Arquivo da categoria: teologia

Um só é bom! (Mt 19.17)

Num mundo de valores invertidos, não é tão fácil ouvir a intensidade da voz do Mestre: “Não há bom, senão um só que é Deus”(Mt 19.17). Só Deus é bom ou mais que bom. Seria desafiar a própria estrutura das coisas arrumadas com base no relativismo e na fragmentação de todos os valores. A voz de Cristo entra na vida humana, tal como a flor de Drummond que teima em nascer no chão do asfalto. Se é difícil imaginar uma flor nascer na terra dura de um asfalto, avalie então a unidade formidável do bem que é Deus poder entrar no emaranhado mundo de valores relativos, que urgentemente precisa ser revisto.

As pessoas sentem-se paralisadas com um consumismo compulsivo. Há gente por aí que sai de casa para comer comida de casa. Compra as mesmas coisas apenas para satisfazer seu sujeito de desejo, simplesmente para massagear o seu ego. Procuram-se lugares de prazer intenso quando o único lugar é dentro de nós mesmos numa comunhão indissociável com o uno, a unidade absoluta e indestrutível, Deus.

Infelizmente, não se ouve mais essa voz que não quer e não pode, também não deve calar. “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me”(Mt 19.21). Antes desse apelo do Mestre, o jovem rico se perguntava sem cessar: “(…) que me falta ainda?”. A resposta estava ali, incrivelmente presente na pessoa de Jesus, bem como o chamado à unidade absoluta.

A pergunta do jovem a Jesus é avassaladora, uma vez que pontua admiravelmente a extensão da ansiedade humana. Não somente em dado momento o homem se pergunta pelo que falta, porém em todos os momentos do curso da história, pois é a marca do quanto se é insaciável, do quanto se é insatisfeito.

A insatisfação, a sede, a procura, a falta é a marca da sociedade presente. Mas, não são as roupas, não são as compras, não são as comidas, não são as bebidas, tampouco o dinheiro, muito menos qualquer bem em particular que possa imediatamente trazer-lhe saciedade e realização pessoal ou autossatisfação, é seguir o apelo do Mestre: “Um só é bom”. Deixe-se atrair pelo Bom, pelo Único, pela Totalidade, pelo Infinito. Seguir a Jesus implica ouvir a sua voz que não é a voz da multidão, que não é a voz da ilusão, que não é a voz de falsas verdades.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , ,

A santidade em Levinás

172835-gf

Todos nós temos uma vocação à santidade. Ou a acolhemos ou a renunciamos, porém não a eliminamos, visto que nos comportamos, nos movemos e agimos não só pelo que nos falta, pelo que nos carece, mas também pelo que nos basta, pelo que nos excede. Não à toa, estamos sempre a procura do que é verdadeiro, que não é uma simples adequação do meu pensamento à coisa ou vice-versa, mas uma inadequação pura, um paradoxo, que nos perturba e incomoda porque nos ultrapassa, o humano. “Nunca pretendi descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas o que a própria depravação humana não saberia eliminar: a vocação humana à santidade”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

Um pensamento marcadamente humano, certamente consequência do sentimento trágico da segunda guerra mundial, a visão de Levinás é fruto da discussão que há na primeira metade do século XX: o que é o meu direito sobre o direito dos outros? Aqui ele mostra como os homens têm uma vocação à santidade que a violência não consegue eliminar ou não sabe eliminar. Seu valor à santidade deve vir da força da sua biografia, filósofo lituano, judeu, que acaba conseguindo a cidadania francesa em 1938. Vive num período histórico bastante conturbado entre as duas grandes guerras. É testemunha do surgimento e do esgotamento do Nazismo imposto por Hitler, responsável por destituir o caráter do outro e dizimar milhares de vidas humanas. Além disso, sua motivação é exatamente a perseguição ao terror promovida pelo Nazismo e por todo o movimento histórico em que passa a Europa, a partir da segunda década do séc. XX.

Em virtude disso, Levinás institui uma ética baseada na responsabilidade pelos outros. O caráter do indivíduo se reconhece numa dimensão de coletividade. Ele admite ainda que há uma transcendência em nossas relações: o eu que se reconhece nos outros porque é uma transcendência de mim mesmo que acontece no rosto do outro. Quando eu me reconheço no rosto do outro está acontecendo uma radicalidade ética: o primado do outro sobre o primado do eu.

A santidade, para Levinás, segue esse viés de abertura ao outro, muito afinado até com o rigor ético presente na Bíblia. Conceitos como o de bondade, justiça, hospitalidade, estrangeiro, são acolhidos no seu discurso filosófico. Afirma que não é ridículo, pelo contrário, é incontestável pensar o valor à santidade. “Ela não se prende inteiramente às privações, ela está na certeza de que é preciso deixar o outro sempre em primeiro lugar em tudo – desde o ‘depois do senhor’ diante da porta aberta até a disposição – quase impossível mas que a santidade o pede – de morrer pelo outro”(POIRIÉ, François. Emmanuel Levinás: ensaios e entrevistas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84).

