Arquivo da categoria: Brasil

O ENEM é um novo Vestibular? Tome sofrimento


Como não bastassem os vestibulares a cada ano ou a cada seis meses em todo o Brasil para trazer medo, insegurança, ansiedade e muito sofrimento aos alunos, ainda surge o ENEM, Exame Nacional do Ensino Médio para tirar o sossego dos jovens que batalham por uma vaga nas Universidades. Transformado equivocadamente a Vestibular, o que não deveria acontecer, o ENEM é uma prática, segundo o Ministério da Educação,  de averiguar o andamento da qualidade do Ensino Médio em todo o território brasileiro.

Todavia, o ENEM dá a possibilidade de ingressar em Universidades públicas e privadas dependendo da nota, a qual possivelmente será cadastrada pelo candidato no PROUNI, espécie de Programa do Gov. Federal que dá acesso às Universidades. Daí, a nota do candidato passa por uma triagem ou peneira para saber se vai ou não ingressar numa tão sonhada Universidade.

A Educação brasileira, a meu ver, está transformando os alunos em máquinas de memorizar, em burocratas da aprendizagem. Aprender por uma nota, por um resultado, para passar de ano, para entrar na Universidade a troco de muito estudo e sofrimento. Nada mais além disso. Cadê a alegria de aprender? O gosto de estudar? O prazer de conhecer?

Lembro-me de um livro de Rubem Alves, cujo título é  “A alegria de ensinar” em que o autor diz lá pras tantas algo assim: “Não critico a máquina educacional por ineficiência. Critico a máquina educacional por aquilo em que ela pretende produzir, por aquilo em que ela deseja transformar nossos jovens. É precisamente quando a máquina é mais eficiente que a deformação que ela produz aparece de forma mais acabada”. Não somos máquinas, somos humanos inteligentes com uma grande capacidade de esquecimento e como uma incrível sensibilidade de compreender nossos limites. Continua Rubem Alves: “Fico pensando no enorme desperdício de tempo, energias e vida. Como disse o Charlie Brown, os que tirarem boas notas entrarão na universidade. Nada mais. Dentro de pouco tempo quase tudo aquilo que lhes foi aparentemente ensinado terá sido esquecido. Não por burrice. Mas por inteligência. O corpo não suporta carregar o peso de um conhecimento morto que ele não consegue integrar com a vida”.

Impressionante visão revolucionária de Rubem Alves que mais acrescenta ao crescimento educacional brasileiro do que inúmeras notas acumuladas a cada edição de ENEM, na intenção de apenas satisfazer a uma política neoliberal de aprovação automática em virtude de índices educacionais para impressionar lá fora. Quanta ilusão. Precisamos acordar. Encontrar uma maneira mais leve de avaliar se os jovens estão ou não preparados para ingressar numa Universidade. Deveria ser uma progressão, saía-se do Ensino Médio, optava-se logo por um curso e buscava sua formação ou realização pessoal, sua felicidade.

Tenho a honra de terminar esta reflexão sobre o ENEM com as palavras de Rubem Alves, exatamente no dia em que se realiza mais um ENEM em todo o Brasil: “Hoje, quando escrevo, os jovens estão indo para os vestibulares. O moedor foi ligado. Dentro de alguns anos estarão formados. Serão profissionais. E o que é um profissional se não um corpo que sonhava e que foi transformado em ferramenta? As ferramentas são úteis. Necessárias. Mas – que pena – não sabem sonhar…”


Prof.: Jackislandy Meira de Medeiros Silva
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , ,

Reabilitemos a política!

Não que seja do meu feitio falar desse assunto no meu primeiro texto do ano, ou que eu queira, possa ou deva, mas por incrível que pareça a pedra de toque dos assuntos políticos do momento em Florânia é um tal de “acordão” que anda visitando o imaginário popular dos políticos profissionais, tendo em vista as eleições de 2012.

O mais interessante é que, para alguns políticos daqui, os acertos entre eles são chamados de “acordos”, “combinados”, “pacto”, “trato”, enfim… Para o povo, isto se chama troca e venda de interesses. Quem se vende? Por quanto se vende? Para que se vende? A resposta todo mundo sabe ou ninguém sabe. Fica um disse me disse nas ruas e centro da cidade porque paira sobre as cabeças inteligentes das pessoas o seguinte: Ou a política deixou de assumir o que lhe é própria, a discussão dos problemas da cidade para o bem de todos, ou diluiu-se nos interesses mesquinhos de nossos representantes. O fato é que a população não confia mais ou não confia tanto assim nos seus políticos.

