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O politicamente correto

(foto: cena do filme “Intrigas de estado” – State of play, 2009- , de Kevin MacDonald, …)

Há quem diga que não se sente à vontade agindo assim; tendo que frear as emoções; abraçar quem não gosta; conviver com quem é intragável; tratar bem os inimigos; superar com sorrisos as antipatias; cumprimentar o vizinho que não suporta falar com você… E por aí vai. São inúmeras as circunstâncias de dissabores que nos arrematam para a famosa ideia do politicamente correto, bastante difícil de engolir e de aceitar.

As pessoas politicamente corretas, na maior parte das vezes, são absolutamente extremas e escrupulosas, fugindo, de quando em vez, das dosagens naturais de respeito e educação. Não é tão forçoso pedir um pouco mais de educação a um sujeito, mesmo que não concorde ou não aceite determinada opinião. Lembro-me de uma entrevista de Dodô, jogador do fluminense na época, que estava no banco de reservas imerecidamente. Ao ser perguntado pelo jornalista se ele concordava com a atitude de Renato Gaúcho, então treinador do fluminense, em deixá-lo no banco de reservas já que vinha de uma sequência de boas atuações pelo time, goleador, fazia a diferença, mas era sempre colocado no banco como uma segunda opção para os minutos finais da partida. Quanto a isso, Dodô afirmou de modo contundente: “Não concordo com a opinião do treinador, mesmo assim tenho que respeitá-lo e conviver bem com ele, afinal ele é o treinador e não eu, não vou sair do time por causa disso”. O fato de uma pessoa não concordar com alguém não quer dizer que ela tenha que ofendê-lo ou brigar com ele, mas o mínimo que se pede para um bom profissional é educação e modos amistosos de tratamento sociável, pois, do contrário, seria impossível conviver uns com os outros num ambiente de trabalho ou até mesmo numa vida em comunidade.

Em nossas relações temos que encontrar sempre uma porta aberta à generosidade, mesmo contra toda indiferença e toda ignorância. Afinal de contas, não custa nada uma pitada de humor para abrir esta porta ao outro. O humor, nesse caso, ajuda muito. Seriedade demais engessa as relações e acaba atrapalhando. É preciso muita leveza para não nos intrigarmos com o mundo todo, o que não é nada agradável. A intriga fecha portas; a amizade abre portas… A intriga só é interessante no campo das ideias, o que não tem nada a ver com isso que estamos falando agora. A intriga das ideias mexe com a curiosidade e a pesquisa. Esta, sim, é bem-vinda. Àquela das relações, não. Não edifica em nada, não constrói, não torna as relações entre as pessoas tão humanas quanto fidalgas.

Temos que ultrapassar a barreira do politicamente correto com a leveza dos gestos de gratidão e de amor. Apesar de termos nossas restrições com outras pessoas, nada nos impede de convivermos bem com elas. Todos temos nossas limitações. Eu sou assim e acabou. Sou diferente; o politicamente correto uniformiza. Nada de ficar se escondendo no politicamente correto com expressões do tipo: “Ah, cara, sua cor afrodescendente é bacana”; “Desculpe, não tomo refrigerante, estou fazendo dieta”, e etc. Palavras como “negro” e “gordo” foram omitidas do vocabulário do politicamente correto. Pensar assim é muito complicado, uma vez que há um sério risco de perdermos a identidade e de não contribuirmos para a formação de nossa personalidade. Acabamos por deixar de nos conhecer para conhecer o politicamente correto. Que coisa!

Diria mais, mesmo com aquelas pessoas super-avessas a nós, até mesmo inabordáveis, que não falam conosco, mesmo assim é preciso exercitar nossa fidalguia, nossa destreza nos bons modos. Nada de ofender, tampouco agredir as pessoas, simplesmente porque não gostamos delas. Afinal, ninguém é perfeito e nem será.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

http://www.twitter.com/filoflorania

 


 

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O sentido do trabalho

(Arte: Diego Rivera)

Eis um bem necessário: Trabalhar. Não quando se está para entrar em férias, mas quando se está prestes a sair delas. As férias estão às portas, e está aí uma boa hora para se pensar um pouquinho no sentido que damos ao trabalho. Talvez vejamos melhor o trabalho longe dele ou fora dele. Muitos diriam até que é um mal necessário, no entanto, trabalhar acaba sendo um bem necessário, antes de tudo, porque é um valor insubstituível para a saúde de qualquer cidadão, bem como para a sua sustentabilidade.

