Arquivo da categoria: Literatura

Umas pequenas práticas de saberes II

É possível criar uma ontologia particular sem citar a Tradição com base na música, no teatro e na poesia, bem como na literatura.

Segundo Nietzsche, a tarefa do saber é: “ver a ciência sob a ótica do artista, mas a arte sob a ótica da vida”. É a dialética entre a Tradição(História) e a Ruptura(indivíduo). Foucault é filho dessa cultura que não precisa pressupor a  História para desenvolver a estrutura lógica de seu pensar.

É sabido por todos que, após as duas grandes guerras mundiais, a razão como modelo único entra em crise porque não atendeu as necessidades básicas que levam o homem ao progresso. “A razão é a imperfeição da inteligência”, segundo Tomás de Aquino, pois, fora quem melhor compreendeu a modernidade da modernidade.

A modernidade fracassou por duas maneiras: a pretensão de um estado nação assumir o controle do mundo com a queda do muro de Berlim; depois, com a Física quântica, derrogando a razão positivista que acreditava esquadrinhar todas as coisas, inclusive o átomo.

O Racionalismo frustra a modernidade como também a desigualdade social mundial, isto é, com o desenvolvimento econômico sustentado das nações.

O grande pecado da modernidade foi espiritualizar o material e materializar o espiritual, tornando o consumismo a sua marca fundamental.

Massificação e sociedade de consumo são as razões do capitalismo.

A ciência não foi capaz de dar estabilidade e segurança social frente às imprevisibilidades do futuro. Não é suficiente para integrar o homem à cultura que lhe é própria. Newton e Descartes são as duas pernas com as quais andamos. Newton com a gravidade universal e Descartes com o Método.

Sendo assim, ciência e razão nos conduziram a sofrimentos e a desorientações pela garantia de um progresso tecnológico. Não foi capaz de sanar a sede de saúde, paz mundial, importância antropológica, política, social e histórica. Frustrou as perspectivas de progresso no século XX.

Edgar Morin nos ensina que o dever principal da educação é armar cada um para o combate vital à lucidez.

Do séc. passado recebemos a lição de que “não sabemos tudo de nada”. Lutamos contra nossas pretensões bélicas, econômicas e racionalistas, mas nos esquecemos de promover o bem-estar social, ecológico, político sustentado pelo mundo afora.

Daí, passamos por uma devastadora crise de paradigma. Os modelos educacionais ou até do próprio conhecimento não dão conta das exigências complexas por que passa a humanidade.

“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital. É o problema universal de todo cidadão do novo milênio: como ter acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global ( a relação todo/partes), o Multidimensional, o complexo? Para articular e organizar os conhecimentos e assim reconhecer e conhecer os problemas do mundo, é necessária a reforma do pensamento”(Edgar Morin, in Sete Saberes necessários à Educação do Futuro, pág. 35).

Para Morin, a Reforma é paradigmática e, não, programática. Uma educação que fomente a nossa aptidão para organizar o conhecimento.

Aqui é o ponto: Estamos inseridos numa sociedade altamente tecnológica informatizada, onde a Educação precisa mais do que nunca incluir esses valores para tentar responder as expectativas dos alunos e de uma nova compreensão de mundo. Todavia, como unir velocidade de informações e conteúdos via Internet/meios tecnológicos com a capacidade do aluno introjetar/refletir essas mesmas informações? Ou será que a educação está formando sujeitos de desejos ao invés de sujeitos reflexivos?

Uma alternativa ou uma das alternativas para indicar saídas é favorecer a atividade da arte e da filosofia na Educação, ou seja, implementar ações educativas complementares: jogos; filmes; jornal; teatro; música. Tudo isso unido ao poder da reflexão para possibilitar a descoberta de talentos críticos que contribuam na construção de valores e de preservação do meio ambiente.

A consequência de tudo isso foi o nosso afastamento de uma vida contemplativa(razão) para nos familiarizar, agora como nunca, com uma vida ativa, interativa audiovisual e lúdica. O desencanto da razão levou-nos ao encanto da música e dos jogos, isto é, do entretenimento midiático. Eis, no entanto, o desafio: educar toda essa massa humana advinda da cultura do entretenimento para as escolas. Se quisermos impactar crianças, adolescentes e jovens com a Educação basta oferecermos a música e o esporte nesse processo, e depois, formar indivíduos reflexivos, cuja meta é a multiplicação dessas práticas de saberes.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
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Umas pequenas práticas de saberes I

Segundo a tendência racionalista, herdada de Descartes e Spinoza, prevalece o inatismo, pelo qual o sujeito que conhece seria o pólo mais importante no processo do conhecimento.

Conforme a tendência empirista, iniciada com Bacon, Hume e Locke, o sujeito que conhece é passivo, recebendo de fora – da experiência – os elementos para a elaboração do conteúdo mental.

Tais pressupostos de uma educação moderna são oriundos dos conceitos clássicos de Educação:

“A educação deve dar ao corpo e à alma toda a beleza e perfeição de que são capazes”(Platão) – idealista.

“Não há nada na inteligência que antes não se tenha passado pelos sentidos”(Aristóteles) – realista.

As quais se fundamentam num problema antiquiquíssimo, chamado de APORIA: No séc. VI – V a.C., Parmênides disse que nada pode mudar; que, por isso mesmo, as impressões dos sentidos não são dignas de confiança.

