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Passeio à Pedra “Liza”

O sítio Pedra Liza, diga-se de passagem, escrita com z e não com s, proporcionou-me nestas férias uma experiência inigualável em contato com a natureza. Natureza simplesmente pura, saída das mãos do Criador. Em alguns lugares ainda intacta e preservada da ação humana. Porém, não só a natureza é o aspecto predominante, mas também a convivência familiar da companhia alegre e entusiasmada de Selma Nobre que ora nos visita em Florânia, juntamente com sua irmã Lourdinha Nobre, matriarca da família, ao lado do casal das Dores Nobre e Seu Jorge com a grata presença de seu netinho Hélison.  O casal atualmente mora e zela pelo lugar, “para onde todos os caminhos levam a ele”, à Pedra Liza.

Ocasionalmente, cá estou eu com minha esposa Silmara Rejanny e minha sogra da Guia Nobre aproveitando o sossego da Casa Velha da Pedra Liza, de alpendre vistoso, portas e janelas largas, parece abraçar quem chega da cidade de Florânia, ansioso por um bom descanso nas redes armadas e bem abertas, preguiçosamente à espera dos anfitriões.

Quando se está bem acomodado à sombra do alpendre, percebe-se sem demora uma vista que enche os olhos de admiração, cujas nuvens chuvosas apontam altaneiras sobre a popular serra do carvão. Os periquitos, de quando em vez, dão o ar da graça com o seu canto. E por falar em canto, como se não bastasse o das rolinhas, das seriemas e cigarras na margem do açude, ainda se pode ouvir o canto do pássaro Mãe da Lua durante à noite inteirinha, anunciando bons presságios para o agricultor que espera por chuvas nessa época do ano aqui no sertão do Seridó.

O sítio pedra liza, na zona rural do município de Florânia, localizado entre os Bentos e Salgado, faz fronteira com o Município de Jucurutu/RN e é um colírio para os nossos olhos, uma vez que sua natureza acorda todos os dias deslumbrante por trás de suas serras. Visitando o sítio e vasculhando um pouco da sua história, não dá como não lembrar da figura de Seu Hercílio Nobre, um homem que, antes de tudo, amava a agricultura e fazia questão de viver da terra com uma família de 12 filhos criados, dos 23 nascidos, fora moradores e trabalhadores do sítio. Conta-se que Seu Hercílio, ao ver a mesa farta de alimentos, perguntava a todos: “Observem a mesa e vejam o que tem  comprado?”. Praticamente nada era comprado, a não ser a farinha e a rapadura, mas o resto, tudo era produzido na Pedra Liza. Talvez, por isso mesmo seus filhos sejam tão apegados à terra de origem. A terra da qual surgiu boa parte da tradicional família Nobre.

A harmonia do homem em seu estado interior com a Natureza à sua volta é muito marcante. Vacas, bezerros, burros, jumentos, açudes, rios, peixes, serras verdinhas, pássaros, estercos. Tudo em volta cheira à natureza.

A noite é um pouco estranha porque é muito quieta e calma, sem a companhia da televisão, do PC e da internet nos víamos apenas com o barulho do mijar das vacas no curral durante toda a madrugada. Mas o dia foi de todo empolgante. A Selma, tia de minha esposa não parava de fotografar o movimento da natureza que transcorria silenciosa sem pedir licença. É uma beleza magistral poder não apenas ver, mas sentir a presença de Deus em tudo isso. É Deus que está aqui agora, porque é Ele o responsável direto por tudo. É ele quem dá luminosidade ao céu. É ele quem enche de vida as matas. É Ele quem nos chama para contemplar o seu infinito. É Deus quem distribui com amor os benefícios da terra. Somente Deus toma para si a imensa Criação e diz assim: fiz para que a dominasse com inteligência. O livro do Gênesis tem a ver conosco!

Para terminar, muito me impressionou um achado curiosíssimo da Sra. das Dores Nobre de uma telha antiquiquíssima, datada do século passado(11 de dezembro de 1914), que provavelmente remonta da construção da Casa Velha da Pedra Liza muito anterior a esta data(fins do séc XIX)que, dentre outras tantas coisas que contam, o seu alicerce até a alta calçada toda feita manualmente de pedras enormes, possivelmente pedras carregadas em lombos de burros.

A Pedra Liza reuniu um pouco de tudo nesse passeio de dois dias, histórias, saudades, família, reencontro com a Natureza do lugar e, finalmente, a comida simples e saudável à base de coalhada, queijo de manteiga, leite natural, peixe, frutas, enfim….


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia pela UERN, Especialista em Metafísica pela UFRN e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB
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Lembrai-vos: “Não está aqui, ressuscitou”(Lc 24.6)

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Foto: túmulo vazio, jardim do túmulo em Jerusalém

         A cena da última ceia de Jesus foi reveladora. As declarações do Mestre lidas hoje nas Sagradas Escrituras são impactantes, mas ditas por Ele naquela ocasião nem pareceram tão reveladoras. Até que mereciam ser consideradas com mais importância pelos discípulos, mas não foi assim que aconteceu. Ou os discípulos dissimularam tais declarações, ou simplesmente não entenderam nada, como dizem os mais afinados ao assunto. Apavorados com os sussurros que se ouviam a respeito da possível prisão e morte de Jesus, os discípulos assimilaram pouca coisa do que disse o mestre naquele dia.