É óbvio que, como qualquer outra coisa na vida, o trabalho também é uma falta quando da sua ausência circunstancial. Só se valoriza o estudo quando se deixa de estudar. Só se valoriza o amor quando se passa pelo deserto do desamor. Só se percebe a pessoa do lado até o momento em que ela passa a não estar lá. Assim também é com o trabalho. Sua falta é sentida a partir do momento que deixamos, por alguma razão, de trabalhar. Com as férias, ausência de trabalho, vem a monotonia, o tédio, o sedentarismo e todo tipo de males. Por isso, o trabalho acaba sendo uma das boas saídas para uma vida feliz, sobretudo quando o trabalho é a extensão da família que enriquece o convívio social.

As férias não devem ser encaradas como um tempo de morbidez sem fim, uma vez que são um período apenas de descanso e de recomposição das energias gastas num intenso tempo de trabalho. Sendo assim, nada mal que tenhamos um bom tempo livre para fazer muito do que se gosta, como por exemplo; terminar aquela leitura que ficou inacabada; caminhar com mais frequência para exercitar o corpo e manter o equilíbrio emocional; cuidar um pouco mais de si; dialogar com quem não se via há bastante tempo; visitar os amigos; viajar e respirar novos ambientes… Enfim, volta e meia precisamos tirar umas férias, até porque ninguém é de ferro. Sair das rotinas e se desgarrar dos enfados do trabalho maçante e burocrático, de atividades repetitivas por isso estressantes, nos fazem muito bem.

Não há dúvidas de que a nossa natureza humana reclama descanso, paz e um pouco mais de humor, porém há que se ressaltar, nisso tudo, um certo limite de empolgação para com as férias, até porque quanto mais nos acostumamos com elas e com o lazer, mais e mais nos percebemos que somos homens do trabalho, seres que não vivem mais sem trabalho. Essa é uma consequência dos famosos tempos modernos trazidos pela revolução industrial, êxodo rural e inchaço das grandes cidades. Trabalhamos visando à riqueza, ao lucro e ao acúmulo de bens, ao capital. Isso nos levou a não trabalharmos mais, mas a capitalizarmos, perdemos o sentido do trabalho que vinha acompanhado do pensamento e do prazer. Todavia, não só pelo motivo econômico de sobrevivência e subsistência, mas também pela ocupação terapêutica, pela “salvação” mesma que o trabalho nos propõe é que ele é tão indispensável nos dias atuais. Tira-nos da inércia e nos põe em atividade, em movimento.

É desse ponto de vista muito peculiar que o trabalho acaba sendo uma opção de vida continuada até mesmo para quem se aposenta e não quer, de jeito nenhum, cair na invalidez. Aposentar-se hoje aos 60 anos não é mais uma verdade, tampouco um sonho de muitos. Aposentar deixou de ser um ideal a perseguir.

Acostumados com uma pauta exaustiva, extenuante e até certo ponto corriqueira do trabalho não nos habituamos mais a um ritmo de vida estático e cômodo comparado ao das férias. Talvez isso se deva ao frenético ritmo de atividades que uma mesma pessoa pode desenvolver hoje no mundo do trabalho. Desempenhamos as mais variadas atividades, desde aquelas ligadas ao lar até às inúmeras outras ligadas ao comércio, à indústria, ao estudo e etc. É bem verdade que nos adaptamos a tudo, até mesmo ao mais duro dos muitos trabalhos, como é o caso do trabalhador rural e do trabalhador de construção civil; trabalhadores nos canaviais e pedreiros por exemplo. Estes, de sol a sol, o dia inteirinho, não largam seus instrumentos de trabalho porque precisam produzir ou render intensamente no labor que desempenham.

Não importa o trabalho ou as suas diferentes formas, todos eles são necessários para o desenvolvimento humano e cultural de um povo. O que é indispensável fazer, além de fabricar e criar com as mãos e outros membros do corpo, é arte com o trabalho. Trabalhar com arte é permitir-se ao novo, ao desconhecido, ao inusitado. Trabalhar é transcender à sua ordem do dia. Trabalhar é agradecer em meio ao deserto, fruto da irritabilidade, do cansaço e da falta de vocação para tal. Trabalhar é também comer o pão do suor de seu rosto. Trabalhar, tal como se ouve música ou como se faz teatro, encenando, representando, deixa de ser uma tragédia, um incômodo e passa a ser arte, algo muito agradável.

Para terminar, não se deslumbre muito com as férias, pois assim como se cansa do trabalho, cansa-se também das férias!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica.

www.umasreflexoes.wordpress.com

www.twitter.com/filoflorania

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