Arquivo da categoria: Filosofia

A redescoberta do outro em Levinas

É gratificante ler Levinas por um motivo muito simples, a minha subjetividade vem afirmada pela proximidade do outro. Sou eu quando o meu eu se permite entrar em contato com o outro. No dizer de Levinas é assim: “Próximo é o que permite que o Eu seja Eu, se constitua como subjetividade pelo que a significação própria da subjetividade é a proximidade”. É muito comum entre nós se dizer “bom dia”, “como vai?”, “você está bem?”, “Olá”, enfim, antes de se falar com o outro, segundo Lévinas, é uma saudação como esta que provoca abertura a. Num certo sentido, o pensamento, a própria dúvida de Descartes, é sempre palavra. Não se trata aqui da questão meramente psicológica, sentimental, de saber se pode um pensamento sem palavra. Mesmo se isso existir, o pensamento quer ser palavra. E, falando(dirigindo-lhe a palavra), já se encontrou o outro.

Sua proposta filosófica é bastante íngreme, porém permeada de doçura e inteligência a partir do momento em que a relação com o outro se torna uma relação fundamental, pois é sobre ela que se enxertam o ser e o saber. “A partir da experiência da totalidade, pode-se passar a uma situação na qual a totalidade se despedaça, pois essa situação condiciona a própria totalidade. Essa situação é o fulgor da exterioridade ou da transcendência no rosto dos outros. O conceito dessa transcendência rigorosamente desenvolvido se exprime com o termo infinito”(Totalidade e Infinito, p. 23). O outro, pelo simples fato de existir, é razão do viver e do viver junto, porque é desafio a sair de si, a viver o êxodo sem retorno do amor.

Lado a lado com a alteridade, Levinas afirma que a felicidade baseada no consumo decadente visa apenas alcançar objetivos desenfreados a fim de consumir o sujeito num vácuo de sentido sempre maior. Ao passo que se entrevê a possível felicidade quando se entende que as razões do viver estão em outros e há um motivo verdadeiro para viver na medida em que se tem a quem amar. Contudo, vê-se em Lévinas ou com Lévinas o rosto dos outros, em sua nudez, em sua concretude, no simples pôr-se de seu olhar, é a medida para a falta de fundamento de todas as pretensões totalizantes do eu (Cf. ibidem, p. 23-25).

Portanto, “o outro não é a encarnação de Deus, mas é através de seu rosto, no qual está desencarnado, que a manifestação da majestade de Deus se revela”(Ibidem, p. 77).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

 

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Levinas e o trato com o dinheiro

O dinheiro é um assunto por si mesmo delicado, de modo que o nosso bolso vem a ser, nos dias de hoje, uma das partes mais delicadas e sensíveis do nosso corpo. Como se o bolso fosse um membro inerente ao corpo. Algo inteiramente absurdo.

A bem da verdade, é assim mesmo que tratamos o dinheiro, como algo essencial e imprescindível para a sobrevivência. Ao longo do tempo, o dinheiro vem sendo um fator preponderante nas relações econômicas, invadindo as relações do homem com o outro, com Deus, com o planeta e com a própria vida, o que é absolutamente questionado.

Levinas observa um aspecto interessante nesse valor monetário: “Na economia – elemento em que uma vontade pode dominar outra – sem destruí-la como vontade – opera-se a totalização de seres absolutamente singulares dos quais não há conceitos e que, em virtude de sua própria singularidade, se recusam à adição. Na transação realiza-se a ação de uma liberdade sobre a outra. O dinheiro, cuja significação metafísica talvez não foi ainda medida”(LEVINAS, E. Entre Nós. Rio de Janeiro: Petrópolis, Vozes. pp.63. 2004). Para Levinas, a pessoa está fora da totalidade quando na transação e no comércio o próprio indivíduo é comprado ou vendido, visto que o dinheiro sempre é, em qualquer grau, salário. “Contravalor de um produto, ele age sobre a vontade, que ele tenta, e apodera-se da pessoa”(ibidem, pp.64). Na visão de Levinas, o dinheiro jamais deverá usurpar a dignidade de ninguém, sobretudo seus direitos, seus afetos, sua paz, além disso, sua vida e sua fé, elementos constitutivos da consciência humana.

