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Amor à repetição

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“Que coisa, amanhã já é segunda-feira (?!), mal passou o final de semana”; “Não aguento mais a mesma comida, a mesma bebida”; “Tenho que limpar meus óculos de novo”; “Preciso ir ao banheiro de novo”… Expressões como essas são muito corriqueiras e acabam mostrando como o ser humano está condicionado a uma repetição infinita de acontecimentos e situações no curso de sua vida. Algumas repetições necessárias ao cuidado com a higiene do corpo são até menos conscientes do que uma dura e trágica fatalidade, mas demonstram o quanto são importantes para a saúde e para uma incansável luta contra o imobilismo, a inércia, bem como uma luta incessante a favor da vida.

A simplicidade dos atos de alimentar-se, escovar os dentes, tomar sucessivos banhos, vestir-se, andar, ir e voltar do trabalho, conversar. Tudo isso faz parte de atos espontâneos ou avulsos, nos quais o ser humano encontra-se envolvido num eterno retorno de eventos do cotidiano. Na maioria das vezes, aparentemente, não apresentam sentido algum. Mas, o interessante é que não tenham, de fato, sentido, significado, pois obedecem a uma ordem cosmológica, em que se poderia entender o mundo muito mais do ponto de vista grego do que moderno. Os gregos viam o mundo finito, fechado, e constituído por um certo número de forças com suas combinações infinitas, um mundo que se repete. “[…] o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para a frente e para trás! Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna.”(NIETZSCHE, F. O eterno retorno [texto de 1881]. São Paulo: Nova cultural, 1996. p. 439 [Col. Os pensadores]).

Deitar, dormir e levantar-se para continuar a viver obedecem a uma ordem cíclica de repetições infindáveis. Instantes de prazer e dor acabam indo e voltando com mais ou menos intensidade do que de outras vezes, mas acabam voltando. Retornar às mesmas coisas diversas vezes de um modo estético nos leva a fazê-las cada vez melhor. Atitudes isoladas como uma corrida ou uma caminhada numa tarde qualquer, quando repetidas, tornam-se habituais e promovem a qualidade de vida. Com isso, o ético vem puxado pelo estético.

É oportuno resgatar repetidamente o filósofo bigodudo Nietzsche, crítico ferrenho da cultura ocidental, quando pensou que o “eterno retorno ao mesmo” não deve ser encarado com piedade, compaixão e resignação, mas com coragem, determinação e vigor. O resultado de uma vida sem fugas, subterfúgios, muito menos sem mania de conspiração, é certamente uma vida pautada no “amor fati”, no amor ao próprio destino. “[…] vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor.” (NIETZSCHE, F. A gaia ciência. 5ª ed. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães & C., 1996. p. 173-174).

Amar o próprio destino é uma das ideias mais preciosas e geniais do Nietzsche, porque combate fortemente o sentimento de culpa, um tal de “mi mi mi” do qual se reveste nossa cultura. Significa pensar o destino como os gregos o pensavam, de modo participativo.

Portanto, a repetição, a rotina inevitável de nossas vidas, as idas e vindas das segundas-feiras, os momentos tristes e os dias de sofrimento não precisariam ser enfrentados com um amor de tipo nietzschiano? “A minha fórmula de grandeza do homem é ‘amor fati’: não pretender ter nada de diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A Necessidade não existe apenas para suportar-se – todo o idealismo é uma mentira em face da Necessidade – mas para que a amemos…”(Ecce homo: como se chega a ser o que se é. Trad. José Marinho. Lisboa: Guimarães & C. 1979, p. 72).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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Aletheia

coroa-de-espinhosExpressão que popularizou-se recentemente como denominação da 24ª etapa da Operação Lava-Jato deflagrada pela Polícia Federal, cujo alvo de investigação era o ex-Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sobre o qual pesam inúmeras suspeitas de tráfico de influência envolvendo a maior estatal brasileira, a Petrobras. Diferente dessa Operação, “Aletheia” é um termo para além de qualquer investigação judicial porque está preso ao seu sentido grego de verdade, não esquecimento, opondo-se à ideia de letargia, falta de recordação. “Recordar é viver”, já houve quem tenha dito.

