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Reabilitemos a política!

Não que seja do meu feitio falar desse assunto no meu primeiro texto do ano, ou que eu queira, possa ou deva, mas por incrível que pareça a pedra de toque dos assuntos políticos do momento em Florânia é um tal de “acordão” que anda visitando o imaginário popular dos políticos profissionais, tendo em vista as eleições de 2012.

O mais interessante é que, para alguns políticos daqui, os acertos entre eles são chamados de “acordos”, “combinados”, “pacto”, “trato”, enfim… Para o povo, isto se chama troca e venda de interesses. Quem se vende? Por quanto se vende? Para que se vende? A resposta todo mundo sabe ou ninguém sabe. Fica um disse me disse nas ruas e centro da cidade porque paira sobre as cabeças inteligentes das pessoas o seguinte: Ou a política deixou de assumir o que lhe é própria, a discussão dos problemas da cidade para o bem de todos, ou diluiu-se nos interesses mesquinhos de nossos representantes. O fato é que a população não confia mais ou não confia tanto assim nos seus políticos.

O que é mais irônico nisso tudo é que os mais políticos, digo, os que se interessam pela mais baixa e degradante política partidária são os que menos sabem de política, mas são os que mais sabem tirar vantagens sobre os outros de modo escuso e obscuro. As negociações entre eles nunca são muito claras, esta é que é a verdade. Agora, as negociações entre eles e nós, entre eles e o povo são e devem ser sempre claras. O que tento dizer aqui é que não existe na política uma ideia unilateral que dispense oposições de ideias. A política é o campo da liberdade de ideias, do debate, da discussão, mas nunca de “conchaves”, de “cercos”, de “combinados”, de “acordos”, de “arrumadinhos” porque senão acabaremos por transformar a política num regime autoritário, dogmático ou aristocrático, onde o poder é centrado nas mãos de alguns. A política é um jogo democrático e aberto, de grupos abertos, não é uma plutocracia(poder econômico) de grupos fechados com interesses egoístas, embora se veja isso aqui e no Brasil afora. Por isso, NÃO a acordos, SIM a política!

Parece-me que em Florânia, há uma confusão no que diz respeito à política, pelo menos por alguns grupos políticos que se acham visivelmente no direito de levantar a bandeira da paz para promover um “acordão” político sem despesas econômicas para o próximo pleito. Isso não existe. É mais uma ilusão das mentes ociosas de alguns políticos de Florânia que só pensam nos bolsos, menos no povo. Temo, com isso, estar vendo a morte da política quando ela passa a ser uma mera formalidade. Não se pode ir para um pleito com “acordos”, com “combinados”, já antecipando o resultado. Isto é um absurdo! Não podemos compactuar com isso. Não podemos tirar o direito de escolha de ninguém, simplesmente comprando suas consciências, cruzando os braços, fechando a boca e não fazendo mais política. A política não está feita, ela se faz.

Vejam o que diz André Comte-Sponville, filósofo francês, sobre a política por fazer ou refazer: “A política não é o reino do Bem, nem da Ideia, nem da Razão. É o reino da força e das relações de forças, dos interesses e dos conflitos de interesses. Devemos então renunciar à justiça? De jeito nenhum. Devemos compreender que ela nunca é dada, nunca é garantida, e por isso está sempre por fazer ou refazer”(in Sabedoria dos Modernos, p. 453).

Precisamos reabilitar a política à sua dimensão mais digna e mais justa, sendo ela mais discursiva e menos dogmática. Ninguém manda na política de Florânia, visto que as pessoas se candidatam livremente para promover uma escolha mais democrática entre elas, e assim promover um debate de ações que visem à melhoria da população como um todo, não de uma parte apenas.

Nunca se viu na história de Florânia, por causa de alguns políticos renunciarem às suas convicções, tamanha liberdade política. Mediante um clima de insatisfação política, diversas pessoas ganharam autonomia para lançar suas propostas, seus projetos e seus nomes em vista, acredito eu, de uma Florânia melhor. O que é muito bom para a política e para a democracia em Florânia. Quanto mais candidatos melhor.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

Páginas na internet:
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Vida social como aprendizado

É curioso, mas ainda não aprendemos a viver em sociedade, sobretudo quando nem sequer somos capazes de admitir que outros pensam como nós ou pensaram o que nós já pensamos. A pompa de ineditismo até nos pensamentos pode nos levar ao triste e destrutivo isolamento. Começar a reconhecer que até nossos pensamentos precisam ser compartilhados é o início de uma convivência social necessária para os tempos de hoje.

