Arquivo mensal: abril 2015

#A leitura exigente e suas quatro perguntas fundamentais – Como Ler Livros – Part. III

Vida de estudo

É preciso ler para crescer em mente e em espírito. Não se pode perder muito tempo com leituras bobas. Com essa reflexão, iniciamos mais um artigo da série Como Ler Livros, inspirada na obra How to Read a Book, do humanista norte-americano Mortimer Adler.

Já descobrimos nas últimas duas postagens (#Part.I e #Part.II) que é preciso ler da forma mais ativa possível.

Hoje, vamos abordar a essência de leitura exigente que se edifica a partir de quatro perguntas básicas.

Antes de ir a elas, tenhamos em mente que há uma prescrição principal para qualquer leitura que se pretende ser ativa: Faça sempre perguntas enquanto se lê. São questões que nós mesmos devemos tentar responder no decorrer da leitura.

As quatro questões básicas

1. O livro fala sobre o quê?

Devemos desvendar o tema, perceber o desenvolvimento, os subtemas e os tópicos do livro.

2. O que exatamente está sendo dito…

Ver o post original 765 mais palavras

Estopim de manifestos


(Manifesto em Brasília, DF, fonte: http://www.noticias.r7.com)

As várias manifestações populares tomando ruas e praças por todo o Brasil são, na verdade, um grito de “desengasgo” de que não é mais possível suportar, com tanta indiferença e tamanha passividade, a má gestão do dinheiro público. Parece que o povo quer resgatar sua identidade democrática. Estamos ocupando um lugar que é nosso no cenário político. Um lugar de participação e discussão para dizer o quanto estamos insatisfeitos com o tratamento que estão dando aos recursos públicos.

Infelizmente, passamos a metade do ano trabalhando só pra pagar impostos ao governo. A gente trabalha para manter esse país. Ainda dizem que o serviço público nesse país é gratuito. Não é tão gratuito assim. Paga-se por tudo, inclusive por saúde, educação, transportes, lazer, água, luz, internet, telefone, enfim, e ainda temos que aturar obras superfaturadas, gastanças com “arenas” de futebol para a copa do mundo, corrupção política, excessos de regalias para autoridades políticas e outra gama enorme de injustiças sociais, como baixos salários, vão superando o limite prudencial de tolerância dos cidadãos ao ponto de causar todo esse estopim.

A população não está querendo só a redução da taxa de transporte público, mas a condição de poder usufruir melhor os seus direitos. Além disso, quer saber, com transparência, como está sendo gerido o dinheiro de tantos e tão altos impostos e por que a condição de vida está piorando.

Curioso, mas o ato de ir às ruas e ocupar as praças deixou o enorme país bem pequenininho aos olhos de todos, sobretudo, aos olhos dos políticos, uma vez que as imagens dos protestantes subindo a rampa do Congresso Nacional em Brasília chamam a atenção pelo simbolismo, pois significa muito. Quem realmente deve estar no centro do poder democrático? O povo. E outra, as inúmeras cenas dos manifestantes expressam a seguinte reclamação: Quem nos representa?

Por mais que alguns cientistas afirmem que essas manifestações não passem de atos emocionais isolados da população, sem nenhuma causa maior, no entanto, prefiro esperar um pouco para ter a certeza de que tudo isso signifique, de fato, aspirações mais amplas e mais profundas de uma sociedade que, me parece, no dizer do filósofo Luiz Felipe Pondé, “está criando o hábito de reclamar”.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bacharel em Teologia, Licenciado em Filosofia, Especialista em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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A reinvenção da Utopia

(imagem: Ponte de Heráclito, Magritte, fonte: www.espress451.wordpress.com)

Não gosto da ideia de pensar que a realidade é o único lugar que existe. A realidade é muito dura conosco, algumas vezes até mentirosa, traiçoeira e cruel. Assusta-me o fato de estarmos cercados somente de realidade, isto quer dizer que a vida parece ficar sem respiração, sem fôlego para encontrar uma possibilidade para tantos dilemas e contrariedades, presa aos limites da existência. Para muitos pontos cegos que a realidade esconde, nada melhor do que encontrar pontos de claridade regados à utopia.