Já Heráclito, na mesma época, disse: que tudo se transforma(“tudo flui”) – “panta rei”; que as impressões dos sentidos são confiáveis.

Assim, muitos tentavam, assustadoramente, solucionar o impasse entre razão e sentidos.

Empédocles afirmava que ambos têm razão, pois a água pura será água pura por toda a eternidade e a natureza está em constante transformação. Ele acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de raízes. Estes quatro elementos eram a Terra, o Ar, o Fogo e a Água. Supera, assim, a dicotomia com uma belíssima síntese entre o imóvel e o móvel, entre o ser e devir.(séc V a.C.).

Immanuel Kant, por sua vez, conhecia muito bem tanto os racionalistas quanto os empiristas e concordava com ambos: o mundo seria exatamente como nós o percebemos, ou como se mostra à nossa razão? Para Kant, não importa o que possamos ver, sempre perceberemos com as “formas da sensibilidade”. Isto significa que podemos saber antes de experimentar alguma coisa, que vamos experimentá-la como fenômeno no tempo e no espaço. Somos incapazes de tirar os óculos da razão!(séc. XVIII d. C.).

Conforme Maria Lúcia de Arruda Aranha, a Educação é um processo que se caracteriza por uma atividade mediadora entre sujeito e objeto, no seio da prática social global.

A Pedagogia é a necessidade sistemática de tornar a prática social global mais eficaz, a fim de definir os fins a serem atingidos.

A Filosofia da Educação acompanha reflexivamente os problemas educacionais.

As Ciências da Educação propõem processos de ensino(sistemas) mais sofisticados que superam o mero empirismo em educação.

As pequenas práticas de saberes supõem tudo isso que dissemos até agora, na medida em que o educador luta contra qualquer tipo de generalização.

Segundo Foucault na Microfísica do Poder, o educador precisa ser um pensador engajado em um trabalho crítico de seu presente, de si mesmo, buscando, por meio da genealogia e da arqueologia as rupturas e descontinuidades que engendram as imagens que temos de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Os saberes são fragmentados, compartimentados, enquadrados nas específicas exigências dos indivíduos, por isso mesmo práticos e pequenos que penetram na singularidade da vida.

Parece-me que fora Nietzsche, na segunda metade do século XIX até meados do século XX, a desencadear essa nova modalidade de pensamento. Não segue necessariamente uma escala contínua e progressiva da estrutura do Pensamento, pois rompe com a Tradição para voltar às fontes, às origens da tragédia humana(Dionísio e Apolíneo), a fim de valorizar nossas potencialidades enquanto artistas de pensar o próprio pensamento. Acontece assim, uma ruptura do patrimônio histórico do pensamento humano.


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva
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Amor à repetição

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“Que coisa, amanhã já é segunda-feira (?!), mal passou o final de semana”; “Não aguento mais a mesma comida, a mesma bebida”; “Tenho que limpar meus óculos de novo”; “Preciso ir ao banheiro de novo”… Expressões como essas são muito corriqueiras e acabam mostrando como o ser humano está condicionado a uma repetição infinita de acontecimentos e situações no curso de sua vida. Algumas repetições necessárias ao cuidado com a higiene do corpo são até menos conscientes do que uma dura e trágica fatalidade, mas demonstram o quanto são importantes para a saúde e para uma incansável luta contra o imobilismo, a inércia, bem como uma luta incessante a favor da vida.

A simplicidade dos atos de alimentar-se, escovar os dentes, tomar sucessivos banhos, vestir-se, andar, ir e voltar do trabalho, conversar. Tudo isso faz parte de atos espontâneos ou avulsos, nos quais o ser humano encontra-se envolvido num eterno retorno de eventos do cotidiano. Na maioria das vezes, aparentemente, não apresentam sentido algum. Mas, o interessante é que não tenham, de fato, sentido, significado, pois obedecem a uma ordem cosmológica, em que se poderia entender o mundo muito mais do ponto de vista grego do que moderno. Os gregos viam o mundo finito, fechado, e constituído por um certo número de forças com suas combinações infinitas, um mundo que se repete. “[…] o desenvolvimento deste instante tem de ser uma repetição, e também o que o gerou e o que nasce dele, e assim por diante, para a frente e para trás! Tudo esteve aí inúmeras vezes, na medida em que a situação global de todas as forças sempre retorna.”(NIETZSCHE, F. O eterno retorno [texto de 1881]. São Paulo: Nova cultural, 1996. p. 439 [Col. Os pensadores]).

Deitar, dormir e levantar-se para continuar a viver obedecem a uma ordem cíclica de repetições infindáveis. Instantes de prazer e dor acabam indo e voltando com mais ou menos intensidade do que de outras vezes, mas acabam voltando. Retornar às mesmas coisas diversas vezes de um modo estético nos leva a fazê-las cada vez melhor. Atitudes isoladas como uma corrida ou uma caminhada numa tarde qualquer, quando repetidas, tornam-se habituais e promovem a qualidade de vida. Com isso, o ético vem puxado pelo estético.

