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Cidadãos do céu…

Difícil tergiversar sobre tamanha cidadania já que muitos não a admitem. Se exercer uma cidadania terrena, da cidade mesmo, é um tanto quanto difícil, imagine então quando essa cidadania implica trazer para o mundo real as novidades eternas difundidas pelo Evangelho! Para tanto, requer de nossa parte uma intensa dedicação ao Reino de Deus, uma vez que o projeto de uma cidade dos céus estaria sendo relegado por muitos: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Apesar de uma realidade de rejeição ao exercício de uma cidadania celeste, o anúncio e o testemunho das palavras e dos atos do Senhor se fazem pertinentes por causa da escassez de um poder espiritual no mundo contingente. O mundo sente cada vez mais a ausência de Deus! Quanto mais os cidadãos do mundo, os cosmopolitas como diria Sócrates, rejeitam uma cidadania diferente, de um Reino dos céus, mais e mais se faz urgente a Palavra do Senhor que diz:“(…) o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho”(Mc 1. 15).

É muito próprio do cidadão comum cumprir suas obrigações, obedecer às leis, participar do governo de uma cidade, como também exigir a garantia de seus direitos à Educação, à Saúde, à Liberdade, de modo que venha a sentir-se incluído no meio social de crescimento e realização pessoal, mas nada disso lhe garante a salvação. Do contrário, há de se perceber uma insaciável busca do cidadão por valores imperecíveis, eternos, isto é, embora tenha um exercício de cidadania razoável para viver, o cidadão em algum momento é capaz de se dar conta da sua insatisfação, onde a procura pela verdadeira vida, por milagres e sinais dos céus são muito latentes. Lembrem-se da pergunta dramática do jovem rico: “Senhor, que devo fazer para alcançar a vida eterna?”(Cf. Mt 19.16-22)

Enquanto Jesus veio para os seus, mas os seus não o conheceram, conforme está dito logo no início do Evangelho de João, viraram-lhe as costas, o mataram, o eliminaram, porém não foram muito longe, não conseguiram viver baseados apenas nas forças deste mundo porque viram que todas as coisas passam, os reinos passam, a soberania e a soberba temporais passam, as perseguições e injustiças também passam, mas as palavras do Senhor não passam e permanecem ecoando aos ouvidos dos cidadãos do mundo. Viram ainda que estavam errados quanto aos feitos maravilhosos do Senhor direcionados para a salvação da humanidade. A intenção de Jesus, obediente ao Pai, era impregnar nos corações humanos a realização de todas as promessas eternas, de felicidade e bonança tais que o mundo inteiro não podia conter. Sedentos de paz definitiva, de amor verdadeiro, de alegrias eternas, de comunhão com os céus, os cidadãos do mundo preferiram aceitar a morte à vida.

A verdade é dura, mas é verdade. Permitam o trocadilho. Não somos deste mundo, apenas passamos por ele. Somos peregrinos por aqui. Na verdade, somos passantes, migrando por aqui e por ali, sem pátria, mais nômades do que nunca, forasteiros, pois nossa terra é o céu, nossa pátria é o céu. O mundo não nos pertence, tampouco pertencemos a ele. Ora, se aqui, apesar de  tudo, é tão bom, como não será o céu! Se os frutos da terra são tão bons, como não serão os galardões do céu! Os frutos do Espírito são: “o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o domínio próprio” (Gálatas 5.22).

Nossa cidadania comum está muito aquém da cidadania celestial, pois o reino celestial não é como os reinos deste mundo, ser cidadão do mundo não é o mesmo que ser cidadão do céu. Ser cidadão do céu implica estar submetido ao governo de Deus que está em nosso coração e em nossa consciência, norteando nossa vida. Agora, antes de receber o título de cidadão do céu, é necessário reconhecer-se pecador, aceitar o Senhor como seu salvador, e sobretudo, renascer pela água e pelo espírito, mudar de vida pela Palavra de Deus, ouvindo a voz de Deus: “A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus…Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3,5). “Tendo purificado a vossa alma pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Ped 1.22-23).