Quando leio alguns livros e textos onde a utopia é simplesmente restrita a situações políticas, noto aí certo empobrecimento de sua riquíssima noção. É preciso reinventar a utopia.  Não mais a caduca noção de imaginar uma sociedade ideal que, evidentemente, jamais será realizada, tampouco aceitar a corriqueira utopia capitalista que desperta em nós os instintos e desejos mais perversos. Os desejos que a utopia capitalista produz, além de serem extremamente acessíveis, são impostos pela estrutura e acabam nos obrigando a realizar.

Tenho a impressão de que a utopia pode ser imaginada quando os problemas estão nos sufocando e a situação está se tornando insuportável em qualquer instância da vida, e não somente na dimensão política, muito embora saibamos que o verdadeiro sentido da política abrange toda uma arte de viver e supõe uma incrível habilidade no modo de viver. É mais ou menos por aí que se pode reinventar a utopia para Slavoj Zizek, pois afirma que “a verdadeira utopia surge quando a situação não pode ser pensada, quando não há um caminho que nos guie a resolução de um problema, quando não há coordenadas possíveis, que nos tire da pura urgência de sobreviver, temos que inventar um novo espaço. A utopia é uma espécie de livre imaginação. A utopia é uma questão da mais profunda urgência, quando somos forçados a imaginá-la como único caminho possível, e é isso que precisamos hoje”.

Sugiro que, se a realidade estiver mesmo muito insustentável, tenha senso de humor, brinque com ela e divirta-se, depois imagine o que pode ser feito para torná-la suportável, leve ou até feliz. Fernando Savater, na obra Política para meu filho, faz uma interessante diferença entre utopia e ideais políticos, assumindo uma posição crítica em relação à utopia: “Gostaria muito que você tivesse ideais políticos, porque as utopias fecham as cabeças, mas os ideais as abrem; as utopias conduzem à inação ou ao desespero destrutivo (porque nada é tão bom como deveria ser), ao passo que os ideais estimulam o desejo de intervir e nos conservam perseverantemente ativos (…)”.

De qualquer modo, é preciso subverter a antiga ideia de utopia para reinventá-la e não simplesmente dispensá-la. A história é testemunha de que os projetos utópicos fracassaram, mas, como a história progride e estamos ao seu serviço, ainda buscamos ideais e utopias, afinal de contas há em nós sonhos, imagens, desejos possíveis e realizáveis de um mundo melhor, de uma realidade cujo fardo é leve.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

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A síndrome da “Rinoceronite”

(foto de meus arquivos pessoais: zoológico de Brasília, DF)

Não sei se li bem a peça de Eugène Ionesco, intitulada “O rinoceronte”, de 1960, na qual é possível ver, numa crescente dramática, os indivíduos de uma cidade se transformarem em animais porque não conseguem deixar de ser os mesmos, isto é, levados pela obsessão de se tornarem iguais uns aos outros, acabam se metamorfoseando em rinocerontes.

O fato, considerado absurdo, nos chama a atenção para elementos banais, usuais, uniformes e habituais da sociedade, conforme os quais, é urgente capturar senão o insólito ou a insignificância da existência. De todas as personagens, a única que resiste ao habitual, ao que chamo aqui de síndrome da “rinoceronite” naquela cidade, é Bérenger; mesmo assim, tem que conviver com sua solidão ao ponto de debater-se consigo mesmo, duvidando da sua identidade e achando que o monstro é ele, e não os outros.

Além de ser bastante divertida, a peça consegue nos fazer pensar quem realmente somos e por que precisamos entender nossas diferenças para lutar contra a uniformidade. De tão incomum e inabitual, a mutação de pessoas em rinocerontes destoa simbolicamente como evento pontual em toda peça para uma tomada de reflexão: fingimos quem somos e nos tornamos em rinocerontes ou assumimos nossa condição humana e permanecemos homens?

A sensação que há, ao aproximarmos a sociedade povoada de rinocerontes com a nossa, é que estamos criando cidadãos ainda mais conformados; incapazes de expressar sua indignação, impotentes frente às estruturas de poder, reféns de um modelo de comportamento padrão, segundo o qual a mediocridade é o que predomina. Parece que ser diferente ou fazer a diferença nesse país é proibido e acarreta problemas.