O que é mais irônico nisso tudo é que os mais políticos, digo, os que se interessam pela mais baixa e degradante política partidária são os que menos sabem de política, mas são os que mais sabem tirar vantagens sobre os outros de modo escuso e obscuro. As negociações entre eles nunca são muito claras, esta é que é a verdade. Agora, as negociações entre eles e nós, entre eles e o povo são e devem ser sempre claras. O que tento dizer aqui é que não existe na política uma ideia unilateral que dispense oposições de ideias. A política é o campo da liberdade de ideias, do debate, da discussão, mas nunca de “conchaves”, de “cercos”, de “combinados”, de “acordos”, de “arrumadinhos” porque senão acabaremos por transformar a política num regime autoritário, dogmático ou aristocrático, onde o poder é centrado nas mãos de alguns. A política é um jogo democrático e aberto, de grupos abertos, não é uma plutocracia(poder econômico) de grupos fechados com interesses egoístas, embora se veja isso aqui e no Brasil afora. Por isso, NÃO a acordos, SIM a política!

Parece-me que em Florânia, há uma confusão no que diz respeito à política, pelo menos por alguns grupos políticos que se acham visivelmente no direito de levantar a bandeira da paz para promover um “acordão” político sem despesas econômicas para o próximo pleito. Isso não existe. É mais uma ilusão das mentes ociosas de alguns políticos de Florânia que só pensam nos bolsos, menos no povo. Temo, com isso, estar vendo a morte da política quando ela passa a ser uma mera formalidade. Não se pode ir para um pleito com “acordos”, com “combinados”, já antecipando o resultado. Isto é um absurdo! Não podemos compactuar com isso. Não podemos tirar o direito de escolha de ninguém, simplesmente comprando suas consciências, cruzando os braços, fechando a boca e não fazendo mais política. A política não está feita, ela se faz.

Vejam o que diz André Comte-Sponville, filósofo francês, sobre a política por fazer ou refazer: “A política não é o reino do Bem, nem da Ideia, nem da Razão. É o reino da força e das relações de forças, dos interesses e dos conflitos de interesses. Devemos então renunciar à justiça? De jeito nenhum. Devemos compreender que ela nunca é dada, nunca é garantida, e por isso está sempre por fazer ou refazer”(in Sabedoria dos Modernos, p. 453).

Precisamos reabilitar a política à sua dimensão mais digna e mais justa, sendo ela mais discursiva e menos dogmática. Ninguém manda na política de Florânia, visto que as pessoas se candidatam livremente para promover uma escolha mais democrática entre elas, e assim promover um debate de ações que visem à melhoria da população como um todo, não de uma parte apenas.

Nunca se viu na história de Florânia, por causa de alguns políticos renunciarem às suas convicções, tamanha liberdade política. Mediante um clima de insatisfação política, diversas pessoas ganharam autonomia para lançar suas propostas, seus projetos e seus nomes em vista, acredito eu, de uma Florânia melhor. O que é muito bom para a política e para a democracia em Florânia. Quanto mais candidatos melhor.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

Páginas na internet:
www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , ,

Passeio à Pedra “Liza”

O sítio Pedra Liza, diga-se de passagem, escrita com z e não com s, proporcionou-me nestas férias uma experiência inigualável em contato com a natureza. Natureza simplesmente pura, saída das mãos do Criador. Em alguns lugares ainda intacta e preservada da ação humana. Porém, não só a natureza é o aspecto predominante, mas também a convivência familiar da companhia alegre e entusiasmada de Selma Nobre que ora nos visita em Florânia, juntamente com sua irmã Lourdinha Nobre, matriarca da família, ao lado do casal das Dores Nobre e Seu Jorge com a grata presença de seu netinho Hélison.  O casal atualmente mora e zela pelo lugar, “para onde todos os caminhos levam a ele”, à Pedra Liza.

Ocasionalmente, cá estou eu com minha esposa Silmara Rejanny e minha sogra da Guia Nobre aproveitando o sossego da Casa Velha da Pedra Liza, de alpendre vistoso, portas e janelas largas, parece abraçar quem chega da cidade de Florânia, ansioso por um bom descanso nas redes armadas e bem abertas, preguiçosamente à espera dos anfitriões.

