Arquivo mensal: maio 2016

A santidade em Levinás

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Todos nós temos uma vocação à santidade. Ou a acolhemos ou a renunciamos, porém não a eliminamos, visto que nos comportamos, nos movemos e agimos não só pelo que nos falta, pelo que nos carece, mas também pelo que nos basta, pelo que nos excede. Não à toa, estamos sempre a procura do que é verdadeiro, que não é uma simples adequação do meu pensamento à coisa ou vice-versa, mas uma inadequação pura, um paradoxo, que nos perturba e incomoda porque nos ultrapassa, o humano. “Nunca pretendi descrever a realidade humana no seu imediato aparecer, mas o que a própria depravação humana não saberia eliminar: a vocação humana à santidade”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

Um pensamento marcadamente humano, certamente consequência do sentimento trágico da segunda guerra mundial, a visão de Levinás é fruto da discussão que há na primeira metade do século XX: o que é o meu direito sobre o direito dos outros? Aqui ele mostra como os homens têm uma vocação à santidade que a violência não consegue eliminar ou não sabe eliminar. Seu valor à santidade deve vir da força da sua biografia, filósofo lituano, judeu, que acaba conseguindo a cidadania francesa em 1938. Vive num período histórico bastante conturbado entre as duas grandes guerras. É testemunha do surgimento e do esgotamento do Nazismo imposto por Hitler, responsável por destituir o caráter do outro e dizimar milhares de vidas humanas. Além disso, sua motivação é exatamente a perseguição ao terror promovida pelo Nazismo e por todo o movimento histórico em que passa a Europa, a partir da segunda década do séc. XX.

Em virtude disso, Levinás institui uma ética baseada na responsabilidade pelos outros. O caráter do indivíduo se reconhece numa dimensão de coletividade. Ele admite ainda que há uma transcendência em nossas relações: o eu que se reconhece nos outros porque é uma transcendência de mim mesmo que acontece no rosto do outro. Quando eu me reconheço no rosto do outro está acontecendo uma radicalidade ética: o primado do outro sobre o primado do eu.

A santidade, para Levinás, segue esse viés de abertura ao outro, muito afinado até com o rigor ético presente na Bíblia. Conceitos como o de bondade, justiça, hospitalidade, estrangeiro, são acolhidos no seu discurso filosófico. Afirma que não é ridículo, pelo contrário, é incontestável pensar o valor à santidade. “Ela não se prende inteiramente às privações, ela está na certeza de que é preciso deixar o outro sempre em primeiro lugar em tudo – desde o ‘depois do senhor’ diante da porta aberta até a disposição – quase impossível mas que a santidade o pede – de morrer pelo outro”(POIRIÉ, François. Emmanuel Levinás: ensaios e entrevistas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 84).

Guardadas as devidas proporções de contexto, o mundo hoje tem uma tremenda dificuldade de lidar com as questões éticas, talvez por causa do politicamente correto, da política da boa vizinhança, do jeitinho, da camaradagem, das conveniências e do excesso de ideologias. No coletivo, paira uma certa superficialidade entre os sujeitos. Um encontro que requer a presença autêntica, sincera do outro. Tudo é muito politicamente correto ao ponto de absorver a importância do caráter de cada um. A impressão que se tem é que os espaços sociais estão cheios de gente que se tratam como gente, fazem acordos, assumem compromissos, etc, mas, em algum momento, tudo pode ser quebrado e desfeito. A sensação é de que a santidade se faz cada vez mais urgente. Menos ideologia, mais ética, mais santidade.

Levinás deixa claro que a santidade precisa ser valorizada para uma sociedade e um indivíduo se tornarem mais humanos: “Não afirmo a santidade humana, digo que o homem não pode contestar o supremo valor da santidade. Em 1968, ano da contestação dentro e em torno da Universidade, todos os valores estavam no ar, exceto o valor do outro homem ao qual era preciso dedicar-se. Os jovens que por várias horas se entregavam a todas as diversões e a todas as desordens, no fim do dia, iam visitar, como a uma oração, os operários em greve na Renault. O homem é o ser que reconhece a santidade e o esquecimento de si. O para si expõe-se sempre à suspeição”(LEVINÁS, E. Violência do rosto. Trad. Fernando Soares Moreira. São Paulo: Edições Loyola, 2014, p. 39-40).

A santidade se caracteriza como extravasamento da compreensão do ser, na medida em que se vive para outrem, apropriando-se de uma outra ordem, a ordem do humano. A santidade é mais do que racional, é um mandado divino que rompe com a ordem natural e nos insere na dimensão de reconhecimento do rosto do outro: “Vivemos em um Estado em que a ideia de justiça sobrepõe-se a essa caridade inicial, mas nessa caridade inicial reside o ser humano; a ela remonta a própria justiça. O homem não é somente o ser que compreende o que significa o ser, como queria Heidegger, mas é o ser que já ouviu e compreendeu o mandamento da santidade no rosto do outro homem. Também quando se diz que originariamente há instintos altruístas, reconheceu-se que Deus já falou. Ele começou muito cedo a falar. Significado antropológico do instinto! Na liturgia hebraica cotidiana, a primeira oração da manhã diz: ‘Bendito seja Deus, Senhor do mundo, que ensinou ao galo a distinguir o dia da noite’. No canto do galo, o despertar para a luz”(Idem, p. 40).
Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.
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