Como se não bastasse o que Jesus havia sinalizado quando do início dos discursos das dores em Mateus acerca do seu tempo que já está por terminar e de outras fortes palavras do tipo “não ficará pedra sobre pedra”, a última ceia e sua prisão, bem como toda a sua paixão são recheadas de grande simbologia que vale a pena Lembrar. A sutilidade do mestre é encantadora. O roteiro da sua morte e ressurreição parecia está sendo escrito enquanto viviam. Em tudo o que Jesus diz, literalmente ou não, há um fundo de mistério. Os pares claridade e obscuridade, luz e sombra, dia e noite, céus e terra, graça e pecado, vida e morte parecem ser a trama de todo roteiro. Quanto mais se aproxima o tão aguardado acontecimento de sua morte, Jesus, volto a dizer, faz cortantes declarações na sua última ceia. Quem não se lembra do que está escrito nos seus evangelhos(!). Em meio ao ar apreensivo e temeroso dos seus amigos, Jesus, intencionalmente, deixa escapar da sua boca que um deles há de traí-Lo, sem mencionar quem era. Mas, Judas, o Iscariotes, não se deu por satisfeito e assinou sua confissão de culpa: “Acaso sou eu, Mestre?”. Seguidamente, a humanidade de Jesus de Nazaré não conteve o seu eu divino que continuava a falar: “Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo, antes que três vezes negues que me conheces”(Lc 22.34). De fato, o teor dessas e de outras declarações que Jesus fez são carregadas de anúncio, porque é muito próprio do anúncio o falar e o acontecer. À medida que Jesus falava, as coisas iam acontecendo simultaneamente. Pouco tempo, muito pouco tempo depois iam se sucedendo os fatos, a traição e a negação. A traição já vinha sendo preparada por Judas, enquanto que a negação veio da insegurança de um “Pedro” pré-pascal ainda medroso. Aí é que está, após a Ressurreição, aos olhos humanos, a cena ganhará vida ou mais vida ainda.

Nestes dias mais fortes em que memorizamos a paixão,“páthos”, de Cristo, não só por que intitularam esta semana como santa, mas pela qual recapitulamos todo o sofrimento sobre-humano apontado para a glória, para a ressurreição. É no hoje de nossa história que temos a graça, a feliz “virtùs”(oportunidade), para reviver e adorar tudo isso numa unidade de sentido, cujo movimento nasce dos acontecimentos pré e pós-pascais. Dizia Jesus que sua glória era esta: Dar a vida pela salvação de muitos. E nós o glorificamos por ter completado a obra que o Pai lhe confiara. Jesus Cristo estava obcecado por uma missão profetizada por Isaías: “O Espírito do Senhor Jeová está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos mansos; enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar a liberdade aos cativos, e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os tristes; a ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê ornamento por cinza, óleo de gozo por tristeza, veste de louvor por espírito angustiado, a fim de que se chamem árvores de justiça, plantação do Senhor, para que ele seja glorificado”(Is 61.1-3). Sem a Ressurreição ou o cumprimento desta vasta missão de Jesus, jamais teríamos acesso à alegria definitiva, eterna, do Reino de Deus. Lembro-me de um estalo do poeta Manoel de Barros que acertadamente falou do presente da Eternidade, “encostada em Deus”.

A profecia, mostrada acima, é um maravilhoso projeto de vida, de Deus para seu único Filho. Um projeto muito definido com suas ações e metas: Ungir; Libertar; Consolar; Ordenar… Projeto este que deixa, simultaneamente, claro e obscuro o seu objetivo. Deus falou também por Isaías sobre o objetivo do Projeto da Salvação. Que objetivo era este? A salvação, que implica a morte e também todo este suplício pelo qual passou Jesus. Não à toa, Deus fala com o seu Profeta que o servo de Javé, isto é, o Filho do Homem não abrirá sequer a boca ao sofrer pela salvação do mundo; nenhum de seus ossos será quebrado, e assim aconteceu; tão desfigurado vai estar que não terá aparência humana, e assim aconteceu. Quanta dor, quanta paixão sofrida pelo mundo, por amor a nós. Amou tanto o mundo que nos deu seu único Filho!(Cf. Jo 3.16)

Todavia, para contrariar ainda mais a natureza humana dos discípulos e dos que acompanhavam o Mestre para cumprir todas as Escrituras, o túmulo, arranjado pelo senador romano José de Arimatéia, zelado com todo carinho e tristeza pelas mulheres da família de Jesus e outras mulheres, permanecia vazio, confirmando a verdade das palavras do Senhor. O que muitos sabiam e poucos não criam, de fato, aconteceu. Jesus Ressuscitou! Aleluia! “E, estando elas muito atemorizadas e abaixando o rosto para o chão, eles lhe disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia, dizendo: Convém que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e, ao terceiro dia, ressuscite”(Lc 24.5-7).