Influenciados pelas reminiscências platônicas, revivemos, evocamos aqui um diálogo presente naquele contexto que envolve a morte de Jesus. Um diálogo entre Pilatos, o prefeito da Judeia, e Jesus, o filho de Deus. Vejam que distinguem-se nesse diálogo dois mundos. Dois mundos estão frente a frente, dois reinos estão “tête-à-tête”: a eternidade e a história, o sagrado e o profano, a salvação e o juízo.

Pilatos se vê na impossibilidade de Julgar um homem dos modos e da pertinência de Jesus, o Salvador, o filho de Deus:

“Então Pilatos saiu ao encontro deles e perguntou: ‘Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?’

‘Nós não o teríamos prendido se ele não fosse um criminoso!’, disseram eles.

‘Então levem o acusado para ser julgado por vocês mesmos, conforme a lei de vocês’, disse Pilatos.

‘Mas nós não temos o direito de executar ninguém’, disseram eles, ‘e é necessária a sua aprovação’.

Então Pilatos entrou novamente no Palácio e ordenou que trouxessem Jesus. ‘Você é o Rei dos Judeus?’, inquiriu.

Perguntou-lhe Jesus: ‘Essa pergunta é sua, ou os outros falaram a meu respeito?’

‘Acaso sou judeu’, respondeu Pilatos.

‘O seu próprio povo e os sacerdotes principais entregaram você a mim. Por quê? Que foi que você fez?’

Então Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus seguidores teriam lutado quando eu fui preso pelos líderes judeus. Mas o meu Reino não é daqui’.

Pilatos respondeu: ‘Então você é rei?’

‘O senhor está dizendo que sou rei’, disse Jesus. ‘Eu nasci para isso. Eu vim a este mundo para testemunhar da verdade. Todos os que estão do lado da verdade ouvem a minha voz’.

‘Que é a verdade?’ perguntou Pilatos. Depois ele saiu outra vez para onde o povo estava e disse: ‘Pelo meu exame, não há nada contra ele’”(Jo 18. 29-38).

Antes do desfecho dramático que culminará com o povo condenando Jesus, Pilatos, ao interrogá-lo, é conduzido a uma pergunta que ainda soa aos nossos ouvidos: “Que é a verdade?”. Filósofos, poetas, cientistas, teólogos,… continuam nos conduzindo a ela. É uma pergunta clássica, na medida em que voltamos a ela, pois tem sempre algo a nos dizer. Nunca para de nos surpreender, por isso clássica.

Aletheia, a verdade, talvez esteja no silêncio de Jesus, revelada em seu testemunho, em seus atos. Da tensão entre Jesus e Pilatos, um fato, uma evidência irrompeu, “nada contra ele”. Tal constatação não foi suficiente para livrá-lo da morte, visto que alguma coisa estava para ser cumprida, as Escrituras.

O curioso é que todo esse processo do julgamento de Jesus de nada adiantou, porque nada foi encontrado contra ele. Pilatos não conseguiu julgá-lo, esta é a verdade. Jesus sai ileso das investigações de Pilatos. Jesus põe a seus pés, faz sucumbir o mundo legal, jurídico e pretensioso. O que se sobrepõe é o amor, uma outra ordem, a ordem divina, essencial para a vida humana.