Quando se está bem acomodado à sombra do alpendre, percebe-se sem demora uma vista que enche os olhos de admiração, cujas nuvens chuvosas apontam altaneiras sobre a popular serra do carvão. Os periquitos, de quando em vez, dão o ar da graça com o seu canto. E por falar em canto, como se não bastasse o das rolinhas, das seriemas e cigarras na margem do açude, ainda se pode ouvir o canto do pássaro Mãe da Lua durante à noite inteirinha, anunciando bons presságios para o agricultor que espera por chuvas nessa época do ano aqui no sertão do Seridó.

O sítio pedra liza, na zona rural do município de Florânia, localizado entre os Bentos e Salgado, faz fronteira com o Município de Jucurutu/RN e é um colírio para os nossos olhos, uma vez que sua natureza acorda todos os dias deslumbrante por trás de suas serras. Visitando o sítio e vasculhando um pouco da sua história, não dá como não lembrar da figura de Seu Hercílio Nobre, um homem que, antes de tudo, amava a agricultura e fazia questão de viver da terra com uma família de 12 filhos criados, dos 23 nascidos, fora moradores e trabalhadores do sítio. Conta-se que Seu Hercílio, ao ver a mesa farta de alimentos, perguntava a todos: “Observem a mesa e vejam o que tem  comprado?”. Praticamente nada era comprado, a não ser a farinha e a rapadura, mas o resto, tudo era produzido na Pedra Liza. Talvez, por isso mesmo seus filhos sejam tão apegados à terra de origem. A terra da qual surgiu boa parte da tradicional família Nobre.

A harmonia do homem em seu estado interior com a Natureza à sua volta é muito marcante. Vacas, bezerros, burros, jumentos, açudes, rios, peixes, serras verdinhas, pássaros, estercos. Tudo em volta cheira à natureza.

A noite é um pouco estranha porque é muito quieta e calma, sem a companhia da televisão, do PC e da internet nos víamos apenas com o barulho do mijar das vacas no curral durante toda a madrugada. Mas o dia foi de todo empolgante. A Selma, tia de minha esposa não parava de fotografar o movimento da natureza que transcorria silenciosa sem pedir licença. É uma beleza magistral poder não apenas ver, mas sentir a presença de Deus em tudo isso. É Deus que está aqui agora, porque é Ele o responsável direto por tudo. É ele quem dá luminosidade ao céu. É ele quem enche de vida as matas. É Ele quem nos chama para contemplar o seu infinito. É Deus quem distribui com amor os benefícios da terra. Somente Deus toma para si a imensa Criação e diz assim: fiz para que a dominasse com inteligência. O livro do Gênesis tem a ver conosco!

Para terminar, muito me impressionou um achado curiosíssimo da Sra. das Dores Nobre de uma telha antiquiquíssima, datada do século passado(11 de dezembro de 1914), que provavelmente remonta da construção da Casa Velha da Pedra Liza muito anterior a esta data(fins do séc XIX)que, dentre outras tantas coisas que contam, o seu alicerce até a alta calçada toda feita manualmente de pedras enormes, possivelmente pedras carregadas em lombos de burros.

A Pedra Liza reuniu um pouco de tudo nesse passeio de dois dias, histórias, saudades, família, reencontro com a Natureza do lugar e, finalmente, a comida simples e saudável à base de coalhada, queijo de manteiga, leite natural, peixe, frutas, enfim….


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB
Páginas na internet:

www.umasreflexoes.wordpress.com
www.twitter.com/filoflorania

 

Etiquetado , , ,

A “Loteria” do poder

Slavoj Zizek é um pensador daqueles que fogem à regra. Filósofo esloveno, comunista convicto, afeito à Psicanálise e ao cinema com todas as suas facetas, não perde um segundo de pessoalidade e ironia em suas colocações. Um sujeito polêmico, mas incrivelmente otimista. Talvez duas forças destoem de seu temperamento, curioso e engraçado ao mesmo tempo. Pude perceber um pouco do universo de seu pensamento pelas entrevistas que concedeu recentemente à globo news, como também por sua vinda recente à São Paulo, onde participou de uma série de outras entrevistas, uma delas publicada na Revista Cult, junho de 2011, nº 158.

