Arquivo da categoria: Política

O politicamente correto

(foto: cena do filme “Intrigas de estado” – State of play, 2009- , de Kevin MacDonald, …)

Há quem diga que não se sente à vontade agindo assim; tendo que frear as emoções; abraçar quem não gosta; conviver com quem é intragável; tratar bem os inimigos; superar com sorrisos as antipatias; cumprimentar o vizinho que não suporta falar com você… E por aí vai. São inúmeras as circunstâncias de dissabores que nos arrematam para a famosa ideia do politicamente correto, bastante difícil de engolir e de aceitar.

As pessoas politicamente corretas, na maior parte das vezes, são absolutamente extremas e escrupulosas, fugindo, de quando em vez, das dosagens naturais de respeito e educação. Não é tão forçoso pedir um pouco mais de educação a um sujeito, mesmo que não concorde ou não aceite determinada opinião. Lembro-me de uma entrevista de Dodô, jogador do fluminense na época, que estava no banco de reservas imerecidamente. Ao ser perguntado pelo jornalista se ele concordava com a atitude de Renato Gaúcho, então treinador do fluminense, em deixá-lo no banco de reservas já que vinha de uma sequência de boas atuações pelo time, goleador, fazia a diferença, mas era sempre colocado no banco como uma segunda opção para os minutos finais da partida. Quanto a isso, Dodô afirmou de modo contundente: “Não concordo com a opinião do treinador, mesmo assim tenho que respeitá-lo e conviver bem com ele, afinal ele é o treinador e não eu, não vou sair do time por causa disso”. O fato de uma pessoa não concordar com alguém não quer dizer que ela tenha que ofendê-lo ou brigar com ele, mas o mínimo que se pede para um bom profissional é educação e modos amistosos de tratamento sociável, pois, do contrário, seria impossível conviver uns com os outros num ambiente de trabalho ou até mesmo numa vida em comunidade.

Em nossas relações temos que encontrar sempre uma porta aberta à generosidade, mesmo contra toda indiferença e toda ignorância. Afinal de contas, não custa nada uma pitada de humor para abrir esta porta ao outro. O humor, nesse caso, ajuda muito. Seriedade demais engessa as relações e acaba atrapalhando. É preciso muita leveza para não nos intrigarmos com o mundo todo, o que não é nada agradável. A intriga fecha portas; a amizade abre portas… A intriga só é interessante no campo das ideias, o que não tem nada a ver com isso que estamos falando agora. A intriga das ideias mexe com a curiosidade e a pesquisa. Esta, sim, é bem-vinda. Àquela das relações, não. Não edifica em nada, não constrói, não torna as relações entre as pessoas tão humanas quanto fidalgas.

Temos que ultrapassar a barreira do politicamente correto com a leveza dos gestos de gratidão e de amor. Apesar de termos nossas restrições com outras pessoas, nada nos impede de convivermos bem com elas. Todos temos nossas limitações. Eu sou assim e acabou. Sou diferente; o politicamente correto uniformiza. Nada de ficar se escondendo no politicamente correto com expressões do tipo: “Ah, cara, sua cor afrodescendente é bacana”; “Desculpe, não tomo refrigerante, estou fazendo dieta”, e etc. Palavras como “negro” e “gordo” foram omitidas do vocabulário do politicamente correto. Pensar assim é muito complicado, uma vez que há um sério risco de perdermos a identidade e de não contribuirmos para a formação de nossa personalidade. Acabamos por deixar de nos conhecer para conhecer o politicamente correto. Que coisa!

Diria mais, mesmo com aquelas pessoas super-avessas a nós, até mesmo inabordáveis, que não falam conosco, mesmo assim é preciso exercitar nossa fidalguia, nossa destreza nos bons modos. Nada de ofender, tampouco agredir as pessoas, simplesmente porque não gostamos delas. Afinal, ninguém é perfeito e nem será.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

http://www.twitter.com/filoflorania

 


 

Etiquetado , , ,

Uma escola mangue

O texto Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação” se apropria de uema bela imagem, a imagem do Mangue, utilizado aqui pelo autor Daniel Lins para nos mostrar a riqueza do pensamento rizomático de Deleuze atrelado a uma pedagogia.

