Cristianismo como contraponto ao Racionalismo

Immanuel Kant é o interlocutor constituído pelo cristianismo, racionalismo moderno e contemporâneo. No ponto alto da modernidade, ele é o mediador entre as duas vozes, a voz do cristianismo e a voz da razão.

Segundo Kant e o Iluminismo, a razão humana é o tribunal para julgar todas as coisas. Na Crítica da Razão Pura, Kant identifica na subjetividade do homem o elemento que organiza a experiência humana. Sem a atividade do sujeito não existe experiência inteligível, mas simplesmente um amontoado de coisas desarrumadas, um caos. Porém, quando o sujeito entra no negócio, as coisas passam a ter sentido e tudo fica arrumado no mundo. É impossível conceber o mundo sem a atividade da razão.

Para Kant, as formas “a priori” da sensibilidade e do intelecto organizam toda a experiência humana. Por meio da razão pura, o homem não pode chegar a Deus porque a esta realidade que é Deus, segundo Kant, faltaria o elemento sensível. Portanto, a razão não pode agir e se encontra numa grande “aporia”. O caminho a Deus, segundo Kant não é teorético porque a razão pura

não pode chegar a Ele. A Deus, segundo Kant, se chega por meio da Razão prática. Deus é um dos três postulados que tornam possível a moralidade(os outros postulados são liberdade e imortalidade da alma). Segundo Kant, a Religião tem valor como exigência de uma vida moral que seja racional. A razão é essa exigência de totalidade que abre ao ente superior que daria a recompensa da felicidade àqueles que praticam a virtude. Kant escreve uma outra obra chamada a “Religião nos limites da pura Razão” de 1794, nesta obra afirma que a existência de Deus se pode aceitar somente à luz da Razão prática; Se comparada com a Razão prática não supera a prova, esta Religião não pode ser racionalmente acolhida. A Razão prática é o critério de juízo sobre a validade de qualquer religião. Entre todas as religiões, aquela que mais realiza as exigências da razão prática é o Cristianismo.

Razão prática – moral.

Cristo – Cristianismo.

Graça – Filho de Deus – Revelação – Milagres – Sobrenatural.

O cristianismo, com efeito, tem uma moral, mas não se reduz a uma moral. Ele é definido como maior que a moralidade. É definido pela erupção da graça sobrenatural na história do homem através de Jesus Cristo; é definido pela Revelação. Kant reduz o cristianismo ao seu aspecto moral, eliminando toda a dimensão especificamente ligada a graça e a revelação. Esta operação se chama reducionismo. O cristianismo reduzido aquilo que concorda com o esquema da pura razão humana. Este reducionismo é ilegítimo não porque é contrário a fé, mas em primeiro lugar porque é contrário a natureza da razão. Com efeito, a razão não é um esquema fechado que se aplica a realidade, ela é algo que me faz conhecer o real, é um instrumento aberto que me permite dar conta daquilo que existe. A razão como “medida de todas as coisas” e como “tribunal” é de fato um preconceito: o preconceito racionalista. A razão determina e define as características de Deus; o que Deus pode fazer e o que Ele não pode fazer. A razão, de fato, não nega a realidade de Deus. A razão kantiana é um preconceito racionalístico porque define “a priori” o fato que Deus não possa revelar-se de uma forma surpreendente e maior que os simples elementos da razão prática.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

http://www.twitter.com/filoflorania

 

 

Anúncios
Etiquetado , , ,

O politicamente correto

(foto: cena do filme “Intrigas de estado” – State of play, 2009- , de Kevin MacDonald, …)

Há quem diga que não se sente à vontade agindo assim; tendo que frear as emoções; abraçar quem não gosta; conviver com quem é intragável; tratar bem os inimigos; superar com sorrisos as antipatias; cumprimentar o vizinho que não suporta falar com você… E por aí vai. São inúmeras as circunstâncias de dissabores que nos arrematam para a famosa ideia do politicamente correto, bastante difícil de engolir e de aceitar.