É oportuno resgatar repetidamente o filósofo bigodudo Nietzsche, crítico ferrenho da cultura ocidental, quando pensou que o “eterno retorno ao mesmo” não deve ser encarado com piedade, compaixão e resignação, mas com coragem, determinação e vigor. O resultado de uma vida sem fugas, subterfúgios, muito menos sem mania de conspiração, é certamente uma vida pautada no “amor fati”, no amor ao próprio destino. “[…] vou dizer qual é o pensamento que deve tornar-se a razão, a garantia e a doçura de toda a minha vida! É aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Amor fati: seja esse de agora em diante o meu amor.” (NIETZSCHE, F. A gaia ciência. 5ª ed. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães & C., 1996. p. 173-174).

Amar o próprio destino é uma das ideias mais preciosas e geniais do Nietzsche, porque combate fortemente o sentimento de culpa, um tal de “mi mi mi” do qual se reveste nossa cultura. Significa pensar o destino como os gregos o pensavam, de modo participativo.

Portanto, a repetição, a rotina inevitável de nossas vidas, as idas e vindas das segundas-feiras, os momentos tristes e os dias de sofrimento não precisariam ser enfrentados com um amor de tipo nietzschiano? “A minha fórmula de grandeza do homem é ‘amor fati’: não pretender ter nada de diverso do que se tem, nada antes, nada depois, nada por toda a eternidade. A Necessidade não existe apenas para suportar-se – todo o idealismo é uma mentira em face da Necessidade – mas para que a amemos…”(Ecce homo: como se chega a ser o que se é. Trad. José Marinho. Lisboa: Guimarães & C. 1979, p. 72).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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Educação: uma expectativa para o incerto

A cena do desfecho do filme “Sociedade dos poetas mortos” nos coloca dentro da experiência educacional marcadamente incerta, imprevista e nova, imponderável, porém vital.

Pelas pistas que possuímos do mundo que espera nossos jovens, só sabemos que será muito diferente do presente, com inevitável mudança de paradigma(s). Se melhor ou pior, impossível prever. Apenas precisamos não permanecer como espectadores, mas tomar nas mãos o desafio de construir o novo.

Se não podemos prever, pelo menos temos noções sobre o que não queremos: com tantas incertezas, seríamos capazes de construir um mundo mais humano? Tal pergunta nos leva ao campo da incerteza e do imponderável já que não estamos prontos para tudo, até porque a vida é cheia de incertezas e não cabe nos limites da razão e nos limites de nossos programas. Por isso dirá Morin:

“A estratégia opõe-se ao programa, ainda que possa comportar elementos programados. O programa é a determinação a priori de uma seqüência de ações tendo em vista um objetivo. O programa é eficaz, em condições externas estáveis, que possam ser determinadas com segurança. Mas as menores perturbações nessas condições desregulam a execução do programa e obrigam a parar. A estratégia procura incessantemente reunir as informações e os acasos encontrados durante o percurso. Todo nosso ensino tende para o programa, ao passo que a vida exige estratégia e, se possível, serendipidade e arte”(Edgar Morin).

Serendipidade vem a ser entendida aqui como ato de procurar uma coisa e achar outra; o imprevisto. “Serendip” era o nome de uma ilha ao sul da Índia, que depois se chamou Ceilão e hoje é denominada Sri Lanka; segundo um conto oriental, três príncipes de serendip, percorrendo seus territórios, fizeram importantes e inesperadas descobertas. Usa-se o termo para designar a descoberta fortuita, mas fértil para quem é capaz de combinar “acaso” e “sagacidade”.

Edgar Morin, que divulga a teoria da complexidade no Brasil e no mundo a fora, enxerga a possibilidade da Educação se inserir num processo ousado de estratégia, segundo ele, arte e serendipidade, afastando-se do programa e promovendo uma Educação cada vez mais criativa e surpreendente. Para o mundo atual, tamanho desafio não é tão fácil, por isso complexo, mas de uma exigência vital para a leitura de valores que frequentemente entram no diálogo educacional sem pedir licença.

Com isso, a preocupação da Educação não é o uno, mas o múltiplo e a complexidade, no olhar de Morin, com a vida que se afirma e que se insere num movimento constante de mudança. Remontamos, assim, a algumas citações oportunas que Morin faz jus na sua obra “A cabeça bem feita”, a qual levanta provocações filosóficas sobre o pensamento de Michel de Montaigne e outros como Rousseau e Nietzsche. Vejamos:

“Quero ensinar-lhe a viver”(Rousseau).

“Queremos ser poetas de nossa própria vida, e primeiro, nas menores coisas”(Nietzsche).

“O grande problema da Educação é conseguir que o aluno transforme a informação impessoal, no vídeo, no papel ou na fala, em conhecimento(apropriação e assimilação) e o aluno converta essa informação em sabedoria ou sapiência e empregá-la para orientar sua vida”(Edgar Morin).


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Leitura combina com férias e crescimento econômico?

Para aqueles que trabalham  no decurso do ano é uma ótima pedida nestas férias que vem chegando, colocar a leitura em dia. Não só nas férias a leitura se insurge como um “ócio criativo” – título de um belo livro de Domenico de Masi – mas, sobretudo, viver dela e para ela deve ser uma exigência em todo o tempo. A leitura deve ser prioridade em todos os momentos da vida. Numa entrevista a que assisti, após as eleições deste ano, no Programa Jô Soares com Marina Silva, ela afirmou que para onde ia estava na companhia segura de sua maleta de livros, pois assim que surgisse uma oportunidade, abriria um de seus livros e lia com muita alegria, afirmando que o tempo não podia ser desperdiçado. Chegou até a brincar com Jô e disse que no avião dependendo do medo e de algumas situações, o primeiro livro que pegava era a Bíblia.

