Arquivo mensal: outubro 2015

A natureza humana

divergente“Ai, duas almas no meu seio moram!”(Goethe, Fausto)

Diante do homem, um pezinho atrás nunca é demais. O homem carrega antropologicamente uma natureza marcada pela “hybris”, descomedimento, orgulho, inveja, ambição, mentiras, vaidades. A própria Bíblia, em Jeremias, nos faz ouvir do Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço e aparta o seu coração do Senhor!”(17.15). Do ponto de vista ético, claro, o ser humano precisa entender os seus limites, suas medidas e desmedidas, até onde se pode viver disciplinado ou não, porque a qualquer momento podemos dar um passo em falso. Desobedecemos, infringimos as regras. O simples ato de estar de pé significa cuidado, prudência e zelo para não cair, não o contrário, orgulho e vaidade. Não banalizemos nossa natureza. Não tripudiemos sobre as desgraças alheias; ingenuidade pode nos levar à ruína. Fazer-se de corvo sangrando a carne alheia não convém.

A inocência em relação aos outros é uma advertência capital na Bíblia, o que não significa que devemos dissimular, aliás, considerar quando nos relacionamos ainda mais com as pessoas, uma vez que pouquíssimas não se dão conta da diversidade de caráter que há entre nós. Por incrível que pareça, não podemos nos dar ao luxo de confiar tanto nas pessoas, principalmente porque somos muito diferentes, inclusive, em caráter.

Outra coisa: um certo sentimento de culpa, por vezes herdado da cultura judaico-cristã da piedade, compaixão e misericórdia, faz entender o mundo pelo viés do sentimentalismo e encobre a realidade do pecado ou da verdade sobre si mesmo. Talvez aí abrigue a ideia de que a vida é falsa, mentirosa, cheia de vítimas e coitadinhos. Muita gente flerta com essa imagem da vida porque é mais confortável, menos indolor, até que um dia “a vida como ela é” bata à sua porta.

Há poucos dias, com uma turma de estudantes do Ensino Médio, assistimos ao filme “Divergente” de 2014, baseado na obra de Veronica Roth, dirigido por Neil Burger, no qual vimos a importância das virtudes humanas, a força da natureza humana em confronto com as imposições sociais e ideológicas. A incapacidade de uma estrutura social controlar pela cultura de cordeirinhos a natureza humana ou um grupo de almas ou indivíduos.

No filme, cada um escolhe seu grupo de acordo com seus valores humanos, que pode ser: abnegação (altruísmo); audácia (coragem); amizade (bondade); erudição (inteligência); franqueza (justiça). É um filme moderno, dinâmico e prende a atenção dos estudantes. É envolvente. Mostra o dilema que existe entre pensar mais em nós mesmos ou pensar mais nos outros. Os grupos são chamados de facções e em algum momento a vaidade, o orgulho, o desejo de poder, a ambição os corrompem e acabam tomando conta deles, de seus líderes, o que produz uma guerra entre as facções. A repetida mensagem,“A facção antes do sangue”, dita entre eles cai por terra. A natureza humana não segue receitas, não é controlada, ela é livre, como dizia Sartre, se somos condenados à alguma coisa, isso se chama liberdade.

A ideologia social das facções vai contra a natureza humana fundamental. Tal estrutura viva, como se diz no filme, tenta superar a fraqueza da natureza humana, que é uma inimiga dos ideais. Guarda segredos, mente, rouba, viola as leis. Ou seja, o filme faz uma referência real, dura e pessimista da natureza humana, como também ilustra a força da natureza humana quando “Quatro” e “Tris” escondem que são divergentes e resistem ao sistema corrupto de facções imposto pela líder da Erudição.

Se juntarmos a ideia de natureza humana com a realidade política no Brasil hoje, certamente temos muita coisa para refletir. A começar pelas estruturas sociais do Estado que não funcionam como deveriam. Saúde, educação, agricultura, salários, geração de emprego e renda. O país carece de “infra”! Apenas assistimos ao alto nível de corrupção nas estatais e instituições públicas por onde escoam o dinheiro de nossos impostos, acresça-se a isso uma crise política imoral e descabida.

Ah, temos que colocar tudo isso na conta da natureza humana? Também. Porém, é preciso pesar porque há um descontrole na forma de conduzir o governo; estratégias, orçamentos, planejamentos, enfim. Governar é governo de si e dos outros. Austeridade de si e dos outros. Vigiar, fiscalizar, punir. Cercar-se de gente sem histórico de corrupção ou com menos tendência a esta prática. Por último, talvez, discutir as leis, aprofundá-las para melhorar a democracia como forma exemplar de produzir prudência e comedimento na alma (indivíduo) em convivência com os outros, com a coisa pública.

É importante considerar ainda que as políticas públicas voltadas para a diminuição da desigualdade social e para a promoção da inclusão social, programas sociais e etc., tendem a esconder intencionalmente ou não, uma outra fraqueza, além da econômica e da cultural, a da natureza humana por não criar condições de superação no momento das dificuldades e adversidades da vida. Não estariam os governos impossibilitando a natureza humana de se fortalecer cada vez mais na busca de uma saída para seus problemas sociais?

Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

Páginas: www.umasreflexoes.wordpress.com e www.twitter.com/filoflorania

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