Vejam que só depois que tudo isto aconteceu, para não dizer mais, é que os discípulos, chocados e perplexos, lembraram-se de tudo o que Jesus havia dito acerca destas coisas. Talvez, não soubessem o quanto o  Senhor ainda iria se manifestar para mostrar a sua glória, mas o certo é que muitos de nós, mesmo hoje, após séculos e séculos de distância do Jesus histórico, ainda não somos capazes de nos deixar mover pelas lembranças e pelas memórias trazidas pelo poder, agora, do Espírito do Senhor. Não importa o tempo, é preciso lembrar destas coisas, senão faremos o mesmo que seus discípulos, vendo-o passar desapercebidamente.


 

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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Nem demais, nem pouco demais, o necessário

       Criamos muitas falsas necessidades. Idealizamos sonhos tão altos que sacrificamos nossa dignidade para realizá-los. Passamos toda uma vida trabalhando em função de um padrão econômico, isto é, não sustentamos necessariamente a nós mesmos, mas aos nossos caprichos. Quem não os têm? Só que uns têm mais, outros têm menos caprichos ou vaidades. Há pessoas que sacrificam até o seu bem-estar para juntar dinheiro, ao passo que há aquelas que simplesmente sonham com uma boa casa para morar, um carro popular, um emprego que pague bem, uma família de três filhos em média… Agora, há outras que não abrem mão de regalias, muito luxo e vaidade, mesmo que isso lhes custe uma consciência limpa ou antes a própria vida, o que seria um absurdo.

Muito me admira a capacidade que o ser humano tem de se viciar em atender às suas vãs necessidades, melhor dizendo, futilidades, uma vez que poderiam ser descartadas, pois não implicariam nenhum tipo de prejuízo à sua natureza ou às suas verdadeiras necessidades. Por que temos que jogar na mega-sena semanalmente ao ponto de sacrificar o orçamento familiar? Por que temos necessariamente que trocar de carro todo ano? Por que temos de comprar sempre o celular de ponta? Por que é preciso enricar, acumulando bens que precisariam de cinco gerações para serem consumidos? Por que nossa segurança está em todos esses valores? Por que nossa segurança não está em Deus?

É necessário a nós só o comer e o vestir. Se ambicionarmos por demais a riqueza, certamente nos esqueceremos de Deus. Do mesmo modo, se ficarmos pobres ou miseráveis, sem nada, seguramente teremos a tentação de furtar para sobreviver. A riqueza não é tudo e a miséria não é digna de nós. Devemos buscar o suficiente, a medida certa para sobreviver dignamente, sem nenhum tipo de mediocridade. Às vezes, a corrupção e o pecado entram por aí: Da não aceitação de  uma vida sóbria, comedida e prudente. Nesses tempos de alto consumismo, é urgente o apelo do evangelho em Mt 6.25-31: “Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Ora, qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado à sua estatura? E pelo que haveis de vestir, por que andais ansiosos? Olhai para os lírios do campo, como crescem; não trabalham nem fiam; contudo vos digo que nem mesmo o ‘Rei’ em toda a sua glória se vestiu como um deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir?”

Somente Deus poderá nos saciar de toda falta. Tudo é perecível nessa vida, mesmo a comida ou a bebida ou as vestes ou ainda a nossa própria existência, o que prova concretamente de nossa parte que precisamos nos abastecer de uma saciedade permanente, de uma água que não dê mais sede, de uma comida que não dê mais fome, de vestes que não se consumam. Esse estado de constante saciedade que não encontramos aqui com nada perecível, só encontramos em Deus presente no Evangelho. Jesus é a água da vida que não dará mais sede, belíssimo: “Replicou-lhe Jesus: Todo o que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que jorre para a vida eterna. Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água, para que não mais tenha sede, nem venha aqui tirá-la”(Jo 4.13-15).

Portanto, as vaidades e os impulsos compulsivos de consumo desta vida passarão, mas Jesus e suas palavras não passarão. A realidade econômica no Brasil ainda é muito favorável para um consumo desnecessário da classe média, provocando nas pessoas uma saciedade insaciável de desejos dos mais variados, desde a compra de um computador melhor até a compra de uma TV LCD de última ponta. Com um mundo todo voltado a mergulhar nessa onda avassaladora de consumo, promovido por um modelo econômico mais do que liberal, super, hiperliberal em todos os aspectos, é preciso de nossa parte, reter as palavras do Senhor em nossos corações, acreditando sem cessar que “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”(Sl 23). Nada aqui não quer dizer nada literalmente, mas a medida certa, o suficiente. O mesmo nos diz Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, II, 5, acerca da “justa medida”. A medida certa é o equilíbrio, a virtude, nem demais, nem pouco demais, justo o que é preciso.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
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O polegar para cima