A atividade da leitura no Brasil tem melhorado a passos lentos, de modo que países vizinhos, aqui mesmo na América do Sul, estão bem melhores colocados no ranking de leitura do que o Brasil. A avaliação educacional mais importante – e relevante – do mundo revelou que a Educação brasileira está melhorando, mas ainda ocupamos uma posição baixa: em um ranking de 65 países somos o 53º colocado em Leitura e Ciências e 57º em Matemática. O Pisa(Programa Internacional de Avaliação de Alunos)avalia o desempenho de alunos do Ensino Fundamental e Médio em três áreas chaves: Leitura, Matemática e Ciências. A média brasileira nessas disciplinas foi de 401 pontos, bem abaixo da pontuação dos países mais desenvolvidos, que obtiveram 496 pontos. Em leitura, o Brasil alcançou 412 pontos; em Matemática, 386 e em Ciências 405 – em 2006 a pontuação foi de 393 em Leitura, 370 em Matemática e 390 em Ciências. Resultado que nos deixa atrás de México, Uruguai, Jordânia, Tailândia e Trinidad e Tobago.

Recentemente, como ilustração deste texto, logo acima, publicada pela Revista Superinteressante, podemos ver um levantamento de leituras espontâneas em média por aluno, do Instituto pró-livro da ANL, Centro Regional para o Fomento do Livro, na América Latina, na Espanha, no Caribe e em Portugal, que o Brasil lê apenas um livro por ano por habitante, ao passo que o Chile lê cinco livros por ano por pessoa, a Argentina cinco também e o Uruguai é o que mais lê, seis livros por cada habitante ao ano.

Os dados não mentem. A bem da verdade, se perguntarmos a uma criança ainda pequena o que ela sonha ser quando crescer, a resposta é quase imediata e unânime, jogador de futebol. Isto porque a mídia escancara nas telinhas com frequência jogadores de futebol esnobando mulheres bonitas, carros importados, gigantescos salários e, como se não bastasse, fora aprovada recentemente no Congresso Federal a Lei que ampara jogadores da seleção brasileira na aposentadoria, uma espécie de fundo de pensão. Cadê que uma criança responde que quer ser Professor ou Professora neste país?! Porque Professor ganha pouco, Professor não tem mais respeito, é agredido em sala de aula, é espancado e até assassinado. Muitos professores estão desmotivados com um mísero salário que recebem. Um salário que mal dá pra comer, quanto mais investir na formação profissional. Categoricamente, o Brasil vende uma imagem que não é a de um país de leitores que busca e se alimenta de cultura, mas a de um país que só vê futebol e que só ouve e dança samba. Somos o país do samba e da bola, não um país de leitura. Para a enorme maioria dos políticos, educação não dá votos, não ganha eleições. Educação neste país não é coisa séria, infelizmente.

Enquanto a Educação neste país estiver sendo vista como algo de segunda categoria ou sem prioridade, a leitura e o nível cultural não irão ser diferenciais de qualidade para um povo que quer entrar na lista dos países mais desenvolvidos do globo. Há, atualmente, um retrocesso no crescimento brasileiro. À medida que aceleramos no plano econômico, retrocedemos nas questões educacionais. Questões estas muito pertinentes na formação da personalidade, bem como na consolidação de um cidadão ético e absolutamente comprometido com o patrimônio natural de sobrevivência humana na terra. A mãe terra pede socorro, mas sem uma educação diferenciada, básica até, a Gaia, mãe e criatura de Deus, a terra gritará num gemido ensurdecedor de socorro.

As férias estão às portas. É hora de fazermos um balanço do quanto precisamos melhorar a leitura para poder expressar com mais autoridade nossas ideias. A leitura não só é importante para o desenvolvimento econômico de um país, mas é substancial no respeito com os outros, no trato com o diálogo, nos bons costumes, no requinte da linguagem e da escrita, no poder da argumentação. A leitura, por tudo isso nos dá poder, nos garante segurança emocional e faz bem às férias, principalmente quando são longas e podendo até nos levar ao tédio. Nas férias, a leitura nos propicia sair do ócio e do tédio. Edifique-se, leia mais nestas férias!


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco
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A santidade em Levinás

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Todos nós temos uma vocação à santidade. Ou a acolhemos ou a renunciamos, porém não a eliminamos, visto que nos comportamos, nos movemos e agimos não só pelo que nos falta, pelo que nos carece, mas também pelo que nos basta, pelo que nos excede. Não à toa, estamos sempre a procura do que é verdadeiro, que não é uma simples adequação do meu pensamento à coisa ou vice-versa, mas uma inadequação pura, um paradoxo, que nos perturba e incomoda porque nos ultrapassa, o humano. “Nunca pretendi descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas o que a própria depravação humana não saberia eliminar: a vocação humana à santidade”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

Um pensamento marcadamente humano, certamente consequência do sentimento trágico da segunda guerra mundial, a visão de Levinás é fruto da discussão que há na primeira metade do século XX: o que é o meu direito sobre o direito dos outros? Aqui ele mostra como os homens têm uma vocação à santidade que a violência não consegue eliminar ou não sabe eliminar. Seu valor à santidade deve vir da força da sua biografia, filósofo lituano, judeu, que acaba conseguindo a cidadania francesa em 1938. Vive num período histórico bastante conturbado entre as duas grandes guerras. É testemunha do surgimento e do esgotamento do Nazismo imposto por Hitler, responsável por destituir o caráter do outro e dizimar milhares de vidas humanas. Além disso, sua motivação é exatamente a perseguição ao terror promovida pelo Nazismo e por todo o movimento histórico em que passa a Europa, a partir da segunda década do séc. XX.