Em geral, as pessoas não gostam de quem faz a diferença e, com isso, contribuem para a transformação do humano em rinocerontes, aumentando o número daqueles que sofrem com a síndrome da “rinoceronite”. Há sempre os que colaboram com a corrupção política e cedem a inúmeras espécies de suborno, tornando-se iguais aos demais. A resistência a este modelo distorcido de comportamento é algo muito raro, talvez pela forte tentação às facilidades, pelas ilusões de satisfação material ou até por causa dos medos de enfrentar a própria realidade.

Engraçado, mas, ao menos em dois momentos que aparecem rapidamente o rinoceronte pela cidade, a reação de Bérenger é diferente da dos outros personagens envolvidos na peça, visto que no exato instante que aparece o exótico animal, também aparece Daisy e arrebata completamente a atenção de Bérenger. Enquanto todos se admiram com a presença avassaladora do bicho, somente Bérenger é envolvido pelo seu desejo particular: “Oh, Daisy!”

Embora tomado de amor por Daisy, sentindo-se livre de seus complexos, ainda assim Bérenger não consegue ficar indiferente ao chocante acontecimento da cidade, onde pessoas amigas e queridas estão deixando de ser humanas e passando a animais. Surpreso com o avanço da “síndrome”, Bérenger desabafa: “Eu me sinto solidário com tudo o que acontece. Eu participo… Não consigo ficar indiferente.”

Muito me impressiona o que Bérenger acaba de afirmar, pois parece soar como uma explicação razoável, segundo a qual apenas ele não tenha se transformado em rinoceronte. O lógico, os clássicos, os aparentemente bons, as autoridades, gente próxima e distante, rica e pobre, importantes ou não, todos estão se deformando. As pessoas, nas quais ele mais confiava, cederam, sucumbiram!

No final da trama, a atmosfera ganha ares de desolação, indignação e dúvida pelas expressões de Bérenger, pondo em crise sua própria condição humana: “(vendo-se pelo espelho) Um homem não é feio; não é feio, um homem! (passando a mão pelo rosto) Que coisa gozada! Com que é que eu me pareço, então? Com quê?… Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (Vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo!”


Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Especialista em Metafísica/UFRN e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco

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A máscara do fascismo

Tenho visto muitas máscaras de fascismo espalhadas pelos ambientes burocráticos da esfera política, entre elas estão o completo descaso dos parlamentares em discutir uma reforma política e a escandalosa indiferença com que tratam os casos de corrupção da máquina administrativa, bem como a inteira apatia em ouvir as vozes das ruas, que são os desejos da sociedade.

Um dado do Relatório Global de Felicidade, da ONU, salta aos nossos olhos, é que a corrupção é um dos fatores que impede, e muito, o brasileiro de ser o povo mais feliz do planeta. Informação recentemente publicada em site da Exame: http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/onu-revela-o-que-impede-a-felicidade-do-brasileiro

Enquanto o dinheiro público se esvai pelos ralos de obras superfaturadas, licitações escusas e outros meios de desvios de verbas públicas, grande parte dos que governam investe na tentativa de enganar os outros, a massa mal paga e menos esclarecida, com discursos evasivos, sabendo que o povo cairá, como sempre, nas mesmas armadilhas ou conversas de antes. Tal comportamento, por si só, já é carregado de fascismo!

Há pouco tempo assisti a uma palestra, na internet, da filósofa Márcia Tiburi, professora da Universidade Mackenzie de São Paulo, para quem o fascismo poderia ser descoberto com a seguinte pergunta: o que você acha do povo? Se alguém; um político, professor, jornalista, escritor, enfim, respondesse que o povo é ignorante, não entende nada, não está nem aí pra nada, este sim é um fascista.

O fascista acredita que os outros são idiotas, bobos e tolos, não servem para nada, a não ser para servir-lhe ou obedecer-lhe. O fascista impossibilita o diálogo porque não aceita um outro ponto de vista, uma outra ideia, uma outra pessoa, no fundo, não admite uma alteridade.

