Arquivo mensal: junho 2015

O fosso da política

Será que existe alguma lógica na política daqui e do país? Às vezes me pergunto se nossos políticos são tão estrategistas assim. Talvez até haja alguma intenção para a corrida eleitoral. No mais, eles vão fazendo, fazendo, fazendo de qualquer forma amorfa, sem cosmos, com muito caos. Atolados em cegas ações assistencialistas, não pensam um palmo do próprio nariz.

Na maior parte do tempo, estão mais preocupados com seus próprios interesses do que outra coisa. Estão muito ocupados consigo mesmos para dar atenção às realidades maiores.

Certa vez, comparava a política a uma partida de futebol, onde as jogadas vão se desenhando sorrateiramente na mera contingência.

Os comentaristas fazem toda uma análise racional do jogo; esquema tático e técnico; número de faltas; número de passes errados; tempo de posse de bola e etc. Mas quando perguntam ao treinador sua estratégia de jogo, ele simplesmente responde que coloca os caras em campo pra jogar e pronto. E o jogo se desenrola, vai se fazendo ao mero acaso.

Essa realidade do futebol é muito semelhante ao que se passa na política. O que existe é um amontoado de coisas desordenadas acontecendo na política, sem muito sentido, também ao acaso. O pouco sentido, se houver, vem dado pelos analistas ou até pelo povo. Guardadas as devidas proporções, o filósofo Immanuel Kant dizia que era impossível chegarmos ao conhecimento da “coisa em si”, no máximo chegamos ao conhecimento de seu “fenômeno”, aquilo que aparece deste “em si”. Salvo engano, a política e seus “negócios” nos levam a crer que não há “coisa em si” protegida por quem detém o poder, não há esse mistério todo que muitos insistem em pensar. O que existe mesmo na política é uma confusão de interesses e representações soltas ao vento, num vale-tudo inconsequente e num fosso do salve-se quem puder.

Tenho a impressão de que, na política, do ponto de vista administrativo mesmo, quase tudo acontece de improviso. Parece que há um fosso enorme entre os planos de ação e sua execução. Se exigem os projetos mais rigorosos, brilhantes e burocráticos do mundo, no entanto não executam com o mesmo rigor e brilhantismo.

Para a aprovação dos recursos junto ao Gov. Federal, os “projetos” são os melhores e os mais robustos financeiramente, caso contrário os gestores não correriam atrás. Ganham até prêmios. Porém, na hora de aplicar estes recursos, a seriedade e a transparência não são as mesmas, só que há muito dinheiro em jogo e o povo sabe disso.

Lembro-me, quando criança, de ter ido ao antigo castelão em Natal/RN, onde hoje é a Arena das Dunas, assistir a um jogo do Alecrim, e vi um fosso enorme entre a torcida e os jogadores. Assim é o fosso que existe entre os “projetos” políticos (recursos) e sua aplicação.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

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O ensaio filosófico

“Quem for capaz de ter uma visão do conjunto é dialético; quem

 não o for, não é”(Platão, República, 537c).

“O ensaio pensa em fragmentos”(Adorno, O ensaio como forma).

À primeira vista, a palavra “ensaio” pode soar a algo que não tem validade, não tem importância, a exemplo de um ensaio para um show, para uma música, para uma peça. Qualquer ensaio está relativamente condicionado ao que não é, pelo menos ainda. Popularmente a palavra ensaio aparece muitas vezes carregado desse sentido, o que não nos impede de ir mais longe ou de ir até Montaigne para mostrar a pertinência de um ensaio filosófico. O estilo ensaístico persegue todo aquele que se arrisca a escrever livremente sobre um determinado aspecto da realidade, embarcando na aventura de trazer para si e sobre si quaisquer pensamentos, como que recortando, fragmentando a realidade para si.

Já no século passado, ninguém talvez soube dizer tão bem quanto Foucault o que é um ensaio. “O ensaio – que é necessário entender como experiênica modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma ‘ascese’, um exercício de si, no pensamento”(FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. Vol 2. O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1984. p. 13).