Na vida acadêmica ou na vida de um professor é muito salutar quando se alcança o estágio maduro do magistério e, desaprendendo a falar academicamente uma linguagem técnica, aprende-se a falar por meio de imagens. As imagens vêm mais facilmente à cabeça e são deliciosas, pois, quando se usa uma imagem que fala mais do que o texto, percebe-se “a diferenciação, a contemplação vibrátil, sem determinação, mergulhada numa visão que inventa a visão do que é visto sem pontos de referência nem muletas”. (Lins, 2005, p.10). Eis a imagem:

“- Seu Pedro, onde começa o mangue?

– Professor! Olhe o mangue! Não tem nem começo, nem fim: O mangue só tem meio!”

(Diálogo com um velho pescador, na Ilha do Pinto, em Fortim, Ceará, abril de 2004, in Lins, 2005, p. 10)

Assim deve ser uma escola, sem princípio e sem fim, mas com meio, inteiramente inserida na vivência do mundo e mergulhada no aqui e agora das situações existenciais. Uma escola que simboliza um “imenso manguezal” a se espraiar “no entrelaçamento de proteínas, calorias, gazes, lama, gozos, prazeres, detritos e… ouro”(Lins, 2005, p.10). O seu ouro é a diferença ou a riqueza do manguezal, como se a criança/aluno representasse o grande tesouro da escola que, talvez, fosse uma obra em construção e que a escola sua intercessora privilegiada na autoconstrução, sob a condição de que a transmissão de saber não se confunda com a transmissão de poder em que o aluno é tratado supostamente a querer, a ouvir, a aceitar e a obedecer.

Tal cogitação entre escola e mangue merece, como dissemos, uma deferência no texto de Daniel Lins, haja vista a feliz metáfora que estabelece com a ideia de rizoma deleuziana:

“Por meio da questão do novo, a função da Mangue’s School não é mais a de responder a uma necessidade de verdade, ou de abrir ao conhecimento do real, mas provocar novas possibilidades de vida. O novo é assim retomado como uma exigência de criação que instiga a promoção de forças capazes de transformar o presente levando-o para novas vias, segundo a formulação de Nietzsche: ‘Agir contra o passado, e desse modo sobre o presente em favor de um tempo por vir’”(Lins, 2005, p. 12).

In: LINS, Daniel. Dossiê: “Entre Deleuze e a Educação”. In Educ. Soc. Vol. 26. nº 93. Campinas. Sept./Dec. 2005.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , ,

Corrida Eleitoral

É a última semana em que muitos correm para lá ou para cá ou até mesmo em círculos em busca de votos. A concorrência político partidária em nosso país se afunila cada vez mais esta semana quando muitos candidatos saberão de seus destinos. Veremos, no final do pleito eleitoral, os que sairão “vencedores” e, possivelmente, com o compromisso de atuarem em benefício do povo.

Domingo próximo está afixado no calendário do país como o dia da culminância, o ponto alto desta campanha eleitoral que começou no mês de junho. Uma campanha longa que reúne muitas polêmicas, desde as morais até as sócio político-administrativas, mas que não deixa de ser importante para o eleitorado brasileiro, o qual carrega e encarrega sua consciência de trabalhos diante da responsabilidade de escolher alguns representantes no meio de uma variedade enorme de candidatos que não sabemos se vão ou não corresponder às expectativas de um cargo público.

O período eleitoral está chegando ao fim, pelo menos no que diz respeito ao 1º turno, porém alarga-se mais ainda nosso compromisso de escolher bem o Governador, o Dep. Estadual, o Dep. Federal, dois Senadores e o Presidente, os quais serão decisivos ao abrir novos rumos para o país. Serão seis votos de nossa inteira responsabilidade. Seis votos do tamanho do país. Estados e Federações brasileiras por meio deles, digo, dos votos, serão bem ou mal representados dependendo de nossas escolhas. Mais uma vez, já pela sexta vez depois da redemocratização do país, teremos os rumos da política brasileira em nossas mãos. Será que isso é verdade mesmo? Depende mesmo de nós o futuro do país ou é mais uma ilusão posta em nossa cabeças para favorecer a classe dominante estabelecida? Longe de mim tirar a importância de participarmos de mais uma eleição direta pela escolha de nossos representantes políticos!

