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O silêncio das massas

O provérbio bíblico “as palavras são de prata, mas o silêncio vale ouro” tem muito a nos dizer. O silêncio, tantas vezes criticado, é a melhor maneira de não dar com a língua nos dentes. O “quem cala consente” não é verdade, principalmente quando o silêncio é uma presença de indignação. Uma indignação que exige respeito e tolerância do “tudo tem limite”. Às vezes, precisamos calar pra não sermos mal compreendidos ou pra reclamar, com ausência da voz, o limite do outro.

No entanto, lanço-me completamente em direção a quem se expressa, a quem tem atitude, a quem se manifesta. Numa democracia, mesmo disfarçada de outras coisas, não podemos abrir mão da fala, não devemos sublimar o grito das massas, o desengasgo daqueles que são reprimidos pela violência dos poderes acéfalos. Acontece também que tem muita gente se escondendo atrás do seu próprio silêncio, fingindo sensatez, mas não tem nada disso, é apenas oportunismo e covardia. Oportunismo para tirar vantagens em cima dos outros e covardia para não mostrar a cara, para não mostrar quem é, para não expor suas posições. Bobagem, uma hora ou outra tudo vem à tona.

Repare bem, a ditadura cerceou nossos direitos de defesa; declarou legítima a tortura e a indigência de inocentes; sufocou sonhos de jovens lideranças; arruinou centenas de milhares de vidas; disseminou o medo e o terror pelo mundo; destruiu inúmeras carreiras bem sucedidas. Passados mais de vinte cinco anos, ainda não aprendemos com a Democracia e continuamos a interferir onde não devemos. Queremos meter o nariz onde não nos convém. Por que temos que desgraçar o que é público em nome do privado? Por que as autoridades insistem em suforcar as liberdades individuais? Ora, se nem Deus se permite a isso, por que nos permitimos a um descalabro desses?

Quem não lembra da Alemanha nazista, da União Soviética stalinista e da Itália fascista! Guardando as devidas proporções, sem nenhum saudosismo, existem alguns focos espalhados no Brasil desse tipo cruel de regime político que vem favorecendo a classe dominadora e excluindo os dominados de uma sociedade esfacelada pela corrupção. Em nome da corrupção se mata, se esconde e se oprime muita gente no estado que se diz democrático de direito. Não é brincadeira o que se faz nas eleições brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste do país. Se barganha quase nada pelo voto em tempos de eleição. É lamentável! Vivemos um certo esfriamento da consciência política, justamente por não vermos as transformações acontecerem com mais eficácia no campo social e político. No jurídico, as leis não são efetivamente cumpridas e isso facilita o aumento de casos de corrupção no país.

O problema da corrupção política no Brasil é crônico. Das pequenas às grandes cidades são inúmeros os casos de desvio de verba pública para fins particulares dos próprios políticos que exercem o governo. Um governo de si mesmo. Muitos governam para si mesmo. “Sua autoridade termina onde principia a autocracia da minoria dominante. Ela regula as oscilações de promessas falsas e de opressão real, incrustadas nas instituições quimericamente ‘constitucionais’” (FERNANDES, Florestan. Herança maldita. Folha de S. Paulo, 10 out. 1994, p. 1).

Levantar a voz contra esse problema devia ser função legítima nossa, sem medo algum, até porque conquistamos efetivamente nossa democracia. Manifestar-se contra as arbitrariedades de um governo irresponsável é exercício nosso de cidadania e faz bem à consciência e ao patrimônio público. Infelizmente, o silêncio das massas nunca foi tão sentido quanto agora, talvez por um certo “conforto” econômico por que passa o país ou pela nova mentalidade ecológica de conservação do planeta, sinceramente não sei. E sei, sim, que o silêncio guarda algo que não quer calar. Vejam só o que dizem Chico Buarque e Gilberto Gil na música “cálice”, um tremendo trocadilho de “cale-se” para expressar a indignação popular contra a censura:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Não se deixe calar, permita-se falar. Exerça um direito seu que já foi proibido!


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, em Estudos Clássicos/UnB/Archai/Unesco, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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Falemos de política…

É um tema muito delicado, sobretudo na época atual.

Mas o que é política?

Se a etimologia não mente, é a ciência do governo da cidade.

Pode ser que esta definição não lhes agrade; mas isto pouco me embaraça. Estou expondo um novo sistema social; é natural que me aparte das opiniões geralmente admitidas.