O mais engraçado de suas declarações ultimamente foi o fato de admitir a possibilidade de um sorteio para se chegar ao poder, como numa espécie de loteria. Imagine você assistir da sua casa a um sorteio de seus candidatos pela TV ou pelo rádio, ou mesmo pela internet. O que você diria disso? Pois é. Uma alternativa discutida por esse filósofo que não diz nada à toa. Há por trás dessa ideia alguma coisa de muito, mas muito séria. Não é uma ideia de se jogar fora.

Repare bem que estamos em tempos de uma desconfiança muito grande na democracia, no seu sistema eleitoral, no caminho que se faz para se chegar ao poder em qualquer parte do mundo. As nossas eleições estão cada vez mais caras e ditam um ritmo de corrupção indesejada pela opinião pública. As ditaduras espalhadas pelo mundo estão caindo(caso da Tunísia e do Egito) porque não respondem às expectativas populares de subsistência mínima que vai da comida à economia passando pela ecologia. Ora, se assistimos à queda de regimes de extrema esquerda, também assistimos a grandes estragos em regimes políticos de extrema direita ao longo da história. Experiências de governo parecem ter frustrado a humanidade nos últimos decênios, ainda assim insistimos em voltar a alguns, como é o caso da insistência de Zizek pelas ideias de Marx e outros que defendem a força quase imorredoura das manifestações populares, das reivindicações das camadas trabalhistas em benefício da solidez do Estado e da qualidade de quem o governa. Com uma boa dose cômica em suas palavras, Zizek não abre mão de suas convicções pró-comunistas que vão da fina crítica ao liberalismo econômico dos países capitalistas, propondo uma derrubada gradual e não imediata do capitalismo à eleição de governantes por sorteio.

No Brasil, as reeleições parecem ser um entrave quanto à alternância do poder, muito embora se questione em algum momento a qualidade deste poder. Segundo Zizek, mesmo na Grécia, palco fundante da democracia, “as pessoas já sabiam que é preciso haver algum elemento de contingência na democracia. O único jeito pelo qual a democracia funcionaria seria combinar qualificação e contingência”(Rev. Cult, junho 2011, nº 158, p. 17).

Zizek sorri da fragilidade do sistema capitalista ao qual estamos submetidos, lembrando a crise econômica de 2008 que assustou a todos e sua relação com a democracia: “Há limitações na democracia como a conhecemos, mas os principais candidatos à sua sucessão não funcionaram bem… Em 2008, os bancos ocidentais estavam em pânico e não forneciam crédito. Na China, o poder central apenas ordenou aos bancos que o fizessem. É por isso que a Europa retrocedeu e a China cresceu… Os sonhos do século XX acabaram. Vocês, brasileiros, têm a sorte de não terem recebido uma dose muito grande de populismo. Na Argentina, o peronismo foi a pior catástrofe que aconteceu”(idem).

Ao comparar o populismo de Lula com o de Chávez, lança-se totalmente a favor de Lula: “Não vamos confundir populismo com apelo popular… Mas o trágico em Chávez talvez seja o fato de ele ter dinheiro demais, de modo que pode mascarar as dificuldades em vez de enfrentá-las”(idem). Para ele, o genial da democracia é o que as sociedades mais maquiam e escondem, a ideia de que o trono do poder estará sempre vazio: “E se dissermos que o trono está sempre vazio? O trono é ocupado apenas temporariamente e reocupado pelas eleições livres”(idem). É aqui onde mora o fiasco do sistema eleitoral brasileiro, as eleições não são tão livres assim. Há o direcionamento das mídias pelas propagandas sem limites quase que escolhendo por nós. Há o uso do dinheiro público desenfreado no período eleitoral que financia as mais questionáveis formas de adquirir voto. Há a cumplicidade popular que não resiste à estrutura corrupta das eleições no país: Ou por necessidade ou por oportunismo. A democracia está absolutamente restrita, muitas vezes, às condições de propaganda e marketing, bem como às estruturas de lista pronta dos partidos.