Portanto, é fato. Não somos daqui. Como transeuntes pelo mundo, mais nos damos conta de que marchamos para os céus, haja vista que esta vida não se basta nela mesma, mas se completa com a vida eterna. “(…)Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos; Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. (…)Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido”(1Cor 13. 9-12). Atribui-se a Sócrates o dito de que “Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo“. Completaríamos o legado oral assim: “Não sou nem ateniense, nem grego, nem cidadão do mundo, mas sim um cidadão do céu”.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Senso de humor

O senso de humor é uma das qualidades mais admiradas numa pessoa, desde que seja natural e sincero, autêntico, como uma marca registrada talvez. Tudo se transfigura quando existe alguém bem-humorado no ambiente. O bom humor e uma brincadeira agradável são suficientes para quebrar o gelo de um ambiente frio e sem graça. A pessoa bem-humorada é uma força da natureza que entretém e irradia de alegria quem quer que seja, onde esteja. Não se trata de estar rindo à toa fingindo simpatia ou fazendo a política da boa vizinhança, mas viver naturalmente essa experiência de humor, de modo que seja uma sinergia entre você e todos à sua volta. Quando isso acontece, sua presença enche de luz todo o ambiente e contagia a todos. E a verdade seja dita: É insuportável tolerar um ambiente sem humor, sem graça, sem risos e boas gargalhadas, sem vida. Dizendo isso, como não lembrar do pensamento de Charles Chaplin: “Um dia sem riso é um dia perdido”. Não foi essa incrível sensação de humor que contagiou o Apóstolo Paulo na Prisão?! O Apóstolo, em meio a um caldeirão de adversidade por que passava, fruto da terrível perseguição que o Império Romano impôs aos cristãos, agradece a Deus pela diversão e recreação que recebeu de Onesíforo na prisão: “O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes me recreou e não se envergonhou das minhas cadeias”(2Tm 1.16).

Vejam a realidade: a indignação pelo clima de impunidade que se espalha na política brasileira; a indisposição de grande parte dos políticos, senão todos, em fazer valer a justiça social e coletiva; os ambientes públicos carregados de injustiças, perseguições políticas e corrupção; relações pessoais que não se acertam; casamentos cheios de problemas que se arrastam sem diálogo; amizades frias com inúmeros interesses; empregos rígidos e burocráticos; lideranças cansadas; chefes chatos; problemas econômicos; dívidas; problemas de saúde; a rotina; baixos salários; desemprego… O que seria de nós sem um pouco de humor? Vinícius de Morais, numa de suas canções, nos diz afirmativamente: “Ponha um pouco de humor na sua vida!”. E continua: “É melhor ser alegre que ser triste. A alegria é a melhor coisa que existe”. O bom humor é uma das saídas sábias da vida, além do que acrescenta leveza em vez de rigidez; alegria em vez de seriedade demais; graça em vez de ignorância; paz em vez de truculência.

Nada melhor do que uma boa dosagem de humor em nosso dia a dia. Fico pensando o que seria de nós sem uma pitada de bom humor no trabalho, em casa ou até mesmo entre os amigos. Estaríamos todos fadados à burocracia da vida. Sim, a vida também, assim como o trabalho, pode ser levada com muita burocracia, chegando a ser insuportável às vezes, mas com muito humor o que é pesado torna-se leve, o que dá enfado torna-se agradável. O humor traz de volta o encanto e a beleza que os infortúnios da vida fizeram questão de sucumbir. Por mais difíceis que sejam as circunstâncias do momento, não há nada que justifique a ausência de bom humor para contornar ou superar todas elas.

Um filósofo clássico que viveu por volta do séc IV a.C. expressou sua indignação pelo riso. O senso de humor é a marca registrada desse filósofo, pois admitia que o riso torna o homem sábio. Conta a tradição que ria de tudo e dava grandes gargalhadas, o que não diminuía em nada a importância de suas pesquisas filosóficas ao ponto de desafiar o próprio Platão.  Tenho a impressão de que Demócrito com o seu bom humor tenha nos levado à sabedoria, mas seus estudos da sensação nos levou à Aristóteles.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Bacharel e Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Deus disse: “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14)

Esta expressão atravessou as eras desde que saiu da boca de Deus e foi ao encontro de um homem que tinha uma missão quase impossível, a de libertar da escravidão o povo escolhido por Deus para ser sinal de uma verdadeira aliança entre Ele e os homens.

