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O cinismo à sombra da filosofia de Diógenes, “o cão do céu”

(foto: Breno Bastos)

Geralmente o cínico é avesso à sensibilidade alheia. É bastante indiferente ao outro. Parece que o mundo à sua volta não lhe agrada tanto quanto deveria. Tudo parece girar em torno de seu eixo e de suas verdades. O cínico é mesmo louco por suas ideias, vez por outra solta uns lampejos firmes de refinada inteligência e perspicaz visão da realidade, destruindo opiniões óbvias e correntes de seu tempo. Na maioria das vezes, é dissimulado, ríspido com os afetos e constantemente contrário a quase tudo. Nada ou quase nada lhe satisfaz, aliás, a satisfação não faz parte de seu vocabulário irônico, a não ser que esteja em jogo a natureza, puro e simplesmente. A saciedade não é coisa para espíritos fortes e intragáveis como os do cínico.

A pessoa cínica parece sofrer de síndrome da super sinceridade. É um super sincero em potencial. A verdade, custe o que custar, é para o cínico como o seu pão de cada dia. Ele gosta, tem o maior prazer em falar a verdade na hora mais indelicada, no momento mais inconveniente. O cínico é despojado de bons costumes, de luxo, de uma vida opulente e assim por diante. Um exemplo disso é a famosa vida desprendida do cínico Diógenes de Sinope que, dentre outras curiosidades que cerceiam sua história, morava num tonel e gostava de fazer suas necessidades sexuais nas ruas e praças, também fazia suas refeições ao ar livre sem escrúpulo algum. Vivia como um cão: “Perguntaram-lhe que espécie de cão ele era; sua resposta foi: ‘Quando estou com fome, um maltês; quando estou farto, um molosso – duas raças muito elogiadas, mas as pessoas, por temerem a fadiga, não se aventuram a sair com eles para a caça. Da mesma forma não podeis conviver comigo; porque receais sofrer’. A alguém que lhe disse: ‘Muita gente ri de ti’, sua resposta foi: ‘Mas eu não rio de mim mesmo’”(LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília, UNB. 1977. p. 166). A despeito disso, “enquanto Diógenes fazia sua primeira refeição na praça do mercado os circunstantes repetiam: ‘cão’, e Diógenes dizia: ‘Cães sois vós, que estais à minha volta enquanto faço a minha refeição!’ Certa vez, Alexandre o encontrou e exclamou: ‘Sou Alexandre, o Grande Rei’; ‘E eu’, disse ele, ‘sou Diógenes, o cão’. Perguntaram-lhe o que havia feito para ser chamado de cão, e a resposta foi: ‘Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes”(idem, p. 167).

Na verdade, Diógenes, tratado por Platão e pela tradição filosófica de cão, talvez por possuir dentes finos e língua afiada, era muito sábio para ceder aos limites das convenções sociais e políticos de sua época. Sua vida foi toda ela ligada ao jeito socrático, irônico e impassível de ser. “A alguém que lhe disse: ‘És velho, repousa!’ Diógenes respondeu: ‘Como? Se estivesse correndo num estádio eu deveria diminuir o ritmo ao me aproximar da chegada? Ao contrário, deveria aumentar a velocidade. Conta Hecáton, no primeiro livro de suas Sentenças que certa vez Diógenes gritou: ‘Atenção, homens!’, e quando muita gente acorreu, ele brandiu o seu bastão dizendo: ‘Chamei homens, e não canalhas’. Conta-se que Alexandre, o Grande, disse que se não tivesse nascido Alexandre gostaria de ter nascido Diógenes”(idem, p. 160). 

Não se incomoda em incomodar. É um inconformado por natureza. Não é passional a nada, a coisa alguma, menos ainda a algum tipo de sentimento. Resiste às críticas de modo infalível, e sai ileso de cada uma delas. Dificilmente um cínico se aborrece com palavras de alguém. É muito nobre na arte de ironizar. Afinal de contas, a ironia é o seu grande negócio ou, até mesmo, sua arma de defesa contra seus inimigos, isto é, seus opositores. “Durante o dia Diógenes andava com uma lanterna acesa dizendo: ‘Procuro um homem!’ Certa vez, ele estava imóvel sob forte chuva; enquanto os circunstantes demonstravam compaixão, Platão, que estava presente, disse: ‘Se quiserdes compadecer-vos dele, afastai-vos’, aludindo à sua vaidade. Um dia alguém o golpeou com o punho e Diógenes disse: ‘Por Heraclés! Esqueci-me de que se deve caminhar protegido por um capecete!’ Alexandre, o Grande, chegou, pôs-se à sua frente e falou: ‘Pede-me o que quiseres!’ Diógenes respondeu: ‘Deixa-me o meu sol’”(idem, p. 162).