O fato é que isso não é verdade. A realidade está posta. Entramos e saímos da frente das urnas a cada dois anos e a sociedade continua com os mesmos problemas sociais e políticos. Infelizmente, ninguém vota na verdade. Ninguém vota na geração de emprego e renda. Ninguém vota na Educação. Alguém vota na saúde? Já viram alguém votar em segurança pública? Alguém por aí, no dia 03 de outubro, vai votar em honestidade? Na hora de votar, será que alguém de nós lembra da justiça? Ninguém vota na justiça. Ninguém vota em dignidade, em menos corrupção. Alguém vota em igualdade social? Votamos, sim, em pessoas ou atores, no dizer do sociólogo francês Alain Touraine, que se revesam, após cada gestão no interesse apenas de permanecerem no poder. O objetivo dos cargos eletivos passa a ser não mais social, e sim meramente político eleitoreiro ou até mesmo econômico, gerando emprego para políticos profissionais e sua parentela. Estamos nos movendo em círculos, em redor e em derredor dos interesses político eleitoreiros de nossos representantes que se caracterizam de bons moços a cada eleições no intuito de transformar o palanque num palco teatral, onde os personagens principais se revezam dentro de um mundo maravilhoso que não há fome, miséria, desemprego, salários baixos, desabrigados, analfabetos, excluídos, injustiçados, perseguidos, nem mesmo há cerceamento de direitos, enfim…

Por isso, é oportuno refletirmos sobre cidadania e democracia. Tornou-se comum ouvir dizer que vivemos num Estado democrático de direito com pleno exercício de nossa cidadania. Parece-me muito banal tudo isso, porque vulgarizamos o sentido de tudo, até mesmo da democracia quando vista pela ótica do direito ao voto. Como diria o saudoso literata português, José Saramago, extraditado de sua terra para morar quase confinado com suas ideias nas Ilhas Canárias, antes de sua morte afirmou em “Este mundo da Injustiça Globalizada”, que vivemos uma falsa democracia. A nossa democracia foi roubada. O mundo transformou a democracia numa plutocracia em função dos interesses de Órgãos internacionais, como as multinacionais. “Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira”.


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva

http://www.umasreflexoes.wordpress.com
http://www.twitter.com/filoflorania

 

 

 

Etiquetado , ,

O que vocês acham? O político vive “da” política ou “para” a política?

Há pouco mais de uma semana do pleito mais importante, talvez, para os destinos do país, vemos a discussão política nos debates televisivos migrar da área moral, pessoal e religiosa dos candidatos para uma dimensão mais social, programática e política, propriamente dita, com questões que tocam em problemas sérios para o desenvolvimento do povo, de interesses do público, como Educação, saúde, geração de emprego e renda, privatizações, salários, previdência social, de modo que podemos distinguir cada candidato e poder escolher um dos dois com suas peculiaridades. Dilma ou Serra? Eis a questão. A escolha é nossa, tornando mais uma vez legítima a Democracia brasileira.

Contudo, faz-se oportuna uma ligeira orientação da política no dizer de Max Weber para os dias de hoje, haja vista o próximo pleito eleitoral que nos aguarda.

Na obra Ensaios de Sociologia de Max Weber, encontra-se uma concentrada visão da política alemã do séc. XIX focada na égide da ciência. Mas Weber, como filho de mãe culta e obstinada pela cultura, soube seguir firme e com educação, através das muitas leituras que fazia, uma ideologia íntegra e segura capaz de deixar um legado político, econômico, social e filosófico para toda a humanidade.

No universo dos Ensaios aqui mencionados, um deles se destaca pelo modo autêntico de tratar as questões políticas, “A política como vocação”. O autor dá um verdadeiro show de transparência e sensibilidade. Sua sensibilidade no assunto “política” é fulcral, de modo que inicia seu ensaio com uma pergunta cortante: “O que entendemos por política?” Daí começa sua exposição que vai desde os variados tipos de política até a noção mais cuidadosa de associações e instituições, redimensionando a questão ao aspecto do Estado.