Guardadas as devidas proporções de contexto, o mundo hoje tem uma tremenda dificuldade de lidar com as questões éticas, talvez por causa do politicamente correto, da política da boa vizinhança, do jeitinho, da camaradagem, das conveniências e do excesso de ideologias. No coletivo, paira uma certa superficialidade entre os sujeitos. Um encontro que requer a presença autêntica, sincera do outro. Tudo é muito politicamente correto ao ponto de absorver a importância do caráter de cada um. A impressão que se tem é que os espaços sociais estão cheios de gente que se tratam como gente, fazem acordos, assumem compromissos, etc, mas, em algum momento, tudo pode ser quebrado e desfeito. A sensação é de que a santidade se faz cada vez mais urgente. Menos ideologia, mais ética, mais santidade.

Levinás deixa claro que a santidade precisa ser valorizada para uma sociedade e um indivíduo se tornarem mais humanos: “Não afirmo a santidade humana, digo que o homem não pode contestar o supremo valor da santidade. Em 1968, ano da contestação dentro e em torno da Universidade, todos os valores estavam no ar, exceto o valor do outro homem ao qual era preciso dedicar-se. Os jovens que por várias horas se entregavam a todas as diversões e a todas as desordens, no fim do dia, iam visitar, como a uma oração, os operários em greve na Renault. O homem é o ser que reconhece a santidade e o esquecimento de si. O para si expõe-se sempre à suspeição”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

A santidade se caracteriza como extravasamento da compreensão do ser, na medida em que se vive para outrem, apropriando-se de uma outra ordem, a ordem do humano. A santidade é mais do que racional, é um mandado divino que rompe com a ordem natural e nos insere na dimensão de reconhecimento do rosto do outro: “Vivemos em um Estado em que a ideia de justiça sobrepõe-se a essa caridade inicial, mas nessa caridade inicial reside o ser humano; a ela remonta a própria justiça. O homem não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como queria Heidegger, mas é o ser que já ouviu e compreendeu o mandamento da santidade no rosto do outro homem. Também quando se diz que originariamente há instintos altruístas, reconheceu-se que Deus já falou. Ele começou muito cedo a falar. Significado antropológico do instinto! Na liturgia hebraica cotidiana, a primeira oração da manhã diz: ‘Bendito seja Deus, Senhor do mundo, que ensinou ao galo a distinguir o dia da noite’. No canto do galo, o despertar para a luz”(Idem, p. 40).
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.
http://www.umasreflexoes.wordpress.com
http://www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , , , ,

Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6)

A description...

Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

         A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.

Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.

Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.

A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar… Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)

Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).

Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o  Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos
Páginas na internet:
www.umasreflexoes.wordpress.com

www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , ,

Nem demais, nem pouco demais, o necessário

       Criamos muitas falsas necessidades. Idealizamos sonhos tão altos que sacrificamos nossa dignidade para realizá-los. Passamos toda uma vida trabalhando em função de um padrão econômico, isto é, não sustentamos necessariamente a nós mesmos, mas aos nossos caprichos. Quem não os têm? Só que uns têm mais, outros têm menos caprichos ou vaidades. Há pessoas que sacrificam até o seu bem-estar para juntar dinheiro, ao passo que há aquelas que simplesmente sonham com uma boa casa para morar, um carro popular, um emprego que pague bem, uma família de três filhos em média… Agora, há outras que não abrem mão de regalias, muito luxo e vaidade, mesmo que isso lhes custe uma consciência limpa ou antes a própria vida, o que seria um absurdo.

Muito me admira a capacidade que o ser humano tem de se viciar em atender às suas vãs necessidades, melhor dizendo, futilidades, uma vez que poderiam ser descartadas, pois não implicariam nenhum tipo de prejuízo à sua natureza ou às suas verdadeiras necessidades. Por que temos que jogar na mega-sena semanalmente ao ponto de sacrificar o orçamento familiar? Por que temos necessariamente que trocar de carro todo ano? Por que temos de comprar sempre o celular de ponta? Por que é preciso enricar, acumulando bens que precisariam de cinco gerações para serem consumidos? Por que nossa segurança está em todos esses valores? Por que nossa segurança não está em Deus?

É necessário a nós só o comer e o vestir. Se ambicionarmos por demais a riqueza, certamente nos esqueceremos de Deus. Do mesmo modo, se ficarmos pobres ou miseráveis, sem nada, seguramente teremos a tentação de furtar para sobreviver. A riqueza não é tudo e a miséria não é digna de nós. Devemos buscar o suficiente, a medida certa para sobreviver dignamente, sem nenhum tipo de mediocridade. Às vezes, a corrupção e o pecado entram por aí: Da não aceitação de  uma vida sóbria, comedida e prudente. Nesses tempos de alto consumismo, é urgente o apelo do evangelho em Mt 6.25-31: “Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo o ‘Rei’ em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?”