De lá para cá, em meio a obediências e desobediências, jamais Deus abandonou o seu povo, fazendo valer a sua fidelidade e a marca de sua presença maravilhosa em nosso meio, vindo a cumprir tudo que havia prometido numa única e exclusiva pessoa, seu Filho, Jesus Cristo.

Deus disse: Eu sou Aquele que É. Esta revelação foi interpretada pelos exegetas de duas formas: A primeira, num sentido causativo mesmo, quer dizer, eu sou a causa do ser, de tudo aquilo que existe, a origem de todas as coisas. A segunda forma é o sentido relativo que se apresenta assim: Eu Sou Aquele que está a favor do seu povo, aquele que está em relação ao seu povo. Este segundo sentido acentua mais o valor histórico da revelação do nome de Deus. Um Deus que se manifestava ali, na frente de Moisés, como um sinal vivo e presente de esperança. Um Deus que não só libertará seu povo, mas que suprirá todas as suas necessidades reais e presentes.

No Sinai, não se trata de uma Revelação Metafísica de Deus, como afirma a filosofia do ser. Ainda mais porque é uma especulação abstrata e estranha à mentalidade dos hebreus e dos povos semitas em geral. Por isso, Êxodo 3.14, nos seus dois sentidos não indica uma reflexão meramente filosófica, mas pura e simples autocomunicação de Deus. Deus se revela como presença incorruptível ao lado do homem, como uma realidade viva que não se desgasta, que não se consome. Essa é a potência da figura da sarsa ardente e de todas as circustâncias que envolve este importante episódio bíblico.

Quando Moisés se encontra com Deus no Monte Sinai uma certeza se abre no horizonte de dúvidas de Moisés: Há uma saída para o meu povo. Diante da missão que Deus lhe pede, Moisés externa a sua pequenez, sua incerteza e sua insegurança: “Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?”(Ex 3.11). Moisés não sabia disso, mas não importa quem seja ele, grande ou pequeno, rico ou pobre, poderoso ou fraco, o que de fato importa é que Moisés já tinha sido escolhido para ser sinal ali da presença maravilhosa e extraordinária de Deus. Deus tinha que usar alguém e usou a Moisés para ser seu servo e comprovar toda a sua obediência. Porque, segundo o texto, Deus é simplesmente assim e pronto: “Eu Sou o que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a Vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de Vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração”(Ex 3.14-15).

Com essas palavras, diria mais, com sua presença majestosa que preenche tudo, Deus exime todas as suspeitas de uma missão mal sucedida. Deus também afasta para bem longe as inúmeras espécies de dúvidas no coração de seu escohido, Moisés. Sendo assim, restará a Moisés obedecer e confiar em alguém que lhe pôs o Ser. Em alguém que não só lhe deu o ser, mas que se permitiu por em seu caminho. Veja bem, Deus saiu de si e permitiu-se entrar na vida dos homens! Isso é maravilhoso. Será preciso honrar tudo isso. Nas mãos de Moisés ferve a esperança de um povo e a mudança de uma história.

Parece ser muito complicado fazer filosofia de um texto dessa natureza, mas se tentarmos uma aproximação não pode ser somente pela via da especulação racional, mas da vida. Quem se aproximou um pouco dessa compreensão foi Tomás de Aquino, cuja Filosofia se desenvolveu na Alta Idade Média, séc. XII, XIII e XIV, beirando o Renascimento. Para Tomás, Deus é pura subsistência de ser, Deus é o ser por excelência. “Ipsum esse subsistens”. É uma afirmação por via puramente racional. Tomás não usa textos bíblicos para isso. Porém, o contexto histórico no qual Tomás vive é um contexto de comunidade cristã, é um contexto impregnado pela revelação cristã. Os argumentos de Tomás de Aquino não partem de uma razão abstrata, mas partem de uma vida. É a partir de uma vida que ele faz um aprofundamento em relação a Aristóteles. Isso é possível por causa de uma vida, pelo fato de viver num mundo dominado pela concepção da Revelação.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica, Especialista em Estudos Clássicos pela UNB/Archai/Unesco.