É sabido que recai sobre todos nós, hoje em dia, uma cultura secularizada, fragmentada e bastante relativa em seus valores, muito diferente daquela vivida por Jesus, mas ainda assim, em meio a tantas verdades, envoltos num mundo plural e globalizado, o testemunho de Jesus continua sendo a “Aletheia” possível para os que pensam diferente e querem já aqui viver o paradoxo da cruz, o amor, a redenção:

“Dar testemunho, aqui e agora, da verdade do Reino que não está aqui significa aceitar que o que queremos salvar nos julgue. E isso porque o mundo, na sua caducidade, não quer salvação, mas justiça. E a quer precisamente porque não pede para ser salvo. Enquanto não são salváveis, as criaturas julgam o eterno: esse é o paradoxo que, no fim, diante de Pilatos, tira a palavra de Jesus. Aqui está a cruz, aqui está a história”(AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: UFSC, 2014, p. 63).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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Natalidade

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O nascimento do novo homem de Salvador Dalí

Conforme dados da ONU, nascem mais pessoas do que morrem a cada segundo. Só para termos uma ideia, nascem aproximadamente três pessoas ou mais por segundo no mundo. São cento e oitenta (180) nascimentos contra cento e três (103) mortes por minuto, portanto, a espécie humana é uma máquina de fazer nascer. Mesmo contra alguns prognósticos, teimamos em nascer, queremos nascer.

Independente da exatidão dos números acima, até porque vivemos atropelados pelos acontecimentos e pela onipresença da tecnologia, é interessante notar a força da espécie humana em querer nascer contra as desfavoráveis condições de vida.

Com o passar dos anos, a vida do ser humano está cada vez mais dura em várias frentes. Na frente climática, os dias têm sido de calor insuportável. A sensação térmica vem dificultando o bem-estar físico, o trabalho e até mesmo o convívio social. Na frente econômica, a inflação não deixa nosso dinheiro parar no bolso, sequer conhece o bolso, ganhá-lo está cada vez mais difícil e a oferta de emprego não é das melhores. Na frente política, mesmo com a globalização e o desaparecimento das fronteiras via internet, não conseguimos ser tão políticos como deveríamos, juntando esforços para causas mais coletivas, solidárias e sociais. Na frente religiosa, o Outro na sua diversidade passa ao largo dos interesses humanos, abrindo precedentes absurdos de intolerância, terrorismo e fundamentalismo religioso.

Todas essas frentes, e poderíamos citar mais, representam a dura realidade local e global tentando impedir ou obstaculizar a “natalidade”, o natal, o novo nascimento, o milagre do início, de um novo começo. Porém, as dificuldades da vida apontadas aqui não conseguem impedir a potência, a força, a ação deste nascimento, tal como está descrito nas Escrituras, a partir das perguntas de um fariseu, chamado Nicodemos: “Como pode um homem nascer sendo velho? Poderá entrar de novo no ventre materno para nascer?”(Jo 3.4). Jesus não o deixa sem resposta: “Eu te asseguro que, se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus”(Jo 3. 5).

Na esteira do que disse Jesus sobre o novo nascimento, a filósofa Hannah Arendt escolhe o conceito de “natalidade” para desenvolver suas ideias de liberdade, amor e educação. Uma liberdade que extrapola os apelos da necessidade. No amor, vale retomar o que disse Agostinho sobre as duas cidades. A cidade dos homens como o amor de si até ao desprezo de Deus. A cidade de Deus como o amor a Deus até ao desprezo de si. Por sua vez, a relação da Educação com a natalidade é que “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo” (ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 1990. p. 223).

Para instaurar o nascimento na lei cíclica da mortalidade, interromper o curso inexorável e automático da ordem cotidiana da vida que nos arrasta lenta ou rapidamente até a morte é urgente aplicar nossa faculdade de agir. A ação, segundo Arendt, parece um milagre. “A ação é, de fato, a única faculdade milagrosa que o homem possui, como Jesus de Nazaré, que vislumbrou essa faculdade com a mesma originalidade e ineditismo com que Sócrates vislumbrou as possibilidades do pensamento…”(ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. 7ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995, p. 258).


Assim como a capacidade de agir interfere no processo biológico da vida, esse mesmo agir também nos adverte que, embora todos devam morrer, “não nascem para morrer, mas para começar”.