Somente Deus poderá nos saciar de toda falta. Tudo é perecível nessa vida, mesmo a comida ou a bebida ou as vestes ou ainda a nossa própria existência, o que prova concretamente de nossa parte que precisamos nos abastecer de uma saciedade permanente, de uma água que não dê mais sede, de uma comida que não dê mais fome, de vestes que não se consumam. Esse estado de constante saciedade que não encontramos aqui com nada perecível, só encontramos em Deus presente no Evangelho. Jesus é a água da vida que não dará mais sede, belíssimo: “Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna. Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem venha aqui tirá-la”(Jo 4.13-15).

Portanto, as vaidades e os impulsos compulsivos de consumo desta vida passarão, mas Jesus e suas palavras não passarão. A realidade econômica no Brasil ainda é muito favorável para um consumo desnecessário da classe média, provocando nas pessoas uma saciedade insaciável de desejos dos mais variados, desde a compra de um computador melhor até a compra de uma TV LCD de última ponta. Com um mundo todo voltado a mergulhar nessa onda avassaladora de consumo, promovido por um modelo econômico mais do que liberal, super, hiperliberal em todos os aspectos, é preciso de nossa parte, reter as palavras do Senhor em nossos corações, acreditando sem cessar que “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”(Sl 23). Nada aqui não quer dizer nada literalmente, mas a medida certa, o suficiente. O mesmo nos diz Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, II, 5, acerca da “justa medida”. A medida certa é o equilíbrio, a virtude, nem demais, nem pouco demais, justo o que é preciso.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN
Páginas na internet:
www.umasreflexoes.wordpress.com


www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,

O encontro com Cristo promove Salvação

Quando tomamos a bela iniciativa de sair de nossa inércia individual; quando decidimos sair de nós mesmos para corrermos ao encontro do Mestre; quando nos movemos em direção ao advento de nossa salvação que é Cristo; quando saímos, saímos e saímos num movimento dinâmico e vivo de êxodo para buscar um lugar prometido, tal como Jerusalém para o povo de Israel; quando deixamos o pecado, nossos vícios e até nossas idiossincrasias, estamos promovendo a verdadeira salvação em nossa história que acaba de ser modificada, não é a mesma de antes. Encontrar-se com Cristo é ter coragem de mudar. A sua presença contagia e irradia a todos. Seu toque tem a força curativa de um Deus redentor e salvador. Alguém que se encontra com Cristo jamais permanece o mesmo!

Pelas andanças de Jesus em Samaria, Judéia e Galiléia nós percebemos a notoriedade de suas palavras e de seus atos. Não poucas vezes, Jesus passava em meio à multidão e mesmo assim era visto e ouvido. Quem não lembra do grito do cego de Jericó, Bartimeu: “Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim que sou pecador!?”(Lc 18. 35-43). Quem não revive a experiência de Zaqueu, um publicano rico e desleal com o seu próprio povo, que arrecadava impostos na alfândega para favorecer o império romano!?(Cf. Lc 19. 1-10). E ainda Mateus, uma figura visível no evangelho que traz o seu próprio nome, o qual traía também os seus para favorecer os cofres de Roma(Cf. Mt 9.9s).

Vejam esses três exemplos de pessoas que simplesmente sentiam um desprezo muito grande pelos seus que eram israelitas, povo escolhido por Deus para perpetuar a Tradição Patriarcal de Jacó, Isaac e Moisés. Certamente, o cego estava incomodado com a exclusão social que sofria, mas mesmo assim Jesus se dirigiu até ele num movimento de advento da salvação e da cura frente à sua limitação e sofrimento. O grito do cego de Jericó representa aqui o movimento oposto ao do  Mestre. O socorro do cego é um movimento de saída de si, de suas limitações, de sua cegueira para a visão, das trevas para a luz. Possivelmente, com Zaqueu, os dois movimentos também aconteceram, um exodal e outro adventício. A carreira de Zaqueu para subir numa árvore e a sua transformação ao vê-Lo e ao sentir a sua presença. Na mesma medida, recebeu Mateus uma experiência extraordinária do encontro com Cristo. Mateus não aguentava mais ser desprezado pelo seu próprio povo, pois o havia traído, tirando dele impostos para ser dado ao Império. Vivia angustiado, excluído e taxado de impostor e traidor. Até que passou Jesus por sua mesa de cobrar impostos e ele simplesmente foi contagiado por sua pessoa. Algo diferente foi visto por Mateus para abandonar aquela vida e atender ao convite do Mestre: “Vem e segue-me”. Deixou tudo e seguiu aquele homem arrebatador de corações. Algo extraordinário contagiou Mateus!