É super atual o tema em questão porque convivemos, a todo o momento, com uma mentalidade mundial global chamada de “neoliberalismo econômico” que escraviza ou redimensiona o ser humano a uma espécie de objeto de valor de mercado, onde não há limites. Se vamos ao banco para fazer um empréstimo e saldar nossas dívidas, pagamos o dobro do valor real pelo empréstimo. Um absurdo! Enlouquecemos analisando juros aqui e juros ali. É uma verdadeira guerra de vantagens e desvantagens. O valor econômico, no caso, o dinheiro vem diminuindo as possibilidades humanas de ampliar sua vida cultural e espiritual, pois as vontades da consciência ficam restritas ao que você pode ou não pode comprar. Se queremos viajar, o dinheiro vem na frente. Se queremos ler um bom livro é preciso analisar o preço pra ver se é suficiente ou não para comprá-lo. Se queremos melhorar a mobília da casa o orçamento não dá para cobrir. Se queremos comprar um carro não temos dinheiro. Se queremos fazer um curso melhor não temos dinheiro. Se queremos ter um filho não temos como mantê-lo. Se moramos de aluguel e queremos comprar uma casa o dinheiro novamente não dá. Ora, tudo nesse país esbarra no dinheiro, pois é ele que restringe nossas vontades de vivermos com mais qualidade.
Agora, deveríamos ter a consciência de que o dinheiro pode comprar muitas coisas menos nós mesmos. Ele não compra o homem, por mais pretensioso e ambicioso que seja este indivíduo. Do ponto de vista espiritual, a situação é mais grave ainda porque o homem de hoje tem a petulância de comprar tudo, mas aí é que se engana. Compra remédio, mas não compra saúde. Compra cama, mas não compra o sono. Compra casa, carro, mas não compra paz espiritual. Compra o poder político, mas não compra o Espírito Santo. Compra gado, fazendas e ações na bolsa de valores, mas não compra Deus. De fato, se pararmos um pouco e pensarmos, o que acumulamos na vida poderia servir tanto para concretizar a justiça, o amor e a partilha tão raros nesse mundão de uma economia neoliberal como para agradar maravilhosamente o nosso Deus. Mas, o homem já não sabe o que fazer com tanto dinheiro!
Não foi à toa que o Profeta Amós assim nos transmitiu o brado de Deus pelos pobres: “Por três transgressões de Israel e por quatro não retirei o castigo, porque vendem o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sapatos”(Am 2.6). A justiça na Bíblia tem a ver com santidade, pois é fruto da caridade e do amor. Segundo Levinas, a totalidade se dá quando o eu e o outro assumem uma reciprocidade tal que nada exterior a eles pode condicioná-los ou alienar, como se o mundo inteiro não existisse, somente aquela relação, é o que constitui o Nós. A cumplicidade do “nós” está fora no momento em que há usurpação pelo dinheiro, isto é, ao invés de ser dono do dinheiro, este é que é o seu dono. O dinheiro passa a ser seu dono, quando deveria ser o contrário! Daí ser oportuna, para concluir, a voz humanizadora de Levinas: “Não podemos atenuar a condenação que, desde o versículo 6 do capítulo II de Amós até o Manifesto Comunista, pesa sobre o dinheiro, exatamente por causa de seu poder de comprar o homem. Mas a justiça que deve salvá-lo não pode, contudo, renegar a forma superior da economia – ou seja, da totalidade humana – em que aparece a quantificação do homem, a medida comum entre homens, da qual o dinheiro – seja qual for sua forma empírica – fornece a categoria. É decerto muito chocante ver na quantificação do homem uma das condições essenciais da justiça. Mas concebe-se uma justiça sem quantidade e sem reparação?”(ibidem, pp. 65).

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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O outro não é o “mesmo”(mesmice)

Muito recentemente, tenho descoberto uma renovada alegria, encontrar-me com a inteligência do pensamento de Emmanuel Levinas. Sua linguagem bem elaborada faz, de quem o lê, balançar-se, sacolejar-se prá lá e prá cá em temas açucarados da atualidade, como: paz, guerra, violência, pluralismo, responsabilidade, alteridade, liberdade, entre outros.