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Vida social como aprendizado

É curioso, mas ainda não aprendemos a viver em sociedade, sobretudo quando nem sequer somos capazes de admitir que outros pensam como nós ou pensaram o que nós já pensamos. A pompa de ineditismo até nos pensamentos pode nos levar ao triste e destrutivo isolamento. Começar a reconhecer que até nossos pensamentos precisam ser compartilhados é o início de uma convivência social necessária para os tempos de hoje.

Além disso, ninguém chega a lugar nenhum sozinho. Os nossos primeiros passos em solo firme foram dados com a ajuda indispensável de outros. As primeiras colheradas de comida foram dadas com a ajuda dos outros. As primeiras mudanças de roupas não foram feitas por mim, mas por outras pessoas que conviviam comigo. Tudo parece fazer parte de uma dimensão social que mexe conosco. Mexe mesmo!

Ora, quantas vezes não nos sentimos incomodados quando vemos outras pessoas terem os mesmos sonhos que nós! Quantos desejos não são comuns por aí, esbarrando uns nos outros! Imagine os pensamentos. Inúmeros, infinitos pensamentos se chocam, talvez, todos os dias. É intrigante, mas, de quando em vez, acabamos por encontrar gente simples como nós com os mesmos ideais, com os mesmos objetivos. Todavia, é aqui onde se desenha a dificuldade de se viver socialmente ou até politicamente. Brigas e desavenças ocorrem justamente por isso. André Comte-Sponville cita algo parecido com isso em sua obra, que agora também é nossa, A Vida Humana: “Somos seres de desejo, e nossos desejos nos opõem. Porque são diferentes? Às vezes. Mais frequentemente porque são idênticos ou convergentes. Vejam Hobbes, Espinosa, Pascal… Se dois homens desejam a mesma coisa – o mesmo campo, o mesmo poder, a mesma mulher… – , como poderiam não se tornar rivais ou inimigos? Se ‘o desejo é a própria essência do homem’, como dizia Espinosa, o conflito é a própria essência da sociedade”(pág. 67).

Somos mesquinhos, invejosos, orgulhosos com as coisas, avalie então com as pessoas, com as ideias, os pensamentos, os desejos. Ah, essa ideia é minha, não é sua. Esse projeto é meu, não é seu. Essa obra é minha, jamais foi sua. E tome aborrecimentos pra lá e pra cá, brigas e violência. No entanto, para evitarmos toda essa confusão social, preferimos defender publicamente algo que não existe porque, só assim, ninguém entrará em conflito conosco. Fugimos dos conflitos para viver numa falsa paz, isto é, alterando a “Insociável sociabilidade” no dizer de Kant pela “Sociável sociabilidade” no dizer de muitos ingênuos da política.

E quando tudo parece estar bem, quando na verdade não está, surgem problemas ainda maiores do que os conflitos tão próprios à vida política e social na qual estamos metidos. Nos esquecemos ou, ao menos fingimos ter esquecido que precisamos dividir a mesma “ágora”, a praça, o mesmo espaço público, a mesma cidade, as mesmas vias, os mesmos caminhos. Para isso, é imprescindível um enfrentamento, um choque, muitas vezes ideológico, entre as pessoas que circulam e reivindicam seus direitos. Felizmente ou não, esse é o preço da liberdade nas democracias. Esse é o quinhão da paz em qualquer sociedade.

Temos que insistir em aprender a viver mais em sociedade. Que os escândalos de corrupção não nos afaste da sociedade. Que os radicalismos e extremismos políticos não nos afastem das pessoas. Que a burocracia não nos vença pelo cansaço. Que ilegalidade no Brasil não cegue de uma vez por todas as nossas ambições por justiça. Que nada nos impeça de sonhar! A sociedade tem um espírito incrivelmente comunitário de partilha de interesses, de sonhos e de valores. Essas coisas precisam se abrir à comunidade humana que pulsa crescimento e desenvolvimento. Ninguém nasceu para se atrofiar na solidão. Ninguém vive só. Ninguém age só. Ninguém cresce sozinho. Vamos crescer juntos! Esse, talvez, seja o grande aprendizado da sociedade.