Nada, absolutamente nada permanecia o mesmo ao ver Jesus ou ao ouvir a sua voz. As pessoas se admiravam do poder que emanava de seu toque e de suas palavras. É óbvio que todos nós estamos comprometidos pelo pecado de Adão. Herdamos com Adão, o pecado por natureza. É próprio da natureza humana o pecado, mas com Cristo, temos a certeza da libertação de nossa natureza e consequentemente de nossas vidas(Cf. Rm 5.12). Se estávamos condenados ao pecado, agora estamos absolvidos em Cristo. O encontro com Cristo promove esta salvação que exige de nós a admissão de nossa natureza pecadora. É preciso assumir que somos pecadores. Depois, confiar que Jesus pode nos salvar e, por último, aceitar que só existe um salvador entre Deus e os homens que é Jesus. Só Jesus salva!(Cf. 1Tm 2.5).

Além de todos os episódios bíblicos, lembrados aqui, para ilustrar que o encontro com Jesus promove salvação, libertação, comunhão com Deus e mudança radical de vida, a cena da cura dos dez leprosos(Cf. Lc 17. 11-19) que vinha acompanhada do drama do sofrimento humano e da exclusão social é maravilhosa, pois leprosos eram separados sem a possibilidade de nenhum contato social, mas Jesus os recebe e os cura, embora apenas um(01) depois tenha voltado para agradecer. Jesus os recebe e os cura porque sente o clamor desses pecadores por salvação. Jesus respeita o desejo de salvação daquelas pessoas, o desejo de se sentirem livres e curadas de todo o mal. O querer é o movimento de êxodo de todo pecador que quer a chegada definitiva de Jesus salvador.

Portanto, enquanto pelejamos na história em meio ao pecado, estamos sempre saindo de nós mesmos em constante movimento de encontro com o que há de vir, Jesus Cristo, pois está sempre vindo, chegando com providências e agindo maravilhosamente em nossas vidas. Bendito seja Deus!!!


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN e Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
Páginas na internet:
www.umasreflexoes.wordpress.com


www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,

“Alter-ego” na filosofia de Levinás…

(Imagem: Cena que encerra o filme “Tempos Modernos”, à medida que o filme vai acabando, o casal vai sumindo na estrada junto com o filme. Maravilha! O filme nos mostra a ideia de continuidade em que nos coloca além dos padrões da modernidade. O que chama a atenção e enche a tela não é o fim, mas um horizonte que parece não ter fim).

É muito comum em nossas atividades diárias experimentarmos um certo gozo incontido, principalmente nas pequenas coisas. Mesmo aquelas coisas mais repetidas do dia a dia como escovar os dentes, andar até a escola, visitar um amigo, encontrar-se com um membro familiar, ir até ao mercado, tomar um sorvete, saborear uma boa comida, aliviar-se da bexiga cheia… A propósito, um judeu que se preze, nascido em Israel, educado segundo às Escrituras, certamente já viveu alguma vez na vida a fabulosa experiência da “beraká”, uma alegria extraordinária que inunda a alma de amor próprio, de autoconhecimento e de intensa consciência de si mesmo. Para o judeu, das coisas mais simples às mais complexas, até mesmo urinar ou saciar a sede com um simples copo d’água é motivo de gozo, de ação de graças. O judeu dá graças a Deus por tudo! Parece que há um pouco disso na filosofia da alteridade de Levinás, principalmente quando se descobre os limites do eu.

Na contramão do que pensava Kant sobre a consciência do eu transcendental como fundamento e medida do conhecimento e da moralidade, Levinás admitia originariamente que “ser eu é existir de tal maneira que se esteja já para além do ser, na felicidade. Para o eu, ser não significa nem se opor, nem se representar alguma coisa, nem se servir de alguma coisa, nem aspirar a alguma coisa, mas gozar dela”(LEVINAS, Emmanuel. Totalité et infini. Trad. José P. Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 124). Nessa direção pessoal de Levinás, temos um eu que se identifica no gozo que sente em viver bem com a realidade do mundo, em fazer bem as coisas na sua simplicidade, como que se a identidade do eu viesse junto com a felicidade. Uma espécie de ação de graças por cada ato do dia realizado, como se isso constituísse o eu de uma grandeza e elevação tal que o mundo todo se bastasse nele. “O gozo é a própria produção de um ser que nasce, que rompe a eternidade tranquila da sua existência seminal ou uterina, para se encerrar numa pessoa que, vivendo no mundo, vive em sua casa”(idem, p. 54).

Segundo Levinás, antes de duvidar, o eu é pura sensibilidade. Antes de abstrair-se, o eu é concreto e pura relação de si com o mundo. “O eu é sempre mais do que a sua posse. Aliás, não há posse. Há o indivíduo que se produz a partir de si, de sua própria subjetividade em um mundo concreto, no qual ele tem poderes e se mantém apoderando-se das coisas. O eu não se dissolve na totalidade da história e no absoluto; possui uma identidade que se faz a partir de si na relação com o mundo”(KUIAVA, Evaldo Antônio. Subjetividade Transcendental e Alteridade: um estudo sobre a questão do outro em Kant e Levinas. Caxias do Sul, RS: EDUCS. 2003. p. 152).