Filósofo celebrado em seu meio acadêmico, Levinas é marcadamente aquele que é conhecido, de certo modo, por popularizar a cultura judaica em discussões altamente filosóficas ao rigor ocidental. Faz isso com muita habilidade e maestria, uma vez que transparece uma forte docilidade humana no modo de manifestar suas contundentes ideias em vista de uma concretude fenomenológica, isto é, o desejo de expressar o que realmente a consciência das coisas significa.

Estamos o tempo todo sendo engolidos por uma mentalidade gravíssima de consumismo. Não nos satisfazemos com o que temos, tampouco com o que somos. Não tínhamos um celular ao gosto, logo passamos a tê-lo, mais rápido ainda o desejo de possuí-lo acaba passando. O mesmo ocorre com uma televisão, com um carro, com uma casa, com o casamento, com a namorada, enfim, com quase tudo. Quase tudo é descartável e, rapidamente, num piscar de olhos, tudo isso passa a não mais implicar sentido às nossas vidas. Como escapar dessa mentalidade artificial, passageira, consumista, fútil, monótona que insere o homem moderno num tremendo vazio existencial? Levinas ousa explicar melhor esse problema e aponta uma possível solução.

“‘Mesmo no riso o coração sofre e na tristeza termina a alegria?’(Prov. 14.13) O mundo contemporâneo, científico, técnico e gozador se vê sem saída – isto é, sem Deus – não porque tudo lhe é permitido e, pela técnica, tudo possível, mas porque nele tudo é igual. O desconhecido logo faz-se familiar e o novo, costumeiro. Nada é novo sob o sol. A crise inscrita no Eclesiastes não está no pecado, mas no tédio. Tudo se absorve, se deturpa pouco a pouco e se enclausura no Mesmo, encantamento dos lugares pitorescos, hipérbole dos conceitos metafísicos, artifício da arte, exaltação das cerimônias, magia das solenidades – em todas as situações se suspeita e se denuncia um aparato teatral, uma transcendência de pura retórica, o jogo. Vaidade das vaidades: o eco de nossas próprias vozes tomado como resposta às poucas orações que ainda nos restam; em toda parte, recaída sobre nós mesmos, como após o êxtase da droga. Com exceção de outrem que, em todo esse tédio, não se pode abandonar.(…) As noções do antigo e do novo, entendidas como qualidades, não são suficientes à noção do absolutamente outro. A diferença absoluta não pode delinear ela mesma o plano comum àqueles que diferem. O outro, absolutamente outro, é Outrem. OUTREM NÃO É UM CASO PARTICULAR, UMA ESPÉCIE DA ALTERIDADE, MAS A ORIGINAL EXCEÇÃO À ORDEM. NÃO É PORQUE OUTREM É NOVIDADE QUE SURGE UMA RELAÇÃO DE TRANSCENDÊNCIA; MAS É PORQUE A RESPONSABILIDADE POR OUTREM É A TRANSCENDÊNCIA QUE PODE SURGIR ALGO DE NOVO SOB O SOL”(In LÉVINAS, Emmanuel. De Deus que vem à ideia. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes. 2008. Pág. 31).

É no finalzinho, lá no fim da linha do horizonte, ou se preferirem, “para além do horizonte” que há um clarão, contraponto da fria existência desmotivadora e monótona, o outro. Como contraponto do Mesmo surge o Outro. A novidade do outro responde aqui as questões da existência humana e aponta, segundo Levinas, uma saída concreta para a sociedade moderna, bastante louvável aos que amargam a uma vida pessimista e sem sentido algum.

O outro nos motiva. O outro nos renova. O outro nos faz viver. O outro nos eleva. O outro nos cura. O outro nos faz outro. O outro não é o mesmo. O outro nos arranca da mesmice!

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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Confissões…

 

Estava lendo a revista “Discutindo Filosofia” especial sobre Karl Marx quando me deparei com as Confissões do próprio Marx, por sinal, bastante reveladoras tendo em vista suas prioridades acerca da ideologia do trabalho. Estas Confissões são reveladoras, pois trazem a filigrana resumida do que representa para si mesmo o seu pensamento cravado na história.