Interessante. Quase sempre sou pego de surpresa multiplicando esse gesto por aí. Quando vejo um amigo ou mesmo um colega de profissão, o cumprimento ou a saudação vem-me logo de imediato, um polegar para cima. Às vezes, não sei nem se estou tão pra cima assim, mas o engraçado é que não me importo em saudar as pessoas dessa maneira. Vejo que há uma massa quase uniforme desfilando pelas ruas e calçadas das cidades dispensando como eu incontidos gestos com o polegar para cima. Ou para desejar sorte ou para dizer apenas um “olá”, um “como vai”, um “ok”. O curioso é que a importância que se dá a um gesto tão popular, tão nobre, mas não menos amistoso, é banal. É simples: Não damos a este ato a importância que ele carrega.

Se banalizamos o gesto pelas vezes que se repete durante o dia, a memória da história não  será capaz de nos fazer livrar da importância que há nele. É dramática a cena do filme “Quo Vadis”(“Aonde vais”? Pergunta dirigida pelo apóstolo Pedro a Jesus Cristo que lhe apareceu, no momento, em que Ele, Pedro, havendo fugido do cárcere, ia deixar Roma), quando representa a entrada dos cristãos na arena romana, entregues aos leões e subjugados a uma ordem que estava por vir de cima do trono de Roma, Nero. Impiedoso, perseguidor e doente, não teve clemência ao ver uma multidão de cristãos dentro da arena esperando dramaticamente um polegar para cima. A decisão de Nero foi outra, um polegar para baixo que passou para a história como uma das maiores barbaridades feitas até então. Em meio à crueldade do Império Romano no início da era cristã, o gesto se repetia ora para baixo, ora para cima. Significando quando para baixo morte, quando para cima vida, sobrevivência.

Não tento aqui explicar de modo algum a origem de tão caro gesto, mesmo que se saiba que é da época dos duelos entre gladiadores, na Roma antiga, quando das competições em jogos e quando das exposições para o divertimento de autoridades romanas, porém o gesto passou para nós com uma carga de afirmação muito grande, de positividade mesmo. Parece até que esquecemos o polegar virado para baixo. O fato é que, embora o gesto não seja tão comum para baixo como o é para cima, o polegar virado para baixo é sinal de algo muito ruim, chegando até ser indelicado para alguém repetir tal gesto.

Engraçado, mas só para ilustrar, os políticos nunca o fazem para baixo consigo mesmos, mas só para cima, chegam a posar para as câmeras com os dois polegares para cima. Show! Flashes! Aplausos!

Prefiro fazê-lo para cima, mesmo que inconsciente. Acho que mais do que um “ok” dos americanos, o polegar para cima é sugestivo e entusiasma quem o faz e quem o recebe. Se o levarmos para a esteira da compreensão cristã, o ato quer dizer vitória e triunfo sobre os inimigos. Talvez com ele, repetidas vezes, estejamos nos libertando das permissões de morte que o império romano confirmou virando simplesmente o polegar baixo, ceifando inúmeras vidas. Ainda bem que, à medida que os polegares eram virados, a exemplo do filme “Quo vadis”, muitos cristãos elevavam suas vozes aos céus clamando por misericórdia e justiça, certos de que aquelas vidas ainda poderiam ser salvas.

Eis aí um bom motivo – e a história é testemunha disso – para nunca baixarmos nossos polegares para ninguém, pois é um bárbaro sinal de homicídio. Espalhemos por aí o “polegar para cima”, entregando às pessoas a vitória e o bom ânimo, vida. Ah, se pudéssemos reverter o sinal de Nero e de outros imperadores sanguinários, quantas vidas não seriam poupadas! Mas, pelo que deveria ser a história e não foi, vai um “ok” para você.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos
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Deus disse: “EU SOU O QUE SOU” (Ex 3.14)

Esta expressão atravessou as eras desde que saiu da boca de Deus e foi ao encontro de um homem que tinha uma missão quase impossível, a de libertar da escravidão o povo escolhido por Deus para ser sinal de uma verdadeira aliança entre Ele e os homens.

De lá para cá, em meio a obediências e desobediências, jamais Deus abandonou o seu povo, fazendo valer a sua fidelidade e a marca de sua presença maravilhosa em nosso meio, vindo a cumprir tudo que havia prometido numa única e exclusiva pessoa, seu Filho, Jesus Cristo.

Deus disse: Eu sou Aquele que É. Esta revelação foi interpretada pelos exegetas de duas formas: A primeira, num sentido causativo mesmo, quer dizer, eu sou a causa do ser, de tudo aquilo que existe, a origem de todas as coisas. A segunda forma é o sentido relativo que se apresenta assim: Eu Sou Aquele que está a favor do seu povo, aquele que está em relação ao seu povo. Este segundo sentido acentua mais o valor histórico da revelação do nome de Deus. Um Deus que se manifestava ali, na frente de Moisés, como um sinal vivo e presente de esperança. Um Deus que não só libertará seu povo, mas que suprirá todas as suas necessidades reais e presentes.