Para terminar, não poderia me privar de citar mais uma vez Comte-Sponville em A Vida Humana: “Privar-se da felicidade da união sagrada, como dizia Alain, não é renunciar aos prazeres da festa, nem às exigências da justiça, nem às necessidades da ação. Renunciar à Grande Noite não é renunciar ao progresso ou à solidariedade. Romper com as utopias não é romper com a política. Desconfiemos dos revolucionários entusiastas demais. Mas, ainda mais talvez, dos conservadores desiludidos de tudo, que gostariam de nos fazer desistir de avançar”(pág. 71).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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A fascinação do estrangeiro

(obra de arte de Salvador Dalí – Metamorfose de Narciso – 1937)

Pasmem. Mas o estrangeiro acrescenta e muito ao nosso “território” cultural, ao nosso eu cultural. Acrescenta em diálogo, em conhecimento e em aprendizagem. Sem muito esforço, conseguimos, logo de cara, perceber que se trata de alguém bastante diferente de nós.

Nesse ponto, não há como não evocar e provocar Lévinas, filósofo lituano, que nos diz algo mais ou menos assim: “Com o estrangeiro nos permitimos sair do mesmo em direção ao outro”. Se no pensamento de Lévinas é sempre o outro quem tem autonomia, o que dizer então do estrangeiro?!

Na cultura greco-romana, o estrangeiro era, de certo modo, repudiado, visto como inimigo, pronto para guerrear, sua presença era uma ameaça ao poder estabelecido naquele território. O império romano não tolerava os bárbaros, os excluía e os ameaçava a qualquer custo. Os bárbaros não representavam nada para os que detinham a hegemonia cultural. No entanto, cabe a pergunta: O que representava o Império Romano para os bárbaros?

Seguindo uma direção contrária à expansão dominadora e usurpadora do Império Romano, os cristãos são orientados por Jesus a amar o estrangeiro, bem como a viúva e o órfão, de modo a colocá-lo no centro do seu discurso, no episódio da cura dos dez leprosos: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”(Lc 17.18-19).

Mesmo sendo de outro mundo, falando uma língua diferente, de aparência, às vezes, diferente, de costumes diferentes, de uma visão de mundo estranhamente contrária à nossa, o estrangeiro cria uma atmosfera inteiramente curiosa nos ambientes onde chega e com quem conversa. Quem não lembra da chegada avassaladora do Estrangeiro de Eléia no diálogo platônico Sofista em que Sócrates parece ironizar com ele ao sentir-se bem à vontade no meio deles?! A impressão que se tem é que o Estrangeiro causa um certo “frisson” ao chegar no meio da conversa de Sócrates com seus discípulos. Sem ser um deles, o estrangeiro se faz um deles!

Não sei se essa sensação hoje em dia estaria um pouco minimizada devido ao grande processo de globalização por que passamos. Vivemos tempos de uma enorme aproximação dos mundos, das distâncias e etc. No entanto, não queremos abandonar nossos territórios, nossas coisas, nossas ideias, nossos apegos… Apegamo-nos a nós mesmos. Apegamo-nos muitíssimo às nossas vaidades pessoais. A verdade é que, enquanto nos prendemos a nós mesmos e aos nossos hábitos ao ponto de divinizá-los; um outro ser fascinante chama e continua a chamar por nós pedindo relacionamento, querendo aproximação e descoberta.

Ao revisitar um livro que guarda Grandes Indagações Filosóficas, Café Philo, deparei-me mais uma vez com o texto dialógico entre Paul Ricoeur e Jean Daniel sobre A estranheza do estrangeiro que me impressionou bastante, sobretudo porque trata o estrangeiro com fascinação, mas que poderia ser visto também com aversão. Aproprio-me aqui de um aspecto da sua fascinação, em que o estrangeiro, admite Paul Ricoeur, “é uma espécie de lugar vazio. Sabemos a que pertencemos, mas não sabemos quem são os outros em suas terras. Só por uma espécie de reação é que nos sentimos nós mesmos estrangeiros, conforme o modelo da estranheza do estrangeiro. A consciência disso é que nos põe num caminho de reconhecimento mútuo, na via da hospitalidade em suas dimensões morais e políticas, e permite assim tratar positivamente a pluralidade humana como algo insuperável”(pág. 13).