As pessoas politicamente corretas, na maior parte das vezes, são absolutamente extremas e escrupulosas, fugindo, de quando em vez, das dosagens naturais de respeito e educação. Não é tão forçoso pedir um pouco mais de educação a um sujeito, mesmo que não concorde ou não aceite determinada opinião. Lembro-me de uma entrevista de Dodô, jogador do fluminense na época, que estava no banco de reservas imerecidamente. Ao ser perguntado pelo jornalista se ele concordava com a atitude de Renato Gaúcho, então treinador do fluminense, em deixá-lo no banco de reservas já que vinha de uma sequência de boas atuações pelo time, goleador, fazia a diferença, mas era sempre colocado no banco como uma segunda opção para os minutos finais da partida. Quanto a isso, Dodô afirmou de modo contundente: “Não concordo com a opinião do treinador, mesmo assim tenho que respeitá-lo e conviver bem com ele, afinal ele é o treinador e não eu, não vou sair do time por causa disso”. O fato de uma pessoa não concordar com alguém não quer dizer que ela tenha que ofendê-lo ou brigar com ele, mas o mínimo que se pede para um bom profissional é educação e modos amistosos de tratamento sociável, pois, do contrário, seria impossível conviver uns com os outros num ambiente de trabalho ou até mesmo numa vida em comunidade.

Em nossas relações temos que encontrar sempre uma porta aberta à generosidade, mesmo contra toda indiferença e toda ignorância. Afinal de contas, não custa nada uma pitada de humor para abrir esta porta ao outro. O humor, nesse caso, ajuda muito. Seriedade demais engessa as relações e acaba atrapalhando. É preciso muita leveza para não nos intrigarmos com o mundo todo, o que não é nada agradável. A intriga fecha portas; a amizade abre portas… A intriga só é interessante no campo das ideias, o que não tem nada a ver com isso que estamos falando agora. A intriga das ideias mexe com a curiosidade e a pesquisa. Esta, sim, é bem-vinda. Àquela das relações, não. Não edifica em nada, não constrói, não torna as relações entre as pessoas tão humanas quanto fidalgas.

Temos que ultrapassar a barreira do politicamente correto com a leveza dos gestos de gratidão e de amor. Apesar de termos nossas restrições com outras pessoas, nada nos impede de convivermos bem com elas. Todos temos nossas limitações. Eu sou assim e acabou. Sou diferente; o politicamente correto uniformiza. Nada de ficar se escondendo no politicamente correto com expressões do tipo: “Ah, cara, sua cor afrodescendente é bacana”; “Desculpe, não tomo refrigerante, estou fazendo dieta”, e etc. Palavras como “negro” e “gordo” foram omitidas do vocabulário do politicamente correto. Pensar assim é muito complicado, uma vez que há um sério risco de perdermos a identidade e de não contribuirmos para a formação de nossa personalidade. Acabamos por deixar de nos conhecer para conhecer o politicamente correto. Que coisa!

Diria mais, mesmo com aquelas pessoas super-avessas a nós, até mesmo inabordáveis, que não falam conosco, mesmo assim é preciso exercitar nossa fidalguia, nossa destreza nos bons modos. Nada de ofender, tampouco agredir as pessoas, simplesmente porque não gostamos delas. Afinal, ninguém é perfeito e nem será.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

http://www.twitter.com/filoflorania

 


 

Etiquetado , , ,

Homenagem ao Dia dos Pais

Às vésperas de comemorarmos data tão significativa, temos a alegria de dispensar calorosamente nossas palavras, nossos abraços, nossos apertos de mãos, nossos cumprimentos, nossos afetos em direção àqueles que são referências na célula familiar, os pais.

Apesar das famílias modernas estarem perdendo a figura do pai como autoridade e como cabeça do lar, mesmo assim, ainda se percebe, aqui e ali, a necessidade do fortalecimento da convivência familiar sob a educação e a orientação dos pais. Família e sociedade andam de mãos conjugadas quando o assunto é a presença real de um pai exemplar. Precisamos urgentemente de um pai não só em nossas famílias, mas também nas escolas, nas associações, nos sindicatos, nas prefeituras, nas creches, nas instituições religiosas e sociais, enfim… Pais que venham recuperar a autoestima, a ética, o desejo de viver e um horizonte cheio de serenidade muito além da VIOLÊNCIA e da MALDADE com as quais muitas vezes convivemos.

Um pai bondoso na família é como uma bússola nas mãos, não se perde o norte, não se perde nos caminhos da vida; Um pai responsável é como se estivéssemos debaixo de uma frondosa árvore, cuja sombra refrigera a alma; Um pai amável é como ter no coração um sossego infinito; Um pai espiritual é como encontrar na oração uma voz conselheira e sábia do pai eterno, pai de todos os pais, nosso Pai maior, DEUS.