Mesmo admitindo que existe uma identidade do eu em relação ao mundo, Levinás dá ênfase a um dado extremamente sólido em sua filosofia, a alteridade. A leitura que se faz do ego em Levinás é inteiramente submetida à noção de outro, de alter. Daí, sua disposição em orientar seu pensar para o fulcro da alteridade. “Ao contrário de Kant, para o qual a autonomia do sujeito era o princípio supremo da moralidade, para Lévinas a categoria chave do universo ético será a alteridade. O outro não figurará simplesmente como um alter-ego, um ego como eu. O seu objetivo consistirá em destituir o eu autônomo e soberano, incapaz de perceber no outro nada além de si mesmo. Sendo assim, romperá com o primado do eu sobre o outro”(idem, p. 147).

Ocorre assim, na ontologia de Levinás, como já era esperado, uma primazia do outro sobre o eu, uma vez que somente um eu destituído da sua soberania e soberba poderá ser, de fato, ético. Não se trata de decretar a morte da subjetividade, mas de combater ao monologismo e ao monarquismo, ou até mesmo, à uma espécie de ranço da modernidade em promover uma racionalização legalista no campo da moral de dos valores. Depõe-se, sem dúvida, com a atividade filosófica de Levinás voltada para a alteridade, o caráter normativo da subjetividade kantiana. “Apresentará a subjetividade como acolhendo Outrem, como hospitalidade”(LEVINAS, E. Totalité et infini…op. cit., p. 12).

Portanto, o eu que pensa, duvida, dorme, come, respira, sonha, ama, conhece, odeia, imagina, urina e tem sede, descobre a presença de algo que ultrapassa seus limites, a sua finitude, por isso, a possibilidade de acolher outrem. É possuindo a ideia de infinito que se destitui o eu de sua autonomia e de seu pedantismo racional, como se o eu se dobrasse aos seus próprios limites. Entende-se, com isso, a famosa expressão de Levinás: “Possuir a ideia do infinito é já ter acolhido outrem”(idem, p. 94).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
Páginas na net:

 

Etiquetado , , , ,

Cidadãos do céu…

Difícil tergiversar sobre tamanha cidadania já que muitos não a admitem. Se exercer uma cidadania terrena, da cidade mesmo, é um tanto quanto difícil, imagine então quando essa cidadania implica trazer para o mundo real as novidades eternas difundidas pelo Evangelho! Para tanto, requer de nossa parte uma intensa dedicação ao Reino de Deus, uma vez que o projeto de uma cidade dos céus estaria sendo relegado por muitos: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Apesar de uma realidade de rejeição ao exercício de uma cidadania celeste, o anúncio e o testemunho das palavras e dos atos do Senhor se fazem pertinentes por causa da escassez de um poder espiritual no mundo contingente. O mundo sente cada vez mais a ausência de Deus! Quanto mais os cidadãos do mundo, os cosmopolitas como diria Sócrates, rejeitam uma cidadania diferente, de um Reino dos céus, mais e mais se faz urgente a Palavra do Senhor que diz:“(…) o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”(Mc 1. 15).

É muito próprio do cidadão comum cumprir suas obrigações, obedecer às leis, participar do governo de uma cidade, como também exigir a garantia de seus direitos à Educação, à Saúde, à Liberdade, de modo que venha a sentir-se incluído no meio social de crescimento e realização pessoal, mas nada disso lhe garante a salvação. Do contrário, há de se perceber uma insaciável busca do cidadão por valores imperecíveis, eternos, isto é, embora tenha um exercício de cidadania razoável para viver, o cidadão em algum momento é capaz de se dar conta da sua insatisfação, onde a procura pela verdadeira vida, por milagres e sinais dos céus são muito latentes. Lembrem-se da pergunta dramática do jovem rico: “Senhor, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”(Cf. Mt 19.16-22)

Enquanto Jesus veio para os seus, mas os seus não o conheceram, conforme está dito logo no início do Evangelho de João, viraram-lhe as costas, o mataram, o eliminaram, porém não foram muito longe, não conseguiram viver baseados apenas nas forças deste mundo porque viram que todas as coisas passam, os reinos passam, a soberania e a soberba temporais passam, as perseguições e injustiças também passam, mas as palavras do Senhor não passam e permanecem ecoando aos ouvidos dos cidadãos do mundo. Viram ainda que estavam errados quanto aos feitos maravilhosos do Senhor direcionados para a salvação da humanidade. A intenção de Jesus, obediente ao Pai, era impregnar nos corações humanos a realização de todas as promessas eternas, de felicidade e bonança tais que o mundo inteiro não podia conter. Sedentos de paz definitiva, de amor verdadeiro, de alegrias eternas, de comunhão com os céus, os cidadãos do mundo preferiram aceitar a morte à vida.

A verdade é dura, mas é verdade. Permitam o trocadilho. Não somos deste mundo, apenas passamos por ele. Somos peregrinos por aqui. Na verdade, somos passantes, migrando por aqui e por ali, sem pátria, mais nômades do que nunca, forasteiros, pois nossa terra é o céu, nossa pátria é o céu. O mundo não nos pertence, tampouco pertencemos a ele. Ora, se aqui, apesar de  tudo, é tão bom, como não será o céu! Se os frutos da terra são tão bons, como não serão os galardões do céu! Os frutos do Espírito são: “o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio” (Gálatas 5.22).