Mais adiante, numa certa altura das intervenções, Ricoeur reconhece ainda mais nossa condição humana de sermos estrangeiros de nós mesmos. “Acreditamos saber quem somos, ou mais exatamente acreditamos saber a que pertencemos, ali onde estamos instalados: a uma classe, a uma família, a uma nação etc. O estrangeiro é um desconhecido. Ao procurarmos num dicionário a palavra ‘estrangeiro’, encontramos: aquele que não é de nosso lugar, que é de outra nação, que é de outro país; é, pois, um lugar vazio. É por isso que acho que devemos começar por descobrir nossa própria estranheza nos ‘desinstalando’ de algum modo. Eu estava pensando um pouco na proposição do Levítico: ‘Fostes estrangeiros no Egito…’ Se não tivermos sido estrangeiros alhures, temos que descobrir nosso Egito. Nossa ‘estrangeireza’ simbólica. Ser estrangeiro simbolicamente”(pág. 16).

Reconhecer o estrangeiro na sua singularidade especial, como o fez Jesus, o próprio Lévinas, bem como Paul Ricoeur e Jean Daniel, significa superar a nós mesmos, partir de nosso “status quo”, de nossa zona de conforto e ir migrar, senão visitar ou até mesmo morar em outros mundos, em outras pessoas, em outras experiências. Que se trave, portanto, uma relação amistosa de hospitalidade com o outro, em que ambos se recebam mutuamente, de modo que nada os impeça de ampliar ainda mais suas diferenças culturais.


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Serenidade

Antes mesmo de encerrar algumas linhas sob o aspecto da serenidade, é importante ressaltar que desde Epicuro até Heidegger, o grande sábio é aquele que atinge a serenidade, a paz.

No correr desses dias, de altos assuntos tecnológicos, principalmente pela morte recente de Steve Jobs, acionista majoritário da “apple”, um gênio da informática e idealista do “imac”, do “iphone” e do “ipad”, insurge-se em torno de nós uma preocupação extrema com as próximas novidades tecnológicas, uma vez que Steve era obcecado pelo novo, pelas mudanças. A pergunta que não quer calar vem à tona: O que virá agora? Muitos jovens, adolescentes e até adultos, bem como uma parte considerável da população mundial, certamente, está se perguntando agora. O que virá depois da morte de Steve Jobs? Mas, pergunto-me, o que tem a ver a serenidade com tudo isso? Ah! Veremos.

Com tantos achados tecnológicos e a incrível emancipação humana frente à ciência, será possível ainda que o mundo venha a se perguntar por novidades tecnológicas? É… Não estamos satisfeitos! Quanto mais entramos e nos infiltramos no interior das máquinas de ponta do mundo contemporâneo, mais e mais nos sentimos seduzidos por elas. Quem seduz quem? É a inversão(confusão) do sistema capitalista. Nos relacionamos muito mais com os nossos notbooks, iphones e ipads; do que com os nossos irmãos, pais e amigos. Isso produz, compulsivamente, sujeitos de desejos que se atraem por novas e cada vez mais novíssimas máquinas com designers diferentes. As pessoas não se contêm e correm avassaladoramente para as incríveis, não menos tentadoras, invenções tecnológicas.

Dessa forma, dificilmente conseguimos pensar. A esfera tecnológica, repleta de entretenimentos, nos faz suspender o pensamento, ou pelo menos, pensar de outro modo. Porém, se sentimos falta da reflexão, do pensamento, do verdadeiro pensar, é porque precisamos repensar a serenidade. Coisa parecida escreve Heidegger: “Há dois tipos de pensar, cada um dos quais é, por sua vez e a sua maneira, justificado e necessário: o pensar calculador (rechenende Denken) e a reflexão meditativa (besinnliche Nachdenken). É a esta última a que nos referimos quando dizemos que o homem de hoje foge ante o pensar”(Cf. M. Heidegger,Serenidade, trad. M.M. Andrade e O. Santos, Lisboa, Ed.Instituto Piaget, 1959, p.13-13).

Aí está o caminho da reflexão. Nessa direção se dá o anúncio dessa estranha tendência filosófica que supõe a Serenidade no dizer de Heidegger:“Podemos utilizar os objetos técnicos tal como eles têm de ser utilizados. Mas podemos, simultaneamente, deixar esses objetos descansar em si mesmos, como algo que não interessa àquilo que temos de mais íntimo e de mais próprio. Podemos dizer sim à utilização inevitável dos objetos técnicos e podemos ao mesmo tempo dizer não impedindo que nos absorvam e, desse modo, verguem, confundam e, por fim, esgotem a nossa natureza (…) Deixemos os objetos técnicos entrar em nosso mundo cotidiano e ao mesmo tempo deixemo-los repousar em si mesmos como coisas que não são algo de absoluto, mas que dependem elas próprias de algo superior”(idem, p. 22-23s).