Continuemos.

A política é o governo da cidade. A cidade se compõe de freguesias, de ruas, de casas, de famílias e de indivíduos, assim como a nação de províncias e municípios.

Já se vê, pois, que a política deve ser também a ciência de bem governar a casa ou a família, e de promover os interesses dos indivíduos.

Isto é lógico, e ninguém me poderá negar que, promovendo-se estes interesses, não se concorra poderosamente para o melhoramento da freguesia, da província, e finalmente do país.

Daqui resultam, portanto, dois grandes sistemas políticos, dois princípios únicos da ciência do governo.

Um que procede à guisa da análise, que parte do particular para o geral, que promove os interesses públicos por meio dos interesses individuais.

O outro é uma espécie de síntese, desce do geral ao particular, e, melhorando o país, assegura o bem estar dos indivíduos.

Este método, tanto em política, como em lógica, tem geralmente pouca aceitação: de ordinário os espíritos esclarecidos preferem a análise.

Quereis saber como se faz a análise em política?

Em vez de examinarem-se as necessidades do país, examinam-se as necessidades deste ou daquele indivíduo, nomeam-no para um bom emprego criado sem utilidade pública, e o país se incumbe de alimentá-los por uma boa porção de anos.

Lá chega um dia em que se precisa de um ministro, e lança-se mão daquele indivíduo como de um homem predestinado, o único que pode salvar o país.

Eis, portanto, os favores feitos àquele indivíduo dando em resultado um benefício real à causa pública; eis a política por meio do empenho – quero dizer da análise, – criando futuros ministros, futuros presidentes, futuros deputados e senadores.

Alguns espíritos frívolos, que não tem estudado profundamente este sistema político, chamam a isto de patronato!

Ignorantes, que não sabem que cálculo profundo, que sagacidade administrativa é necessária para criar-se um homem que sirva nas ocasiões difíceis!

Estes censuram o deputado que, em vez de se ocupar dos objetos públicos, trata dos seus negócios particulares; falam daqueles que sacrificam os interesses de sua província às exigências de sua candidatura de senador.

E não compreendem que estes hábeis políticos, promovendo os interesses de sua pessoa, de sua casa e de sua família, não tem em vista senão auxiliar o melhoramento do país, partindo do menor para o maior.

De fato, algum dia eles pagarão à nação tudo quanto dela receberam, em projeto de reformas, em avisos, em discursos magníficos. Isto enquanto não vão a Europa passear e fazer conhecida do mundo civilizado a ilustração dos estadistas brasileiros.

E há ainda quem chame a isto patronato, empenho ou desmoralização! Como se em muitos outros países, e até na França, não estivesse em voga este mesmo sistema de governar!

Outrora se dividiam as formas de governo em república, monarquia representativa e monarquia absoluta. Hoje está conhecido que estas divisões são puramente escolásticas, e que não há senão duas maneiras de governo: o governo individual e o governo nacional, o governo dos interesses particulares e o governo dos interesses do país.

Cada um deles pode conduzir ao fim desejado, procedendo por meios diversos.

Um, por exemplo, escolhe o indivíduo para o emprego, segundo a sua aptidão; o outro escolhe o emprego para o indivíduo, segundo a sua importância.

O primeiro ganha um bom empregado, o segundo um excelente aliado. Um pode errar na escolha do indivíduo; o outro pode ser traído pelo seu protegido.

José de Alencar, Correio Mercantil, Rio de Janeiro, 10 de junho de 1855.

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Reflexões Veranis

(foto: 1000 homenzinhos de gelo da brasileira Nele Azevedo)

Somos tipicamente ou atipicamente forjados pelo verão, principalmente agora com essa loucura de elevadas temperaturas que chegam a nos sufocar em dias de baixa umidade de ar. Para quem mora no sertão nordestino, acostumado a muito sol e pouca água, feito um de nós, rapidamente nos adaptamos a esta atmosfera equatorial comum em países como o Brasil.

O clima influencia diretamente em nossa cultura, no cotidiano e em nosso modo de viver, basta vermos como nos vestimos, o que comemos e o que fazemos. Verão aqui é basicamente o ano todo! Vivemos num país que não vê mais a passagem de uma estação à outra. Esse fenômeno era visto somente no sertão nordestino, pois íamos do verão ao inverno, do inverno ao verão o tempo todo. Agora, não só o Nordeste, mas o Brasil inteiro experimenta como é viver num país de uma estação só.