Fiz uso da citação acima para mostrar o quanto a palavra “ensaio” está banalizada, bem como a Filosofia e demais áreas de saberes. Isso se deve ao fato de conspirarmos a favor de uma cultura da fragmentação que nos envolve a todos e que nos fez perder a noção de totalidade, de metafísica, de conjunto, de complexidade. Vivemos e, diga-se de passagem, gostamos do que é simplório e vulgar. Gostamos e aplaudimos as vulgaridades. Ostentamos um mundo de vulgaridades na linguagem, no estilo literário, na política, nos saberes. Vivemos, agora, exaltando as mais frívolas atitudes de simplificação do olhar. Os objetos de estudo são analisados periférica e superficialmente sem nenhuma dosagem sequer de Filosofia.

A atividade filosófica não pode ser, é claro, um jogo puramente exclusivo da profundidade e da obscuridade das ideias que não chegam ao público e que permanecem apenas dentro das academias como propriedade exclusiva dos “intelectuais”, todavia, a filosofia é uma reflexão sobre os saberes disponíveis, uma espécie de ensaio sobre a vida. Não sem convicção, Comte-Sponville despertou para o seguinte: “Não podemos, sem filosofar, pensar nossa vida e viver nosso pensamento: já que isso é a própria filosofia”(COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 12).

O estilo de se escrever em forma de “ensaios” levou o filósofo renascentista Michel de Montaigne a píncaros altíssimos de análise da vida em diferentes aspectos. Ele captura particularidades variadas da sua realidade e de outros autores num tom incrivelmente reflexivo e individual que lhe é muito peculiar. O “Da Educação das crianças” que lhe coube um ensaio à parte. Diz ele: “Tudo se submeterá ao exame da criança e nada se lhe enfiará na cabeça por simples autoridade e crédito. Que nenhum princípio, de Aristóteles, dos estóicos ou dos epicuristas, seja seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em sua diversidade e que ele escolha se puder. E se não o puder fique na dúvida, pois só os loucos têm certeza absoluta em sua opinião”(MONTAIGNE, M. Ensaios. São Paulo: Ed. Abril, 1972, p. 81-82). Aqui, ele admite opiniões duvidosas na educação das crianças a fim de atingir a maturidade filosófica, até porque as crianças não são dotadas só de razão, mas de imaginação, de vida, de sentidos e etc. Não é só a ciência, tampouco a dialética, que constituem uma boa educação. A filosofia é um ensaio que extrapola toda e qualquer tentativa de sistematização do saber, por isso ser importante para a educação das crianças. Com o ensaio, admite-se e estimula a dúvida; desperta na criança o hábito da reflexão. Vejam mais o que Montaigne nos diz sobre “os meios e os fins”, “Da tristeza”, “Da covardia”, “Do medo”, “De como filosofar é aprender a morrer”, “a força da imaginação”, “De como julgar a morte”, enfim…

Os ensaios filosóficos ou literários são reflexões muito pessoais por cima, por baixo, por dentro e pelos lados da realidade. É levar o texto a suportar, ao máximo, a fragmentação e amplidão das opiniões, das ideias. São textos fragmentados, mas que não se diluem, nem se perdem no obscurantismo das ideias filosóficas, mas ganham toda uma consistência pelo conjunto da obra. O saudoso escritor e filósofo paraense Benedito Nunes, por exemplo, ganhou um prêmio pela Academia brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Escreveu muitos ensaios filosóficos em sua vida. Reuniu todos e vejam o que deu, uma harmonia maravilhosa entre literatura e filosofia. Maravilhoso! O ensaio ganha consistência também porque é escrito, muitas vezes, por quem realmente conhece a vida e suas dificuldades. O escrever do ensaísta é um escrever com autoridade de quem diz o que viveu. O reflexo de sua tinta é a sombra de sua vida, isso é muito importante num ensaio.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, em Estudos Clássicos/UnB/Archai/Unesco, Licenciado em Filosofia/UERN, Bacharel em Teologia/FAERJ

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As discordâncias

As escolas e outros espaços públicos de manifestação popular e de discussão de ideias deviam saber lidar muito mais com as discordâncias. É lamentável conversar com alguém que não aprendeu ainda a aceitar controvérsias, críticas e coisas do gênero. Tem muita gente boa indo e vindo em gabinetes de repartições públicas; assumindo cargos de gerência; dirigindo escolas; lecionando em Universidades; pregando em púlpitos de igrejas; ou legislando os municípios; e até gerindo o executivo das cidades… Gente de todo e qualquer tipo que precisa urgentemente de uma lição de filosofia, a discordância!