Nossa cidadania comum está muito aquém da cidadania celestial, pois o reino celestial não é como os reinos deste mundo, ser cidadão do mundo não é o mesmo que ser cidadão do céu. Ser cidadão do céu implica estar submetido ao governo de Deus que está em nosso coração e em nossa consciência, norteando nossa vida. Agora, antes de receber o título de cidadão do céu, é necessário reconhecer-se pecador, aceitar o Senhor como seu salvador, e sobretudo, renascer pela água e pelo espírito, mudar de vida pela Palavra de Deus, ouvindo a voz de Deus: “A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus…Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3,5). “Tendo purificado a vossa alma pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Ped 1.22-23).

Portanto, é fato. Não somos daqui. Como transeuntes pelo mundo, mais nos damos conta de que marchamos para os céus, haja vista que esta vida não se basta nela mesma, mas se completa com a vida eterna. “(…)Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. (…)Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido”(1Cor 13. 9-12). Atribui-se a Sócrates o dito de que “Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo“. Completaríamos o legado oral assim: “Não sou nem ateniense, nem grego, nem cidadão do mundo, mas sim um cidadão do céu”.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
Páginas na net:

 

Etiquetado , , , ,

Senso de humor

O senso de humor é uma das qualidades mais admiradas numa pessoa, desde que seja natural e sincero, autêntico, como uma marca registrada talvez. Tudo se transfigura quando existe alguém bem-humorado no ambiente. O bom humor e uma brincadeira agradável são suficientes para quebrar o gelo de um ambiente frio e sem graça. A pessoa bem-humorada é uma força da natureza que entretém e irradia de alegria quem quer que seja, onde esteja. Não se trata de estar rindo à toa fingindo simpatia ou fazendo a política da boa vizinhança, mas viver naturalmente essa experiência de humor, de modo que seja uma sinergia entre você e todos à sua volta. Quando isso acontece, sua presença enche de luz todo o ambiente e contagia a todos. E a verdade seja dita: É insuportável tolerar um ambiente sem humor, sem graça, sem risos e boas gargalhadas, sem vida. Dizendo isso, como não lembrar do pensamento de Charles Chaplin: “Um dia sem riso é um dia perdido”. Não foi essa incrível sensação de humor que contagiou o Apóstolo Paulo na Prisão?! O Apóstolo, em meio a um caldeirão de adversidade por que passava, fruto da terrível perseguição que o Império Romano impôs aos cristãos, agradece a Deus pela diversão e recreação que recebeu de Onesíforo na prisão: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou e não se envergonhou das minhas cadeias”(2Tm 1.16).

Vejam a realidade: a indignação pelo clima de impunidade que se espalha na política brasileira; a indisposição de grande parte dos políticos, senão todos, em fazer valer a justiça social e coletiva; os ambientes públicos carregados de injustiças, perseguições políticas e corrupção; relações pessoais que não se acertam; casamentos cheios de problemas que se arrastam sem diálogo; amizades frias com inúmeros interesses; empregos rígidos e burocráticos; lideranças cansadas; chefes chatos; problemas econômicos; dívidas; problemas de saúde; a rotina; baixos salários; desemprego… O que seria de nós sem um pouco de humor? Vinícius de Morais, numa de suas canções, nos diz afirmativamente: “Ponha um pouco de humor na sua vida!”. E continua: “É melhor ser alegre que ser triste. A alegria é a melhor coisa que existe”. O bom humor é uma das saídas sábias da vida, além do que acrescenta leveza em vez de rigidez; alegria em vez de seriedade demais; graça em vez de ignorância; paz em vez de truculência.

Nada melhor do que uma boa dosagem de humor em nosso dia a dia. Fico pensando o que seria de nós sem uma pitada de bom humor no trabalho, em casa ou até mesmo entre os amigos. Estaríamos todos fadados à burocracia da vida. Sim, a vida também, assim como o trabalho, pode ser levada com muita burocracia, chegando a ser insuportável às vezes, mas com muito humor o que é pesado torna-se leve, o que dá enfado torna-se agradável. O humor traz de volta o encanto e a beleza que os infortúnios da vida fizeram questão de sucumbir. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias do momento, não há nada que justifique a ausência de bom humor para contornar ou superar todas elas.

Um filósofo clássico que viveu por volta do séc IV a.C. expressou sua indignação pelo riso. O senso de humor é a marca registrada desse filósofo, pois admitia que o riso torna o homem sábio. Conta a tradição que ria de tudo e dava grandes gargalhadas, o que não diminuía em nada a importância de suas pesquisas filosóficas ao ponto de desafiar o próprio Platão.  Tenho a impressão de que Demócrito com o seu bom humor tenha nos levado à sabedoria, mas seus estudos da sensação nos levou à Aristóteles.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bacharel e Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
Páginas na net:

 

Etiquetado , , , ,

Deus disse: “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14)

Esta expressão atravessou as eras desde que saiu da boca de Deus e foi ao encontro de um homem que tinha uma missão quase impossível, a de libertar da escravidão o povo escolhido por Deus para ser sinal de uma verdadeira aliança entre Ele e os homens.