No Sinai, não se trata de uma Revelação Metafísica de Deus, como afirma a filosofia do ser. Ainda mais porque é uma especulação abstrata e estranha à mentalidade dos hebreus e dos povos semitas em geral. Por isso, Êxodo 3.14, nos seus dois sentidos não indica uma reflexão meramente filosófica, mas pura e simples autocomunicação de Deus. Deus se revela como presença incorruptível ao lado do homem, como uma realidade viva que não se desgasta, que não se consome. Essa é a potência da figura da sarsa ardente e de todas as circustâncias que envolve este importante episódio bíblico.

Quando Moisés se encontra com Deus no Monte Sinai uma certeza se abre no horizonte de dúvidas de Moisés: Há uma saída para o meu povo. Diante da missão que Deus lhe pede, Moisés externa a sua pequenez, sua incerteza e sua insegurança: “Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?”(Ex 3.11). Moisés não sabia disso, mas não importa quem seja ele, grande ou pequeno, rico ou pobre, poderoso ou fraco, o que de fato importa é que Moisés já tinha sido escolhido para ser sinal ali da presença maravilhosa e extraordinária de Deus. Deus tinha que usar alguém e usou a Moisés para ser seu servo e comprovar toda a sua obediência. Porque, segundo o texto, Deus é simplesmente assim e pronto: “Eu Sou o que Sou. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou a Vós. E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de Vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração”(Ex 3.14-15).

Com essas palavras, diria mais, com sua presença majestosa que preenche tudo, Deus exime todas as suspeitas de uma missão mal sucedida. Deus também afasta para bem longe as inúmeras espécies de dúvidas no coração de seu escohido, Moisés. Sendo assim, restará a Moisés obedecer e confiar em alguém que lhe pôs o Ser. Em alguém que não só lhe deu o ser, mas que se permitiu por em seu caminho. Veja bem, Deus saiu de si e permitiu-se entrar na vida dos homens! Isso é maravilhoso. Será preciso honrar tudo isso. Nas mãos de Moisés ferve a esperança de um povo e a mudança de uma história.

Parece ser muito complicado fazer filosofia de um texto dessa natureza, mas se tentarmos uma aproximação não pode ser somente pela via da especulação racional, mas da vida. Quem se aproximou um pouco dessa compreensão foi Tomás de Aquino, cuja Filosofia se desenvolveu na Alta Idade Média, séc. XII, XIII e XIV, beirando o Renascimento. Para Tomás, Deus é pura subsistência de ser, Deus é o ser por excelência. “Ipsum esse subsistens”. É uma afirmação por via puramente racional. Tomás não usa textos bíblicos para isso. Porém, o contexto histórico no qual Tomás vive é um contexto de comunidade cristã, é um contexto impregnado pela revelação cristã. Os argumentos de Tomás de Aquino não partem de uma razão abstrata, mas partem de uma vida. É a partir de uma vida que ele faz um aprofundamento em relação a Aristóteles. Isso é possível por causa de uma vida, pelo fato de viver num mundo dominado pela concepção da Revelação.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva
Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica, Especialista em Estudos Clássicos pela UNB/Archai/Unesco.


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Aletheia

coroa-de-espinhosExpressão que popularizou-se recentemente como denominação da 24ª etapa da Operação Lava-Jato deflagrada pela Polícia Federal, cujo alvo de investigação era o ex-Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sobre o qual pesam inúmeras suspeitas de tráfico de influência envolvendo a maior estatal brasileira, a Petrobras. Diferente dessa Operação, “Aletheia” é um termo para além de qualquer investigação judicial porque está preso ao seu sentido grego de verdade, não esquecimento, opondo-se à ideia de letargia, falta de recordação. “Recordar é viver”, já houve quem tenha dito.

Influenciados pelas reminiscências platônicas, revivemos, evocamos aqui um diálogo presente naquele contexto que envolve a morte de Jesus. Um diálogo entre Pilatos, o prefeito da Judeia, e Jesus, o filho de Deus. Vejam que distinguem-se nesse diálogo dois mundos. Dois mundos estão frente a frente, dois reinos estão “tête-à-tête”: a eternidade e a história, o sagrado e o profano, a salvação e o juízo.

Pilatos se vê na impossibilidade de Julgar um homem dos modos e da pertinência de Jesus, o Salvador, o filho de Deus:

“Então Pilatos saiu ao encontro deles e perguntou: ‘Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?’

‘Nós não o teríamos prendido se ele não fosse um criminoso!’, disseram eles.

‘Então levem o acusado para ser julgado por vocês mesmos, conforme a lei de vocês’, disse Pilatos.

‘Mas nós não temos o direito de executar ninguém’, disseram eles, ‘e é necessária a sua aprovação’.

Então Pilatos entrou novamente no Palácio e ordenou que trouxessem Jesus. ‘Você é o Rei dos Judeus?’, inquiriu.