Se fôssemos mais flexíveis com as discordâncias, logo destruiríamos a soberba de que somos os donos da verdade e de que ninguém sabe mais do que nós. Não deveria ser tão estranho alguém discordar de nós, até porque ninguém é obrigado a concordar com tudo nem com todos. Ainda bem que o concordar é relativo à força da persuasão! Há de se convencer alguém a concordar com você, e isso não é tão simples assim. Posso até conviver com você, mas nunca estou obrigado a concordar com seus pensamentos.

Volta e meia, algumas pessoas se aproximam  de nós – pelo menos eu já passei por experiência parecida – para dar uma opinião esperando apenas uma confirmação positiva acerca do assunto. Ou seja, o desejo de autoafirmação das pessoas é tão forte que o diálogo crítico e autêntico acaba se banalizando ou mesmo ficando em segundo plano. Muitas vezes, sufocamos o diálogo em virtude de uma acomodação simples e passiva às opiniões alheias, quando, na verdade, segundo Paulo Freire, o diálogo “é uma relação horizontal de A com B. Nasce de uma matriz crítica e gera criticidade (Jaspers). Nutre-se de amor, de humanidade, de esperança, de fé, de confiança. Por isso, somente o diálogo comunica. E quando os dois pólos do diálogo se ligam assim, com amor, com esperança, com fé no próximo, se fazem críticos na procura de algo e se produz uma relação de ‘empatia’ entre ambos”(FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. 12ª ed. São Paulo: Paz e Terra, p. 39).

Conversar sobre futebol, novelas, religião, política, família e etc implica em temas que dividem a opinião da maior parte das pessoas. Muitas não têm argumentos plausíveis que fundamentem seus pontos de vista e acabam forçando os seus ouvintes a admitir, por bem da amizade, que estão certas. Mas é um equívoco e uma ilusão acharmos que preservamos nossas amizades ao não contra-argumentarmos a favor da verdade ou da riqueza de outros olhares. A minha visão é apenas uma em meio a outras tantas! Abrir-se ao novo é uma experiência irrenunciável!

Somente uma educação com base na ironia socrática ou na humildade pode nos levar a descobrir o valor das discordâncias. Discordar eleva a discussão ao grau de maturidade intelectual em que ambos estão suscetíveis a mudar de opinião. Discordar, com isso, tira o ranço de autoridade que há no diálogo entre duas pessoas que se dizem civilizadas. Discordar fortalece os argumentos que se pretendem afirmar. Discordar nos permite ir além do óbvio. Discordar põe à prova algumas verdades estabelecidas. Discordar quebra o gelo num grupo, numa palestra chata ou numa reunião burocrática. Discordar é também saber aceitar as discordâncias e contradições no seu discurso, até porque ninguém está totalmente certo nem totalmente errado. Aliás, quando discordamos, aprendemos que não somos suficientes, e sim necessários.

Aceitar, superar ou vencer as discordâncias é a meta de todo educador, pois é impossível continuar crescendo sem saber da sua incompletude, de que nunca se estará pronto. Educa-se educando, numa troca infinita de ideias que não se acabarão. “A educação crítica considera os homens como seres em devir, como seres inacabados, incompletos em uma realidade igualmente inacabada e juntamente com ela. Por oposição a outros animais, que são inacabados mas não históricos, os homens sabem-se incompletos. Os homens têm consciência de que são incompletos, e assim, nesse estar inacabados e na consciência que disso têm, encontram-se as raízes mesmas da educação como fenômeno puramente humano. O caráter inacabado dos homens e o caráter evolutivo da realidade exigem que a educação seja ‘uma atividade contínua’. A educação é, deste modo, continuamente refeita pela práxis”(FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Morais, 1979, p. 42).