Lendo uma entrevista de Marilena Chauí para a Revista Cult de Agosto de 2013, pude sentir a cristalina diferença entre violência revolucionária e a fascista com relação às manifestações populares de junho: “(…) Lênin dizia assim: ‘Há uma coisa que a burguesia deixou e que nós não vamos destruir: o bom gosto e as boas maneiras’. Ora, não estamos num processo revolucionário para dizer o mínimo! Se não se está em um processo revolucionário, se não há uma organização da classe revolucionária, se não há a definição de lideranças, metas e alvos, você tem a violência fascista! Porque a forma fascista é a eliminação do outro. A violência revolucionária não é isso. Ela leva à guerra civil, à destruição física do outro, mas ela não está lá para fazer isso. Ela está lá para produzir a destruição das formas existentes da propriedade e do poder e criar uma sociedade nova. É isso que ela vai fazer. A violência fascista não é isso. Ela é aquela que propõe a exterminação do outro porque ele é outro. Não estamos num processo revolucionário e por isso corremos o risco da violência fascista contra a esquerda (mesmo quando vinda de grupos que se consideram ‘de esquerda’)”.

É no encontro com o outro, com minha alteridade que me dirijo para uma dimensão de profunda experiência humana, social e coletiva.

O movimento interno e externo de uma revolução não se faz sozinho, porque ninguém pensa sozinho, ninguém vive sozinho. É preciso criar encontros com os outros a fim de promover uma felicidade possível, um mundo mais verdadeiro, onde todos não tenham medo de encarar a sua vergonha e queiram, assim, tirar a máscara do engano, do lixo nocivo da corrupção e do fascismo.

Diferentemente do fascista, implica dizer como Slavoj Zizek: “Não sou eu. Sou só uma ferramenta. Estamos todos servindo a história”.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica e em Estudos Clássicos pela UnB/Archai/Unesco.

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Um exemplo de hospitalidade filosófica

Obviamente que vivemos num mundo da “ecumene”, num mundo habitado, cujas fronteiras estão cada vez mais invisíveis e podemos até nos considerar cidadãos do mundo, quer pela realidade de uma aldeia global quer pela forma como tratamos o outro, o estrangeiro, os de outra pátria ou sem pátria, os andarilhos, forasteiros, enfim. No cenário atual, as discussões diplomáticas a respeito de atos virtuais de espionagem estão quentíssimas, deixando bastante conturbadas as relações éticas entre Brasil e EUA, o que prova o quanto o mundo virtual tornou inseguras nossas fronteiras; a impressão é que elas já não existem mais.

Ainda assim, mesmo com toda a facilidade do que fazemos aqui respingue ali instantaneamente, há recorrentes casos de extremo nacionalismo, acentuada xenofobia nos mais variados rincões. Os preconceitos com o diferente se sucedem em toda parte. Parece que sofremos de uma certa aversão ao diferente, ao que não é do nosso grupo, ao que não pensa como nós.

Só que surgirão os que não admitem ser preconceituosos, xenófobos ou coisa do gênero, etc., mas consideram ser sociáveis, sem problema algum com os outros, tolerantes. Contudo, a conversa muda no momento em que estas situações começam a interferir na minha vida. Desde que determinados problemas não me afetem tudo bem. Geralmente é assim, o tolerar tem limites e transparece superioridade por parte de quem tolera. Bom quem tolera, coitadinho quem é tolerado.

O interessante é que Emmanuel Lévinas, filósofo judeu, lituano, francês, que viveu o turbilhão das guerras do século passado, é um exemplo crucial não de tolerância, e sim de hospitalidade em seu pensamento. Isso é muito forte porque o exemplo de tolerância ainda traz consigo algo de superioridade, pois ao dizer que sou tolerante a você, a enunciação por si só já demonstra algo de superior. Enquanto superior, traduzo a minha bondade sobre você. Ele diz que há algo muito mais generoso, que é precisamente a hospitalidade, o acolher efetivamente o outro, a alteridade, o diferente, e fazer disso um diálogo rico e fértil sob vários aspectos.

Este diálogo se faz entre ideias, linguagens, temas e assim por diante, tal como essa acolhida, essa hospitalidade que ele concede a temas que vem dos apaixonados romances russos, sobretudo Dostoiévski, depois com a leitura da Bíblia e por fim com uma crítica profunda ao espírito do Totalitarismo presente no hitlerismo, por exemplo.