Perguntou-lhe Jesus: ‘Essa pergunta é sua, ou os outros falaram a meu respeito?’

‘Acaso sou judeu’, respondeu Pilatos.

‘O seu próprio povo e os sacerdotes principais entregaram você a mim. Por quê? Que foi que você fez?’

Então Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus seguidores teriam lutado quando eu fui preso pelos líderes judeus. Mas o meu Reino não é daqui’.

Pilatos respondeu: ‘Então você é rei?’

‘O senhor está dizendo que sou rei’, disse Jesus. ‘Eu nasci para isso. Eu vim a este mundo para testemunhar da verdade. Todos os que estão do lado da verdade ouvem a minha voz’.

‘Que é a verdade?’ perguntou Pilatos. Depois ele saiu outra vez para onde o povo estava e disse: ‘Pelo meu exame, não há nada contra ele’”(Jo 18. 29-38).

Antes do desfecho dramático que culminará com o povo condenando Jesus, Pilatos, ao interrogá-lo, é conduzido a uma pergunta que ainda soa aos nossos ouvidos: “Que é a verdade?”. Filósofos, poetas, cientistas, teólogos,… continuam nos conduzindo a ela. É uma pergunta clássica, na medida em que voltamos a ela, pois tem sempre algo a nos dizer. Nunca para de nos surpreender, por isso clássica.

Aletheia, a verdade, talvez esteja no silêncio de Jesus, revelada em seu testemunho, em seus atos. Da tensão entre Jesus e Pilatos, um fato, uma evidência irrompeu, “nada contra ele”. Tal constatação não foi suficiente para livrá-lo da morte, visto que alguma coisa estava para ser cumprida, as Escrituras.

O curioso é que todo esse processo do julgamento de Jesus de nada adiantou, porque nada foi encontrado contra ele. Pilatos não conseguiu julgá-lo, esta é a verdade. Jesus sai ileso das investigações de Pilatos. Jesus põe a seus pés, faz sucumbir o mundo legal, jurídico e pretensioso. O que se sobrepõe é o amor, uma outra ordem, a ordem divina, essencial para a vida humana.

É sabido que recai sobre todos nós, hoje em dia, uma cultura secularizada, fragmentada e bastante relativa em seus valores, muito diferente daquela vivida por Jesus, mas ainda assim, em meio a tantas verdades, envoltos num mundo plural e globalizado, o testemunho de Jesus continua sendo a “Aletheia” possível para os que pensam diferente e querem já aqui viver o paradoxo da cruz, o amor, a redenção:

“Dar testemunho, aqui e agora, da verdade do Reino que não está aqui significa aceitar que o que queremos salvar nos julgue. E isso porque o mundo, na sua caducidade, não quer salvação, mas justiça. E a quer precisamente porque não pede para ser salvo. Enquanto não são salváveis, as criaturas julgam o eterno: esse é o paradoxo que, no fim, diante de Pilatos, tira a palavra de Jesus. Aqui está a cruz, aqui está a história”(AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: UFSC, 2014, p. 63).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

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Filosofia da saúde

A cada ano vislumbramos uma explosão avassaladora de pessoas que querem buscar a boa forma. O verão já chegou e um certo “frenesi” acompanha aqueles que, a qualquer custo, não poupam esforços por um corpo sarado, sem os famosos culotes, barriguinhas, etc. As academias estão lotadas e os calçadões das cidades repletos de gente que não se cansa de lutar contra os excessos de peso no corpo, sinônimo de feiúra e de incontinência alimentar.

A sociedade, que agora se apresenta, estampa em suas vitrines de cultura televisiva e virtual diversos padrões de comportamentos, dentre os quais são vendidos sem nenhuma reflexão, mas simplesmente negociados à revelia dos desejos desmedidos e irresponsáveis da população. Isso é muito preocupante porque as pessoas estão emagrecendo e engordando sem qualidade de vida, sem saúde. A saúde, bem como a doença que é a sua falta, desponta aqui como um alerta ou indicador de que precisamos urgentemente pensar a saúde. Às vezes, muita atenção ao corpo ou uma alucinadora inquietação para com ele pode representar doença e não saúde: “(…) Diferentemente da enfermidade, a saúde não é nunca causa de preocupação, antes, quase nunca somos conscientes de estarmos sadios. Não é condição que convida ou adverte a cuidar de si próprios: de fato, implica a surpreendente possibilidade de ser esquecido de si”(Gadamer, Dove si nasconde la salute, … In REALE, Giovanni. Corpo, Alma e Saúde. O conceito de homem de Homero a Platão. São Paulo: Paulus, 2002, pág. 185).

Estranho, enquanto damos muita atenção ao corpo a ponto de nos preocuparmos com ele demasiadamente, mais próximos estamos da enfermidade. Não seria uma doença moderna essa excessiva obsessão por exercícios físicos?