É essa sensação de inacabamento que resulta das discordâncias. Daí, serem elas tão importantes para a transformação dos valores e do modo como é visto o mundo, do modo como se contam as histórias, do modo como se falam novas coisas. Discordar, minha gente, não é ofender ninguém, mas falar de um outro modo o que ninguém, talvez, tenha falado, permitir-se ao risco de pensar novamente o que já foi pensado.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, em Estudos Clássico/UnB/Archai/Unesco, Licenciado em Filosofia/UERN e Bacharel em Teologia/FAERJ

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O silêncio das massas

O provérbio bíblico “as palavras são de prata, mas o silêncio vale ouro” tem muito a nos dizer. O silêncio, tantas vezes criticado, é a melhor maneira de não dar com a língua nos dentes. O “quem cala consente” não é verdade, principalmente quando o silêncio é uma presença de indignação. Uma indignação que exige respeito e tolerância do “tudo tem limite”. Às vezes, precisamos calar pra não sermos mal compreendidos ou pra reclamar, com ausência da voz, o limite do outro.

No entanto, lanço-me completamente em direção a quem se expressa, a quem tem atitude, a quem se manifesta. Numa democracia, mesmo disfarçada de outras coisas, não podemos abrir mão da fala, não devemos sublimar o grito das massas, o desengasgo daqueles que são reprimidos pela violência dos poderes acéfalos. Acontece também que tem muita gente se escondendo atrás do seu próprio silêncio, fingindo sensatez, mas não tem nada disso, é apenas oportunismo e covardia. Oportunismo para tirar vantagens em cima dos outros e covardia para não mostrar a cara, para não mostrar quem é, para não expor suas posições. Bobagem, uma hora ou outra tudo vem à tona.

Repare bem, a ditadura cerceou nossos direitos de defesa; declarou legítima a tortura e a indigência de inocentes; sufocou sonhos de jovens lideranças; arruinou centenas de milhares de vidas; disseminou o medo e o terror pelo mundo; destruiu inúmeras carreiras bem sucedidas. Passados mais de vinte cinco anos, ainda não aprendemos com a Democracia e continuamos a interferir onde não devemos. Queremos meter o nariz onde não nos convém. Por que temos que desgraçar o que é público em nome do privado? Por que as autoridades insistem em suforcar as liberdades individuais? Ora, se nem Deus se permite a isso, por que nos permitimos a um descalabro desses?

Quem não lembra da Alemanha nazista, da União Soviética stalinista e da Itália fascista! Guardando as devidas proporções, sem nenhum saudosismo, existem alguns focos espalhados no Brasil desse tipo cruel de regime político que vem favorecendo a classe dominadora e excluindo os dominados de uma sociedade esfacelada pela corrupção. Em nome da corrupção se mata, se esconde e se oprime muita gente no estado que se diz democrático de direito. Não é brincadeira o que se faz nas eleições brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste do país. Se barganha quase nada pelo voto em tempos de eleição. É lamentável! Vivemos um certo esfriamento da consciência política, justamente por não vermos as transformações acontecerem com mais eficácia no campo social e político. No jurídico, as leis não são efetivamente cumpridas e isso facilita o aumento de casos de corrupção no país.

O problema da corrupção política no Brasil é crônico. Das pequenas às grandes cidades são inúmeros os casos de desvio de verba pública para fins particulares dos próprios políticos que exercem o governo. Um governo de si mesmo. Muitos governam para si mesmo. “Sua autoridade termina onde principia a autocracia da minoria dominante. Ela regula as oscilações de promessas falsas e de opressão real, incrustadas nas instituições quimericamente ‘constitucionais’” (FERNANDES, Florestan. Herança maldita. Folha de S. Paulo, 10 out. 1994, p. 1).

