Arquivo mensal: agosto 2015

Ver-se no espelho

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O possível é um extraordinário espelho”

(Kierkegaard).

Embora seja uma prática muito banal e corriqueira hoje em dia, “ver-se no espelho” significa a possibilidade de enfrentar sua própria vida, a sua e a de mais ninguém. Você pode levar até um longo tempo flertando consigo mesmo diante do espelho, mas o instante de “ver-se no espelho” um dia chega para todo mundo. É preciso ter coragem para ver sua própria tragédia refletida no espelho, sua alma. “Ver-se no espelho” acaba sendo um exercício brutal da consciência. 
Personagens marcantes da literatura passaram pela experiência arrebatadora de “ver-se no espelho”. Narciso, famoso pela sua beleza, nunca havia contemplado seu rosto, até que um dia, num lago, encontrou-se com sua imagem e ficou paralisado, entorpecido. Tomado pela impressão de embaraço que sua imagem lhe causou, Narciso não se conteve e afogou-se no lago. Essa história foi tão propagada que as pessoas alienadas ao mundo e aos outros são chamadas hoje de “narcisistas”, egoístas.

Ainda mais cortante é a história da Medusa, uma das três filhas de Fórcis e Ceto na mitologia grega, pois quem se atrevesse a olhar para ela transformava-se em pedra. Conta-se que ao dormirem profundamente, o herói Perseu aproximou-se, sem poder olhar diretamente para Medusa, e refletiu seu escudo de bronze para ela que não se conteve ao ver-se no escudo de Perseu e gritou assustadoramente. O herói aproveitou a oportunidade de assombro da Medusa e cortou-lhe o pescoço. O pintor Caravaggio, no séc. XVI, representa a cabeça da Medusa num escudo com cabelos de serpente, olhos esbugalhados e a boca terrivelmente aberta, querendo mostrar o estado de agonia diante de sua condição refletida no espelho de bronze.

Ver-se no espelho” implica perguntar: “Quem sou eu?” Você é jogado num realismo incomum e surpreendente, porque é uma pergunta que afronta sua condição humana. A mortalidade, o efêmero, a soberba, a ambição, o egoísmo, a vaidade, vícios e virtudes são refletidos no espelho da vida. Você pode simplesmente não querer se ver, recusar-se a ver, porque sua ação aqui coloca em questão a sua liberdade. Ou então ver-se numa outra pessoa paradigmática, isto é, ver-se em alguém que você deseja ser; um pai, irmão, mãe, artista de novela, cantor, escritor, jogador de futebol, modelo. De qualquer forma, a metáfora do espelho aponta para um realismo vital, a condição humana, mas nos abre a possiblidade do enigma frente ao imponderável. Ninguém sabe o quê, quem ou como seremos amanhã.

Para Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no séc. XIX, o “ver-se no espelho” está condicionado à sua liberdade. Ser humano para ele é conhecer a sua existência, seu nome, sua história, dramas, conflitos e contradições. Segundo ele, “ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém.” (In KIERKEGAARD, Soren Aabye. Diário de um sedutor; Temor e tremor; O desespero humano. Trad. de Carlos Grifo, Maria José Marinho, Adolfo Casais Monteiro. Col. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 212).

A metáfora do espelho põe o eu frente a frente com a sua liberdade. Ou ele tem consciência de si ao ver-se no espelho ou ele perde a consciência de si deixando que o seu eu se reflita imaginariamente no possível. “O possível”, afirma Kierkegaard, “é um extraordinário espelho, que só pode ser usado com a maior prudência. É na verdade um espelho ao qual podemos chamar mentiroso. Um eu que se olha no seu próprio possível só é semiverdadeiro, porque, nesse possível, está muito longe de ser ele próprio, ou só o é parcialmente (…). O possível lembra a criança que recebe um convite agradável e diz logo sim; resta saber se os pais darão licença… e os pais desempenham o papel da necessidade.”(idem).

De qualquer modo, “ver-se no espelho” é um ato de coragem que requer liberdade; e sendo a liberdade o próprio eu (Cf. idem, p. 207) para Kierkegaard, admitamos que o espelho, ao refletir o eu formado de finito e infinito, reflete também a liberdade como relação (dialética) entre o possível e o necessário.
Prof. Jackislandy Meira de M. Silva, filósofo e teólogo.

www.umasreflexoes.wordpress.com
 

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