Em virtude disso, Levinás institui uma ética baseada na responsabilidade pelos outros. O caráter do indivíduo se reconhece numa dimensão de coletividade. Ele admite ainda que há uma transcendência em nossas relações: o eu que se reconhece nos outros porque é uma transcendência de mim mesmo que acontece no rosto do outro. Quando eu me reconheço no rosto do outro está acontecendo uma radicalidade ética: o primado do outro sobre o primado do eu.

A santidade, para Levinás, segue esse viés de abertura ao outro, muito afinado até com o rigor ético presente na Bíblia. Conceitos como o de bondade, justiça, hospitalidade, estrangeiro, são acolhidos no seu discurso filosófico. Afirma que não é ridículo, pelo contrário, é incontestável pensar o valor à santidade. “Ela não se prende inteiramente às privações, ela está na certeza de que é preciso deixar o outro sempre em primeiro lugar em tudo – desde o ‘depois do senhor’ diante da porta aberta até a disposição – quase impossível mas que a santidade o pede – de morrer pelo outro”(POIRIÉ, François. Emmanuel Levinás: ensaios e entrevistas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84).

Guardadas as devidas proporções de contexto, o mundo hoje tem uma tremenda dificuldade de lidar com as questões éticas, talvez por causa do politicamente correto, da política da boa vizinhança, do jeitinho, da camaradagem, das conveniências e do excesso de ideologias. No coletivo, paira uma certa superficialidade entre os sujeitos. Um encontro que requer a presença autêntica, sincera do outro. Tudo é muito politicamente correto ao ponto de absorver a importância do caráter de cada um. A impressão que se tem é que os espaços sociais estão cheios de gente que se tratam como gente, fazem acordos, assumem compromissos, etc, mas, em algum momento, tudo pode ser quebrado e desfeito. A sensação é de que a santidade se faz cada vez mais urgente. Menos ideologia, mais ética, mais santidade.

Levinás deixa claro que a santidade precisa ser valorizada para uma sociedade e um indivíduo se tornarem mais humanos: “Não afirmo a santidade humana, digo que o homem não pode contestar o supremo valor da santidade. Em 1968, ano da contestação dentro e em torno da Universidade, todos os valores estavam no ar, exceto o valor do outro homem ao qual era preciso dedicar-se. Os jovens que por várias horas se entregavam a todas as diversões e a todas as desordens, no fim do dia, iam visitar, como a uma oração, os operários em greve na Renault. O homem é o ser que reconhece a santidade e o esquecimento de si. O para si expõe-se sempre à suspeição”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

A santidade se caracteriza como extravasamento da compreensão do ser, na medida em que se vive para outrem, apropriando-se de uma outra ordem, a ordem do humano. A santidade é mais do que racional, é um mandado divino que rompe com a ordem natural e nos insere na dimensão de reconhecimento do rosto do outro: “Vivemos em um Estado em que a ideia de justiça sobrepõe-se a essa caridade inicial, mas nessa caridade inicial reside o ser humano; a ela remonta a própria justiça. O homem não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como queria Heidegger, mas é o ser que já ouviu e compreendeu o mandamento da santidade no rosto do outro homem. Também quando se diz que originariamente há instintos altruístas, reconheceu-se que Deus já falou. Ele começou muito cedo a falar. Significado antropológico do instinto! Na liturgia hebraica cotidiana, a primeira oração da manhã diz: ‘Bendito seja Deus, Senhor do mundo, que ensinou ao galo a distinguir o dia da noite’. No canto do galo, o despertar para a luz”(Idem, p. 40).
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.
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O cinismo à sombra da filosofia de Diógenes, “o cão do céu”

(foto: Breno Bastos)

Geralmente o cínico é avesso à sensibilidade alheia. É bastante indiferente ao outro. Parece que o mundo à sua volta não lhe agrada tanto quanto deveria. Tudo parece girar em torno de seu eixo e de suas verdades. O cínico é mesmo louco por suas ideias, vez por outra solta uns lampejos firmes de refinada inteligência e perspicaz visão da realidade, destruindo opiniões óbvias e correntes de seu tempo. Na maioria das vezes, é dissimulado, ríspido com os afetos e constantemente contrário a quase tudo. Nada ou quase nada lhe satisfaz, aliás, a satisfação não faz parte de seu vocabulário irônico, a não ser que esteja em jogo a natureza, puro e simplesmente. A saciedade não é coisa para espíritos fortes e intragáveis como os do cínico.