Levantar a voz contra esse problema devia ser função legítima nossa, sem medo algum, até porque conquistamos efetivamente nossa democracia. Manifestar-se contra as arbitrariedades de um governo irresponsável é exercício nosso de cidadania e faz bem à consciência e ao patrimônio público. Infelizmente, o silêncio das massas nunca foi tão sentido quanto agora, talvez por um certo “conforto” econômico por que passa o país ou pela nova mentalidade ecológica de conservação do planeta, sinceramente não sei. E sei, sim, que o silêncio guarda algo que não quer calar. Vejam só o que dizem Chico Buarque e Gilberto Gil na música “cálice”, um tremendo trocadilho de “cale-se” para expressar a indignação popular contra a censura:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

Não se deixe calar, permita-se falar. Exerça um direito seu que já foi proibido!


Prof. Jackislandy Meira de M. Silva

Especialista em Metafísica/UFRN, em Estudos Clássicos/UnB/Archai/Unesco, Licenciado em Filosofia e Bacharel em Teologia

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Pensar pelo estômago

“O ‘espírito’ se assemelha mais que tudo a um estômago” (Nietzsche, Além do bem e do mal, af. 230).

Nietzsche é visceral. É visceral na política, na educação, na arte, na ciência, na religião e, sobretudo, na filosofia. Essa impressão marcante de Nietzsche me veio ligeiramente agora porque sinto que a filosofia não pode abrir mão de um pensar tão significativo quanto este presente no Prefácio da Genealogia da Moral: “É verdade que, para praticar a leitura de uma ‘arte’, é necessário, antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida (por isso há de passar muito tempo antes de meus escritos serem ‘legíveis’), uma faculdade que exige qualidades bovinas e não as de um homem moderno, ou seja, a ruminação”(NIETZSCHE, A genealogia da moral. 2ª ed. São Paulo: Escala, 2007. p. 20). Daí ser imprescindível ao filósofo, ou ao homem simplesmente, que as qualidades bovinas devam nos guiar pelas veredas da vida do pensamento. Ora, atrelado às faculdades da imaginação e da memória, está a do ruminar. Que genialidade do filósofo, digo do poeta!

Observar o pasto. Se o pasto é verdejante ou não. Escolher o que se vai comer. Depois, ruminar, ruminar bastante como um boi ou uma vaca. Em seguida, digerir o alimento, o pasto, para não dar uma indigestão. Escolher bem o que se vai comer facilita a digestão e a consequente produção de conhecimento. Essa passagem da filosofia de Nietzsche, de certo modo, é uma reação à cultura do entretenimento que pouco pensa e reflete no que faz, pouco se esquece e muito se ressente.

Com que mais nos aborrecemos? Com uma dor de cabeça ou uma dor de estômago? Independentemente da resposta, “o homem que pune a si mesmo é o mesmo que acredita na dor como forma de engrandecimento e elevação”(MOSÉ, Viviane. O homem que sabe. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. p. 46). Dor de cabeça aqui é a dor da consciência por um malfeito praticado. Dor de estômago é a angústia, advinda dos conflitos internos ou até mesmo dos ressentimentos. Na linha da consciência está tudo que julga, escamoteia, racionaliza, limita, controla, conhece e que impede a força instintiva do ser, o poder ser. Na linha do estômago está tudo aquilo que do humano é instintivo, por exemplo, a natureza, a arte, a criação, a ousadia, o improviso, as paixões, enfim. Essas duas linhas são paralelas e a reação de ambas pode potencializá-las, é preciso então reconhecê-las e entender por que elas atravessam a história do pensamento e suas transformações.

A referência ao espírito como um estômago aparece no Zaratustra ressaltando a deterioração da vida produzida pela consciência: “Um estômago estragado, com efeito, é seu espírito: esse lhes aconselha a morte! Porque, na verdade, meus irmãos, o espírito é um estômago! A vida é uma nascente de prazer; mas, para aqueles em quem fala o estômago estragado, o pai das aflições, todas as fontes estão envenenadas”.

O interessante é que Nietzsche se apropria da imagem do estômago para nos mostrar o quanto é importante a função da consciência: “A consciência digere, na medida em que assimila ou rejeita, selecionando, simplificando, reduzindo, processando”(idem, p. 47). Uma linha explica a outra. A consciência se reflete no estômago e vice-versa. Por que não pensar pelo estômago? Pensar é também digerir com o aparelho da memória e do esquecimento. Segundo Nietzsche, a melhor forma de digestão é o esquecimento.