Que todas as famílias de Florânia, neste dia, sintam-se apoiadas pelos ombros dos pais que assumem com gratidão tamanho ofício. Um afetuoso dia dos pais para todos!

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

http://www.umasreflexoes.wordpress.com

http://www.twitter.com/filoflorania

 

 

 

Etiquetado , , ,

A verdade (Alétheia em grego) para Heidegger…

Daí, a ética, segundo este filósofo, vir acompanha de uma noção de ética originária, e não simplesmente normativa, nem tampouco moralista. O “Dasein” sabe que sua implicação na vida deve ser sem qualquer norma, pois é constituído dessa liberdade. Esta é a essência da verdade, o “ser aí” dotado de mostração e manifestação, mas que preserva sua ocultação. A verdade é o desvelamento do ser conforme um movimento por dentro da idéia do mundo. “A essência da verdade se desvelou como liberdade. Esta é o deixar-ser ek-sistente que desvela o ente. Todo comportamento aberto se movimenta no deixar-ser do ente e se relaciona com este ou aquele ente particular. A liberdade já colocou previamente o comportamento em harmonia com o ente em sua totalidade…”(HEIDEGGER. Conferências e escritos filosóficos. In Col. Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1991. p. 130)

Verdade é o desoculto, aquilo que se mostra. Desocultar e ocultar não são separáveis, mas aquilo que no aparecer se oculta. Revelação. É o jogo luz e sombra na cultura barroca. Na arte, as obras se manifestam nesse tom, nessa linha. É um jogo de mostração e de ocultamento. “Justamente, na medida em que o deixar-ser sempre deixa o ente, a que se refere, ser, em cada comportamento individual, e com isto o desoculta, dissimula ele o ente em sua totalidade. O deixar-ser é, em si mesmo, simultaneamente, um dissimulação. Na liberdade ek-sistente do ser-aí acontece a dissimulação do ente em sua totalidade, é o desvelamento”(ibidem, p. 131).

O homem está sempre na verdade e na inverdade, para Heidegger. Ouvir e escutar são duas formas de dizer. O silêncio é uma forma de discurso. Este é originariamente silêncio. É radicalmente a fala que fala. Somos nós que falamos a fala que nos fala. A linguagem do silêncio está fora da razão. Através do silêncio é possível encontrar a verdade.

O ser mesmo é abertura, como vimos na analítica do Dasein.

Falar da verdade não é outra coisa senão expressar o Dasein. O lugar da verdade não é o juízo, mas o juízo que está na verdade. O fato de julgar não me diz a verdade, é absolutamente o contrário, a verdade é quem me diz o ato de julgar.

Heidegger desconstrói o tradicional conceito de verdade. O Dasein é transcendente a todas as possibilidades intramundanas de mudar. As coisas que estão aí são puras possibilidades de mudar.

Sem querer mudar de assunto, qual é o motivo da vontade humana? A vontade age sempre em função do bem. O que faz com que a vontade permaneça livre em escolher o bem? Não é o bem maior que determina a minha vontade de escolha, mas a vontade que escolhe o bem maior. Quanto mais um ato escolhe, mais totalmente envolve a existência e mais facilmente será livre.

Se a vontade estiver diante da totalidade do bem, ela não escolhe, mas necessariamente vai querê-lo. Mas só há um bem capaz de determinar a liberdade, Deus, Ser perfeitíssimo. Os outros bens particulares são livres para que o homem escolha ou não.

“O homem é uma paixão inútil”(Sartre).

“Nasce sem razão, vive sem sentido e morre inutilmente”(Heidegger).

“Seja como for, uma coisa se torna clara: a questão da Alétheia, a questão do desvelamento como tal, não é a questão da verdade. Foi por isso inadequado e, por conseguinte, enganoso denominar a Alétheia, no sentido da clareira, de verdade. O discurso sobre a Verdade do ser tem seu sentido justificado na ciência da lógica de Hegel, porque nela verdade significa a certeza do saber absoluto. Mas tampouco Hegel como Husserl questionam, como também não faz qualquer metafísica, o ser do ente, isto é, não perguntam em que medida pode haver presença como tal. Só há presença quando impera clareira. Esta, não há dúvida, é nomeada com a Alétheia, com o desvelamento, mas não como tal pensada”(ibidem, p. 80).