A pessoa cínica parece sofrer de síndrome da super sinceridade. É um super sincero em potencial. A verdade, custe o que custar, é para o cínico como o seu pão de cada dia. Ele gosta, tem o maior prazer em falar a verdade na hora mais indelicada, no momento mais inconveniente. O cínico é despojado de bons costumes, de luxo, de uma vida opulente e assim por diante. Um exemplo disso é a famosa vida desprendida do cínico Diógenes de Sinope que, dentre outras curiosidades que cerceiam sua história, morava num tonel e gostava de fazer suas necessidades sexuais nas ruas e praças, também fazia suas refeições ao ar livre sem escrúpulo algum. Vivia como um cão: “Perguntaram-lhe que espécie de cão ele era; sua resposta foi: ‘Quando estou com fome, um maltês; quando estou farto, um molosso – duas raças muito elogiadas, mas as pessoas, por temerem a fadiga, não se aventuram a sair com eles para a caça. Da mesma forma não podeis conviver comigo; porque receais sofrer’. A alguém que lhe disse: ‘Muita gente ri de ti’, sua resposta foi: ‘Mas eu não rio de mim mesmo’”(LAÊRTIOS, Diógenes. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Brasília, UNB. 1977. p. 166). A despeito disso, “enquanto Diógenes fazia sua primeira refeição na praça do mercado os circunstantes repetiam: ‘cão’, e Diógenes dizia: ‘Cães sois vós, que estais à minha volta enquanto faço a minha refeição!’ Certa vez, Alexandre o encontrou e exclamou: ‘Sou Alexandre, o Grande Rei’; ‘E eu’, disse ele, ‘sou Diógenes, o cão’. Perguntaram-lhe o que havia feito para ser chamado de cão, e a resposta foi: ‘Balanço a cauda alegremente para quem me dá qualquer coisa, ladro para os que recusam e mordo os patifes”(idem, p. 167).

Na verdade, Diógenes, tratado por Platão e pela tradição filosófica de cão, talvez por possuir dentes finos e língua afiada, era muito sábio para ceder aos limites das convenções sociais e políticos de sua época. Sua vida foi toda ela ligada ao jeito socrático, irônico e impassível de ser. “A alguém que lhe disse: ‘És velho, repousa!’ Diógenes respondeu: ‘Como? Se estivesse correndo num estádio eu deveria diminuir o ritmo ao me aproximar da chegada? Ao contrário, deveria aumentar a velocidade. Conta Hecáton, no primeiro livro de suas Sentenças que certa vez Diógenes gritou: ‘Atenção, homens!’, e quando muita gente acorreu, ele brandiu o seu bastão dizendo: ‘Chamei homens, e não canalhas’. Conta-se que Alexandre, o Grande, disse que se não tivesse nascido Alexandre gostaria de ter nascido Diógenes”(idem, p. 160). 

Não se incomoda em incomodar. É um inconformado por natureza. Não é passional a nada, a coisa alguma, menos ainda a algum tipo de sentimento. Resiste às críticas de modo infalível, e sai ileso de cada uma delas. Dificilmente um cínico se aborrece com palavras de alguém. É muito nobre na arte de ironizar. Afinal de contas, a ironia é o seu grande negócio ou, até mesmo, sua arma de defesa contra seus inimigos, isto é, seus opositores. “Durante o dia Diógenes andava com uma lanterna acesa dizendo: ‘Procuro um homem!’ Certa vez, ele estava imóvel sob forte chuva; enquanto os circunstantes demonstravam compaixão, Platão, que estava presente, disse: ‘Se quiserdes compadecer-vos dele, afastai-vos’, aludindo à sua vaidade. Um dia alguém o golpeou com o punho e Diógenes disse: ‘Por Heraclés! Esqueci-me de que se deve caminhar protegido por um capecete!’ Alexandre, o Grande, chegou, pôs-se à sua frente e falou: ‘Pede-me o que quiseres!’ Diógenes respondeu: ‘Deixa-me o meu sol’”(idem, p. 162).

Aptos em atingir seus oponentes com palavras afiadíssimas, o cínico é semelhante à pedra ou ao ferro, forte e cortante, devido à extraordinária resistência aos conflitos de ideias. Mostra-se hábil na arte de falar e de persuadir as pessoas. O cínico é uma verdadeira máquina de pensar e de guerrear com palavras. Os argumentos de um cínico são incrivelmente convincentes, aguçados e lógicos. Frio e pusilânime, por inúmeras peculiaridades, o cínico é encantador na forma de debater variados assuntos sobre a vida e de celebrar maravilhosamente a liberdade de expressão: “A alguém que lhe perguntou qual era a coisa mais bela entre os homens, esse filósofo respondeu: A LIBERDADE DA PALAVRA”(idem, p. 169). Após a morte de um dos mais famosos cínicos da Grécia Antiga, ao lado de Antístenes, que difundiu tal escola, Diógenes legou supostamente uma imagem boa, de um homem abnegado das coisas materiais e supérfluas, que difundiu a ideia da felicidade pelos esforços requeridos à natureza, conforme à natureza simplesmente. Dele falaram: “Já não existe, ele, que foi cidadão de Sinope, famoso por seu bastão, pelo manto dobrado e por viver ao ar livre; foi para o céu, apertando os lábios contra os dentes e prendendo a respiração, tendo sido realmente um verdadeiro Diógenes de Zeus, cão do céu”(idem, p. 171).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos

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Somos destinados à beleza, ao jardim

 (fotos do jardim de Claude Monet, um colírio para os olhos)