Com todo este cenário desolador da política brasileira, ainda assim é possível pensar seriamente numa “loteria” do poder? Diz Zizek que sim: “Quando Veneza era superpotência nos séculos XIV e XV, suas regras para a eleição eram a coisa mais louca. Não digo loucura completa, com a escolha de idiotas. Há regras para que os idiotas não cheguem lá. Mas, no limite, deve ser uma loteria”(idem). Diante do estado de coisas desarrumadas em que se encontra a estrutura das eleições democráticas no Brasil, unindo-se ao nefasto desgaste sem critério com que se elegem as pessoas mais despreparadas possíveis ao poder, não seria demais, tampouco exagero, criar uma malha fina com critérios rigorosos para que o Estado ganhe pessoas dignas, qualificadas e que atendam aos apelos populares de ecologia, economia e bem-estar social.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
Páginas na net:

 

Etiquetado , , ,

Reações de uma copa

O evento Copa do Mundo no Brasil está nos elevando à condição de sujeitos políticos, incapazes de deixarmos passar batida qualquer informação que envolva gastos públicos com estádios da copa. Nunca fomos tão fiscalizadores dos gastos públicos como agora. Até parece que a população, por conta própria, abriu uma CPI para investigar as obras superfaturadas, não só de construção dos estádios, mas principalmente de infraestrutura das sedes, que se multiplicam assustadoramente às vésperas da copa, quando se acendem as luzes do “grand” espetáculo e se apagam aquelas da indignação.

Essa saudável reação política da população com a copa não é inédita. Tivemos outras copas que também nos fizeram despertar do sono político. O brasileiro é como um jogador em campo; de repente sofre um apagão. Aí acontece um evento fortíssimo que o tira do lugar-comum, daquela sonolência absurda, e o põe numa situação de alerta total.

A reação é legítima, mas não é única. Na copa de 1970, quando fomos tricampeões mundiais de futebol, o cenário político não era dos mais agradáveis. Amargávamos uma ditadura militar sob muita tortura e repressão aos direitos políticos. A população não gozava de liberdade de expressão e era impedida de se opor ao governo Médici, que conduzia o país de forma autoritária por ser considerado um militar de “linha dura”, responsável pela tortura e morte de muitos civis. Mesmo assim, a sociedade brasileira não abriu mão de torcer, sofrer e, no final, comemorar a estupenda vitória da seleção em cima da Itália por 4 a 1. Foi um momento em que o povo, em plena crise política, exultou de alegria.

Inegavelmente, um evento copa, sobretudo quando ocorrido na sua própria casa, guarda um paradoxo sem precedentes. Por um lado, é um momento oportuno para os sanguessugas políticos e donos de empreiteiras aproveitarem os altos investimentos do governo com obras da copa para agenciar iniciativas de ordem político-eleitoral, visto estarmos em ano de eleições no Brasil. Por outro, é tempo de ficarmos ainda mais de olho no que estão fazendo com o dinheiro público e percebermos como os interesses são mesquinhos e cada vez menos coletivos. Daí, durante a copa, não pararmos de fazer a crítica.

O governo aproveita a copa para fazer propaganda eleitoral, responder a oposição na direção de que o país está avançando na economia, oferecendo empregos e melhorando a qualidade de vida, porém o povo também não fica atrás e aproveita para reclamar dos serviços públicos, cobrar de seus governantes o que muito ainda está por fazer na educação, na saúde, segurança e combate à corrupção com reformas políticas.

Infelizmente não correspondemos aos efeitos de um evento copa. Podíamos ter investido muito mais em mobilidade urbana, metrôs, outros meios de transportes, ampliação de aeroportos, modernização das cidades, turismo, etc. Tudo o que a imprensa vem falando faz sentido, embora seja agenciada também por interesses de ordem política e econômica. Por trás dela há muita gente influente.

Parece que só o futebol produz esse duplo movimento: reações contra e a favor da copa. Os que dizem não à copa são movidos por um sentimento politicamente correto de que é preciso não baixar a guarda e gritar as injustiças mesmo durante os jogos, certamente não se envolverão com os jogos, não torcerão. Os que são a favor, e esta é uma maioria afirmativa, irão procurar vivê-la de qualquer modo, com ou sem indignação, com ou sem senso do ridículo. Além disso, o que se espera de um país democrático é que as reações sejam pacíficas e ordeiras.

Para experimentar, de fato, a Copa do Mundo aqui no Brasil com todas as suas demandas é interessante considerar o que disse o escritor colombiano, Gabriel Garcia Márquez, num texto seu chamado “El juramento”, onde descreve a sensação de ter virado torcedor de um time de futebol: “O primeiro instante de lucidez em que me dei conta de que tinha virado um torcedor intempestivo foi quando percebi que durante toda a minha vida eu tive algo do qual sempre me orgulhei e que agora me incomodava: o senso do ridículo”.

Vale a dica: envolver-se com a copa implica desvencilhar-se do senso do ridículo.