Como disse, somos forjados pelo verão. De dezembro a fevereiro, do Natal ao Carnaval, o cidadão brasileiro, seja ele nordestino, gaúcho ou carioca, é exposto ao calor do sol das sucessivas festas que ocorrem justamente nesse período. Um verão com cara de sol literalmente e metaforicamente, pois é tempo de férias, fazer boas viagens, sair com a família, passear, divertir-se, celebrar e etc. Para alguns, o verão parece refletir a alma do brasileiro que gosta de carnaval e futebol. Para outros, significa o esvaziamento de si mesmo, a perdição da alma.

Na verdade, uma grande maioria se permite demais quando está vivendo estes momentos de alta sensação de liberdade. Na mesma proporção em que o calor aumenta, as ações impensadas também aumentam na vida do cidadão. A sensação de intensidade e imediatez que o verão evoca na mente do jovem e de outras pessoas é impressionante. Há que se ter muito cuidado com isso. Não é agora e nem nunca que você vai beber toda a bebida do mundo. Do contrário; você pode não beber. Não é agora que você precisa sair com todas as mulheres do mundo; você pode esperar. Não é agora que você tem de consumir tudo; você pode economizar. No verão, as pessoas se permitem a tudo perdendo a noção de medida, de sobriedade!

Ou seja, o verão vem se tornando, com o passar do tempo, por coincidir com as férias, com 13º salário, com o carnaval e etc., uma concorrência desleal consigo mesmo do “salve-se quem puder”, numa espécie de “happy hour”, momento feliz em que é preciso aproveitar tudo deste período custe o que custar. Até o corpo é trabalhado para o verão; muita malhação e pouca comida. Se já não há limites para a ditadura do corpo, imagine no verão. Para satisfazer os prazeres do corpo, tudo vale, tudo é permitido, não sobra tempo para mais nada em meio às parvoíces veranis.

O que sobra? Nada. Aí está o risco que muitos correm no verão: perder o controle da vida. No vale tudo da vida deste breve verão, que tem dia e hora para acabar, não vale a pena expor-se ao sol da promiscuidade sexual, das drogas, do consumismo exagerado, do desperdício e, muito menos, do vaivém de aventuras tão próprias a este relativo período, uma vez que possa ser mais difícil desacelerar até voltar ao ritmo natural de outras estações do ano; voltar ao controle da vida.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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Estopim de manifestos


(Manifesto em Brasília, DF, fonte: http://www.noticias.r7.com)

As várias manifestações populares tomando ruas e praças por todo o Brasil são, na verdade, um grito de “desengasgo” de que não é mais possível suportar, com tanta indiferença e tamanha passividade, a má gestão do dinheiro público. Parece que o povo quer resgatar sua identidade democrática. Estamos ocupando um lugar que é nosso no cenário político. Um lugar de participação e discussão para dizer o quanto estamos insatisfeitos com o tratamento que estão dando aos recursos públicos.

Infelizmente, passamos a metade do ano trabalhando só pra pagar impostos ao governo. A gente trabalha para manter esse país. Ainda dizem que o serviço público nesse país é gratuito. Não é tão gratuito assim. Paga-se por tudo, inclusive por saúde, educação, transportes, lazer, água, luz, internet, telefone, enfim, e ainda temos que aturar obras superfaturadas, gastanças com “arenas” de futebol para a copa do mundo, corrupção política, excessos de regalias para autoridades políticas e outra gama enorme de injustiças sociais, como baixos salários, vão superando o limite prudencial de tolerância dos cidadãos ao ponto de causar todo esse estopim.

A população não está querendo só a redução da taxa de transporte público, mas a condição de poder usufruir melhor os seus direitos. Além disso, quer saber, com transparência, como está sendo gerido o dinheiro de tantos e tão altos impostos e por que a condição de vida está piorando.

Curioso, mas o ato de ir às ruas e ocupar as praças deixou o enorme país bem pequenininho aos olhos de todos, sobretudo, aos olhos dos políticos, uma vez que as imagens dos protestantes subindo a rampa do Congresso Nacional em Brasília chamam a atenção pelo simbolismo, pois significa muito. Quem realmente deve estar no centro do poder democrático? O povo. E outra, as inúmeras cenas dos manifestantes expressam a seguinte reclamação: Quem nos representa?