O mais interessante disso tudo é que a política, para ele, possui dois modos principais, de certo modo escassos, no atual contexto brasileiro quando nos deparamos com indivíduos que pretendem concorrer a um cargo eletivo e que se propõem a seguir uma carreira política, gerindo e administrando a coisa pública.

Ao administrar, o que vocês acham, o político vive “para” a política ou vive “da” política?

“Há dois modos principais pelos quais alguém pode fazer da política a sua vocação: viver “para” a política, ou viver “da” política. Esse contraste não é, de forma alguma, exclusivo. Em geral, o homem faz as duas coisas, pelo menos em pensamento e, certamente, também a ambas na prática. Quem vive “para” a política faz dela a sua vida, num sentido interior. Desfruta a posse pura e simples do poder que exerce, ou alimenta seu equilíbrio interior, seu sentimento íntimo, pela consciência de que sua vida tem sentido a serviço de uma “causa”. Nesse sentido interno, todo homem sincero que vive para uma causa também vive dessa causa. A distinção, no caso, refere-se a um aspecto muito mais substancial da questão, ou seja, o econômico. Quem luta para fazer da política uma fonte de renda permanente, vive “da” política como vocação, ao passo que quem não age assim vive “para” a política. Sob o domínio da ordem da propriedade privada, algumas – se quiserem – precondições muito triviais devem existir, para que uma pessoa possa viver “para” a política, nesse sentido econômico. Em condições normais, o político deve ser economicamente independente da renda que a política lhe pode proporcionar. Isto significa, muito simplesmente, que o político deve ser rico ou deve ter uma posição pessoal na vida que lhe proporcione uma renda suficiente”(WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. A política como vocação. Rio de Janeiro, LTC, 1982, p. 105).

Quem estiver pensando em entrar na política para se beneficiar economicamente, cuidado, pois o caminho não é tão bem sucedido assim, uma vez que muitos cidadãos acabam por sair da política precocemente porque viram nela uma fonte de renda e um atalho mais curto para enriquecerem às custas do patrimônio público, sem qualquer realização profissional, sem qualquer tipo de identidade vocacional com os interesses do povo. Daí a pedida de Weber, o bom mesmo é que o sujeito tenha uma certa independência econômica antes de se propor administrar uma cidade, um estado ou um país.

Nem sempre isto acontece, o que compromete a administração pública e incha de corrupção a estrutura política da nação, do contrário ocorre o inverso, “em troca de serviços leais, hoje, os líderes partidários distribuem cargos de todos os tipos – nos  partidos, jornais, sociedades cooperativas, companhias de seguros, municipalidades, bem como no Estado. Todas as lutas partidárias são lutas para o controle de cargos, bem como lutas para metas objetivas”(idem, p. 107)

Fica, portanto, o alerta, antes de qualquer tentativa para lidar com a administração  pública ou com uma carreira política, autoavalie se é mesmo ou não a sua praia, se é ou não a sua vocação. Identifica-se ou não com a profissão? Viverás para ela ou se servirás dela?


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , ,

O ENEM é um novo Vestibular? Tome sofrimento


Como não bastassem os vestibulares a cada ano ou a cada seis meses em todo o Brasil para trazer medo, insegurança, ansiedade e muito sofrimento aos alunos, ainda surge o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio para tirar o sossego dos jovens que batalham por uma vaga nas Universidades. Transformado equivocadamente a Vestibular, o que não deveria acontecer, o ENEM é uma prática, segundo o Ministério da Educação,  de averiguar o andamento da qualidade do Ensino Médio em todo o território brasileiro.

Todavia, o ENEM dá a possibilidade de ingressar em Universidades públicas e privadas dependendo da nota, a qual possivelmente será cadastrada pelo candidato no PROUNI, espécie de Programa do Gov. Federal que dá acesso às Universidades. Daí, a nota do candidato passa por uma triagem ou peneira para saber se vai ou não ingressar numa tão sonhada Universidade.