Ser clareira aqui, viver na clareira não tem nada a ver com luz, iluminação, mas mostração, desocultamento, verdade. O homem é apenas o lugar desta mostração.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
http://www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,

Umas pequenas práticas de saberes II

É possível criar uma ontologia particular sem citar a Tradição com base na música, no teatro e na poesia, bem como na literatura.

Segundo Nietzsche, a tarefa do saber é: “ver a ciência sob a ótica do artista, mas a arte sob a ótica da vida”. É a dialética entre a Tradição(História) e a Ruptura(indivíduo). Foucault é filho dessa cultura que não precisa pressupor a  História para desenvolver a estrutura lógica de seu pensar.

É sabido por todos que, após as duas grandes guerras mundiais, a razão como modelo único entra em crise porque não atendeu as necessidades básicas que levam o homem ao progresso. “A razão é a imperfeição da inteligência”, segundo Tomás de Aquino, pois, fora quem melhor compreendeu a modernidade da modernidade.

A modernidade fracassou por duas maneiras: a pretensão de um estado nação assumir o controle do mundo com a queda do muro de Berlim; depois, com a Física quântica, derrogando a razão positivista que acreditava esquadrinhar todas as coisas, inclusive o átomo.

O Racionalismo frustra a modernidade como também a desigualdade social mundial, isto é, com o desenvolvimento econômico sustentado das nações.

O grande pecado da modernidade foi espiritualizar o material e materializar o espiritual, tornando o consumismo a sua marca fundamental.

Massificação e sociedade de consumo são as razões do capitalismo.

A ciência não foi capaz de dar estabilidade e segurança social frente às imprevisibilidades do futuro. Não é suficiente para integrar o homem à cultura que lhe é própria. Newton e Descartes são as duas pernas com as quais andamos. Newton com a gravidade universal e Descartes com o Método.

Sendo assim, ciência e razão nos conduziram a sofrimentos e a desorientações pela garantia de um progresso tecnológico. Não foi capaz de sanar a sede de saúde, paz mundial, importância antropológica, política, social e histórica. Frustrou as perspectivas de progresso no século XX.

Edgar Morin nos ensina que o dever principal da educação é armar cada um para o combate vital à lucidez.

Do séc. passado recebemos a lição de que “não sabemos tudo de nada”. Lutamos contra nossas pretensões bélicas, econômicas e racionalistas, mas nos esquecemos de promover o bem-estar social, ecológico, político sustentado pelo mundo afora.

Daí, passamos por uma devastadora crise de paradigma. Os modelos educacionais ou até do próprio conhecimento não dão conta das exigências complexas por que passa a humanidade.

“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital. É o problema universal de todo cidadão do novo milênio: como ter acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global ( a relação todo/partes), o Multidimensional, o complexo? Para articular e organizar os conhecimentos e assim reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é necessária a reforma do pensamento”(Edgar Morin, in Sete Saberes necessários à Educação do Futuro, pág. 35).

Para Morin, a Reforma é paradigmática e, não, programática. Uma educação que fomente a nossa aptidão para organizar o conhecimento.

Aqui é o ponto: Estamos inseridos numa sociedade altamente tecnológica informatizada, onde a Educação precisa mais do que nunca incluir esses valores para tentar responder as expectativas dos alunos e de uma nova compreensão de mundo. Todavia, como unir velocidade de informações e conteúdos via Internet/meios tecnológicos com a capacidade do aluno introjetar/refletir essas mesmas informações? Ou será que a educação está formando sujeitos de desejos ao invés de sujeitos reflexivos?

Uma alternativa ou uma das alternativas para indicar saídas é favorecer a atividade da arte e da filosofia na Educação, ou seja, implementar ações educativas complementares: jogos; filmes; jornal; teatro; música. Tudo isso unido ao poder da reflexão para possibilitar a descoberta de talentos críticos que contribuam na construção de valores e de preservação do meio ambiente.