A radicalidade, portanto, da capacidade de agir está na natalidade. O agir é essa capacidade humana de interromper a ruína, a destruição e a morte para iniciar algo novo. “O milagre que salva o mundo, a esfera dos negócios humanos, de sua ruína normal e natural é, em última análise, o fato do nascimento, no qual a faculdade de agir se radica ontologicamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só o pleno exercício dessa capacidade pode conferir aos negócios humanos fé e esperança, as duas características essenciais da existência humana que a antiguidade ignorou por completo, desconsiderando a fé como virtude muito incomum e pouco importante, e considerando a esperança como um dos males da ilusão contidos na caixa de Pandora. Esta fé e esta esperança no mundo talvez nunca tenham sido expressas de modo tão sucinto e glorioso como nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram a boa nova: ‘Nasceu uma criança entre nós'”(idem, p. 259).

Feliz Natal!

Ilustração: O nascimento do novo homem de Salvador Dalí.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.
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Cuidemos de nossos animais

Tão logo me casei e mal me dei conta de que havia em companhia da minha esposa um cachorro mui amigo da família. Seu nome é Black(preto). Minha esposa cuidava dele desde seu nascimento, desde muito pequeno mesmo. Contava-me que, assim que nasceu, era a coisa mais fofa do mundo, uma espécie de bolinha bem peludinha. A vontade de qualquer pessoa que o via era só mesmo a de apalpar e cheirar. Todos queriam abraçá-lo, apertá-lo e fazer carinho nele, inclusive a família. O cachorro faz parte essencial da família. É um membro que integra, e ao passar o tempo, faz uma falta danada à família.

Blackinho, como o chamamos, já está conosco há 70 anos no tempo dele e há 10 anos na idade das contas da gente. É um animal espertíssimo que, além de proteger a casa e a família, alegra e contagia o ambiente em que estamos. Ele nos disciplina. Faz-nos entender que não existe só o nosso mundo, mas também o mundo dele. É impressionante, mas quando chega a hora de passear, seu relógio biológico não falha. Começa a latir, a pular em cima de nós, a cheirar, dando sinais de que está chamando para andar, pois está na hora. Seu relógio é mais sensível às necessidades do que o nosso. Queremos controlar tudo, até mesmo o nosso relógio biológico, imagine o de um cachorro! É aí que entra o aprendizado. Deixamos tudo e partimos para atender às necessidades do outro, no caso aqui, o meu companheiro de todas as horas, o meu estimado blackinho. Aprendemos a não ser tão egoístas.

É engraçado. Dizemos que somos um povo civilizado, educado, avançado e extremamente inteligente, mas esquecemos ou anestesiamos a consciência ética de que pertinho de nós tem vida animal circulando, até porque os animais, quer sejam gatos, cachorros, aves, etc, são indispensáveis para o equilíbrio ambiental. Se há animais em nosso meio é um ótimo sinal, pois as esferas de vida vegetativa, mineral e humana geralmente estão em boas condições de qualidade de vida. O ecossistema precisa da existência desses seres, que extinguimos, maltratamos e, muitas vezes ignoramos, para preservar os recursos naturais à nossa sobrevivência.

É lamentável, mas não entendemos nossos animais! Pouco, muito pouco sabemos a respeito dos animais, até que um dia passemos a criar algum ou alguns e logo mudemos nossa maneira, muitas vezes, de vê-los e aceitá-los em nosso convívio. Já perdi as contas dos gatos de estimação que criei, tratei e cuidei, tendo que amargar a dor de perdê-los por envenenamento, simplesmente porque pessoas não gostam, não aceitam, melhor dizendo, não entendem seus comportamentos. Animais morrem atropelados, são eliminados todos os dias com tiros e exterminados. Vocês sabiam que nós somos os únicos animais que matamos por maldade!?

Inúmeros fatos ocorrem frequentemente em nossas cidades, bairros e ruas, de pessoas que maltratam sem piedade os animais. Animais existem para ser protegidos, não sacrificados sem motivo algum, só porque vivem soltos na rua. Ora, se são sadios, se não ameaçam a vida de ninguém e são alimentados por moradores, qual a razão para sacrificá-los? Talvez, isso ocorra por falta de punição à altura do dano. As pessoas deveriam ser punidas por isso. Quantos de nós conhecem a Declaração Universal dos Direitos dos Animais pela UNESCO?