         De pronto, ponho-me a escrever. É fascinante o mistério que envolve as coisas. Assim o é com a beleza, pois há muita beleza no mundo. A beleza é fascinante, é divina, é encantadora, mas é preciso ouvir a voz das coisas, admirar-se com a vida, admitir o mistério. Há algo escondido na imensa vastidão da aparência. As pessoas querem ouvir geralmente o que lhes agrada, o que faz bem aos ouvidos, às suas necessidades e o que as colocam novamente na dinâmica da vida. Isso faz sentido porque elas estão tentando alimentar sua subjetividade. Talvez, por isso, as pessoas sejam constantemente mais seduzidas pela beleza do que pela verdade. A beleza está mais ao alcance dos olhos do que a verdade. A beleza parece ser mais acessível, talvez não, mas o que importa é que ela está em algum lugar, em algum estalo da natureza. Ela se esconde e se mostra rasgadamente aos sentidos. Alguém já disse que a beleza é filha do olhar. Eu acrescento… de um olhar periférico e profundo, aparente e imanente, geral e singular. Ela é filha de um olhar cuidadoso, atencioso. Às vezes, nem é preciso olhar, mas sentir, imaginar talvez.

Mas, definitivamente, de uma coisa eu esteja certo, em tudo isso será preciso recolher o olhar e voltar a cultivar uma admiração irrestrita por um jardim. Como encontrar um jardim nas cidades movimentadas e poluídas? Como encontrar um jardim no deserto da vida? Como encontrar um jardim nos gélidos edifícios das grandes cidades? Como cultivar um jardim nas cidades pervertidas pelo consumo e pelas drogas? Como cultivar um jardim em nós? Deus, Epicuro, Francis Bacon, Rubem Alves… Quantos não falaram em jardins! Quando estou só caminhando em meus pensamentos utópicos, penso em jardins!

Não é assim a experiência de um nômade perdido na imensidão do deserto! Os povos do oriente vivem mais do que nós em contato com o deserto, talvez por isso vivam obcecados à procura de um jardim, de um oásis. Tal convivência com o deserto provoca nessas pessoas uma necessidade cortante de água, de verde, de plantas, de flores, de comida, de frescura, de abrigo, de proteção, de um lugar… As areias e o sol do deserto deixam essas pessoas não só extenuadas fisicamente, mas as deixam com uma sensibilidade e imaginação de tudo que é contrário ao deserto à flor da pele. Seria quase impossível não pensar em água de coco no deserto, não pensar num poço se excedendo de água ou numa fonte de água fresca jorrando sem parar. Se no deserto a terra não é fértil, a imaginação compensa esta falta. Não foi à toa que Saint-Exupéry falou tão maravilhosamente do deserto em seu livro “O Pequeno Príncipe”, numa certa altura ele diz como ninguém que o deserto é belo porque esconde, em algum lugar, uma fonte. Isto quer dizer que em algum lugar do deserto pode haver beleza. Em algum lugar do deserto há um jardim.

Vejam como é magnífico, muitos em seus pensamentos buscaram jardins, falaram bem dos jardins, das flores, da frescura dos perfumes que emanam delas, da beleza com a qual se veste, das inúmeras espécies que se estendem pelo mundo afora; como também da necessidade da natureza de se viver num jardim filosoficamente, para bem viver, para uma vida boa. Deus criou um jardim e nos colocou lá. Desde o início, diz Rubem Alves, “somos destinados ao jardim, somos destinados a ser jardineiros. O sonho do jardim apareceu entre os hebreus, porque eram nômades que moravam no deserto. Deserto é areia, é terra estéril, é escorpião, é cobra, é pedra, é secura, é sede”. Daí o sonho que lateja em nós à procura do jardim. Epicuro comprou um jardim em oposição à pólis desacreditada pelos gregos. Ele viu sabiamente que os homens queriam se recolher em comunidade num jardim. E assim formou, em pleno declínio da democracia, um jardim. “Compraram, então, um jardim na vizinhança, um pouco fora dos limites da porta de Dipylon, e passaram a cultivar alguns vegetais, provavelmente bliton(repolho), krommyon(cebola) e kinara(um ancestral da moderna alcachofra, cuja base era comestível, mas não as escamas). Sua dieta não era luxuosa nem abundante, e sim saborosa e nutritiva. Como Epicuro explicou a seu amigo Meneceu, ‘O sábio não escolhe a maior quantidade de comida, mas a mais agradável’”(In DE BOTTON, Alain. As Consolações da Filosofia. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. p. 71-72) . No intuito de viver conforme a natureza é que se buscou morar num jardim: “Portanto, sendo tal caminho útil a todos os que se familiarizaram com a investigação da natureza e desse modo de viver, tiro principalmente a minha calma, preparei para teu uso uma espécie de epítome e um sumário de elementos fundamentais de minha filosofia em sua totalidade”(D.L.,X,37).