A consequência de tudo isso foi o nosso afastamento de uma vida contemplativa(razão) para nos familiarizar, agora como nunca, com uma vida ativa, interativa audiovisual e lúdica. O desencanto da razão levou-nos ao encanto da música e dos jogos, isto é, do entretenimento midiático. Eis, no entanto, o desafio: educar toda essa massa humana advinda da cultura do entretenimento para as escolas. Se quisermos impactar crianças, adolescentes e jovens com a Educação basta oferecermos a música e o esporte nesse processo, e depois, formar indivíduos reflexivos, cuja meta é a multiplicação dessas práticas de saberes.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
http://www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,

Umas pequenas práticas de saberes I

Segundo a tendência racionalista, herdada de Descartes e Spinoza, prevalece o inatismo, pelo qual o sujeito que conhece seria o pólo mais importante no processo do conhecimento.

Conforme a tendência empirista, iniciada com Bacon, Hume e Locke, o sujeito que conhece é passivo, recebendo de fora – da experiência – os elementos para a elaboração do conteúdo mental.

Tais pressupostos de uma educação moderna são oriundos dos conceitos clássicos de Educação:

“A educação deve dar ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”(Platão) – idealista.

“Não há nada na inteligência que antes não se tenha passado pelos sentidos”(Aristóteles) – realista.

As quais se fundamentam num problema antiquiquíssimo, chamado de APORIA: No séc. VI – V a.C., Parmênides disse que nada pode mudar; que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são dignas de confiança.

Já Heráclito, na mesma época, disse: que tudo se transforma(“tudo flui”) – “panta rei”; que as impressões dos sentidos são confiáveis.

Assim, muitos tentavam, assustadoramente, solucionar o impasse entre razão e sentidos.

Empédocles afirmava que ambos têm razão, pois a água pura será água pura por toda a eternidade e a natureza está em constante transformação. Ele acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de raízes. Estes quatro elementos eram a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Supera, assim, a dicotomia com uma belíssima síntese entre o imóvel e o móvel, entre o ser e devir.(séc V a.C.).

Immanuel Kant, por sua vez, conhecia muito bem tanto os racionalistas quanto os empiristas e concordava com ambos: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão? Para Kant, não importa o que possamos ver, sempre perceberemos com as “formas da sensibilidade”. Isto significa que podemos saber antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes de tirar os óculos da razão!(séc. XVIII d. C.).

Conforme Maria Lúcia de Arruda Aranha, a Educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora entre sujeito e objeto, no seio da prática social global.

A Pedagogia é a necessidade sistemática de tornar a prática social global mais eficaz, a fim de definir os fins a serem atingidos.

A Filosofia da Educação acompanha reflexivamente os problemas educacionais.

As Ciências da Educação propõem processos de ensino(sistemas) mais sofisticados que superam o mero empirismo em educação.

As pequenas práticas de saberes supõem tudo isso que dissemos até agora, na medida em que o educador luta contra qualquer tipo de generalização.

Segundo Foucault na Microfísica do Poder, o educador precisa ser um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Os saberes são fragmentados, compartimentados, enquadrados nas específicas exigências dos indivíduos, por isso mesmo práticos e pequenos que penetram na singularidade da vida.

Parece-me que fora Nietzsche, na segunda metade do século XIX até meados do século XX, a desencadear essa nova modalidade de pensamento. Não segue necessariamente uma escala contínua e progressiva da estrutura do Pensamento, pois rompe com a Tradição para voltar às fontes, às origens da tragédia humana(Dionísio e Apolíneo), a fim de valorizar nossas potencialidades enquanto artistas de pensar o próprio pensamento. Acontece assim, uma ruptura do patrimônio histórico do pensamento humano.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
http://www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , , , , ,

Uma escola mangue

O texto Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação” se apropria de uema bela imagem, a imagem do Mangue, utilizado aqui pelo autor Daniel Lins para nos mostrar a riqueza do pensamento rizomático de Deleuze atrelado a uma pedagogia.

Na vida acadêmica ou na vida de um professor é muito salutar quando se alcança o estágio maduro do magistério e, desaprendendo a falar academicamente uma linguagem técnica, aprende-se a falar por meio de imagens. As imagens vêm mais facilmente à cabeça e são deliciosas, pois, quando se usa uma imagem que fala mais do que o texto, percebe-se “a diferenciação, a contemplação vibrátil, sem determinação, mergulhada numa visão que inventa a visão do que é visto sem pontos de referência nem muletas”. (Lins, 2005, p.10). Eis a imagem:

“- Seu Pedro, onde começa o mangue?

– Professor! Olhe o mangue! Não tem nem começo, nem fim: O mangue só tem meio!”