Além disso, ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Os nossos primeiros passos em solo firme foram dados com a ajuda indispensável de outros. As primeiras colheradas de comida foram dadas com a ajuda dos outros. As primeiras mudanças de roupas não foram feitas por mim, mas por outras pessoas que conviviam comigo. Tudo parece fazer parte de uma dimensão social que mexe conosco. Mexe mesmo!

Ora, quantas vezes não nos sentimos incomodados quando vemos outras pessoas terem os mesmos sonhos que nós! Quantos desejos não são comuns por aí, esbarrando uns nos outros! Imagine os pensamentos. Inúmeros, infinitos pensamentos se chocam, talvez, todos os dias. É intrigante, mas, de quando em vez, acabamos por encontrar gente simples como nós com os mesmos ideais, com os mesmos objetivos. Todavia, é aqui onde se desenha a dificuldade de se viver socialmente ou até politicamente. Brigas e desavenças ocorrem justamente por isso. André Comte-Sponville cita algo parecido com isso em sua obra, que agora também é nossa, A Vida Humana: “Somos seres de desejo, e nossos desejos nos opõem. Porque são diferentes? Às vezes. Mais frequentemente porque são idênticos ou convergentes. Vejam Hobbes, Espinosa, Pascal… Se dois homens desejam a mesma coisa – o mesmo campo, o mesmo poder, a mesma mulher… – , como poderiam não se tornar rivais ou inimigos? Se ‘o desejo é a própria essência do homem’, como dizia Espinosa, o conflito é a própria essência da sociedade”(pág. 67).

Somos mesquinhos, invejosos, orgulhosos com as coisas, avalie então com as pessoas, com as ideias, os pensamentos, os desejos. Ah, essa ideia é minha, não é sua. Esse projeto é meu, não é seu. Essa obra é minha, jamais foi sua. E tome aborrecimentos pra lá e pra cá, brigas e violência. No entanto, para evitarmos toda essa confusão social, preferimos defender publicamente algo que não existe porque, só assim, ninguém entrará em conflito conosco. Fugimos dos conflitos para viver numa falsa paz, isto é, alterando a “Insociável sociabilidade” no dizer de Kant pela “Sociável sociabilidade” no dizer de muitos ingênuos da política.

E quando tudo parece estar bem, quando na verdade não está, surgem problemas ainda maiores do que os conflitos tão próprios à vida política e social na qual estamos metidos. Nos esquecemos ou, ao menos fingimos ter esquecido que precisamos dividir a mesma “ágora”, a praça, o mesmo espaço público, a mesma cidade, as mesmas vias, os mesmos caminhos. Para isso, é imprescindível um enfrentamento, um choque, muitas vezes ideológico, entre as pessoas que circulam e reivindicam seus direitos. Felizmente ou não, esse é o preço da liberdade nas democracias. Esse é o quinhão da paz em qualquer sociedade.

Temos que insistir em aprender a viver mais em sociedade. Que os escândalos de corrupção não nos afaste da sociedade. Que os radicalismos e extremismos políticos não nos afastem das pessoas. Que a burocracia não nos vença pelo cansaço. Que ilegalidade no Brasil não cegue de uma vez por todas as nossas ambições por justiça. Que nada nos impeça de sonhar! A sociedade tem um espírito incrivelmente comunitário de partilha de interesses, de sonhos e de valores. Essas coisas precisam se abrir à comunidade humana que pulsa crescimento e desenvolvimento. Ninguém nasceu para se atrofiar na solidão. Ninguém vive só. Ninguém age só. Ninguém cresce sozinho. Vamos crescer juntos! Esse, talvez, seja o grande aprendizado da sociedade.

Para terminar, não poderia me privar de citar mais uma vez Comte-Sponville em A Vida Humana: “Privar-se da felicidade da união sagrada, como dizia Alain, não é renunciar aos prazeres da festa, nem às exigências da justiça, nem às necessidades da ação. Renunciar à Grande Noite não é renunciar ao progresso ou à solidariedade. Romper com as utopias não é romper com a política. Desconfiemos dos revolucionários entusiastas demais. Mas, ainda mais talvez, dos conservadores desiludidos de tudo, que gostariam de nos fazer desistir de avançar”(pág. 71).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos


www.umasreflexoes.wordpress.com

www.twitter.com/filoflorania

 

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O ensaio filosófico

“Quem for capaz de ter uma visão do conjunto é dialético; quem

 não o for, não é”(Platão, República, 537c).

“O ensaio pensa em fragmentos”(Adorno, O ensaio como forma).