Aptos em atingir seus oponentes com palavras afiadíssimas, o cínico é semelhante à pedra ou ao ferro, forte e cortante, devido à extraordinária resistência aos conflitos de ideias. Mostra-se hábil na arte de falar e de persuadir as pessoas. O cínico é uma verdadeira máquina de pensar e de guerrear com palavras. Os argumentos de um cínico são incrivelmente convincentes, aguçados e lógicos. Frio e pusilânime, por inúmeras peculiaridades, o cínico é encantador na forma de debater variados assuntos sobre a vida e de celebrar maravilhosamente a liberdade de expressão: “A alguém que lhe perguntou qual era a coisa mais bela entre os homens, esse filósofo respondeu: A LIBERDADE DA PALAVRA”(idem, p. 169). Após a morte de um dos mais famosos cínicos da Grécia Antiga, ao lado de Antístenes, que difundiu tal escola, Diógenes legou supostamente uma imagem boa, de um homem abnegado das coisas materiais e supérfluas, que difundiu a ideia da felicidade pelos esforços requeridos à natureza, conforme à natureza simplesmente. Dele falaram: “Já não existe, ele, que foi cidadão de Sinope, famoso por seu bastão, pelo manto dobrado e por viver ao ar livre; foi para o céu, apertando os lábios contra os dentes e prendendo a respiração, tendo sido realmente um verdadeiro Diógenes de Zeus, cão do céu”(idem, p. 171).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos

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Aula não precisa ser show

Às vezes até mesmo nós, na condição de professores, somos tomados pelo embalo do momento em que a Educação se deixa virar facilmente para cultura do espetáculo. Uma cultura que imputa e dita suas regras em virtude do sistema econômico capitalista que, entre outras coisas, transforma o educador num animador de auditório e o estudante num cliente. Infelizmente, estamos sendo quase que forçados a abraçar uma causa da Educação voltada para o “vale tudo” desde que o estudante não saia da Escola ou da Universidade.

Estamos relativizando demais os critérios da aprendizagem. E isso se deve ao fato de aceitarmos exigências profissionais vindas de um sistema falido, sem compromisso com a Educação e submetido a quaisquer negócios de ordem financeira. Daí paira sobre nós esse discurso ideológico do sistema espetacular.

Que discurso é esse? É um discurso que prima por uma Educação sem reflexão, valorizando inúmeros estímulos como produtos da tecnologia e dos meios de comunicação de massa. Possibilita a descentralização da capacidade cognitiva do estudante, como também a incapacidade de concentração em atividades que demandam tempo de análise e capacidade reflexiva. “O tempo espetacular exige que a consciência se fragmente, de modo a captar a maior quantidade de percepções possíveis” (NUNES-BITTENCOURT, Renato. Educação sem reflexão no sistema espetacular. Conhecimento Prático. Filosofia, São Paulo, ano 7, ed. 46, p. 66, dez 2013/jan 2014).

O artigo de Renato Nunes-Bittencourt vai mais além nessa questão e realça, segundo ele, “os sintomas desse mal-estar cultural”. Repare: “Na conjuntura educacional contemporânea, um dos sintomas mais evidentes desse mal-estar cultural reside na transformação do professor em um animador de auditório, ocorrendo assim a obrigação profissional de entreter o alunado com uma dinâmica imbecilizante, de modo a tratar sua turma como pessoas que se recusam a sair do estado de menoridade existencial” (idem).

Não podemos tratar nossos estudantes como clientes, mercadorias, cujo preço é o atendimento imediato de seus caprichos. Porém, é com respeito, apostando em suas potencialidades e faculdades para aprender que merecem ser tratados. Eles precisam sair da condição de meros espectadores das aulas e assumirem a posição de sujeitos autônomos, críticos à altura de qualquer desafio. Quem sabe até pudéssemos incitá-los ao diálogo para ultrapassarem a dimensão do espetáculo na sociedade e na sala de aula.

A respeito disso evoco aqui um episódio curioso sobre a vida de Platão mencionado nas Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres de Diógenes Laértios, onde traz o encontro dramático de Sócrates e Platão no contexto das Tragédias. Acostumado a frequentar o teatro e as festas dionisíacas, justamente no instante em que ia participar de um concurso de tragédias, Platão, ao ouvir aquele homem e seus argumentos de mestre, passa a segui-lo e joga seus poemas às chamas.

Veja que Platão ultrapassa sua condição de amante de espetáculos para se transformar em amante de espetáculos da verdade. No livro V da República, Platão escreve um diálogo importante entre Gláuco e Sócrates mostrando a distinção entre os que são apenas amantes de espetáculos e os que são amantes de espetáculos da verdade. Os verdadeiros estudantes, para Platão, devem ser filósofos. “Mas aquele que deseja saborear toda a ciência, que se entrega alegremente ao estudo e nele se revela insaciável, a esse chamaremos, com razão, de filósofo, não é assim?” Pergunta ironicamente Sócrates a Gláuco.

Os efeitos do sistema espetacular na Educação já se fazem sentir quando as aulas se tornam apenas mecanismo de animação, dinamização e sensacionalismo emocional, uma vez que só existem para prender a atenção e atender ao gosto da maioria (clientela). Ora, não estamos num palco ou num circo, muito menos num programa de “reality show”. A Aula não precisa ser um “show” para realizar o ensino e a aprendizagem. Aulas são feitas de provocação (problematização), trabalho, diálogo, investigação (pesquisa), conteúdo, muita leitura e reflexão. Quem se dispõe a ir à aula, deveria ir como se fosse ao trabalho. Só que é um trabalho diferente, um trabalho intelectual. Mas se chegar a um “show” ou se estiver assistindo a um espetáculo numa aula, queira ir mais adiante, assuma o controle, ultrapasse.

Segundo Libâneo, a aula “[…] não se aplica somente à aula expositiva, mas a todas as formas didáticas organizadas e dirigidas direta ou indiretamente pelo professor, tendo em vista realizar o ensino e a aprendizagem. [..] ela é toda situação didática na qual se põem objetivos, conhecimentos, problemas, desafios, com fins instrutivos e formativos, que incitam as crianças e jovens a aprender”(LIBÂNEO, José Carlos. Didática. 28º Ed. São Paulo: Cortez, 2008. p.178).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Bel. e Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica, Esp. em Estudos Clássicos.

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