Por mais que alguns cientistas afirmem que essas manifestações não passem de atos emocionais isolados da população, sem nenhuma causa maior, no entanto, prefiro esperar um pouco para ter a certeza de que tudo isso signifique, de fato, aspirações mais amplas e mais profundas de uma sociedade que, me parece, no dizer do filósofo Luiz Felipe Pondé, “está criando o hábito de reclamar”.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia, Especialista em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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Reações de uma copa

O evento Copa do Mundo no Brasil está nos elevando à condição de sujeitos políticos, incapazes de deixarmos passar batida qualquer informação que envolva gastos públicos com estádios da copa. Nunca fomos tão fiscalizadores dos gastos públicos como agora. Até parece que a população, por conta própria, abriu uma CPI para investigar as obras superfaturadas, não só de construção dos estádios, mas principalmente de infraestrutura das sedes, que se multiplicam assustadoramente às vésperas da copa, quando se acendem as luzes do “grand” espetáculo e se apagam aquelas da indignação.

Essa saudável reação política da população com a copa não é inédita. Tivemos outras copas que também nos fizeram despertar do sono político. O brasileiro é como um jogador em campo; de repente sofre um apagão. Aí acontece um evento fortíssimo que o tira do lugar-comum, daquela sonolência absurda, e o põe numa situação de alerta total.

A reação é legítima, mas não é única. Na copa de 1970, quando fomos tricampeões mundiais de futebol, o cenário político não era dos mais agradáveis. Amargávamos uma ditadura militar sob muita tortura e repressão aos direitos políticos. A população não gozava de liberdade de expressão e era impedida de se opor ao governo Médici, que conduzia o país de forma autoritária por ser considerado um militar de “linha dura”, responsável pela tortura e morte de muitos civis. Mesmo assim, a sociedade brasileira não abriu mão de torcer, sofrer e, no final, comemorar a estupenda vitória da seleção em cima da Itália por 4 a 1. Foi um momento em que o povo, em plena crise política, exultou de alegria.

Inegavelmente, um evento copa, sobretudo quando ocorrido na sua própria casa, guarda um paradoxo sem precedentes. Por um lado, é um momento oportuno para os sanguessugas políticos e donos de empreiteiras aproveitarem os altos investimentos do governo com obras da copa para agenciar iniciativas de ordem político-eleitoral, visto estarmos em ano de eleições no Brasil. Por outro, é tempo de ficarmos ainda mais de olho no que estão fazendo com o dinheiro público e percebermos como os interesses são mesquinhos e cada vez menos coletivos. Daí, durante a copa, não pararmos de fazer a crítica.

O governo aproveita a copa para fazer propaganda eleitoral, responder a oposição na direção de que o país está avançando na economia, oferecendo empregos e melhorando a qualidade de vida, porém o povo também não fica atrás e aproveita para reclamar dos serviços públicos, cobrar de seus governantes o que muito ainda está por fazer na educação, na saúde, segurança e combate à corrupção com reformas políticas.

Infelizmente não correspondemos aos efeitos de um evento copa. Podíamos ter investido muito mais em mobilidade urbana, metrôs, outros meios de transportes, ampliação de aeroportos, modernização das cidades, turismo, etc. Tudo o que a imprensa vem falando faz sentido, embora seja agenciada também por interesses de ordem política e econômica. Por trás dela há muita gente influente.

Parece que só o futebol produz esse duplo movimento: reações contra e a favor da copa. Os que dizem não à copa são movidos por um sentimento politicamente correto de que é preciso não baixar a guarda e gritar as injustiças mesmo durante os jogos, certamente não se envolverão com os jogos, não torcerão. Os que são a favor, e esta é uma maioria afirmativa, irão procurar vivê-la de qualquer modo, com ou sem indignação, com ou sem senso do ridículo. Além disso, o que se espera de um país democrático é que as reações sejam pacíficas e ordeiras.

Para experimentar, de fato, a Copa do Mundo aqui no Brasil com todas as suas demandas é interessante considerar o que disse o escritor colombiano, Gabriel Garcia Márquez, num texto seu chamado “El juramento”, onde descreve a sensação de ter virado torcedor de um time de futebol: “O primeiro instante de lucidez em que me dei conta de que tinha virado um torcedor intempestivo foi quando percebi que durante toda a minha vida eu tive algo do qual sempre me orgulhei e que agora me incomodava: o senso do ridículo”.