A Educação brasileira, a meu ver, está transformando os alunos em máquinas de memorizar, em burocratas da aprendizagem. Aprender por uma nota, por um resultado, para passar de ano, para entrar na Universidade a troco de muito estudo e sofrimento. Nada mais além disso. Cadê a alegria de aprender? O gosto de estudar? O prazer de conhecer?

Lembro-me de um livro de Rubem Alves, cujo título é  “A alegria de ensinar” em que o autor diz lá pras tantas algo assim: “Não critico a máquina educacional por ineficiência. Critico a máquina educacional por aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação que ela produz aparece de forma mais acabada”. Não somos máquinas, somos humanos inteligentes com uma grande capacidade de esquecimento e como uma incrível sensibilidade de compreender nossos limites. Continua Rubem Alves: “Fico pensando no enorme desperdício de tempo, energias e vida. Como disse o Charlie Brown, os que tirarem boas notas entrarão na universidade. Nada mais. Dentro de pouco tempo quase tudo aquilo que lhes foi aparentemente ensinado terá sido esquecido. Não por burrice. Mas por inteligência. O corpo não suporta carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida”.

Impressionante visão revolucionária de Rubem Alves que mais acrescenta ao crescimento educacional brasileiro do que inúmeras notas acumuladas a cada edição de ENEM, na intenção de apenas satisfazer a uma política neoliberal de aprovação automática em virtude de índices educacionais para impressionar lá fora. Quanta ilusão. Precisamos acordar. Encontrar uma maneira mais leve de avaliar se os jovens estão ou não preparados para ingressar numa Universidade. Deveria ser uma progressão, saía-se do Ensino Médio, optava-se logo por um curso e buscava sua formação ou realização pessoal, sua felicidade.

Tenho a honra de terminar esta reflexão sobre o ENEM com as palavras de Rubem Alves, exatamente no dia em que se realiza mais um ENEM em todo o Brasil: “Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar…”


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , ,

Leitura combina com férias e crescimento econômico?

Para aqueles que trabalham  no decurso do ano é uma ótima pedida nestas férias que vem chegando, colocar a leitura em dia. Não só nas férias a leitura se insurge como um “ócio criativo” – título de um belo livro de Domenico de Masi – mas, sobretudo, viver dela e para ela deve ser uma exigência em todo o tempo. A leitura deve ser prioridade em todos os momentos da vida. Numa entrevista a que assisti, após as eleições deste ano, no Programa Jô Soares com Marina Silva, ela afirmou que para onde ia estava na companhia segura de sua maleta de livros, pois assim que surgisse uma oportunidade, abriria um de seus livros e lia com muita alegria, afirmando que o tempo não podia ser desperdiçado. Chegou até a brincar com Jô e disse que no avião dependendo do medo e de algumas situações, o primeiro livro que pegava era a Bíblia.

A atividade da leitura no Brasil tem melhorado a passos lentos, de modo que países vizinhos, aqui mesmo na América do Sul, estão bem melhores colocados no ranking de leitura do que o Brasil. A avaliação educacional mais importante – e relevante – do mundo revelou que a Educação brasileira está melhorando, mas ainda ocupamos uma posição baixa: em um ranking de 65 países somos o 53º colocado em Leitura e Ciências e 57º em Matemática. O Pisa(Programa Internacional de Avaliação de Alunos)avalia o desempenho de alunos do Ensino Fundamental e Médio em três áreas chaves: Leitura, Matemática e Ciências. A média brasileira nessas disciplinas foi de 401 pontos, bem abaixo da pontuação dos países mais desenvolvidos, que obtiveram 496 pontos. Em leitura, o Brasil alcançou 412 pontos; em Matemática, 386 e em Ciências 405 – em 2006 a pontuação foi de 393 em Leitura, 370 em Matemática e 390 em Ciências. Resultado que nos deixa atrás de México, Uruguai, Jordânia, Tailândia e Trinidad e Tobago.

Recentemente, como ilustração deste texto, logo acima, publicada pela Revista Superinteressante, podemos ver um levantamento de leituras espontâneas em média por aluno, do Instituto pró-livro da ANL, Centro Regional para o Fomento do Livro, na América Latina, na Espanha, no Caribe e em Portugal, que o Brasil lê apenas um livro por ano por habitante, ao passo que o Chile lê cinco livros por ano por pessoa, a Argentina cinco também e o Uruguai é o que mais lê, seis livros por cada habitante ao ano.