Boa copa a todos.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Bel. e Licenciado em Filosofia, Bel. em Teologia, Esp. em Metafísica e em Estudos Clássicos

Páginas na net: www.umasreflexoes.blogspot.com; www.chegadootempo.blogspot.com; www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , ,

“Futebol total” na copa das copas

A alardeada expressão “futebol total” tomou conta do mundo em 1974 por uma seleção que, embora não fosse campeã naquele momento, ainda assim encantaria o mundo com jogadas traçadas de um lado a outro do campo; passes perfeitos de pé em pé cheios de beleza e risco; blocos de jogadores que se deslocavam fácil e sincronicamente da defesa, passando pelo meio, até o ataque, de modo que nenhum jogador parecia exercer uma posição fixa, mas jogavam em todas as posições e ao mesmo tempo nenhuma. Era um futebol vistoso e dinâmico.

Tal seleção era conhecida como “carrossel holandês” pela forma como rodava a bola e invertia as jogadas, aproveitando todos os espaços do campo de jogo. Aliado ao famosíssimo “tiki-taka”, executado recentemente pelo Barcelona de Cruyff e de Guardiola, como também pela seleção espanhola, o “futebol total” oferece características táticas muito presentes ainda hoje no futebol visto em boa parte do mundo, sobretudo agora na copa do mundo de 2014 aqui no país do futebol, onde acontecerá, ao que todos dizem, a copa das copas.

Ao contrário da seleção espanhola, a brasileira não segue britanicamente o esquema tático “futebol total”, mesmo que se percebam fortes características deste futebol no esquema de jogo proposto pela atual seleção brasileira. Veja que o Brasil tem zagueiros, volantes, laterais, meias e centroavante que não obedecem rigorosamente suas posições específicas em campo, e, no entanto, avançam, marcam ou atacam quando convêm. É muito comum num jogo de futebol atual observar estas características que foram preservadas de um estilo de jogo que rendeu importantes títulos a equipes na Europa e em Copas do Mundo até bem recentemente.

Duas equipes carregam especificamente o jeito de jogar vencedor do “futebol total”, o Barcelona e a seleção espanhola, campeã da última copa do mundo.

É óbvio que no Brasil veremos um desfile de volantes fazendo a festa em suas seleções, uma vez que são eles responsáveis pela maior parte das roubadas de bolas, das ligações entre a zaga, meio e ataque, sem contar a truculência da força física. O que impera na presença desse jeito de jogar, que ainda perdura, é um futebol sistemático, extremamente tático, programático e burocrático. Os grandes “meias” não aparecem mais, os laterais que iam ao fundo e cruzavam artisticamente estão em baixa, os clássicos batedores de falta andam ausentes.

Assistiremos a um futebol de muita tática, pouca técnica; esquemas que priorizam a dura marcação em detrimento do bom drible, da ousadia e da individualidade. Prender individualmente a bola é quase proibido.

A seleção brasileira aprendeu muito nos últimos tempos a compactar mais seus jogadores na movimentação em campo, sobretudo quando se desloca ao ataque e quando se desloca para a defesa. Idas e vindas do ataque para defesa a que se cuidar com a organização, a compactação em blocos. A nova onda agora é a marcação sob pressão, executada hoje pela seleção brasileira no amistoso contra a seleção da Sérvia. Algo que o Brasil vem fazendo constantemente em seus jogos. Uma prática que o levou a conquistar a Copa das Confederações ano passado aqui no Brasil.

Diferente de escolas mais sistemáticas, apegadas a um futebol arrumadinho, matemático, repleto de estratégias como a italiana, espanhola, holandesa, alemã; a escola brasileira, contagiada pelo futebol sul-americano dos uruguaios, argentinos, paraguaios e chilenos, acrescenta um estilo de jogo ao “futebol total” que a faz diferente das outras porque agrega habilidade, criatividade, ousadia, beleza, originalidade e efetividade; não por acaso ganhamos 5 vezes.

Vide imagem do campinho (esquema) da seleção holandesa em 1974. Tática pura com excelentes jogadores.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Bel. e Licenciado em Filosofia, Bel. em Teologia, Esp. em Metafísica e em Estudos Clássicos

Páginas na net: www.umasreflexoes.blogspot.com; www.chegadootempo.blogspot.com; www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , ,

Ufa! Conseguimos

Depois de vivermos a “copa” da FIFA com suas exigências astronômicas, conseguimos terminar a arena Itaquerão a tempo para o jogo de abertura. Conseguimos.

