmática e, não, programática. Uma educação que fomente a nossa aptidão para organizar o conhecimento.

Aqui é o ponto: Estamos inseridos numa sociedade altamente tecnológica informatizada, onde a Educação precisa mais do que nunca incluir esses valores para tentar responder as expectativas dos alunos e de uma nova compreensão de mundo. Todavia, como unir velocidade de informações e conteúdos via Internet/meios tecnológicos com a capacidade do aluno introjetar/refletir essas mesmas informações? Ou será que a educação está formando sujeitos de desejos ao invés de sujeitos reflexivos?

Uma alternativa ou uma das alternativas para indicar saídas é favorecer a atividade da arte e da filosofia na Educação, ou seja, implementar ações educativas complementares: jogos; filmes; jornal; teatro; música. Tudo isso unido ao poder da reflexão para possibilitar a descoberta de talentos críticos que contribuam na construção de valores e de preservação do meio ambiente.

A consequência de tudo isso foi o nosso afastamento de uma vida contemplativa(razão) para nos familiarizar, agora como nunca, com uma vida ativa, interativa audiovisual e lúdica. O desencanto da razão levou-nos ao encanto da música e dos jogos, isto é, do entretenimento midiático. Eis, no entanto, o desafio: educar toda essa massa humana advinda da cultura do entretenimento para as escolas. Se quisermos impactar crianças, adolescentes e jovens com a Educação basta oferecermos a música e o esporte nesse processo, e depois, formar indivíduos reflexivos, cuja meta é a multiplicação dessas práticas de saberes.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
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Educação: uma expectativa para o incerto

A cena do desfecho do filme “Sociedade dos poetas mortos” nos coloca dentro da experiência educacional marcadamente incerta, imprevista e nova, imponderável, porém vital.

Pelas pistas que possuímos do mundo que espera nossos jovens, só sabemos que será muito diferente do presente, com inevitável mudança de paradigma(s). Se melhor ou pior, impossível prever. Apenas precisamos não permanecer como espectadores, mas tomar nas mãos o desafio de construir o novo.

Se não podemos prever, pelo menos temos noções sobre o que não queremos: com tantas incertezas, seríamos capazes de construir um mundo mais humano? Tal pergunta nos leva ao campo da incerteza e do imponderável já que não estamos prontos para tudo, até porque a vida é cheia de incertezas e não cabe nos limites da razão e nos limites de nossos programas. Por isso dirá Morin:

“A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados. O programa é a determinação a priori de uma seqüência de ações tendo em vista um objetivo. O programa é eficaz, em condições externas estáveis, que possam ser determinadas com segurança. Mas as menores perturbações nessas condições desregulam a execução do programa e obrigam a parar. A estratégia procura incessantemente reunir as informações e os acasos encontrados durante o percurso. Todo nosso ensino tende para o programa, ao passo que a vida exige estratégia e, se possível, serendipidade e arte”(Edgar Morin).

Serendipidade vem a ser entendida aqui como ato de procurar uma coisa e achar outra; o imprevisto. “Serendip” era o nome de uma ilha ao sul da Índia, que depois se chamou Ceilão e hoje é denominada Sri Lanka; segundo um conto oriental, três príncipes de serendip, percorrendo seus territórios, fizeram importantes e inesperadas descobertas. Usa-se o termo para designar a descoberta fortuita, mas fértil para quem é capaz de combinar “acaso” e “sagacidade”.

Edgar Morin, que divulga a teoria da complexidade no Brasil e no mundo a fora, enxerga a possibilidade da Educação se inserir num processo ousado de estratégia, segundo ele, arte e serendipidade, afastando-se do programa e promovendo uma Educação cada vez mais criativa e surpreendente. Para o mundo atual, tamanho desafio não é tão fácil, por isso complexo, mas de uma exigência vital para a leitura de valores que frequentemente entram no diálogo educacional sem pedir licença.

Com isso, a preocupação da Educação não é o uno, mas o múltiplo e a complexidade, no olhar de Morin, com a vida que se afirma e que se insere num movimento constante de mudança. Remontamos, assim, a algumas citações oportunas que Morin faz jus na sua obra “A cabeça bem feita”, a qual levanta provocações filosóficas sobre o pensamento de Michel de Montaigne e outros como Rousseau e Nietzsche. Vejamos:

“Quero ensinar-lhe a viver”(Rousseau).

“Queremos ser poetas de nossa própria vida, e primeiro, nas menores coisas”(Nietzsche).

“O grande problema da Educação é conseguir que o aluno transforme a informação impessoal, no vídeo, no papel ou na fala, em conhecimento(apropriação e assimilação) e o aluno converta essa informação em sabedoria ou sapiência e empregá-la para orientar sua vida”(Edgar Morin).