Certa vez, Jenny e Laura, ao brincar com o Pai, fizeram um questionário para ele responder, do tipo “bate-bola”, em que as respostas seriam uma espécie de “confissão”. Esta, como disse, reflete bem sua personalidade enquanto filósofo:

“A qualidade que mais aprecia?

Nas pessoas, a simplicidade; nos homens, a força; nas mulheres, a fraqueza.

Seu traço característico?
A coerência de propostos.
Ideia de felicidade?
A luta.
Ideia de infelicidade?
A submissão.
O defeito que desculpa mais facilmente?
A credulidade.
O defeito que lhe inspira mais aversão?
O servilismo.
Uma antipatia?
Martin Tupper.
Ocupação preferida?
Percorrer sebos e livrarias.
Poetas preferidos?
Shakespeare, Ésquilo, Goethe.
Prosador preferido?
Diderot.
Herói preferido?
Espártaco, Kepler.
Heroína preferida?
Gretchen.
Flor preferida?
O loureiro.
Cor preferida?
O vermelho.
Nome preferido?
Laura, Jenny.
Prato preferido?
Peixe.
Máxima preferida?
Nada de humano me é estranho.
Divisa preferida?
Duvida de tudo”

(De “Confissão”, Die Neue Zeite, 1913)

 

 

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As três fases da vida de um Professor em Roland Barthes por Rubem Alves…

 

Explicando a Filosofia com arte 001.jpgCerta vez, numa palestra de Educação para a cidadania, em Santos São Paulo, o educador e escritor Rubem Alves pediu para que ninguém tomasse nota de suas palavras porque essa não era a maneira de levar a sério um assunto, mas o contrário, não levar a sério. Dizia ele que quando se está envolvido numa conversa afetuosa é até indelicadeza tomar nota. E brincava: “Não se toma nota quando se está fazendo amor”. Segundo ele, toda experiência de conversa é uma experiência de fazer amor. Tal motivo, o levou, na palestra, a citar o comentado Roland Barthes que emprestou algumas ideias suas para ilustrar o caminho da exposição de Rubem Alves naquela ocasião. Para Rubem Alves, este é o educador que ele mais ama, pois tinha a capacidade de extrair a beleza das coisas que seus alunos falavam. Era de uma delicadeza incomparável, uma vez que todos se sentiam inteligentes em sua companhia, afirmou Rubem.

Sendo assim, transcrevo um pouco aqui da sensibilidade de Roland Barthes em sua obra “A Aula”(Texto que produziu para uma aula inaugural como Professor de Semiologia no Collège de France) sobre as três fases da vida de um professor a partir das palavras de Rubem Alves.

“Na primeira fase, ensina-se o que se sabe. E é verdade, a gente ensina o que sabe, a gente ensina a criança a dar nó no sapato, a andar de bicicleta, a somar, a subtrair, a escrever, a gente ensina as coisas que sabe, a gente ensina a subir numa árvore, a pintar, a desenhar, enfim. Esse “ensinar as coisas que sabe” é um ato de transmitir as receitas de como viver o que a gente aprendeu. Parte dos nossos saberes são receitas, como receita culinária do livro da Dona Benta. Na segunda fase, então ele diz: mas a gente vive um pouco mais e começa a ensinar as coisas que a gente não sabe. Aí as pessoas perguntam: mas como é que a gente pode ensinar aquilo que a gente não sabe? Imagine que a minha filha me pergunte: pai, onde é que fica a Rua Sampainho? Sampainho é uma rua lá em Campinas. Então eu digo a ela: não sei onde fica a Rua Sampainho, mas na lista telefônica tem uma série de mapas, você procura o nome da rua, na lista dos endereços, e lá tem indicação do mapa e você vai achar. Eu não sei onde é a Rua Sampainho, mas, apesar de não saber, ensinei minha filha a achar a Rua Sampainho. Essa é uma das coisas mais lindas sobre a vida de um professor. Não é aquele professor que sabe o programa, isso é banal. Os programas estão em livros, os professores que sabem o programa vão desaparecer: eles serão substituídos por disquetes, programas e livros. Mas ensinar a encontrar é a coisa mais importante: isso tem o nome de “fazer pesquisa”… É isso que a gente faz, não é? Quando a gente está ensinando a fazer pesquisa, está ensinando a coisa que a gente mesmo não sabe. O orientador da pesquisa é aquele que não sabe nada, quem sabe é o aluno, o aluno vai lá, visita a coisa, vem e conta para o professor e o professor aprende. Na situação de pesquisa, o orientador se torna aluno do aluno que faz a pesquisa.Finalmente, com a terceira fase, chegou o momento supremo da minha vida, eu me entrego à maior de todas as forças da vida viva. Eu me entrego ao poder do esquecimento, procuro esquecer, desaprender tudo o que eu aprendi. Vejam que coisa curiosa, dizer que ele, professor de semiologia, estava se dedicando a desaprender tudo. Parece o contrário do ideal de aprendizagem, de educação, de que a gente vai cada vez saber mais. Ele está dizendo que queria saber menos, saber menos”(Rubem Alves, in Palestra sobre Educação para a Cidadania).