(Diálogo com um velho pescador, na Ilha do Pinto, em Fortim, Ceará, abril de 2004, in Lins, 2005, p. 10)

Assim deve ser uma escola, sem princípio e sem fim, mas com meio, inteiramente inserida na vivência do mundo e mergulhada no aqui e agora das situações existenciais. Uma escola que simboliza um “imenso manguezal” a se espraiar “no entrelaçamento de proteínas, calorias, gazes, lama, gozos, prazeres, detritos e… ouro”(Lins, 2005, p.10). O seu ouro é a diferença ou a riqueza do manguezal, como se a criança/aluno representasse o grande tesouro da escola que, talvez, fosse uma obra em construção e que a escola sua intercessora privilegiada na autoconstrução, sob a condição de que a transmissão de saber não se confunda com a transmissão de poder em que o aluno é tratado supostamente a querer, a ouvir, a aceitar e a obedecer.

Tal cogitação entre escola e mangue merece, como dissemos, uma deferência no texto de Daniel Lins, haja vista a feliz metáfora que estabelece com a ideia de rizoma deleuziana:

“Por meio da questão do novo, a função da Mangue’s School não é mais a de responder a uma necessidade de verdade, ou de abrir ao conhecimento do real, mas provocar novas possibilidades de vida. O novo é assim retomado como uma exigência de criação que instiga a promoção de forças capazes de transformar o presente levando-o para novas vias, segundo a formulação de Nietzsche: ‘Agir contra o passado, e desse modo sobre o presente em favor de um tempo por vir’”(Lins, 2005, p. 12).

In: LINS, Daniel. Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação”. In Educ. Soc. Vol. 26. nº 93. Campinas. Sept./Dec. 2005.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , ,

Um só é bom! (Mt 19.17)

Num mundo de valores invertidos, não é tão fácil ouvir a intensidade da voz do Mestre: “Não há bom, senão um só que é Deus”(Mt 19.17). Só Deus é bom ou mais que bom. Seria desafiar a própria estrutura das coisas arrumadas com base no relativismo e na fragmentação de todos os valores. A voz de Cristo entra na vida humana, tal como a flor de Drummond que teima em nascer no chão do asfalto. Se é difícil imaginar uma flor nascer na terra dura de um asfalto, avalie então a unidade formidável do bem que é Deus poder entrar no emaranhado mundo de valores relativos, que urgentemente precisa ser revisto.

As pessoas sentem-se paralisadas com um consumismo compulsivo. Há gente por aí que sai de casa para comer comida de casa. Compra as mesmas coisas apenas para satisfazer seu sujeito de desejo, simplesmente para massagear o seu ego. Procuram-se lugares de prazer intenso quando o único lugar é dentro de nós mesmos numa comunhão indissociável com o uno, a unidade absoluta e indestrutível, Deus.

Infelizmente, não se ouve mais essa voz que não quer e não pode, também não deve calar. “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me”(Mt 19.21). Antes desse apelo do Mestre, o jovem rico se perguntava sem cessar: “(…) que me falta ainda?”. A resposta estava ali, incrivelmente presente na pessoa de Jesus, bem como o chamado à unidade absoluta.

A pergunta do jovem a Jesus é avassaladora, uma vez que pontua admiravelmente a extensão da ansiedade humana. Não somente em dado momento o homem se pergunta pelo que falta, porém em todos os momentos do curso da história, pois é a marca do quanto se é insaciável, do quanto se é insatisfeito.

A insatisfação, a sede, a procura, a falta é a marca da sociedade presente. Mas, não são as roupas, não são as compras, não são as comidas, não são as bebidas, tampouco o dinheiro, muito menos qualquer bem em particular que possa imediatamente trazer-lhe saciedade e realização pessoal ou autossatisfação, é seguir o apelo do Mestre: “Um só é bom”. Deixe-se atrair pelo Bom, pelo Único, pela Totalidade, pelo Infinito. Seguir a Jesus implica ouvir a sua voz que não é a voz da multidão, que não é a voz da ilusão, que não é a voz de falsas verdades.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , ,

Corrida Eleitoral

É a última semana em que muitos correm para lá ou para cá ou até mesmo em círculos em busca de votos. A concorrência político partidária em nosso país se afunila cada vez mais esta semana quando muitos candidatos saberão de seus destinos. Veremos, no final do pleito eleitoral, os que sairão “vencedores” e, possivelmente, com o compromisso de atuarem em benefício do povo.