Os dados não mentem. A bem da verdade, se perguntarmos a uma criança ainda pequena o que ela sonha ser quando crescer, a resposta é quase imediata e unânime, jogador de futebol. Isto porque a mídia escancara nas telinhas com frequência jogadores de futebol esnobando mulheres bonitas, carros importados, gigantescos salários e, como se não bastasse, fora aprovada recentemente no Congresso Federal a Lei que ampara jogadores da seleção brasileira na aposentadoria, uma espécie de fundo de pensão. Cadê que uma criança responde que quer ser Professor ou Professora neste país?! Porque Professor ganha pouco, Professor não tem mais respeito, é agredido em sala de aula, é espancado e até assassinado. Muitos professores estão desmotivados com um mísero salário que recebem. Um salário que mal dá pra comer, quanto mais investir na formação profissional. Categoricamente, o Brasil vende uma imagem que não é a de um país de leitores que busca e se alimenta de cultura, mas a de um país que só vê futebol e que só ouve e dança samba. Somos o país do samba e da bola, não um país de leitura. Para a enorme maioria dos políticos, educação não dá votos, não ganha eleições. Educação neste país não é coisa séria, infelizmente.

Enquanto a Educação neste país estiver sendo vista como algo de segunda categoria ou sem prioridade, a leitura e o nível cultural não irão ser diferenciais de qualidade para um povo que quer entrar na lista dos países mais desenvolvidos do globo. Há, atualmente, um retrocesso no crescimento brasileiro. À medida que aceleramos no plano econômico, retrocedemos nas questões educacionais. Questões estas muito pertinentes na formação da personalidade, bem como na consolidação de um cidadão ético e absolutamente comprometido com o patrimônio natural de sobrevivência humana na terra. A mãe terra pede socorro, mas sem uma educação diferenciada, básica até, a Gaia, mãe e criatura de Deus, a terra gritará num gemido ensurdecedor de socorro.

As férias estão às portas. É hora de fazermos um balanço do quanto precisamos melhorar a leitura para poder expressar com mais autoridade nossas ideias. A leitura não só é importante para o desenvolvimento econômico de um país, mas é substancial no respeito com os outros, no trato com o diálogo, nos bons costumes, no requinte da linguagem e da escrita, no poder da argumentação. A leitura, por tudo isso nos dá poder, nos garante segurança emocional e faz bem às férias, principalmente quando são longas e podendo até nos levar ao tédio. Nas férias, a leitura nos propicia sair do ócio e do tédio. Edifique-se, leia mais nestas férias!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
Páginas na internet:

www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado

Reabilitemos a política!

Não que seja do meu feitio falar desse assunto no meu primeiro texto do ano, ou que eu queira, possa ou deva, mas por incrível que pareça a pedra de toque dos assuntos políticos do momento em Florânia é um tal de “acordão” que anda visitando o imaginário popular dos políticos profissionais, tendo em vista as eleições de 2012.

O mais interessante é que, para alguns políticos daqui, os acertos entre eles são chamados de “acordos”, “combinados”, “pacto”, “trato”, enfim… Para o povo, isto se chama troca e venda de interesses. Quem se vende? Por quanto se vende? Para que se vende? A resposta todo mundo sabe ou ninguém sabe. Fica um disse me disse nas ruas e centro da cidade porque paira sobre as cabeças inteligentes das pessoas o seguinte: Ou a política deixou de assumir o que lhe é própria, a discussão dos problemas da cidade para o bem de todos, ou diluiu-se nos interesses mesquinhos de nossos representantes. O fato é que a população não confia mais ou não confia tanto assim nos seus políticos.