Vale a dica: envolver-se com a copa implica desvencilhar-se do senso do ridículo.

Boa copa a todos.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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“Futebol total” na copa das copas

A alardeada expressão “futebol total” tomou conta do mundo em 1974 por uma seleção que, embora não fosse campeã naquele momento, ainda assim encantaria o mundo com jogadas traçadas de um lado a outro do campo; passes perfeitos de pé em pé cheios de beleza e risco; blocos de jogadores que se deslocavam fácil e sincronicamente da defesa, passando pelo meio, até o ataque, de modo que nenhum jogador parecia exercer uma posição fixa, mas jogavam em todas as posições e ao mesmo tempo nenhuma. Era um futebol vistoso e dinâmico.

Tal seleção era conhecida como “carrossel holandês” pela forma como rodava a bola e invertia as jogadas, aproveitando todos os espaços do campo de jogo. Aliado ao famosíssimo “tiki-taka”, executado recentemente pelo Barcelona de Cruyff e de Guardiola, como também pela seleção espanhola, o “futebol total” oferece características táticas muito presentes ainda hoje no futebol visto em boa parte do mundo, sobretudo agora na copa do mundo de 2014 aqui no país do futebol, onde acontecerá, ao que todos dizem, a copa das copas.

Ao contrário da seleção espanhola, a brasileira não segue britanicamente o esquema tático “futebol total”, mesmo que se percebam fortes características deste futebol no esquema de jogo proposto pela atual seleção brasileira. Veja que o Brasil tem zagueiros, volantes, laterais, meias e centroavante que não obedecem rigorosamente suas posições específicas em campo, e, no entanto, avançam, marcam ou atacam quando convêm. É muito comum num jogo de futebol atual observar estas características que foram preservadas de um estilo de jogo que rendeu importantes títulos a equipes na Europa e em Copas do Mundo até bem recentemente.

Duas equipes carregam especificamente o jeito de jogar vencedor do “futebol total”, o Barcelona e a seleção espanhola, campeã da última copa do mundo.

É óbvio que no Brasil veremos um desfile de volantes fazendo a festa em suas seleções, uma vez que são eles responsáveis pela maior parte das roubadas de bolas, das ligações entre a zaga, meio e ataque, sem contar a truculência da força física. O que impera na presença desse jeito de jogar, que ainda perdura, é um futebol sistemático, extremamente tático, programático e burocrático. Os grandes “meias” não aparecem mais, os laterais que iam ao fundo e cruzavam artisticamente estão em baixa, os clássicos batedores de falta andam ausentes.

Assistiremos a um futebol de muita tática, pouca técnica; esquemas que priorizam a dura marcação em detrimento do bom drible, da ousadia e da individualidade. Prender individualmente a bola é quase proibido.

A seleção brasileira aprendeu muito nos últimos tempos a compactar mais seus jogadores na movimentação em campo, sobretudo quando se desloca ao ataque e quando se desloca para a defesa. Idas e vindas do ataque para defesa a que se cuidar com a organização, a compactação em blocos. A nova onda agora é a marcação sob pressão, executada hoje pela seleção brasileira no amistoso contra a seleção da Sérvia. Algo que o Brasil vem fazendo constantemente em seus jogos. Uma prática que o levou a conquistar a Copa das Confederações ano passado aqui no Brasil.

Diferente de escolas mais sistemáticas, apegadas a um futebol arrumadinho, matemático, repleto de estratégias como a italiana, espanhola, holandesa, alemã; a escola brasileira, contagiada pelo futebol sul-americano dos uruguaios, argentinos, paraguaios e chilenos, acrescenta um estilo de jogo ao “futebol total” que a faz diferente das outras porque agrega habilidade, criatividade, ousadia, beleza, originalidade e efetividade; não por acaso ganhamos 5 vezes.

Vide imagem do campinho (esquema) da seleção holandesa em 1974. Tática pura com excelentes jogadores.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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Ufa! Conseguimos

Depois de vivermos a “copa” da FIFA com suas exigências astronômicas, conseguimos terminar a arena Itaquerão a tempo para o jogo de abertura. Conseguimos.

A “copa” das manifestações populares que refletem a indignação de muitos, esgotados com o descaso no serviço público e com a corrupção na política, não conteve a paixão nacional por futebol e rendeu-se à força do evento, à importância do momento. Conseguimos.