Estas são as três fases da vida de um professor na concepção de Roland Barthes conforme o jeito e o linguajear de contar do escritor Rubem Alves. Todo bom professor que se preze deveria ler e reler esse texto, antes de acharmos que estamos envelhecendo no prazeroso percurso do ensino-aprendizagem.

 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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A glória de Deus, sua Palavra e a natureza do ser na ética de Levinas.

Quando se encontra com o movimento e os trejeitos de capturar a natureza do ser em Emmanuel Levinas, descobre-se não só a importância que ele dá à ética, como também à Palavra de Deus, sobretudo em tempos que equivocadamente, a meu ver, exclui-se a relação da Filosofia com a Revelação divina. Acredito que essa aproximação traz uma riqueza formidável para o alargamento de nossa compreensão do mundo e da Natureza do ser.

Para Levinas, deve-se por em questão a “essencial natureza” . O que Levinas quer fazer é dar uma reviravolta no pensamento de sua época. Conheceu Heidegger, Sartre. Fora aluno de Husserl e contemporâneo de duas grandes guerras mundiais do Século passado. Não bastasse isso, Lévinas propõe superar seus contemporâneos, de tal modo que rompe com o subjetivismo individualista e psicológico de seus colegas de discussão filosófica. Dá à fenomenologia todo um estranhamento que lhe é própria.

Sua visão parte do outro homem. Pra começar, Levinas desconstrói uma metafísica inteiramente emotiva e caminha em direção à liberdade do outro, do rosto do outro, descobrindo aí o próprio âmago do fenômeno, um excedente de significação que chama de “glória” . A superação de Levinas tem uma saída que passa pela “glória”, a qual lhe suplica, reclama, convoca responsabilidade. Uma súplica, uma reclamação e uma convocação bastante coerente à sua visão do rosto de outrem. Daí, uma pergunta se faz oportuna: “Não se deveria chamar palavra de Deus esta súplica ou esta interpelação ou esta convocação à responsabilidade?” .

Mas Levinas recorre à palavra glória nesta obra, é bom que se fique claro, para falar do rosto que é, segundo ele, o excesso de significado pelo outro. Chegar ao extremo pelo outro. “A orientação da consciência sobre o ser na sua perseverança ontológica ou no seu ser-para-a-morte, em que a consciência está segura de ir ao extremo – tudo isto é interrompido frente ao rosto do outro homem. É, talvez, este além do ser e da morte que significa a palavra glória, à qual recorri ao falar do rosto” .

Levinas parece entender “glória” quase como um grito da natureza. Para lembrar Spinoza, o próprio Levinas afirma: “O humano por detrás da perseverança no ser”. Em outras palavras é ver o humano por trás do “conatus” de Spinoza, como se a natureza ficasse nua diante de nossos olhos.

Vejamos, assim, o que Levinas fala do natural para endossarmos esta ideia: “No natural do ser-ao-qual-importa-seu-próprio-ser, em relação ao qual todas as coisas, como o que está ao alcance da mão, como utensílio – e até o outro homem – parecem tomar sentido, a essencial natureza põe-se em questão. Reviravolta a partir do rosto de outrem em que, no seio mesmo do fenômeno em sua luz, significa um excedente de significância que se poderia designar como glória que me interpela e me ordena” .