Nesse contexto, a palavra hospitalidade guarda a ideia de duas outras palavras: atenção e acolhimento, de modo que a hospitalidade expressa uma tensão em direção ao outro, intenção também atenta, atenção intencional ao outro. O primeiro movimento que acompanha o acontecimento da hospitalidade, para Lévinas, é o acolhimento: “A noção de rosto significa a anterioridade filosófica do sendo sobre o ser, uma exterioridade que não apela ao poder nem à posse, uma exterioridade que não se reduz, como em Platão, à interioridade da recordação, e que, contudo, protege o eu que o acolhe” (Totalidade e Infinito, p. 22).

Estamos diante de uma hospitalidade infinita e incondicional, aberta à ética, por isso não restrita simplesmente à ordem do político, mas que ultrapassa o pensamento meramente político, do espaço político. O alcance da hospitalidade, segundo Lévinas, está na afirmação de que “A intencionalidade é hospitalidade”. Vejamos o momento de acolhimento à palavra para a decisão divina: “Decisão do Eterno acolhendo a homenagem do Egito (O Eterno é hospedeiro [host] acolhendo o hóspede [guest] que lhe traz sua homenagem numa cena clássica de hospitalidade.). A Bíblia permite prevê-la no Deuteronômio 23. 8, versículo que o próprio Messias, apesar de sua justiça, deve ter esquecido. Pertence-se à ordem messiânica, quando se pode admitir o outro entre os seus. Que um povo aceite aqueles que vêm instalar-se no seu seio, por mais estranhos que sejam, com seus costumes e seus hábitos, com seu falar e seus odores, que ele lhe dê uma akhsania como um lugar de albergue e de que respirar e viver – é um canto de glória do Deus de Israel”(À l’heure des nations, p. 113).

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia/UERN, Esp. em Metafísica/UFRN e Esp. em Estudos Clássicos UnB/Archai/Unesco.

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Não passamos de pó e cinza

Se tem um tema que realmente demanda muita “metafísica” e nos joga para dentro do drama da existência humana, esse tema é a morte. Essa desconhecida costuma deixar cicatrizes profundas na história e mais ainda na consciência individual e coletiva de todos nós, mas também é capaz de produzir um intenso movimento a favor da vida, quando não, ao menos nos faz refletir e a parar diante dela.

Muitos acidentes de trânsito, tragédias difíceis de apagar, certamente levaram pessoas abnegadas a defender regras mais eficazes de promoção da segurança nas estradas. Assassinatos, homicídios, guerras e catástrofes acabam transformando nossas vidas e até mudando nossos comportamentos a cada momento. Tornamo-nos piores ou melhores, porém alguma coisa muda, alguma coisa sai de lugar com a morte. A morte dá uma guinada na vida da gente.

Por causa da morte do seringueiro Chico Mendes, defensor político dos interesses dos trabalhadores do Estado do Amazonas e contra a exploração irracional da floresta, muitos saíram de suas casas e levantaram a bandeira de luta social e política a favor do meio ambiente, a favor da vida e da desconstrução social. Não é tão diferente com o impacto causado pela morte de centenas de estudantes e trabalhadores cidadãos na época da ditadura militar perseguidos pela censura e pelo cerceamento dos direitos civis. Quem não lembra da revolução que a F1, campeonato de automobilismo, sofreu em virtude da morte de Ayrton Senna! Os EUA ainda não superaram o trauma criado pela morte das quase três mil pessoas, vítimas dos ataques às torres gêmeas em setembro de 2001!

Curioso, mas ainda hoje, depois de mais de sessenta e cinco anos não nos esquecemos da segunda guerra mundial, das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, dos campos de concentração, da morte em massa de mais de seis milhões de judeus. Ora, não sai de nossa memória, após 2013 anos, a morte cruel e brutal de um judeu, Jesus, o tradicional filho do carpinteiro, o Galileu. Como todas as outras, mas, sobretudo, com esta, temos muito o que aprender: Aceitar a morte, uma vez que é a nossa própria condição humana; além disso, vencê-la; atravessar e ser atravessado por ela, de modo a refletir uma vida justa, honesta e corajosa.

O filósofo francês Jean Paul Sartre, em vida e mesmo após a sua morte, nos deixou um legado praticamente universal, por isso não menos existencial, de que somos condenados à liberdade. Na mesma proporção e talvez mais contundente ainda, essa condenação possa servir para o dado da morte. Somos também condenados à morte porque somos humanos. Parece óbvio, mas basta nascermos, basta estarmos vivos para morrermos.