Quem chuta animais por bel-prazer ou joga pedras neles precisa rever suas ações e princípios. Os animais são criaturas de Deus e têm uma importância fundamental para o meio ambiente. Segundo a UNESCO, todos os animais têm o mesmo direito à vida; Todos os animais têm direito ao respeito e à proteção do homem; Nenhum animal dever ser maltratado e por aí vai…

Olhem que curioso, no Japão existe um restaurante com uma enorme e variada quantidade de gatos espalhados por todos os lados. Cada um de dar gosto de ver e de acariciar. Muito bonitos e bem cuidados. A maioria dos clientes que vai ao restaurante está interessada em se divertir e entreter-se com os felinos. Os bichinhos são mimosos, atenciosos e acalmam o pior dos clientes, que escolhem os gatos de sua preferência e pagam pelo serviço. A ideia do restaurante, diz o dono do negócio, é trazer bem-estar, tranquilidade e propor uma terapia natural aos clientes por meio dos pichanos, enquanto se servem dos deliciosos pratos da casa. Uma coisa é certa, tudo vem incluído na conta.

Estaria certo Platão ao afirmar que o homem nada mais é do que “um bípede sem penas”?!


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia e Especialista em Metafísica

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Verdade ou amor?

Talvez alguém dissesse: “Que dilema desgraçado”. Não é desgraçado porque não é sem graça. É um dilema até certo ponto, pois depende muito da valoração de cada um. Para quem a verdade vem primeiro, o amor será sempre um pouco sem graça. Aos que enxergam o amor mais na frente, a verdade é que se torna sem graça. Ora, que seria do amor se não tivesse graça? O que pensar da verdade sem um pouco de amor? E o que dizer, então, do amor sem verdade?

Essa relação entre verdade e amor nas situações conflitantes do dia a dia não é de fácil compreensão, tampouco de fácil realização. Quase sempre ficamos em maus lençóis. Como falar a verdade sem desgraçar alguém? Como promover a verdade sem causar ódio ou dano às pessoas? E o que fazer quando amamos demais, ao ponto de nos abestalharmos? O amor nos deixa tolos, abobados e bestas?

Tomemos muito cuidado com o que estamos fazendo conosco e aos filhos no tocante à educação. Os filhos precisam respeitar e vislumbrar nos pais um modelo de comportamento ético. Pais infiéis geram filhos infiéis. Pais mentirosos geram filhos mentirosos. Pais ignorantes geram filhos ignorantes e assim por diante. Numa época em que as famílias de modelo patriarcal estão em demolição pela ausência da figura do pai, no sentido de sua omissão e de sua liderança, as famílias acabam se maternalizando por demais, uma vez que a liderança e a disciplina, tão próprias aos pais para formar os filhos em geral, ficam restritas aos zelo das mães, que não poupam esforços e sacrifícios para fazer as vezes do próprio pai dentro da família. Porém, mesmo que a família nuclear esteja bem composta, o que está se tornando cada vez mais raro, pois encontramos, com mais frequência, as famílias fragmentadas, ainda assim não se percebe uma preocupação explícita dos pais em disciplinar os filhos; combinar horário; afastar a mentira; falar com autoridade; cumprir regras; fidelidade no matrimônio; compromisso com Deus…

Atitudes como estas, cada vez menos presentes no convívio familiar, demonstram que acima do amor deve vir o compromisso com a verdade, que está na linha da lei e da formação da personalidade. Imagine a primeira reação de um filho ao flagrar os pais na mentira.

Todos nós devemos aprender mais com a verdade, e não fugir dela. Engraçado, não suportamos a verdade. No mais das vezes, preferimos o amor à verdade. Queremos muito mais massagear o nosso ego com carinhos e afagos, ouvindo o que se gosta, afirmando o que se pensa, do que ouvir a verdade; que precisamos corrigir isso ou aquilo, pedir desculpas quando ofender alguém, assumir as consequências pelos malfeitos. Não podemos mais deixar pra lá, esquecer e fazer de conta que nada aconteceu. Errou, tem que aguentar as consequências, a fim de se evitar não repetir os erros.