Heidegger viveu numa época de deslumbramento da técnica, ao ponto de reivindicar uma melhor relação da ciência com a filosofia. Aliás, dificilmente se fazia filosofia sem ciência. Nietzsche, Heidegger e outros foram o grande contraponto desse momento. Mesmo assim, a ciência insistia em se impor. Os dias de Heidegger não eram tão diferentes dos nossos. O início do séc. XX provou ser o alvorecer dos encantos e desencantos da ciência: Criação e testes da bomba atômica, criação de armas químicas, guerras, fome no mundo, doenças… Um século que se mostrou contraditório e por demais desumano que viu morrer 6 milhões, senão mais, de judeus e outras inúmeras pessoas, submissas ao ódio de um tirano no poder. Tempos horríveis que despertaram no humano uma tremenda sede de paz, de serenidade. Fomos marcados, injustificavelmente, por duas grandes guerras mundiais com consequências terríveis de destruição em massa.

Os tempos são outros, mas com algumas semelhanças. Como se não bastasse, já somos herdeiros de uma ideologia norte-americana que tem ódio do terror do Oriente Médio. Vimos o assustador 11 de setembro de 2001. Não obstante, há um certo maravilhamento comparado à época de Heidegger, em que se vislumbram inovações tecnológicas capazes de nos deixar perplexos pelo conforto, pela praticidade, pela mobilidade e, mais que isso, pelo entretenimento oferecido aos usuários das inventividades de Steve Jobs. Este é o mundo de Bill Gates, Steve Jobs e de outros mais. Querendo ou não, este é o nosso mundo!

Todavia, não é deste mundo que vem a nossa paz, tal como afirma a Sagrada Escritura: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá”(Jo 14.27). Somente com a experiência da serenidade é que podemos dizer sim ou não a este mundo, pois a serenidade ou o estado sereno diante da vida ou das coisas nos permite ascender a um outro estágio de mistério e contemplação que é a sabedoria segundo Heidegger. Na linha da natureza e da vida sem ascendê-las, Epicuro nos assegura que a serenidade é uma espécie de imperturbabilidade da alma que culmina numa vida boa, não numa boa vida, chamando a isso também de vida sábia. Portanto, serenidade é sim sabedoria.


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Aletheia

coroa-de-espinhosExpressão que popularizou-se recentemente como denominação da 24ª etapa da Operação Lava-Jato deflagrada pela Polícia Federal, cujo alvo de investigação era o ex-Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sobre o qual pesam inúmeras suspeitas de tráfico de influência envolvendo a maior estatal brasileira, a Petrobras. Diferente dessa Operação, “Aletheia” é um termo para além de qualquer investigação judicial porque está preso ao seu sentido grego de verdade, não esquecimento, opondo-se à ideia de letargia, falta de recordação. “Recordar é viver”, já houve quem tenha dito.

Influenciados pelas reminiscências platônicas, revivemos, evocamos aqui um diálogo presente naquele contexto que envolve a morte de Jesus. Um diálogo entre Pilatos, o prefeito da Judeia, e Jesus, o filho de Deus. Vejam que distinguem-se nesse diálogo dois mundos. Dois mundos estão frente a frente, dois reinos estão “tête-à-tête”: a eternidade e a história, o sagrado e o profano, a salvação e o juízo.

Pilatos se vê na impossibilidade de Julgar um homem dos modos e da pertinência de Jesus, o Salvador, o filho de Deus:

“Então Pilatos saiu ao encontro deles e perguntou: ‘Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?’

‘Nós não o teríamos prendido se ele não fosse um criminoso!’, disseram eles.

‘Então levem o acusado para ser julgado por vocês mesmos, conforme a lei de vocês’, disse Pilatos.

‘Mas nós não temos o direito de executar ninguém’, disseram eles, ‘e é necessária a sua aprovação’.