Engraçado… Mas o papel da consciência nos remete à cultura judaico-cristã que, distorcida e tendenciosamente, dimensiona as ações humanas ao aspecto padrão da mensagem de Cristo, dos seus atos e suas palavras por meio do medo e de suas superstições; uma cultura extremamente massificadora e autoritária das igrejas, segundo a qual constituem modelos de comportamento, de dominação e servidão. Reconhecer isso cria o homem ressentido.

Em contrapartida, o caráter filosófico do estômago, avesso à cultura de rebanho apontada acima, nos insere na perspectiva do novo, do reativo, do devir. Temos que reagir ao que aprendemos a negar por meio de uma cultura da morte e da inércia. É preciso reaprender, senão desaprender a viver. É preciso afirmar a natureza, a própria vida, os afetos, as paixões, as pulsões, o desconhecido, a pluralidade, a mudança e o tempo.

Por falar em tempo, o deus grego Cronos casou com sua irmã Reia e teve seis filhos: Zeus, Hades, Poseidon, Héstia, Deméter e Hera. Logo que nasciam, os filhos eram engolidos literalmente por Cronos. Só não conseguiu engolir Zeus porque sua mãe  enganou Cronos ao colocar uma pedra enrolada em panos. Ao invés de comer Zeus, Cronos comeu uma pedra. Com essa história, estive pensando na indigestão que a pedra causou a Cronos, não pela pedra, claro, mas pelo que iria se suceder daí. Zeus se vingaria de Cronos e reinaria absoluto.


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Especialista em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos/UnB/Archai/Unesco.

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Como encontrar o bom humor

De Kundera, mais bom humor.

“Ah, o bom humor! Você nunca leu Hegel? Claro que não. Você nem sabe quem ele é. Mas nosso professor que nos inventou me forçou a estudá-lo noutros tempos. Em sua reflexão sobre o cômico, Hegel disse que o verdadeiro humor é impensável sem o infinito bom humor, ouça bem, é o que ele diz com todas as letras: ‘infinito bom humor’. Nada de zombaria, nada de sátira, nada de sarcasmo. Somente das alturas do infinito bom humor é que você pode observar abaixo de si a eterna tolice dos homens e rir dela.” (in A festa da insignificância, p. 90).

“Como encontrar o bom humor?” (idem).

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A festa da insignificância

“(…) Queria lhe falar então Quaquelique. Meu grande amigo. Você não o conhece. Eu sei. Pois bem. Agora, a insignificância me aparece sob um ponto de vista totalmente diferente de então, sob uma luz mais forte, mais reveladora. A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, neste parque, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda sua evidência, com toda sua inocência, com toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo… sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor…”

(KUNDERA, Milan. A festa da insignificância. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 132).

Simplesmente maravilhoso. De uma graça e bom humor impecáveis. Um texto gostoso de ler.

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O anjo da história

De Gershom Scholem, poema sobre a “Saudação do Angelus”, escrito a partir do quadro de Paul Klee, “Angelus Novus” e que foi enviado para o filósofo Walter Benjamin no dia de seu aniversário em 15 de julho de 1921.

“Aqui da parede, nobre, / não pouso o olhar em ninguém, / venho do céu que vos cobre / sou homem-anjo do Além // No meu reino o homem é bom / mas não é nele seu aposto / recebo do Alto o dom / e não preciso de rosto // A região de onde vim / tem medida e luz sem fundo: / o que me faz ser assim / é prodígio do vosso mundo // Dentro de mim está a urbe / para onde Deus me mandou / o anjo com este selo / nunca ela o deslumbrou // Minha asa está pronta para o voo altivo: / se pudesse, voltaria / pois ainda que ficasse tempo vivo / pouca sorte teria // Os meus olhos são negros e fundos / e nunca se esvazia o meu olhar / sei muita coisa deste mundo / sei o que venho anunciar // Não sou simbólico nem trágico /significo o que sou, é tudo / em vão giras o anel mágico / pois em mim não há sentido”.