De lá para cá, em meio a obediências e desobediências, jamais Deus abandonou o seu povo, fazendo valer a sua fidelidade e a marca de sua presença maravilhosa em nosso meio, vindo a cumprir tudo que havia prometido numa única e exclusiva pessoa, seu Filho, Jesus Cristo.

Deus disse: Eu sou Aquele que É. Esta revelação foi interpretada pelos exegetas de duas formas: A primeira, num sentido causativo mesmo, quer dizer, eu sou a causa do ser, de tudo aquilo que existe, a origem de todas as coisas. A segunda forma é o sentido relativo que se apresenta assim: Eu Sou Aquele que está a favor do seu povo, aquele que está em relação ao seu povo. Este segundo sentido acentua mais o valor histórico da revelação do nome de Deus. Um Deus que se manifestava ali, na frente de Moisés, como um sinal vivo e presente de esperança. Um Deus que não só libertará seu povo, mas que suprirá todas as suas necessidades reais e presentes.

No Sinai, não se trata de uma Revelação Metafísica de Deus, como afirma a filosofia do ser. Ainda mais porque é uma especulação abstrata e estranha à mentalidade dos hebreus e dos povos semitas em geral. Por isso, Êxodo 3.14, nos seus dois sentidos não indica uma reflexão meramente filosófica, mas pura e simples autocomunicação de Deus. Deus se revela como presença incorruptível ao lado do homem, como uma realidade viva que não se desgasta, que não se consome. Essa é a potência da figura da sarsa ardente e de todas as circustâncias que envolve este importante episódio bíblico.

Quando Moisés se encontra com Deus no Monte Sinai uma certeza se abre no horizonte de dúvidas de Moisés: Há uma saída para o meu povo. Diante da missão que Deus lhe pede, Moisés externa a sua pequenez, sua incerteza e sua insegurança: “Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?”(Ex 3.11). Moisés não sabia disso, mas não importa quem seja ele, grande ou pequeno, rico ou pobre, poderoso ou fraco, o que de fato importa é que Moisés já tinha sido escolhido para ser sinal ali da presença maravilhosa e extraordinária de Deus. Deus tinha que usar alguém e usou a Moisés para ser seu servo e comprovar toda a sua obediência. Porque, segundo o texto, Deus é simplesmente assim e pronto: “Eu Sou o que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a Vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de Vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração”(Ex 3.14-15).

Com essas palavras, diria mais, com sua presença majestosa que preenche tudo, Deus exime todas as suspeitas de uma missão mal sucedida. Deus também afasta para bem longe as inúmeras espécies de dúvidas no coração de seu escohido, Moisés. Sendo assim, restará a Moisés obedecer e confiar em alguém que lhe pôs o Ser. Em alguém que não só lhe deu o ser, mas que se permitiu por em seu caminho. Veja bem, Deus saiu de si e permitiu-se entrar na vida dos homens! Isso é maravilhoso. Será preciso honrar tudo isso. Nas mãos de Moisés ferve a esperança de um povo e a mudança de uma história.

Parece ser muito complicado fazer filosofia de um texto dessa natureza, mas se tentarmos uma aproximação não pode ser somente pela via da especulação racional, mas da vida. Quem se aproximou um pouco dessa compreensão foi Tomás de Aquino, cuja Filosofia se desenvolveu na Alta Idade Média, séc. XII, XIII e XIV, beirando o Renascimento. Para Tomás, Deus é pura subsistência de ser, Deus é o ser por excelência. “Ipsum esse subsistens”. É uma afirmação por via puramente racional. Tomás não usa textos bíblicos para isso. Porém, o contexto histórico no qual Tomás vive é um contexto de comunidade cristã, é um contexto impregnado pela revelação cristã. Os argumentos de Tomás de Aquino não partem de uma razão abstrata, mas partem de uma vida. É a partir de uma vida que ele faz um aprofundamento em relação a Aristóteles. Isso é possível por causa de uma vida, pelo fato de viver num mundo dominado pela concepção da Revelação.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica, Especialista em Estudos Clássicos pela UNB/Archai/Unesco.


www.umasreflexoes.wordpress.com

www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,

Aletheia

coroa-de-espinhosExpressão que popularizou-se recentemente como denominação da 24ª etapa da Operação Lava-Jato deflagrada pela Polícia Federal, cujo alvo de investigação era o ex-Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sobre o qual pesam inúmeras suspeitas de tráfico de influência envolvendo a maior estatal brasileira, a Petrobras. Diferente dessa Operação, “Aletheia” é um termo para além de qualquer investigação judicial porque está preso ao seu sentido grego de verdade, não esquecimento, opondo-se à ideia de letargia, falta de recordação. “Recordar é viver”, já houve quem tenha dito.