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Qual é a sua opinião?…

            Nesses dias dei-me conta de que estava a pensar sobre o quanto é importante uma boa formação de opiniões, até mesmo para convivermos melhor em sociedade, expressar com mais objetividade nossas ideias, ajudar outros a formarem as suas, dirimir equívocos, afastar incoerências. Paira sobre nós um certo relaxamento em relação a isso. A nossa malemolência em lidar com o assunto é absurda.

Vejam que alguns de nós passam anos a fio dentro de uma Universidade ou de uma Escola tentando construir algo, uma carreira talvez, um arcabouço de informações, uma base a mais para crescer na vida, enfim, mas quando somos consultados simplesmente não temos o que dizer. No entanto, quer entremos ou não numa Universidade, o certo é que muitos de nós, senão todos, passamos a vida toda e não conseguimos sequer formar, tampouco viver de nossas opiniões, o que mostra o quanto não somos senhores de nós mesmos. Num ponto, Heidegger estava certo: “A maioria dos homens não pensa por si mesmo; não julga com a própria cabeça; não decide por conta própria: pensa, julga, decide conforme ou vem dizer dos outros”. Creio que está na hora de aprender a pensar com a própria cabeça. Ser cabeça bem feita e não cabeça cheia, no dizer de Montaigne, uma recorrente no pensamento de Edgar Morin.

Absortos a uma cultura capitalista democrática de interesses meramente econômicos que, de quando em quando, abandona seus ideais democráticos e dá lugar as ditaduras mais toscas e aberrantes como aquelas vistas recentemente em cadeia internacional com proporções violentas na Tunísia, no Egito e agora, no Iêmen, tal como na Líbia, nos sentimos seriamente vulneráveis quanto à solidez de algumas opiniões enraizadas na ética, na tolerância e no amor. A ditadura é a prova cabal de que “o controle da expressão leva à morte da expressão”(Márcia Tiburi). Se com expressão a democracia é o que é, o que dizer então sem ela!

Tão logo nascemos, de imediato nossos pais descarregam sobre nós os mais belos pensamentos, os mais velhos conselhos de respeito e de bons costumes, fruto de uma tradição herdada por nossos avós ou pela família inteirinha. O certo é que nem sempre se percebe a tradução de velhos ensinamentos em vida. Refiro-me a velhos não por serem menos ou mais importantes do que os novos, mas porque afirmam uma tradição distante de nós. Não é por serem velhos ou antigos que não prestam, mas por não virem acompanhados de ação, de vida, de autenticidade. É aquela história, dar conselhos é razoavelmente maravilhoso, mas vivê-los, aí são outros quinhentos. Não é em vão que o corriqueiro ditado popular teima em vigorar: “As palavras passam, mas os exemplos arrastam”. Quantas vezes não ouvimos de nossos pais: “Meu filho, cuidado com as companhias, com a bebida, com as drogas, ….” No entanto, quantos pais ou familiares não têm os mesmos cuidados, o mesmo zelo, acabando por errar muito mais.

Para a maior parte de nós, pouco importa o que acontece embaixo de nossos narizes ou em volta de nós. Na verdade, damos mais interesse para o que há dentro de nós, da subjetividade, do nosso eu arranhado, nossos recalques, culpas e ressentimentos. A atmosfera que nos arrebata não é a que está fora, mas a que está dentro de nós. Respondemos muito, mas muito mais aos estímulos da nossa subjetividade e nos distraímos, voluntariamente ou não, para o que responde o outro, para o que pensa o outro, para o que precisa o outro, para o que sente o outro… Vamos destruindo aos poucos toda uma construção ou desconstrução de valores dada às formas da nossa mais inata causalidade. Segundo Kant, há, em nós, uma intuição inata de ver ou perceber as coisas. É, portanto, esta dimensão que a Escola, a Universidade, os pais, os amigos e familiares, a sociedade e mesmo nós, cada um de nós, deve dinamizar para melhor formar opiniões que visem ao diálogo e à desconstrução de preconceitos. Resgatando, assim, a luminosidade de novas pessoas, o fulgor de novos sujeitos que deem também importância ao que está fora, perto e longe, a alteridade, o altruísmo, a caridade, o apreço pelo diferente.

Na minha opinião, a sociedade não pode ficar órfã de homens e mulheres adeptos de uma boa leitura; afeitos à música; dedicados à família; focados no trabalho; zelosos à cidadania; fiéis ao cristianismo; compromissados com a verdade; fazedores da justiça; eleitores da honestidade e não da força econômica; sabedores e cumpridores da ética; protagonistas do amanhã; formadores de si mesmos. Qual a sua opinião? Por que não tenta começar a expressá-la agora mesmo?


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

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