A “copa” das manifestações populares que refletem a indignação de muitos, esgotados com o descaso no serviço público e com a corrupção na política, não conteve a paixão nacional por futebol e rendeu-se à força do evento, à importância do momento. Conseguimos.

Não esquecendo ainda a “copa” da direita e da esquerda brasileiras que, escandalosamente, puxa o cordão dos oportunistas visando às eleições deste ano; conseguimos apagá-los do maior espetáculo da terra. Foram ofuscados pela cerimônia, pelo hino nacional e pelo futebol vitorioso da seleção brasileira. Conseguimos.

Conseguimos superar um movimento ousado nas redes sociais e em diferentes mídias que expressavam o desejo extremo de boa parte da população que se dizia contra a copa: “não vai ter copa”.

Superamos até um gol contra de Marcelo, zagueiro da seleção brasileira, no início do jogo ao enfrentarmos os croatas, mas conseguimos abatê-los antes mesmo de tripudiarem sobre nossa força e fraqueza, a torcida presente no estádio. Conseguimos.

Não bastasse a ansiedade natural antes do jogo da estreia, conseguimos suportar pacientemente uma experiência desconfortável de ficar atrás no placar por cerca de dezoito longos minutos quando veio o épico gol de Neymar no cantinho do goleiro Pletikosa. Mesmo a bola tocando na trave, conseguimos.

A virada foi radiante. Oscar, que fez uma partida impecável, lança a bola para Fred dentro da área e sofre o pênalti meio polêmico. Neymar bate, mas a bola resvala nas mãos de Pletikosa, que não impede o gol da virada. Conseguimos.

Mas a maior pressão estava por vir. No segundo tempo, um jogo confuso e muito veloz, embalado por uma atuação permissiva do árbitro japonês Yuichi Nishimura, a Croácia sufocava o Brasil sem piedade até aos 45 minutos, quando Oscar parte em contra-ataque com a bola e chuta de bico para aliviar a todos. Conseguimos.

Conseguimos emplacar 3 a 1 em cima da Croácia, o que não diz muito sobre o drama vivido em campo pela seleção brasileira.

Conseguimos vencer os “ics” croatas, Modric, Rakitic, Perisic, Kovasic, Brozovic, Olic, Jelavic, Rebic… Ufa!

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo.

http://www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , ,

O jogo do quase

Numa semana em que nossos zagueiros Tiago Silva e David Luiz usaram e abusaram as redes sociais para pedir à torcida que fosse ao castelão, estádio do jogo da partida Brasil x México esta tarde, e cantasse o hino abraçada, imaginávamos, pelo pedido, que a seleção viria com tudo para cima do México, apresentando um futebol seguro, criativo e objetivo. Não vimos isso.

Sobrou, de novo, emoção no hino; faltou bom futebol à seleção.

Vimos uma seleção do quase, chegando ao quase com um jogo do quase.

Não era bem isso que esperávamos contra o México, pois vínhamos de uma vitória brilhante na Copa das Confederações ano passado, onde não ficamos no quase, porém ganhamos de 2 a 0.

Vimos um jogo franco de ambos os lados. As duas seleções não temiam atacar, mas não abriam mão de se defenderem muito bem.

A seleção brasileira quase faz o gol em duas oportunidades, em duas cabeçadas impressionantes; uma no primeiro tempo com Neymar; e outra com Tiago Silva a queima roupa no segundo tempo.

Tivemos outras chances de vencer o quase, mas elas pararam nas mãos do goleiro Ochoa da seleção mexicana.

Por falar em Ochoa, este sim foi um verdadeiro protagonista no empate de 0 a 0 entre Brasil e México, suas defesas davam confiança à equipe e empolgavam a pequena torcida mexicana no estádio.

O futebol mexicano fluía tão bem em campo que sua torcida conseguia concorrer com a nossa, apesar da imensa diferença numérica.

Num jogo em que o gol ficou no quase, não é de estranhar que o destaque tenha sido a defesa das duas equipes, fora os chutes de longa distância dos ousados e habilidosos mexicanos.

É fato que saímos deste jogo com uma sensação de derrota, mas as expectativas são otimistas em relação ao que vem pela frente, Camarões, quase não vem à Copa, quase renuncia a participar desta competição.

Quanto aos pedidos feitos pela zaga brasileira esta semana na intenção de motivar o grupo, não caem bem quando a seleção joga mal. Agora é a nossa vez de pedir, quem sabe, um futebol melhor e mais criativo; deixe-nos torcer espontaneamente.

