Geração do ineditismo

2271350Ao que muitos poderiam chamar ligeiramente de imediatismo, evoco aqui a compreensão de ineditismo. A geração do ineditismo transparece a sensação de que tudo o que se faz é inovação, por isso mesmo inédito, sobretudo no campo dos valores: ninguém fez, ninguém pensou, alguém jamais descobriu. “A capacidade da mente humana para inventar novos valores não é maior do que a de imaginar uma nova cor primária, ou, na verdade, a de criar um novo sol e um novo céu no qual ele se mova.”(LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 26). Na verdade, como afirma Lewis, “O Inovador ataca os valores tradicionais em nome daquilo que ele inicialmente supõe serem (num sentido próprio) os valores ‘racionais’ ou ‘biológicos’”( A abolição do homem, p. 25).

De repente, a imagem do pretensioso vem à tona achando que descobriu a pólvora, a penicilina, o papel impresso ou a luz elétrica. Mas o que se percebe é uma falsa compreensão do que seja ‘moderno’, as novas gerações têm uma grande dificuldade de olhar para trás e enxergar o passado como um ensinamento. “O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos. A defesa adequada contra os sentimentos falsos é inculcar os sentimentos corretos.” (LEWIS, C. S. A abolição do homem, p. 09).

Olhar o passado como algo velho e ultrapassado, no sentido de arcaico, é um equivoco porque sem o antigo não há o novo, sem o passado não há sequer um caminho, um processo para o futuro. As ditas novas gerações não só querem apagar o passado como têm medo dele. Estufam o peito não somente de ar, mas do orgulho que os fazem acreditar que a história começa com eles.

A pretensão humana – principalmente a dos mais jovens – de que sua ação no presente é inédita cheira a um certo imediatismo no modo de interferir neste mundo e no próprio cotidiano. As mediações com o antigo praticamente não existem, desconstruindo uma liga de memórias com o passado, responsável por sustentar os valores tradicionais mais sólidos na formação do caráter, da personalidade.

O resultado desse desligamento com o passado pode contribuir por gerar um exército de cabeças mimadas, refém de uma visão extremamente ideológica e superficial da história, da própria vida. Estamos diante de uma geração que quer o futuro, mas não se prepara para o futuro. Preparar-se para o futuro, para o amanhã, para o dia seguinte requer dedicação, trabalho e aprendizado, – “Disse o Mestre: ‘Amai aprender e, caso sejais atacados, estejais prontos para morrer pelo Bom Caminho.’”(Chinês antigo. Analectos, viii. 13) – principalmente paciência. Obedecer ao movimento do tempo de “um dia após o outro” é fundamental.

Talvez aqui esteja uma das funções mais necessárias à educação de nossos jovens: não permitir que pensem ou achem que eles não aprendem mais nada com os que vieram antes. Como já fora dito aqui, este é o equívoco da compreensão moderna do conceito de geração, de que o mundo nasce com eles. Os jovens ou as novas gerações precisam continuar aprendendo com seus pais, professores, com os mais velhos, com os que vieram antes.

Para isso, é imprescindível ler os clássicos: a Odisseia e a Ilíada de Homero; a República de Platão; a Bíblia; Eurípedes, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes; Shakespeare; Machado de Assis; João Guimarães Rosa e muitos outros. Eles jogam nossas conversas para um nível muito mais interessante, além do que melhoram nosso repertório nas discussões. Em Por que ler os clássicos, bem disse o renomado escritor italiano, Ítalo Calvino: “Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram [ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes]” (p. 11).

 

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

www.twitter.com/filoflorania

http://www.umasreflexoes.wordpress.com

 

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