Então Pilatos entrou novamente no Palácio e ordenou que trouxessem Jesus. ‘Você é o Rei dos Judeus?’, inquiriu.

Perguntou-lhe Jesus: ‘Essa pergunta é sua, ou os outros falaram a meu respeito?’

‘Acaso sou judeu’, respondeu Pilatos.

‘O seu próprio povo e os sacerdotes principais entregaram você a mim. Por quê? Que foi que você fez?’

Então Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus seguidores teriam lutado quando eu fui preso pelos líderes judeus. Mas o meu Reino não é daqui’.

Pilatos respondeu: ‘Então você é rei?’

‘O senhor está dizendo que sou rei’, disse Jesus. ‘Eu nasci para isso. Eu vim a este mundo para testemunhar da verdade. Todos os que estão do lado da verdade ouvem a minha voz’.

‘Que é a verdade?’ perguntou Pilatos. Depois ele saiu outra vez para onde o povo estava e disse: ‘Pelo meu exame, não há nada contra ele’”(Jo 18. 29-38).

Antes do desfecho dramático que culminará com o povo condenando Jesus, Pilatos, ao interrogá-lo, é conduzido a uma pergunta que ainda soa aos nossos ouvidos: “Que é a verdade?”. Filósofos, poetas, cientistas, teólogos,… continuam nos conduzindo a ela. É uma pergunta clássica, na medida em que voltamos a ela, pois tem sempre algo a nos dizer. Nunca para de nos surpreender, por isso clássica.

Aletheia, a verdade, talvez esteja no silêncio de Jesus, revelada em seu testemunho, em seus atos. Da tensão entre Jesus e Pilatos, um fato, uma evidência irrompeu, “nada contra ele”. Tal constatação não foi suficiente para livrá-lo da morte, visto que alguma coisa estava para ser cumprida, as Escrituras.

O curioso é que todo esse processo do julgamento de Jesus de nada adiantou, porque nada foi encontrado contra ele. Pilatos não conseguiu julgá-lo, esta é a verdade. Jesus sai ileso das investigações de Pilatos. Jesus põe a seus pés, faz sucumbir o mundo legal, jurídico e pretensioso. O que se sobrepõe é o amor, uma outra ordem, a ordem divina, essencial para a vida humana.

É sabido que recai sobre todos nós, hoje em dia, uma cultura secularizada, fragmentada e bastante relativa em seus valores, muito diferente daquela vivida por Jesus, mas ainda assim, em meio a tantas verdades, envoltos num mundo plural e globalizado, o testemunho de Jesus continua sendo a “Aletheia” possível para os que pensam diferente e querem já aqui viver o paradoxo da cruz, o amor, a redenção:

“Dar testemunho, aqui e agora, da verdade do Reino que não está aqui significa aceitar que o que queremos salvar nos julgue. E isso porque o mundo, na sua caducidade, não quer salvação, mas justiça. E a quer precisamente porque não pede para ser salvo. Enquanto não são salváveis, as criaturas julgam o eterno: esse é o paradoxo que, no fim, diante de Pilatos, tira a palavra de Jesus. Aqui está a cruz, aqui está a história”(AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: UFSC, 2014, p. 63).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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#A leitura exigente e suas quatro perguntas fundamentais – Como Ler Livros – Part. III

Vida de estudo

É preciso ler para crescer em mente e em espírito. Não se pode perder muito tempo com leituras bobas. Com essa reflexão, iniciamos mais um artigo da série Como Ler Livros, inspirada na obra How to Read a Book, do humanista norte-americano Mortimer Adler.

Já descobrimos nas últimas duas postagens (#Part.I e #Part.II) que é preciso ler da forma mais ativa possível.

Hoje, vamos abordar a essência de leitura exigente que se edifica a partir de quatro perguntas básicas.

Antes de ir a elas, tenhamos em mente que há uma prescrição principal para qualquer leitura que se pretende ser ativa: Faça sempre perguntas enquanto se lê. São questões que nós mesmos devemos tentar responder no decorrer da leitura.

As quatro questões básicas

1. O livro fala sobre o quê?

Devemos desvendar o tema, perceber o desenvolvimento, os subtemas e os tópicos do livro.

2. O que exatamente está sendo dito…

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Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

Enseñanza de la filosofía

Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

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OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

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