Talvez assim não fiquemos temerosos a um quase nesta competição.

Engraçado, Hulk quase jogou, a seleção também. À parte o hino, a torcida quase torceu.

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo.

http://www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , ,

A classificação

Seleções tradicionais são eliminadas precocemente da Copa das copas, como é o caso da atual campeã do mundo Espanha e da Inglaterra dos Beatles e do filósofo John Locke. Portugal, Itália e Uruguai se complicam e estão por um triz. Costa Rica, Bélgica e Colômbia antecipam suas classificações surpreendentemente.

Na verdade, surpresas não faltam nesta Copa da terra “brasilis”, até mesmo Ronaldo fenômeno foi alcançado na artilharia das copas por Klose, jogador da Alemanha, que por sinal faz uma campanha excelente neste torneio.

Toda essa atmosfera deixa o ambiente do jogo Brasil x Camarões ainda mais tenso. Incomodado pelo resultado pífio de 0 a 0 contra o México, a seleção brasileira começa o jogo sufocando Camarões querendo abrir logo o placar, mas o que vimos no início foi uma seleção apressada e um pouco descontrolada em campo nos primeiros minutos do jogo.

Exposta em campo e sufocando o adversário, a seleção consegue um contra-ataque pela esquerda com Luiz Gustavo que lança rapidamente Neymar que dá uma tapa de chapa na brazuca e põe pra dentro do gol Camaronês.

A partir daí, mesmo sofrendo um gol no apagão da zaga brasileira, a seleção não abdicou de atacar e buscar os gols necessários para sua classificação.

Caindo sempre pela esquerda, Neymar arranca da esquerda para a intermediária e faz um golaço, puxando uma sequência de gols que viria a premiar a bela atuação da seleção brasileira no segundo tempo.

Ao terminar o primeiro tempo, Neymar já sai como o artilheiro desta copa, mas ele e seus companheiros também saem com a impressão curiosa de que a seleção dos Camarões não era a mesma dos dois últimos jogos que fizera contra México e contra a Croácia, acumulando assim duas derrotas. Era uma seleção aguerrida em campo, veloz e disposta a mostrar que sabia jogar. Jogara pra valer, certamente querendo atrapalhar a festa da classificação da nossa seleção.

Com a saída do volante Paulinho no segundo tempo, os planos da seleção camaronesa não lograram êxitos. Fernandinho, camisa 5 da seleção, entra no time e aproxima mais os jogadores do meio com o ataque, compactando mais a seleção brasileira na forma de jogar. Ora, o Brasil ganha o meio-campo e ganha o jogo.

No segundo tempo, mais dois gols; um de Fred com tabelinha rápida entre Fernandinho e David Luiz; e outro de Fernandinho numa troca-de-passes com Fred e Oscar.

A classificação em primeiro lugar do grupo A só veio mesmo a se confirmar com o gol de Fernandinho no finzinho do jogo, resultando um placar de 4 a 1 para a seleção brasileira. Acumulando 5 gols de saldo contra 3 do México no final desta fase de grupos, assumimos assim uma posição que nos implicará jogar o mata-mata com o segundo lugar do grupo B, o Chile.

Enquanto isso, a Copa começa a ficar séria dentro de campo, onde se é cada vez menos possível admitir erros.

Nas oitavas de final, o Chile do poeta Pablo Neruda nos encontre assim: “Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta, mas é o teu coração que distribui no meu peito os dons da aurora” (In Cem Sonetos de Amor, Pablo Neruda).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo.

http://www.twitter.com/filoflorania

Etiquetado , , , ,
Parafraseando-me

Meu fazer e refazer constantes

Didáctica de la Filosofía

Enseñanza de la filosofía

Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Clube Literário do Porto

Um lugar onde a Cultura acontece

Poesias, frases e textos

Melhores poesias, frases, crônicas, textos e música

Da Literatura

Um blog sobre livros e amor pela leitura

O Meio e o Si

Seu blog de variedades, do trivial ao existencial.

ZÉducando

Educação, Tecnologia, Reflexão e Humor: combate ao "não-pensantismo" *

aultimaestrofe

Just another WordPress.com weblog

φρόνησις

"Filosofar é aprender a morrer". Montaigne

Luciano Ezequiel Kaminski

Textos sobre Filosofia e Sociologia

OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

Esta é a pagina e blog a da autora