O que é mais irônico nisso tudo é que os mais políticos, digo, os que se interessam pela mais baixa e degradante política partidária são os que menos sabem de política, mas são os que mais sabem tirar vantagens sobre os outros de modo escuso e obscuro. As negociações entre eles nunca são muito claras, esta é que é a verdade. Agora, as negociações entre eles e nós, entre eles e o povo são e devem ser sempre claras. O que tento dizer aqui é que não existe na política uma ideia unilateral que dispense oposições de ideias. A política é o campo da liberdade de ideias, do debate, da discussão, mas nunca de “conchaves”, de “cercos”, de “combinados”, de “acordos”, de “arrumadinhos” porque senão acabaremos por transformar a política num regime autoritário, dogmático ou aristocrático, onde o poder é centrado nas mãos de alguns. A política é um jogo democrático e aberto, de grupos abertos, não é uma plutocracia(poder econômico) de grupos fechados com interesses egoístas, embora se veja isso aqui e no Brasil afora. Por isso, NÃO a acordos, SIM a política!

Parece-me que em Florânia, há uma confusão no que diz respeito à política, pelo menos por alguns grupos políticos que se acham visivelmente no direito de levantar a bandeira da paz para promover um “acordão” político sem despesas econômicas para o próximo pleito. Isso não existe. É mais uma ilusão das mentes ociosas de alguns políticos de Florânia que só pensam nos bolsos, menos no povo. Temo, com isso, estar vendo a morte da política quando ela passa a ser uma mera formalidade. Não se pode ir para um pleito com “acordos”, com “combinados”, já antecipando o resultado. Isto é um absurdo! Não podemos compactuar com isso. Não podemos tirar o direito de escolha de ninguém, simplesmente comprando suas consciências, cruzando os braços, fechando a boca e não fazendo mais política. A política não está feita, ela se faz.

Vejam o que diz André Comte-Sponville, filósofo francês, sobre a política por fazer ou refazer: “A política não é o reino do Bem, nem da Ideia, nem da Razão. É o reino da força e das relações de forças, dos interesses e dos conflitos de interesses. Devemos então renunciar à justiça? De jeito nenhum. Devemos compreender que ela nunca é dada, nunca é garantida, e por isso está sempre por fazer ou refazer”(in Sabedoria dos Modernos, p. 453).

Precisamos reabilitar a política à sua dimensão mais digna e mais justa, sendo ela mais discursiva e menos dogmática. Ninguém manda na política de Florânia, visto que as pessoas se candidatam livremente para promover uma escolha mais democrática entre elas, e assim promover um debate de ações que visem à melhoria da população como um todo, não de uma parte apenas.

Nunca se viu na história de Florânia, por causa de alguns políticos renunciarem às suas convicções, tamanha liberdade política. Mediante um clima de insatisfação política, diversas pessoas ganharam autonomia para lançar suas propostas, seus projetos e seus nomes em vista, acredito eu, de uma Florânia melhor. O que é muito bom para a política e para a democracia em Florânia. Quanto mais candidatos melhor.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

Páginas na internet:
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , ,

A “mosca” de Atenas, de Raul, de todos nós…

Passados quatro dias rápidos de carnaval, em que muitos foram levados pela ventania do barulho do momento, a tendência agora será o despertar para outras realidades, como as chuvas de março e com elas as moscas, a política, o salário, a inflação e, talvez, a situação de trabalho de cada um de nós, pobres mortais. Passada a anestesia da folia, a realidade volta com toda a sua força ao dia a dia do brasileiro!

As chuvas são a marca do mês de março em nosso sertão; nuvens carregadas de água trazem do céu a esperança natural de boas colheitas para o humilde agricultor, bem como doenças de toda sorte para o povo do sertão. Também com as chuvas vêm as moscas para nos incomodar, chatear e aborrecer. Quem, em meio à umidade e ao calor, não se aborrece com as moscas? Aqui e ali estão pousando e hospedando seus excrementos, suas larvas em águas e alimentos. É preciso lavar bem e cobrir com muito cuidado os alimentos.

As moscas são muito frequentes nesta época do ano. Tão comuns que podemos encontrá-las em qualquer ambiente. Aparentemente inofensiva e inútil, ao contrário, a mosca pode causar diversos danos à saúde. Inseto asqueroso, de anatomia quase irreparável a olho nu, apresenta certas peculiaridades, dentre elas os olhos por toda a cabeça (formados por 3.000 lentes de seis lados); não veem muitos detalhes, mesmo vendo 360º graus, tudo está fora de foco; asas finas, batem 330 vezes por segundo (4 vezes mais do que o beija-flor) e o segundo par dessas asas influencia as manobras aéreas, e por serem finas e frágeis, ficam invisíveis durante o voo. As moscas são incrivelmente ágeis e importante para a natureza.