Ao nos remetermos para o contexto da velhice do Rei Salomão, muitíssimo experimentado em anos, vemos uma corajosa forma de encarar a morte/vida, sacudindo de nós a poeira da vaidade, pois não passamos de pó e cinza. Pensar a morte é encarar a vida com tudo o que ela significa na visão do autor do livro bíblico do Eclesiastes, é saber-se insuficiente, impregnado de vitalidade, é transformar-se em um homem de verdade: “Não te apresses em abrir a boca; que teu coração não se apresse em proferir palavras diante de Deus, porque Deus está no céu, e tu na terra; que tuas palavras sejam, portanto, pouco numerosas. Porque as muitas ocupações geram sonhos, e a torrente de palavras faz nascer resoluções insensatas” (5.1-2).

Fica a pergunta: Sabendo que vamos morrer, e isso não nos escapa, ainda assim nos envaidecemos, como agiríamos, então, acaso não soubéssemos que morreríamos?

Vale aprender do koheleth, como é conhecido o livro do Eclesiastes em hebraico: “[Lembra-te do teu Criador] antes que se quebre a cadeia de prata, e se despedace o copo de ouro, e se despedace o cântaro junto à fonte, e se despedace a roda junto ao poço, e o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (12. 6,7).

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Incapaz de viver o que sabe ser certo

(imagem: Medéia de Paul Cézanne)

Eis aí a incapacidade que parece atormentar a todos; viver o que se sabe certo. Mas o que seria o certo pra você? Longe de mim, aqui, querer advogar o politicamente correto, no entanto cabe a todos uma tomada de consciência a partir do ponto gerador de atitudes, de ação, de vida. Que princípios seguimos para agir? Ou seguimos certos códigos de ética construídos por nós mesmos ou vivemos involuntariamente, alheios a qualquer tipo de obediência e dever.

Segundo Kant, pensador do séc. XVIII, duas coisas lhe causavam bastante espanto, como bem confessou o filósofo: “o céu estrelado fora de mim e a lei moral dentro de mim”. Ele admitia uma verdade subjetiva que possibilitava o indivíduo construir seus próprios valores e conceitos para viver. Sendo assim, o clichê: “o que é certo pra mim não é certo pra você” ganha, à luz da filosofia kantiana, um status aceitável e discutível é claro. A partir disso, as sociedades com seus cidadãos tiveram a imensa liberdade para construir seus sistemas, leis e constituições conforme as diferentes tradições, crenças e valores.

Só que Kant e muitos de nós nos esquecemos de combinar tudo isso com a nossa condição humana. Os indivíduos não são programáticos nem pragmáticos, mas imprevisíveis e inconstantes, instáveis, humanos. Há uma espada da condição humana que transpassa a nossa alma, atravessando-nos totalmente.  A nossa humanidade não dá saltos, ela é o que é. Não somos nem bichos nem deuses, mas humanos. Aí está uma verdade que demoramos para aceitar, tanto é que é preciso muitas atrocidades acontecerem para que tomemos um choque de realidade.

O caso do padrasto e da mãe do garoto Joaquim Ponte Marques que abalou o Brasil com contornos de crueldade ao mostrar que a criança havia sido morta antes de ser jogada ao rio e de ser encontrada depois de seis dias de desaparecida. Uma psicóloga ouviu o padrasto e percebeu que ele tinha ciúmes da criança. As suspeitas de sua morte apontam o padrasto e a mãe que estão presos. Vontades e os desejos mais perversos nos incapacitam de viver conforme sabemos o que é certo. Essa é a tragédia humana. O que dizer do fato do auditor fiscal Luís Alexandre Cardoso de Magalhães, no programa Fantástico da Globo, de domingo 24/11, haver confessado publicamente que, entre jantar, hotel e mulher, chegou a gastar R$ 8 mil, R$ 10 mil com dinheiro de corrupção.  Alexandre é um dos quatro auditores fiscais suspeitos de participar de um esquema de corrupção na prefeitura de São Paulo. É investigado por cobrar propina de construtoras para que elas pagassem menos ISS, o Imposto Sobre Serviço. A fraude pode chegar a R$ 500 milhões.