Influenciados pelas reminiscências platônicas, revivemos, evocamos aqui um diálogo presente naquele contexto que envolve a morte de Jesus. Um diálogo entre Pilatos, o prefeito da Judeia, e Jesus, o filho de Deus. Vejam que distinguem-se nesse diálogo dois mundos. Dois mundos estão frente a frente, dois reinos estão “tête-à-tête”: a eternidade e a história, o sagrado e o profano, a salvação e o juízo.

Pilatos se vê na impossibilidade de Julgar um homem dos modos e da pertinência de Jesus, o Salvador, o filho de Deus:

“Então Pilatos saiu ao encontro deles e perguntou: ‘Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?’

‘Nós não o teríamos prendido se ele não fosse um criminoso!’, disseram eles.

‘Então levem o acusado para ser julgado por vocês mesmos, conforme a lei de vocês’, disse Pilatos.

‘Mas nós não temos o direito de executar ninguém’, disseram eles, ‘e é necessária a sua aprovação’.

Então Pilatos entrou novamente no Palácio e ordenou que trouxessem Jesus. ‘Você é o Rei dos Judeus?’, inquiriu.

Perguntou-lhe Jesus: ‘Essa pergunta é sua, ou os outros falaram a meu respeito?’

‘Acaso sou judeu’, respondeu Pilatos.

‘O seu próprio povo e os sacerdotes principais entregaram você a mim. Por quê? Que foi que você fez?’

Então Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus seguidores teriam lutado quando eu fui preso pelos líderes judeus. Mas o meu Reino não é daqui’.

Pilatos respondeu: ‘Então você é rei?’

‘O senhor está dizendo que sou rei’, disse Jesus. ‘Eu nasci para isso. Eu vim a este mundo para testemunhar da verdade. Todos os que estão do lado da verdade ouvem a minha voz’.

‘Que é a verdade?’ perguntou Pilatos. Depois ele saiu outra vez para onde o povo estava e disse: ‘Pelo meu exame, não há nada contra ele’”(Jo 18. 29-38).

Antes do desfecho dramático que culminará com o povo condenando Jesus, Pilatos, ao interrogá-lo, é conduzido a uma pergunta que ainda soa aos nossos ouvidos: “Que é a verdade?”. Filósofos, poetas, cientistas, teólogos,… continuam nos conduzindo a ela. É uma pergunta clássica, na medida em que voltamos a ela, pois tem sempre algo a nos dizer. Nunca para de nos surpreender, por isso clássica.

Aletheia, a verdade, talvez esteja no silêncio de Jesus, revelada em seu testemunho, em seus atos. Da tensão entre Jesus e Pilatos, um fato, uma evidência irrompeu, “nada contra ele”. Tal constatação não foi suficiente para livrá-lo da morte, visto que alguma coisa estava para ser cumprida, as Escrituras.

O curioso é que todo esse processo do julgamento de Jesus de nada adiantou, porque nada foi encontrado contra ele. Pilatos não conseguiu julgá-lo, esta é a verdade. Jesus sai ileso das investigações de Pilatos. Jesus põe a seus pés, faz sucumbir o mundo legal, jurídico e pretensioso. O que se sobrepõe é o amor, uma outra ordem, a ordem divina, essencial para a vida humana.

É sabido que recai sobre todos nós, hoje em dia, uma cultura secularizada, fragmentada e bastante relativa em seus valores, muito diferente daquela vivida por Jesus, mas ainda assim, em meio a tantas verdades, envoltos num mundo plural e globalizado, o testemunho de Jesus continua sendo a “Aletheia” possível para os que pensam diferente e querem já aqui viver o paradoxo da cruz, o amor, a redenção:

“Dar testemunho, aqui e agora, da verdade do Reino que não está aqui significa aceitar que o que queremos salvar nos julgue. E isso porque o mundo, na sua caducidade, não quer salvação, mas justiça. E a quer precisamente porque não pede para ser salvo. Enquanto não são salváveis, as criaturas julgam o eterno: esse é o paradoxo que, no fim, diante de Pilatos, tira a palavra de Jesus. Aqui está a cruz, aqui está a história”(AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: UFSC, 2014, p. 63).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

www.umasreflexoes.wordpress.com

www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , , ,
Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

Enseñanza de la filosofía

Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Clube Literário do Porto

Um lugar onde a Cultura acontece

Poesias, frases e textos

Melhores poesias, frases, crônicas, textos e música

Da Literatura

Um blog sobre livros e amor pela leitura

O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

ZÉducando

Educação, Tecnologia, Reflexão e Humor: combate ao "não-pensantismo" *

aultimaestrofe

Just another WordPress.com weblog

φρόνησις

"Filosofar é aprender a morrer". Montaigne

Luciano Ezequiel Kaminski

Textos sobre Filosofia e Sociologia

OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

Esta é a pagina e blog a da autora