A corrida por um corpo malhado, sarado e fisicamente em forma não pode ser motivada apenas pela estética, pelo prazer de desfilá-lo nas praias, clubes, calçadões e ruas, mas tem de existir também um sentido de satisfação interna, conforto e bem-estar, felicidade e enchimento de si. Ou seja, tudo começa com um corpo bem cuidado na “medida certa”, na “justa medida”, como diz a metafísica de Platão. Os filósofos se esmeravam nisso, numa saúde do corpo e da alma voltada para o equilíbrio. É óbvio que a educação física constante e frequente tira o enfado, a preguiça e aumenta a concentração e a disposição para o trabalho! Parece até que voltamos à Grécia, à disciplina com relação ao corpo e com o perfeccionismo atlético, no entanto, falta-nos o equilíbrio físico e intelectual, falta-nos metafísica, falta-nos “justa medida”.

A rotina de malhação e educação física aumenta cada vez mais. É cada vez mais comum vermos gente caminhando, pedalando, correndo e se exercitando nas academias, pois, enquanto muitos têm de suar para deixar o corpo em dia, pronto para o verão, outros vêm fazendo o possível em continuar a frequência extenuante de exercícios físicos para manter a saúde do corpo, debilitado pelo tempo ou pelo excesso de trabalho.

A saúde é um tema emblemático. Veja que ao pronunciarmos a palavra “saúde” enchemos a boca quase que completamente de vida, de gozo, de saliva. Ela tem importância. Representa o ponto de equilíbrio e saciedade da pessoa humana. A saúde reveste os binômios filosóficos “aparência/ideia”, “corpo/alma”, “sensível/inteligível”, “experiência/razão”, “existência/essência” de unidade, de beleza e de bem-estar no ser humano, de tal modo que a vida mesma com saúde se torna mais leve, mais amena e muito mais feliz. Quando isso de fato está ocorrendo é porque a educação está funcionando como uma tomada de consciência do sujeito frente aos desequilíbrios naturais de seu organismo.

Sendo assim, a nossa saúde depende da Filosofia a fim de encontrar os meios mais sábios de equilíbrio de tudo aquilo que há na natureza, de restaurar a “justa medida”em nossa natureza. Saber o “mais”, o “menos”, “proporção”, “peso”, “excessos”, enfim. Lidar com isso é fazer Filosofia da saúde, uma se liga com a outra: “O médico é chamado a restaurar a medida oculta, quando a doença vem alterá-la. Em estado de saúde, a própria natureza se encarrega de implantá-la, ou antes, é ela própria a justa medida. O conceito de mistura, tão importante, e que na realidade representa uma espécie de justo equilíbrio entre as diversas forças do organismo, anda estreitamente relacionado com os de medida e de simetria. É de acordo com esta norma – assim a devemos denominar – cheia de sentido que a natureza age…”(Jaeger, Paideia, … In idem, p. 186).


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Especialista em Metafísica e em Estudos Clássicos, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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Ver-se no espelho

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O possível é um extraordinário espelho”

(Kierkegaard).

Embora seja uma prática muito banal e corriqueira hoje em dia, “ver-se no espelho” significa a possibilidade de enfrentar sua própria vida, a sua e a de mais ninguém. Você pode levar até um longo tempo flertando consigo mesmo diante do espelho, mas o instante de “ver-se no espelho” um dia chega para todo mundo. É preciso ter coragem para ver sua própria tragédia refletida no espelho, sua alma. “Ver-se no espelho” acaba sendo um exercício brutal da consciência. 
Personagens marcantes da literatura passaram pela experiência arrebatadora de “ver-se no espelho”. Narciso, famoso pela sua beleza, nunca havia contemplado seu rosto, até que um dia, num lago, encontrou-se com sua imagem e ficou paralisado, entorpecido. Tomado pela impressão de embaraço que sua imagem lhe causou, Narciso não se conteve e afogou-se no lago. Essa história foi tão propagada que as pessoas alienadas ao mundo e aos outros são chamadas hoje de “narcisistas”, egoístas.

Ainda mais cortante é a história da Medusa, uma das três filhas de Fórcis e Ceto na mitologia grega, pois quem se atrevesse a olhar para ela transformava-se em pedra. Conta-se que ao dormirem profundamente, o herói Perseu aproximou-se, sem poder olhar diretamente para Medusa, e refletiu seu escudo de bronze para ela que não se conteve ao ver-se no escudo de Perseu e gritou assustadoramente. O herói aproveitou a oportunidade de assombro da Medusa e cortou-lhe o pescoço. O pintor Caravaggio, no séc. XVI, representa a cabeça da Medusa num escudo com cabelos de serpente, olhos esbugalhados e a boca terrivelmente aberta, querendo mostrar o estado de agonia diante de sua condição refletida no espelho de bronze.