É praticamente unânime a opinião de que o jardim é o lugar de maior repouso para o espírito do homem. O jardim é lugar de sossego, descanso e refrigério para a alma. No jardim, à sombra das árvores, em meio aos perfumes das orquídeas e margaridas, com borboletas esvoaçando suas asas por sobre as flores numa policromia admirável de cores e beleza, retomamos o rumo certo de nossas vidas e nos permitimos sonhar, pensar, filosofar. Não sei se disse o que tive intenção de dizer, no entanto, reforço a ideia de que no jardim podemos nos lembrar de onde viemos e de que estamos em harmonia com o todo, somos partes do todo; pensamos também o quanto é saboroso mexer com a terra e sentir o cheiro do mato; respirar ar puro, bem como ter a consciência de que a natureza é perfeita e precisa ser preservada, cuidada, porque se emancipa a todos nós. “Deus Todo-Poderoso foi quem primeiro plantou um jardim. Na verdade, plantar jardins é o mais puro dos prazeres humanos, isto é, aquele que constitui maior repouso para o espírito do homem; sem jardins, edifícios e palácios não passam de construções grosseiras”(Francis Bacon).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

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Viver com ou sem justiça?

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O anel do ancestral de Giges, invisível,seduz a rainha, mata o rei e assim por diante. Essa história levanta uma indagação ética: algum homem seria capaz de resistir à tentação da injustiça se soubesse que seus atos não seriam testemunhados?

A justiça é uma incógnita no mundo que nos consome. Há muito mais pessoas preocupadas e ocupadas com seu orçamento no final do mês e com outras questões da vida; do que com a justiça. A justiça está ao relento sem cobertor e calor, abandonada e fria. Não somos justos conosco; não somos justos com as escolhas que fazemos. Nem sempre somos coerentes com as atitudes tomadas, o que se abre de imediato, consequente a isso, a porta ao arrependimento e à culpa. Quando não agimos aos apelos da consciência, a frustração acaba tomando lugar em nossas vidas. Diariamente, vidas são soterradas por não haver esta preocupação em agir justamente. A verdade é que falamos muito de justiça e fazemos pouco dela!

Que não me entendam mal. Não se trata de se ajustar a nada, não é justeza ou ajuste de contas, mas uma permissão da consciência para se agir autenticamente. Simplesmente deixar que o agir siga o ser, “agere sequitur esse”. Não por acaso, os gregos antigos diziam: “As coisas belas são difíceis”.  Difícil porque as coisas feias como as injustiças estão por toda parte, em todo lugar. Basta darmos uma olhada de relance para nossos trabalhos, nossos salários, os serviços sociais, as políticas públicas, a saúde, a educação, os transportes públicos, as escolas públicas. É engraçado se compararmos o valor do maior salário para o valor do menor salário neste país. A discrepância é alarmante. Isso só pra ficarmos em salário. Imagine se ampliarmos ainda mais as comparações sociais no Brasil, ficaremos assustados com tamanha injustiça. Só pra termos uma ligeira ideia da desigualdade social em nosso país, dentre os ricos, muitos recebem remunerações astronômicas, além de possuírem um patrimônio invejável. O diretor de uma empresa numa cidade grande está ganhando o equivalente a R$ 60 mil em média. A Fundação Getúlio Vargas divulgou o ano passado, no mês de fevereiro, que o segmento dos mais ricos no país representam cerca de 10,42% da população, ou seja, 19,4 milhões de pessoas que concentram em suas mãos 44% da renda nacional. Excessiva riqueza nas mãos de poucos.

Se bem que tem muito político nesse país assaltando os cofres públicos descaradamente, o que também é uma tremenda de uma injustiça social. Como se não bastasse, as mordomias acumuladas em telefones, residências, viagens e gratificações escandalizam bruscamente a população má remunerada que tenta mais em exercer justiça e em se preocupar com ela. Por causa disso, os políticos no mundo inteiro ocuparam o posto de últimos colocados em credibilidade profissional. Segundo pesquisa feita ano passado, a classe política é a menos confiável pela população. Um descrédito por causa da injustiça, diga-se de passagem.

Platão, em sua obra clássica A República, nos mostra que a justiça é um desejo universal, um anseio de todos os seres humanos, em toda parte. Ela não é apenas um conceito no meio de um emaranhado de conceitos, mas uma condição para que a filosofia e o viver sejam aplicados. Não podemos nos esquecer uma questão aqui pertinente, a liberdade. Pois o que dá sentido a nossa liberdade é a justiça. Sem justiça é impossível haver liberdade, intencionalidade, consciência. O ideal perfeito de uma cidade justa proposta por Platão na Politéia, ou República, é a possibilidade de se pensar em meio ao que é real, a injustiça, o que deveria existir e não existe, a justiça, um valor ideal que não se perde de vista. A justiça, por isso, tem um alcance ético: ver não só o que acontece, as injustiças, mas o que deveria acontecer, a justiça. O fato da consciência alimentar a esperança ou desesperança de que é possível a justiça, coloca-nos entre aqueles para quem a vida tem sentido. Apoderados desse anseio, longe de nós qualquer negação aos interesses coletivos daqueles mais necessitados da sociedade, como também da realização plena de seus direitos. Nenhum de nós pode se dar ao luxo de ceifar uma vida digna às gerações presentes e futuras.

Dito isso, imaginem-se agora detentores de um poderosíssimo anel capaz de deixar-lhes invisíveis com a oportunidade de fazer o que bem quiser, certo ou errado, justiças ou injustiças. O que diria para si mesmo? Faria o que deveria ou não? Vejamos o que nos diz Platão sobre a justiça: “Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes factos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo tratou de ser um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder”(PLATÃO. A República. Lisboa: Gulbenkian, 4ª ed., 1983, pp. 55-60).


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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