(in BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Trad. de João Barreto. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 14, [N.T.])

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A política como espaço público

“Essa concepção, de que só pode ser livre quem está disposto a arriscar sua vida, nunca mais desapareceu de todo de nossa consciência; o mesmo vale para a ligação entre a coisa política e perigo e risco. A coragem é a mais antiga das virtudes políticas e ainda hoje pertence às poucas virtudes cardeais da política, porque só podemos chegar no mundo público comum a todos nós — que, no fundo, é o espaço político — se nos distanciarmos de nossa existência privada e da conexão familiar com a qual nossa vida está ligada. Aliás, o espaço no qual entravam aqueles que ousavam ultrapassar a soleira da casa já deixou de ser, em nossa época, um âmbito de grandes empreendimentos e aventuras, no qual o homem só podia entrar e no qual só podia esperar sair vitorioso se se ligasse a outros que eram seus iguais. Além disso, é verdade que surge no mundo aberto para os corajosos, os aventureiros e os ávidos por empreendimento uma espécie de espaço público, mas ainda não-político no verdadeiro sentido. Torna-se público esse espaço no qual avançam os ávidos por façanhas, porque eles estão entre seus iguais e se podem conceder aquele ver, ouvir e admirar o feito, cuja tradição vai fazer com que o poeta e o contador de histórias mais tarde possam assegurar-lhes a glória para a posteridade. Ao contrário do que acontece na vida privada e na família, no recolhimento das quatro paredes, aqui tudo aparece naquela luz que só pode ser criada em público, o que quer dizer na presença de outros. Mas essa luz, condição prévia de toda manifestação real, é enganadora enquanto for apenas pública e não-política. O espaço público da aventura e do empreendimento desaparece assim que tudo chega a seu fim, logo que dissolvido o acampamento do exército e os ‘heróis’ — que em Homero nada mais significam que os homens livres — retornam para suas casas. Esse espaço público só se torna político quando assegurado numa cidade, quer dizer, quando ligado a um lugar palpável que possa sobreviver tanto aos feitos memoráveis quanto aos nomes dos memoráveis autores, e possa ser transmitido à posterioridade na seqüência das gerações. Essa cidade a oferecer aos homens mortais e a seus feitos e palavras passageiros um lugar duradouro constitui a polis — que é política e, desse modo, diferente de outros povoamentos (para os quais os gregos tinham uma palavra específica), porque originalmente só foi construída em torno do espaço público, em torno da praça do mercado, na qual os livres e iguais podiam encontrar-se a qualquer hora”

In ARENDT, Hannah. O que é política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. 20. 2002.

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O mesmo e o outro em Levinás

É preciso inverter os termos. Para a tradição filosófica, os conflitos entre o Mesmo e o Outro resolvem-se pela teoria em que o Outro se reduz ao Mesmo ou, concretamente, pela comunidade do Estado em que sob o poder anônimo, ainda que inteligível, o Eu reencontra a guerra na opressão tirânica que sofre da parte da totalidade. A Ética, em que o Mesmo tem em conta o irredutível Outrem, dependeria da opinião. O esforço deste livro vai no sentido de captar no discurso uma relação não alérgica com a alteridade, descobrir nele o Desejo – onde o poder, por essência assassino do Outro, se torna, em face do Outro e “contra todo o bom senso”, impossibilidade do assassínio, consideração do Outro na justiça. O nosso esforço consiste concretamente em manter, na comunidade anônima, a sociedade de Eu com outrem – linguagem e bondade. Esta relação não é pré-filosófica, porque não violenta o eu, não lhe é imposta brutalmente de fora, contra a sua vontade, ou com o seu desconhecimento como opinião; mais exatamente, é-lhe imposta, para além de toda a violência, de uma violência que o põe inteiramente em questão. A relação ética, oposta à filosofia primeira da identificação da liberdade e do poder, não é contra a verdade, dirige-se ao ser na sua exterioridade absoluta e cumpre a própria intenção que anima a caminhada para a verdade.
LEVINÁS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. 3ª ed. Portugal, Lisboa: Edições 70, 2008, p. 34

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