Em decorrência disso, estamos produzindo pessoas menos resistentes às adversidades da vida, ao sofrimento, à dor. O erro está justamente na formação. Não devemos somente passar a mão na cabeça dos filhos toda vez que eles errarem e chorarem, mas precisamos mostrar-lhes, pelo diálogo e pela conduta, que é possível aprender com os erros, e que o sofrimento é uma ótima escola.

O fato é simples: Poucos de nós suportam a verdade. Entre o amor e a verdade é preciso considerar algo. Nem um dos dois é suficiente e absoluto para viver bem. Só o amor nos deixa tontos, meio que vulneráveis diante das atrocidades da natureza humana. Só a verdade pode gerar homens totalitários e absolutos, incapazes de recuar, de relevar, de se soltar um pouco, de se despreder das convicções e assumir que precisa mudar.

Verdade demais pode afastar os amigos da gente, uma vez que ninguém é perfeito. Amor demais pode nos arrastar para a bobagem, na medida em que se perde a admiração e o brilho. Em geral, é muito perigoso quando escolhemos uma em detrimento da outra. O mais razoável seria escolhermos uma e outra em nossas ações, e não uma à outra. Verdade e amor não se excluem, mas se completam admiravelmente.

Depois desse devaneio sobre a verdade e o amor, você ainda concorda com a tão honrosa expressão atribuída a Aristóteles: “Amicus Plato, sed magis amica veritas” – “Amigo de Platão, mas mais amigo da verdade”?


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica
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MÃEZONA

Mainha, permita-me hoje, sobretudo hoje, tratar-lhe no aumentativo, mãezona. Na verdade, você é uma mãezona que jamais economizou carinho, proteção e cuidado para com os seus filhos. Este seu filho aqui de Florânia lhe quer muito bem. Saiba o quanto a amo e o quanto é especial para mim. Você tem um lugarzinho na minha cabeça, pois sempre sua imagem e suas atitudes aparecem em minha memória como num estalo, como num lampejo agradabilíssimo. Há também um lugar cativo todo seu em meu coração, uma vez que, volta e meia, saltita só de saber que estará sempre dentro de mim, alimentando o tônus da minha vida.
Sem você não estaria agora no útero do mundo com todas as suas adversidades. Sei da sua importância não só porque estou aqui sem cordão umbilical algum, mas por me ensinar o que é justo, honesto; por me mostrar o bom caráter, o respeito ao outro e o valor da humildade.
Aprendi com a senhora, minha mãe, que não basta ter dinheiro de qualquer jeito para sobreviver, mas como tê-lo mesmo com todo sacrifício. Trabalhar é uma honra e tudo que vem dele também. Se trabalhamos nos mostramos o quanto somos saudáveis e o quanto fomos bem educados.
Obrigado por me fazer enxergar isso, enquanto muitos fogem do sacrifício, do caminho sagrado e mais difícil para a felicidade que é o próprio trabalho.
Viver cada dia assumindo o seu preço, seu peso, seu salário e o quanto vale, por mais duro ou mole que seja seu cotidiano. Carrego comigo este aprendizado, mas com a responsabilidade de um eterno aprendiz, principalmente nos conceitos que emergem dos fragmentos da vida.
Avalio, de verdade, o quanto foi precioso cada ato de sacrifício, de esforço para cuidar de mim e de meus irmãos. O que dizer então das muitas noites de sono dispensadas a meu favor, regadas a choros e soluços que não faziam sentido quando não implicava em algum tipo de enfermidade; das advertências que não me faziam ouvir, das preocupações e atribulações pelas quais passou só para proteger-me ou poupar-me.
Obrigado, mãezona, por fazer-me mais forte e resistente, por preparar-me para uma vida cheia de sacrifícios, contradições, por isso não menos ou mais feliz, nem boa ou má, mas agradável e serena, pacificadora.
Inteiramente feliz por todo sacrifício posto em dar sentido à minha vida!