Todavia, se a crise de seu tempo encontrava-se numa autonomia do eu que nega toda alteridade pelo assassinato ou pelo pensamento englobante e totalizante geradores de guerras e conflitos entre os povos, é preciso então erradicar a deposição pelo eu de sua soberania de eu: “Na deposição pelo eu de sua soberania de eu, sob sua moralidade de eu detestável, significa a ética, mas também, provavelmente, a própria espiritualidade da alma e, certamente, a questão do sentido do ser, isto é, seu apelo à justificação”.

Portanto, a deposição do eu(mesmo) como eu(outro) ou do velho eu a um novo eu também se inscreve assim: “A maravilha do eu reivindicado por Deus no rosto do próximo – a maravilha do eu desembaraçado de si e temente a Deus – é assim como a suspensão do eterno e irreversível retorno do idêntico a si mesmo” .

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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Cristianismo como contraponto ao Racionalismo

Immanuel Kant é o interlocutor constituído pelo cristianismo, racionalismo moderno e contemporâneo. No ponto alto da modernidade, ele é o mediador entre as duas vozes, a voz do cristianismo e a voz da razão.

Segundo Kant e o Iluminismo, a razão humana é o tribunal para julgar todas as coisas. Na Crítica da Razão Pura, Kant identifica na subjetividade do homem o elemento que organiza a experiência humana. Sem a atividade do sujeito não existe experiência inteligível, mas simplesmente um amontoado de coisas desarrumadas, um caos. Porém, quando o sujeito entra no negócio, as coisas passam a ter sentido e tudo fica arrumado no mundo. É impossível conceber o mundo sem a atividade da razão.

Para Kant, as formas “a priori” da sensibilidade e do intelecto organizam toda a experiência humana. Por meio da razão pura, o homem não pode chegar a Deus porque a esta realidade que é Deus, segundo Kant, faltaria o elemento sensível. Portanto, a razão não pode agir e se encontra numa grande “aporia”. O caminho a Deus, segundo Kant não é teorético porque a razão pura

não pode chegar a Ele. A Deus, segundo Kant, se chega por meio da Razão prática. Deus é um dos três postulados que tornam possível a moralidade(os outros postulados são liberdade e imortalidade da alma). Segundo Kant, a Religião tem valor como exigência de uma vida moral que seja racional. A razão é essa exigência de totalidade que abre ao ente superior que daria a recompensa da felicidade àqueles que praticam a virtude. Kant escreve uma outra obra chamada a “Religião nos limites da pura Razão” de 1794, nesta obra afirma que a existência de Deus se pode aceitar somente à luz da Razão prática; Se comparada com a Razão prática não supera a prova, esta Religião não pode ser racionalmente acolhida. A Razão prática é o critério de juízo sobre a validade de qualquer religião. Entre todas as religiões, aquela que mais realiza as exigências da razão prática é o Cristianismo.

Razão prática – moral.

Cristo – Cristianismo.

Graça – Filho de Deus – Revelação – Milagres – Sobrenatural.

O cristianismo, com efeito, tem uma moral, mas não se reduz a uma moral. Ele é definido como maior que a moralidade. É definido pela erupção da graça sobrenatural na história do homem através de Jesus Cristo; é definido pela Revelação. Kant reduz o cristianismo ao seu aspecto moral, eliminando toda a dimensão especificamente ligada a graça e a revelação. Esta operação se chama reducionismo. O cristianismo reduzido aquilo que concorda com o esquema da pura razão humana. Este reducionismo é ilegítimo não porque é contrário a fé, mas em primeiro lugar porque é contrário a natureza da razão. Com efeito, a razão não é um esquema fechado que se aplica a realidade, ela é algo que me faz conhecer o real, é um instrumento aberto que me permite dar conta daquilo que existe. A razão como “medida de todas as coisas” e como “tribunal” é de fato um preconceito: o preconceito racionalista. A razão determina e define as características de Deus; o que Deus pode fazer e o que Ele não pode fazer. A razão, de fato, não nega a realidade de Deus. A razão kantiana é um preconceito racionalístico porque define “a priori” o fato que Deus não possa revelar-se de uma forma surpreendente e maior que os simples elementos da razão prática.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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O politicamente correto