No entanto, a mosca é vista por quase todas as pessoas como um inseto nojento, perturbador e incômodo, principalmente nos momentos de um cochilo, de um bom sono, de uma sesta rápida. É o estraga prazer de todos quantos estão a saborear um caldo, uma sopa ou uma boa bebida. Dificilmente alguém não se sentiria incomodado ao ver cair uma mosca no seu copo ou na sua comida.

Certamente aqui encontra-se o gancho para o qual Raul Seixas construiu uma ponte da mosca para a política. Tal como a mosca incomoda aos nossos prazeres; assim o é para os que se lambuzam nas regalias do poder. Vejamos o trocadilho da mosca com o poder na música inteligente de Raul: “Eu sou a mosca que pousou em sua sopa. Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar…”
Raul foi maravilhosamente perspicaz e sagaz ao jogar com palavras cheias de ironia e sarcasmo, transparecendo uma indignação com a sociedade, com o poder, com a política.

O filósofo é como uma mosca; perturbadora, incômoda, abusada, chata, estraga prazer, enfim. Talvez por isso, a Filosofia, tenha ficado distante da grade curricular das escolas públicas por muitos anos, inclusive no regime ditatorial, período de perseguição aos direitos democráticos do cidadão. Não devia ser perigoso falar de direitos humanos, tampouco de direitos ao cidadão, da dignidade da pessoa humana. Porém, a mosca está de volta, a Filosofia está mais forte do que nunca. Jamais se produziu tanto nesta área.

Platão pintou a imagem de Sócrates como uma “mosca” na sociedade ateniense. Sócrates era uma espécie de perturbador da aristocracia ateniense, das autoridades em geral, dos que se diziam uma coisa e não eram. “A perturbação que causava, no entanto, não seria à toa. Segundo sua própria interpretação relatada por Platão, ele foi sendo tomado pelo espírito da ‘mosca’, de pousar em cada lugar de Atenas para importunar, e foi assim que conseguiu, finalmente, entender sua missão”(GHIRALDELLI, Paulo Jr. A Aventura da Filosofia. S. Paulo: Manole. 2010. p. 32). Acabou condenado à morte por não concordar com um governo corrupto, com base na venda de homens livres; e por ser acusado injustamente de corromper a juventude com ideias voltadas para a alma. Sócrates, como filósofo, sábio de Atenas e cosmopolita, jamais aceitava a ignorância e a corrupção política. Daí ser visto por Platão como a “mosca” de Atenas.

Voltando a Raul Seixas, a “mosca” quer dizer os insatisfeitos com a situação política que aí está. Os que corajosamente, como Sócrates, tiram a cortina, tiram o véu da mentira para encontrar a verdade. A “sopa” é a delícia do dinheiro público. A “sopa” quer dizer as regalias do poder, o despotismo, contratações sem necessidade, altas diárias, mordomias, nepotismo, troca de favores com cargos públicos, desvio de verbas, licitações escusas e assim por diante.

Nesse sentido, quem, tal como Raul, tal qual Sócrates, filósofo, quer ser uma “mosca”?


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
Páginas na internet:

http://www.umasreflexoes.wordpress.com

http://www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , , ,
Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

Enseñanza de la filosofía

Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Clube Literário do Porto

Um lugar onde a Cultura acontece

Poesias, frases e textos

Melhores poesias, frases, crônicas, textos e música

Da Literatura

Um blog sobre livros e amor pela leitura

O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

ZÉducando

Educação, Tecnologia, Reflexão e Humor: combate ao "não-pensantismo" *

aultimaestrofe

Just another WordPress.com weblog

φρόνησις

"Filosofar é aprender a morrer". Montaigne

Luciano Ezequiel Kaminski

Textos sobre Filosofia e Sociologia

OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

Esta é a pagina e blog a da autora