Ver-se no espelho” implica perguntar: “Quem sou eu?” Você é jogado num realismo incomum e surpreendente, porque é uma pergunta que afronta sua condição humana. A mortalidade, o efêmero, a soberba, a ambição, o egoísmo, a vaidade, vícios e virtudes são refletidos no espelho da vida. Você pode simplesmente não querer se ver, recusar-se a ver, porque sua ação aqui coloca em questão a sua liberdade. Ou então ver-se numa outra pessoa paradigmática, isto é, ver-se em alguém que você deseja ser; um pai, irmão, mãe, artista de novela, cantor, escritor, jogador de futebol, modelo. De qualquer forma, a metáfora do espelho aponta para um realismo vital, a condição humana, mas nos abre a possiblidade do enigma frente ao imponderável. Ninguém sabe o quê, quem ou como seremos amanhã.

Para Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no séc. XIX, o “ver-se no espelho” está condicionado à sua liberdade. Ser humano para ele é conhecer a sua existência, seu nome, sua história, dramas, conflitos e contradições. Segundo ele, “ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém.” (In KIERKEGAARD, Soren Aabye. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. Trad. de Carlos Grifo, Maria José Marinho, Adolfo Casais Monteiro. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 212).

A metáfora do espelho põe o eu frente a frente com a sua liberdade. Ou ele tem consciência de si ao ver-se no espelho ou ele perde a consciência de si deixando que o seu eu se reflita imaginariamente no possível. “O possível”, afirma Kierkegaard, “é um extraordinário espelho, que só pode ser usado com a maior prudência. É na verdade um espelho ao qual podemos chamar mentiroso. Um eu que se olha no seu próprio possível só é semiverdadeiro, porque, nesse possível, está muito longe de ser ele próprio, ou só o é parcialmente (…). O possível lembra a criança que recebe um convite agradável e diz logo sim; resta saber se os pais darão licença… e os pais desempenham o papel da necessidade.”(idem).

De qualquer modo, “ver-se no espelho” é um ato de coragem que requer liberdade; e sendo a liberdade o próprio eu (Cf. idem, p. 207) para Kierkegaard, admitamos que o espelho, ao refletir o eu formado de finito e infinito, reflete também a liberdade como relação (dialética) entre o possível e o necessário.
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

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Do homem trágico, Platão concebe uma nova política

Acredita-se que o envolvimento de Platão no séc. IV a.C. com a tragédia grega não o impediu de criticá-la, sem deixar, de quando em vez, de recorrer a ela para fundar uma nova concepção de pólis, aquela da imitação das leis e dos costumes políades, a única tragédia admitida como verdadeira, ao invés da ética arcaica que exaltava o culto à coragem, à força, à honra, um modelo do cratos(força) e bia(violência) legitimado pelos deuses olímpicos:

“Nós mesmos somos poetas de uma tragédia, e, por quanto se possa, da melhor de todas, da mais bela; a nossa constituição inteira foi organizada como imitação da vida mais nobre e mais elevada e dizemos que esta é na realidade a tragédia mais próxima da natureza da verdade. Vocês são poetas, nós também somos poetas, das mesmas coisas, rivais de vocês na arte e na representação do drama mais belo que somente a verdadeira lei, por natureza, pode realizar, o que nos esperamos neste momento. Não pensem, portanto, que com tanta facilidade, permitiremos a vocês de plantar seus palcos em nossas praças e introduzir neles atores de bela voz, que gritarão mais do que nos, não pensem que permitiremos a vocês falar aos jovens, às mulheres e a todo o povo sobre os mesmos costumes de maneira diferente da nossa.” (Leis VII, 817 b-c)

A única tragédia que Platão aprovará será portanto a tragédia verdadeira, aquela da imitação das leis e dos costumes políades. Seguindo os passos da tragédia, é possível conceber, sim, a alma trágica da cidade. Daí nasce a filosofia socrática, do confronto direto com a pólis e suas estruturas simbólicas e reais de sustentação do poder sobre o indivíduo, incluindo aí a própria filosofia. E nasce da recusa à pólis, uma vez que esta filosofia se define como uma descoberta da alma em composição com a cidade. Uma reflexão da alma para a agorá, como nos sugere Platão em Protágoras 313e.

Tal filosofia, ao dialogar com a sugestão da duplicidade da alma e ao invés de afirmar simplesmente o intelectualismo socrático ou a purificação órfico-pitagórica; a) constrói um novo modelo de alma humana, que, por aceitar sua “tragicidade”, resultará tripartida: Racional(logistikon), Agressiva(thymoeides) e Desejante(epithymetikon); b) reafirma, porém, a necessária composição entre alma e cidade, procurando para ambas, por homologia, a justiça como sua forma ordenada de existir.

Portanto, embora contra a tragédia, Platão acaba por aceitar e incorporar em sua reflexão à alma trágica como dado antropológico a partir do qual procura, via paideia, uma salvação possível que fosse da alma e da cidade ao mesmo tempo. Da alma trágica em tensão com a cidade, Platão concebe uma nova cultura, um novo homem.

Bibliografia: CORNELLI, G. (2010) Platão Aprendiz do Teatro: a Construção Dramática da Filosofia Política de Platão. Revista VIS (UnB), v. 9, p. 69-80.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica, Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Estudos Clássicos pela UnB, parceria com Archai Unesco.

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