(foto: cena do filme “Intrigas de estado” – State of play, 2009- , de Kevin MacDonald, …)

Há quem diga que não se sente à vontade agindo assim; tendo que frear as emoções; abraçar quem não gosta; conviver com quem é intragável; tratar bem os inimigos; superar com sorrisos as antipatias; cumprimentar o vizinho que não suporta falar com você… E por aí vai. São inúmeras as circunstâncias de dissabores que nos arrematam para a famosa ideia do politicamente correto, bastante difícil de engolir e de aceitar.

As pessoas politicamente corretas, na maior parte das vezes, são absolutamente extremas e escrupulosas, fugindo, de quando em vez, das dosagens naturais de respeito e educação. Não é tão forçoso pedir um pouco mais de educação a um sujeito, mesmo que não concorde ou não aceite determinada opinião. Lembro-me de uma entrevista de Dodô, jogador do fluminense na época, que estava no banco de reservas imerecidamente. Ao ser perguntado pelo jornalista se ele concordava com a atitude de Renato Gaúcho, então treinador do fluminense, em deixá-lo no banco de reservas já que vinha de uma sequência de boas atuações pelo time, goleador, fazia a diferença, mas era sempre colocado no banco como uma segunda opção para os minutos finais da partida. Quanto a isso, Dodô afirmou de modo contundente: “Não concordo com a opinião do treinador, mesmo assim tenho que respeitá-lo e conviver bem com ele, afinal ele é o treinador e não eu, não vou sair do time por causa disso”. O fato de uma pessoa não concordar com alguém não quer dizer que ela tenha que ofendê-lo ou brigar com ele, mas o mínimo que se pede para um bom profissional é educação e modos amistosos de tratamento sociável, pois, do contrário, seria impossível conviver uns com os outros num ambiente de trabalho ou até mesmo numa vida em comunidade.

Em nossas relações temos que encontrar sempre uma porta aberta à generosidade, mesmo contra toda indiferença e toda ignorância. Afinal de contas, não custa nada uma pitada de humor para abrir esta porta ao outro. O humor, nesse caso, ajuda muito. Seriedade demais engessa as relações e acaba atrapalhando. É preciso muita leveza para não nos intrigarmos com o mundo todo, o que não é nada agradável. A intriga fecha portas; a amizade abre portas… A intriga só é interessante no campo das ideias, o que não tem nada a ver com isso que estamos falando agora. A intriga das ideias mexe com a curiosidade e a pesquisa. Esta, sim, é bem-vinda. Àquela das relações, não. Não edifica em nada, não constrói, não torna as relações entre as pessoas tão humanas quanto fidalgas.

Temos que ultrapassar a barreira do politicamente correto com a leveza dos gestos de gratidão e de amor. Apesar de termos nossas restrições com outras pessoas, nada nos impede de convivermos bem com elas. Todos temos nossas limitações. Eu sou assim e acabou. Sou diferente; o politicamente correto uniformiza. Nada de ficar se escondendo no politicamente correto com expressões do tipo: “Ah, cara, sua cor afrodescendente é bacana”; “Desculpe, não tomo refrigerante, estou fazendo dieta”, e etc. Palavras como “negro” e “gordo” foram omitidas do vocabulário do politicamente correto. Pensar assim é muito complicado, uma vez que há um sério risco de perdermos a identidade e de não contribuirmos para a formação de nossa personalidade. Acabamos por deixar de nos conhecer para conhecer o politicamente correto. Que coisa!

Diria mais, mesmo com aquelas pessoas super-avessas a nós, até mesmo inabordáveis, que não falam conosco, mesmo assim é preciso exercitar nossa fidalguia, nossa destreza nos bons modos. Nada de ofender, tampouco agredir as pessoas, simplesmente porque não gostamos delas. Afinal, ninguém é perfeito e nem será.