À primeira vista, a palavra “ensaio” pode soar a algo que não tem validade, não tem importância, a exemplo de um ensaio para um show, para uma música, para uma peça. Qualquer ensaio está relativamente condicionado ao que não é, pelo menos ainda. Popularmente a palavra ensaio aparece muitas vezes carregado desse sentido, o que não nos impede de ir mais longe ou de ir até Montaigne para mostrar a pertinência de um ensaio filosófico. O estilo ensaístico persegue todo aquele que se arrisca a escrever livremente sobre um determinado aspecto da realidade, embarcando na aventura de trazer para si e sobre si quaisquer pensamentos, como que recortando, fragmentando a realidade para si.

Já no século passado, ninguém talvez soube dizer tão bem quanto Foucault o que é um ensaio. “O ensaio – que é necessário entender como experiênica modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma ‘ascese’, um exercício de si, no pensamento”(FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. Vol 2. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984. p. 13).

Fiz uso da citação acima para mostrar o quanto a palavra “ensaio” está banalizada, bem como a Filosofia e demais áreas de saberes. Isso se deve ao fato de conspirarmos a favor de uma cultura da fragmentação que nos envolve a todos e que nos fez perder a noção de totalidade, de metafísica, de conjunto, de complexidade. Vivemos e, diga-se de passagem, gostamos do que é simplório e vulgar. Gostamos e aplaudimos as vulgaridades. Ostentamos um mundo de vulgaridades na linguagem, no estilo literário, na política, nos saberes. Vivemos, agora, exaltando as mais frívolas atitudes de simplificação do olhar. Os objetos de estudo são analisados periférica e superficialmente sem nenhuma dosagem sequer de Filosofia.

A atividade filosófica não pode ser, é claro, um jogo puramente exclusivo da profundidade e da obscuridade das ideias que não chegam ao público e que permanecem apenas dentro das academias como propriedade exclusiva dos “intelectuais”, todavia, a filosofia é uma reflexão sobre os saberes disponíveis, uma espécie de ensaio sobre a vida. Não sem convicção, Comte-Sponville despertou para o seguinte: “Não podemos, sem filosofar, pensar nossa vida e viver nosso pensamento: já que isso é a própria filosofia”(COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 12).

O estilo de se escrever em forma de “ensaios” levou o filósofo renascentista Michel de Montaigne a píncaros altíssimos de análise da vida em diferentes aspectos. Ele captura particularidades variadas da sua realidade e de outros autores num tom incrivelmente reflexivo e individual que lhe é muito peculiar. O “Da Educação das crianças” que lhe coube um ensaio à parte. Diz ele: “Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião”(MONTAIGNE, M. Ensaios. São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 81-82). Aqui, ele admite opiniões duvidosas na educação das crianças a fim de atingir a maturidade filosófica, até porque as crianças não são dotadas só de razão, mas de imaginação, de vida, de sentidos e etc. Não é só a ciência, tampouco a dialética, que constituem uma boa educação. A filosofia é um ensaio que extrapola toda e qualquer tentativa de sistematização do saber, por isso ser importante para a educação das crianças. Com o ensaio, admite-se e estimula a dúvida; desperta na criança o hábito da reflexão. Vejam mais o que Montaigne nos diz sobre “os meios e os fins”, “Da tristeza”, “Da covardia”, “Do medo”, “De como filosofar é aprender a morrer”, “a força da imaginação”, “De como julgar a morte”, enfim…

Os ensaios filosóficos ou literários são reflexões muito pessoais por cima, por baixo, por dentro e pelos lados da realidade. É levar o texto a suportar, ao máximo, a fragmentação e amplidão das opiniões, das ideias. São textos fragmentados, mas que não se diluem, nem se perdem no obscurantismo das ideias filosóficas, mas ganham toda uma consistência pelo conjunto da obra. O saudoso escritor e filósofo paraense Benedito Nunes, por exemplo, ganhou um prêmio pela Academia brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Escreveu muitos ensaios filosóficos em sua vida. Reuniu todos e vejam o que deu, uma harmonia maravilhosa entre literatura e filosofia. Maravilhoso! O ensaio ganha consistência também porque é escrito, muitas vezes, por quem realmente conhece a vida e suas dificuldades. O escrever do ensaísta é um escrever com autoridade de quem diz o que viveu. O reflexo de sua tinta é a sombra de sua vida, isso é muito importante num ensaio.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, em Estudos Clássicos/UnB/Archai/Unesco, Licenciado em Filosofia/UERN, Bacharel em Teologia/FAERJ

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Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

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