De seu filho,
Jackislandy Meira de Medeiros Silva.

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Eu e meu irmão Kierkegaard

por Luiz Felipe Pondé para Folha
obras do amor

Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.

O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o “ennui” (angústia, tédio) e o “divertissement” (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.

A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.

Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.

O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas “leis”: o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.

Somos um nada que ama.

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa “verdade”, ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.

Deste “solo da existência” (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro “A Repetição”, é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.

É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida “correta” (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando “saltamos na fé”, sem garantias de salvação. Mas existe também o “abismo do amor”.

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor “só se conhece pelos frutos”. Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua “visibilidade” apenas prática.

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.

Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como “lei da alma”), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.

Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:

“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

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Kierkegaard e o amor

Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. […]

O filósofo dinamarquês afirma que nós somos “feitos de angústia” devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta. A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori. Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como “condenação à liberdade”, justamente por sabermos que somos um nada que fala. […]

A filosofia da existência é uma educação pela angústia. […] Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente. Seu livro “As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos” (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço. […]

Angústia e amor são “virtudes práticas” que demandam coragem. […]

Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor… Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”

Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.

(Luiz Felipe Pondé jornal FSP – 13.06.2011)

FONTE do ARTIGO COMPLETO: AQUI

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Arrebatamentos do amor

Se tem algo que nos tira do lugar comum é o amor. O amor é uma espécie de sentimento bom que imuniza o ser humano das ameaças do mundo. O amor parece criar em torno de nós um campo de força impenetrável a ponto de nos proporcionar coragem, proteção, calor e liberdade.

Não dá pra vivenciar do amor só aquela parte romântica, sedutora, explosiva e prazerosa dos tempos de boemia. O amor exige muito mais do que boemia; reclama paciência em períodos turbulentos; pede presença nos momentos de ausência; apela pra justiça quando não há saída; espraia vida em lugar de morte; entrega humildade em vez de arrogância; apresenta concórdia ao invés de discórdia.

Pelo visto, o amor nos oferece uma vida pautada no risco porque nos chama a uma escolha, a algum tipo de seleção. Geralmente o amor é tão arrebatador que logo somos impulsionados a decisão. Amor é decisão pura, muito embora não se apresente assim. É preciso subverter a ideia de que o amor é só estabilidade igual a um filme meloso, tudo perfeitinho e cheio de fantasias. Não é bem assim, pois o amor é também instável, trágico e dramático, doentio. Como não lembrar de Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, enfim.

O amor cheira a cumplicidade, nutre-se de instabilidade, senão o amor esfria, perde seu efeito criativo, deixa de mover-se, de dirigir-se a quem ama, produzindo em seu interior aquilo que lhe é mais desprezível, a indiferença.

Quem ama não é indiferente! Quem ama dirige-se a quem ama, vai ao seu encontro e participa de seu amor, tornando-se voluntarioso. Talvez, por ser assim, muitos não saibam dizer o que é o amor, vendo-se representados na música “Lenha” de Zeca Baleiro: “Eu não sei dizer/ O que quer dizer/ O que vou dizer/ Eu amo você/ Mas não sei o quê/ Isso quer dizer”.

Por isso, fiz questão de mostrar o quanto o amor nos tira do lugar comum, da zona de conforto e da quietude, na medida em que nem sequer nos reconhecemos mais. Nesse sentido, ouso afirmar que o amor pode ser visto como uma espécie de violência, de arrebatamento. Um arrebatamento que nos tira do chão. Violência aqui não significa guerra, talvez uma luta, porém uma tomada de posição frente ao que se quer conquistar por causa deste amor. Repare que o amor está o tempo todo nos arrebatando para um outro lugar. É desse arrebatamento que vive o amor. Só ele nos faz mudar de lugar.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e Pós-graduando em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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