Arquivo mensal: março 2016

Aletheia

coroa-de-espinhosExpressão que popularizou-se recentemente como denominação da 24ª etapa da Operação Lava-Jato deflagrada pela Polícia Federal, cujo alvo de investigação era o ex-Presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, sobre o qual pesam inúmeras suspeitas de tráfico de influência envolvendo a maior estatal brasileira, a Petrobras. Diferente dessa Operação, “Aletheia” é um termo para além de qualquer investigação judicial porque está preso ao seu sentido grego de verdade, não esquecimento, opondo-se à ideia de letargia, falta de recordação. “Recordar é viver”, já houve quem tenha dito.

Influenciados pelas reminiscências platônicas, revivemos, evocamos aqui um diálogo presente naquele contexto que envolve a morte de Jesus. Um diálogo entre Pilatos, o prefeito da Judeia, e Jesus, o filho de Deus. Vejam que distinguem-se nesse diálogo dois mundos. Dois mundos estão frente a frente, dois reinos estão “tête-à-tête”: a eternidade e a história, o sagrado e o profano, a salvação e o juízo.

Pilatos se vê na impossibilidade de Julgar um homem dos modos e da pertinência de Jesus, o Salvador, o filho de Deus:

“Então Pilatos saiu ao encontro deles e perguntou: ‘Qual é a acusação que vocês fazem contra este homem?’

‘Nós não o teríamos prendido se ele não fosse um criminoso!’, disseram eles.

‘Então levem o acusado para ser julgado por vocês mesmos, conforme a lei de vocês’, disse Pilatos.

‘Mas nós não temos o direito de executar ninguém’, disseram eles, ‘e é necessária a sua aprovação’.

Então Pilatos entrou novamente no Palácio e ordenou que trouxessem Jesus. ‘Você é o Rei dos Judeus?’, inquiriu.

Perguntou-lhe Jesus: ‘Essa pergunta é sua, ou os outros falaram a meu respeito?’

‘Acaso sou judeu’, respondeu Pilatos.

‘O seu próprio povo e os sacerdotes principais entregaram você a mim. Por quê? Que foi que você fez?’

Então Jesus respondeu: ‘O meu reino não é deste mundo. Se fosse, os meus seguidores teriam lutado quando eu fui preso pelos líderes judeus. Mas o meu Reino não é daqui’.

Pilatos respondeu: ‘Então você é rei?’

‘O senhor está dizendo que sou rei’, disse Jesus. ‘Eu nasci para isso. Eu vim a este mundo para testemunhar da verdade. Todos os que estão do lado da verdade ouvem a minha voz’.

‘Que é a verdade?’ perguntou Pilatos. Depois ele saiu outra vez para onde o povo estava e disse: ‘Pelo meu exame, não há nada contra ele’”(Jo 18. 29-38).

Antes do desfecho dramático que culminará com o povo condenando Jesus, Pilatos, ao interrogá-lo, é conduzido a uma pergunta que ainda soa aos nossos ouvidos: “Que é a verdade?”. Filósofos, poetas, cientistas, teólogos,… continuam nos conduzindo a ela. É uma pergunta clássica, na medida em que voltamos a ela, pois tem sempre algo a nos dizer. Nunca para de nos surpreender, por isso clássica.

Aletheia, a verdade, talvez esteja no silêncio de Jesus, revelada em seu testemunho, em seus atos. Da tensão entre Jesus e Pilatos, um fato, uma evidência irrompeu, “nada contra ele”. Tal constatação não foi suficiente para livrá-lo da morte, visto que alguma coisa estava para ser cumprida, as Escrituras.

O curioso é que todo esse processo do julgamento de Jesus de nada adiantou, porque nada foi encontrado contra ele. Pilatos não conseguiu julgá-lo, esta é a verdade. Jesus sai ileso das investigações de Pilatos. Jesus põe a seus pés, faz sucumbir o mundo legal, jurídico e pretensioso. O que se sobrepõe é o amor, uma outra ordem, a ordem divina, essencial para a vida humana.

É sabido que recai sobre todos nós, hoje em dia, uma cultura secularizada, fragmentada e bastante relativa em seus valores, muito diferente daquela vivida por Jesus, mas ainda assim, em meio a tantas verdades, envoltos num mundo plural e globalizado, o testemunho de Jesus continua sendo a “Aletheia” possível para os que pensam diferente e querem já aqui viver o paradoxo da cruz, o amor, a redenção:

“Dar testemunho, aqui e agora, da verdade do Reino que não está aqui significa aceitar que o que queremos salvar nos julgue. E isso porque o mundo, na sua caducidade, não quer salvação, mas justiça. E a quer precisamente porque não pede para ser salvo. Enquanto não são salváveis, as criaturas julgam o eterno: esse é o paradoxo que, no fim, diante de Pilatos, tira a palavra de Jesus. Aqui está a cruz, aqui está a história”(AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: UFSC, 2014, p. 63).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva, filósofo e teólogo.

www.umasreflexoes.wordpress.com

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