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

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A verdade (Alétheia em grego) para Heidegger…

Daí, a ética, segundo este filósofo, vir acompanha de uma noção de ética originária, e não simplesmente normativa, nem tampouco moralista. O “Dasein” sabe que sua implicação na vida deve ser sem qualquer norma, pois é constituído dessa liberdade. Esta é a essência da verdade, o “ser aí” dotado de mostração e manifestação, mas que preserva sua ocultação. A verdade é o desvelamento do ser conforme um movimento por dentro da idéia do mundo. “A essência da verdade se desvelou como liberdade. Esta é o deixar-ser ek-sistente que desvela o ente. Todo comportamento aberto se movimenta no deixar-ser do ente e se relaciona com este ou aquele ente particular. A liberdade já colocou previamente o comportamento em harmonia com o ente em sua totalidade…”(HEIDEGGER. Conferências e escritos filosóficos. In Col. Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1991. p. 130)

Verdade é o desoculto, aquilo que se mostra. Desocultar e ocultar não são separáveis, mas aquilo que no aparecer se oculta. Revelação. É o jogo luz e sombra na cultura barroca. Na arte, as obras se manifestam nesse tom, nessa linha. É um jogo de mostração e de ocultamento. “Justamente, na medida em que o deixar-ser sempre deixa o ente, a que se refere, ser, em cada comportamento individual, e com isto o desoculta, dissimula ele o ente em sua totalidade. O deixar-ser é, em si mesmo, simultaneamente, um dissimulação. Na liberdade ek-sistente do ser-aí acontece a dissimulação do ente em sua totalidade, é o desvelamento”(ibidem, p. 131).

O homem está sempre na verdade e na inverdade, para Heidegger. Ouvir e escutar são duas formas de dizer. O silêncio é uma forma de discurso. Este é originariamente silêncio. É radicalmente a fala que fala. Somos nós que falamos a fala que nos fala. A linguagem do silêncio está fora da razão. Através do silêncio é possível encontrar a verdade.

O ser mesmo é abertura, como vimos na analítica do Dasein.

Falar da verdade não é outra coisa senão expressar o Dasein. O lugar da verdade não é o juízo, mas o juízo que está na verdade. O fato de julgar não me diz a verdade, é absolutamente o contrário, a verdade é quem me diz o ato de julgar.

Heidegger desconstrói o tradicional conceito de verdade. O Dasein é transcendente a todas as possibilidades intramundanas de mudar. As coisas que estão aí são puras possibilidades de mudar.

Sem querer mudar de assunto, qual é o motivo da vontade humana? A vontade age sempre em função do bem. O que faz com que a vontade permaneça livre em escolher o bem? Não é o bem maior que determina a minha vontade de escolha, mas a vontade que escolhe o bem maior. Quanto mais um ato escolhe, mais totalmente envolve a existência e mais facilmente será livre.

Se a vontade estiver diante da totalidade do bem, ela não escolhe, mas necessariamente vai querê-lo. Mas só há um bem capaz de determinar a liberdade, Deus, Ser perfeitíssimo. Os outros bens particulares são livres para que o homem escolha ou não.

“O homem é uma paixão inútil”(Sartre).

“Nasce sem razão, vive sem sentido e morre inutilmente”(Heidegger).

“Seja como for, uma coisa se torna clara: a questão da Alétheia, a questão do desvelamento como tal, não é a questão da verdade. Foi por isso inadequado e, por conseguinte, enganoso denominar a Alétheia, no sentido da clareira, de verdade. O discurso sobre a Verdade do ser tem seu sentido justificado na ciência da lógica de Hegel, porque nela verdade significa a certeza do saber absoluto. Mas tampouco Hegel como Husserl questionam, como também não faz qualquer metafísica, o ser do ente, isto é, não perguntam em que medida pode haver presença como tal. Só há presença quando impera clareira. Esta, não há dúvida, é nomeada com a Alétheia, com o desvelamento, mas não como tal pensada”(ibidem, p. 80).

Ser clareira aqui, viver na clareira não tem nada a ver com luz, iluminação, mas mostração, desocultamento, verdade. O homem é apenas o lugar desta mostração.


Professor Jackislandy Meira de M. Silva
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Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

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