Domingo próximo está afixado no calendário do país como o dia da culminância, o ponto alto desta campanha eleitoral que começou no mês de junho. Uma campanha longa que reúne muitas polêmicas, desde as morais até as sócio político-administrativas, mas que não deixa de ser importante para o eleitorado brasileiro, o qual carrega e encarrega sua consciência de trabalhos diante da responsabilidade de escolher alguns representantes no meio de uma variedade enorme de candidatos que não sabemos se vão ou não corresponder às expectativas de um cargo público.

O período eleitoral está chegando ao fim, pelo menos no que diz respeito ao 1º turno, porém alarga-se mais ainda nosso compromisso de escolher bem o Governador, o Dep. Estadual, o Dep. Federal, dois Senadores e o Presidente, os quais serão decisivos ao abrir novos rumos para o país. Serão seis votos de nossa inteira responsabilidade. Seis votos do tamanho do país. Estados e Federações brasileiras por meio deles, digo, dos votos, serão bem ou mal representados dependendo de nossas escolhas. Mais uma vez, já pela sexta vez depois da redemocratização do país, teremos os rumos da política brasileira em nossas mãos. Será que isso é verdade mesmo? Depende mesmo de nós o futuro do país ou é mais uma ilusão posta em nossa cabeças para favorecer a classe dominante estabelecida? Longe de mim tirar a importância de participarmos de mais uma eleição direta pela escolha de nossos representantes políticos!

O fato é que isso não é verdade. A realidade está posta. Entramos e saímos da frente das urnas a cada dois anos e a sociedade continua com os mesmos problemas sociais e políticos. Infelizmente, ninguém vota na verdade. Ninguém vota na geração de emprego e renda. Ninguém vota na Educação. Alguém vota na saúde? Já viram alguém votar em segurança pública? Alguém por aí, no dia 03 de outubro, vai votar em honestidade? Na hora de votar, será que alguém de nós lembra da justiça? Ninguém vota na justiça. Ninguém vota em dignidade, em menos corrupção. Alguém vota em igualdade social? Votamos, sim, em pessoas ou atores, no dizer do sociólogo francês Alain Touraine, que se revesam, após cada gestão no interesse apenas de permanecerem no poder. O objetivo dos cargos eletivos passa a ser não mais social, e sim meramente político eleitoreiro ou até mesmo econômico, gerando emprego para políticos profissionais e sua parentela. Estamos nos movendo em círculos, em redor e em derredor dos interesses político eleitoreiros de nossos representantes que se caracterizam de bons moços a cada eleições no intuito de transformar o palanque num palco teatral, onde os personagens principais se revezam dentro de um mundo maravilhoso que não há fome, miséria, desemprego, salários baixos, desabrigados, analfabetos, excluídos, injustiçados, perseguidos, nem mesmo há cerceamento de direitos, enfim…

Por isso, é oportuno refletirmos sobre cidadania e democracia. Tornou-se comum ouvir dizer que vivemos num Estado democrático de direito com pleno exercício de nossa cidadania. Parece-me muito banal tudo isso, porque vulgarizamos o sentido de tudo, até mesmo da democracia quando vista pela ótica do direito ao voto. Como diria o saudoso literata português, José Saramago, extraditado de sua terra para morar quase confinado com suas ideias nas Ilhas Canárias, antes de sua morte afirmou em “Este mundo da Injustiça Globalizada”, que vivemos uma falsa democracia. A nossa democracia foi roubada. O mundo transformou a democracia numa plutocracia em função dos interesses de Órgãos internacionais, como as multinacionais. “Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira”.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva

http://www.umasreflexoes.wordpress.com
http://www.twitter.com/filoflorania

 

 

 

Etiquetado , ,
Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

Enseñanza de la filosofía

Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Clube Literário do Porto

Um lugar onde a Cultura acontece

Poesias, frases e textos

Melhores poesias, frases, crônicas, textos e música

Da Literatura

Um blog sobre livros e amor pela leitura

O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

ZÉducando

Educação, Tecnologia, Reflexão e Humor: combate ao "não-pensantismo" *

aultimaestrofe

Just another WordPress.com weblog

φρόνησις

"Filosofar é aprender a morrer". Montaigne

Luciano Ezequiel Kaminski

Textos sobre Filosofia e Sociologia

OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

Esta é a pagina e blog a da autora