Não esquecendo ainda a “copa” da direita e da esquerda brasileiras que, escandalosamente, puxa o cordão dos oportunistas visando às eleições deste ano; conseguimos apagá-los do maior espetáculo da terra. Foram ofuscados pela cerimônia, pelo hino nacional e pelo futebol vitorioso da seleção brasileira. Conseguimos.

Conseguimos superar um movimento ousado nas redes sociais e em diferentes mídias que expressavam o desejo extremo de boa parte da população que se dizia contra a copa: “não vai ter copa”.

Superamos até um gol contra de Marcelo, zagueiro da seleção brasileira, no início do jogo ao enfrentarmos os croatas, mas conseguimos abatê-los antes mesmo de tripudiarem sobre nossa força e fraqueza, a torcida presente no estádio. Conseguimos.

Não bastasse a ansiedade natural antes do jogo da estreia, conseguimos suportar pacientemente uma experiência desconfortável de ficar atrás no placar por cerca de dezoito longos minutos quando veio o épico gol de Neymar no cantinho do goleiro Pletikosa. Mesmo a bola tocando na trave, conseguimos.

A virada foi radiante. Oscar, que fez uma partida impecável, lança a bola para Fred dentro da área e sofre o pênalti meio polêmico. Neymar bate, mas a bola resvala nas mãos de Pletikosa, que não impede o gol da virada. Conseguimos.

Mas a maior pressão estava por vir. No segundo tempo, um jogo confuso e muito veloz, embalado por uma atuação permissiva do árbitro japonês Yuichi Nishimura, a Croácia sufocava o Brasil sem piedade até aos 45 minutos, quando Oscar parte em contra-ataque com a bola e chuta de bico para aliviar a todos. Conseguimos.

Conseguimos emplacar 3 a 1 em cima da Croácia, o que não diz muito sobre o drama vivido em campo pela seleção brasileira.

Conseguimos vencer os “ics” croatas, Modric, Rakitic, Perisic, Kovasic, Brozovic, Olic, Jelavic, Rebic… Ufa!

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo.

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O jogo do quase

Numa semana em que nossos zagueiros Tiago Silva e David Luiz usaram e abusaram as redes sociais para pedir à torcida que fosse ao castelão, estádio do jogo da partida Brasil x México esta tarde, e cantasse o hino abraçada, imaginávamos, pelo pedido, que a seleção viria com tudo para cima do México, apresentando um futebol seguro, criativo e objetivo. Não vimos isso.

Sobrou, de novo, emoção no hino; faltou bom futebol à seleção.

Vimos uma seleção do quase, chegando ao quase com um jogo do quase.

Não era bem isso que esperávamos contra o México, pois vínhamos de uma vitória brilhante na Copa das Confederações ano passado, onde não ficamos no quase, porém ganhamos de 2 a 0.

Vimos um jogo franco de ambos os lados. As duas seleções não temiam atacar, mas não abriam mão de se defenderem muito bem.

A seleção brasileira quase faz o gol em duas oportunidades, em duas cabeçadas impressionantes; uma no primeiro tempo com Neymar; e outra com Tiago Silva a queima roupa no segundo tempo.

Tivemos outras chances de vencer o quase, mas elas pararam nas mãos do goleiro Ochoa da seleção mexicana.

Por falar em Ochoa, este sim foi um verdadeiro protagonista no empate de 0 a 0 entre Brasil e México, suas defesas davam confiança à equipe e empolgavam a pequena torcida mexicana no estádio.

O futebol mexicano fluía tão bem em campo que sua torcida conseguia concorrer com a nossa, apesar da imensa diferença numérica.

Num jogo em que o gol ficou no quase, não é de estranhar que o destaque tenha sido a defesa das duas equipes, fora os chutes de longa distância dos ousados e habilidosos mexicanos.

É fato que saímos deste jogo com uma sensação de derrota, mas as expectativas são otimistas em relação ao que vem pela frente, Camarões, quase não vem à Copa, quase renuncia a participar desta competição.

Quanto aos pedidos feitos pela zaga brasileira esta semana na intenção de motivar o grupo, não caem bem quando a seleção joga mal. Agora é a nossa vez de pedir, quem sabe, um futebol melhor e mais criativo; deixe-nos torcer espontaneamente.

Talvez assim não fiquemos temerosos a um quase nesta competição.

Engraçado, Hulk quase jogou, a seleção também. À parte o hino, a torcida quase torceu.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo.

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