Vemos que os indivíduos são vítimas impotentes de seus desejos de prevaricação, de opressão do outro e de trazer danos sérios à administração pública. O impulso é o desejo ilimitado de “ter mais”: mais poder, mais riqueza, mais reconhecimento social. As contradições e males sociais provindos do ser humano entre o que é e o que deve ser são marcantes, de tal modo que estão profundamente enraizados na alma individual como dupla, dividida, dilacerada, fragmentada em seus múltiplos desejos.

Impossível não nos remetermos agora à literatura clássica, sobretudo ao célebre monólogo de Medéia (1078 – 80) em que emerge claramente uma nova compreensão de alma, de indivíduo, podendo ser chamada de “trágica”, ou seja, “dilacerada”, dividida entre desejos e vontades. Assim se expressou Eurípides em sua homônima tragédia: “um indivíduo incapaz de viver conforme o que sabe ser certo”.

Tal é a nossa alma. Em constante conflito entre o que se sabe e o que se faz. Tal é a condição humana, arrastando-nos para a morte, para o amor e para experiência trágica da vida, não menos trágica que as experiências de amor e morte. Portanto, fiquemos com o espírito de indignação de Medéia na obra de Eurípides: “Que não me caiba em sorte essa próspera vida de dor, nem essa felicidade, que dilacera o meu espírito!”.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Licenciado em Filosofia/UERN, Esp. em Metafísica/UFRN e Esp. em Estudos Clássicos UnB/Archai/Unesco.

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Encontros alegres

A essa altura do ano os encontros se multiplicam compulsivamente, se é que podemos classificar esses agrupamentos de pessoas de “encontros”, uma vez que mais parecem ajuntamentos forçosos pela conveniência de datas tradicionalmente reconhecidas como o Natal e o Ano Novo. Encontros precisam ser espontâneos, verdadeiramente amigáveis e alegres. Quando se impõe, exige e força um encontro, não flui como deveria ser, de um modo criativo, surpreendente e generoso.

Encontros são encontros, simplesmente, inclassificáveis e obedece, na minha opinião, à ordem do por vir, do vir a ser de Heráclito de Éfeso. Temos encontros diários e permanentemente.

Penso que quanto mais nos enfadamos das festas, reuniões ou até mesmo desses rituais de fim de ano, mais e mais necessitamos, ficamos sedentos e desejosos de verdadeiros encontros, semelhantes aos que costumamos experimentar em família, entre amigos, num aniversário surpresa, num jantar imprevisto, em circunstâncias criadas naturalmente, onde as pessoas vão chegando, chegando e a atmosfera do encontro vai se constituindo cheia de alegria e gratidão. Não dá mais para suportar encontros produzidos, superficiais, monótonos e sem imprevisibilidade. Quanto mais o tempo passa, os anos se vão e a bagagem da vida aumenta, aí é que precisamos de encontros assim.

A alegria é fruto de um bom encontro carregado de afetos bons. Por isso que volta e meia dizemos que um bom encontro é cheio de vida e alegria, de “afecções” dessa natureza. Estamos alegres quando nos sentimos afetados por pessoas alegres que vão aumentar em nós essa potência. Era justamente isso que entendia Spinoza, filósofo holandês do séc. XVII, sobre os bons e maus encontros. Para ele, é da nossa natureza afetar e ser afetado por outros, de modo que a vida é uma intensa possibilidade de encontros.

Só que um encontro alegre se traduz em conquistar, por menor que seja, um pedaço daquele ambiente, daquele encontro, entrar nele, sentir-se parte dele, assumi-lo. Seria o encontro comigo dentro. Ele me preenche e eu o preencho. Eis a alegria!

Por sua vez, o mau encontro se dá na medida em que os afetos não se combinam, diminuindo sua potência de ser. Aí vem a tristeza que surge da separação de uma potência que não me integra, não me preenche, não me põe dentro do encontro. Eis a tristeza!

Algumas vezes, é certo, não depende de nós mudar os encontros, nem sempre temos o poder de mudar as ações, de influenciar, as circunstâncias não nos permitem, as condições menos ainda, enfim. Porém, agir é sempre bom, é interessante agir diferente, criar novas ações neste Natal e Ano novo, abrir-se a experiências novas e inusitadas de encontros parece ser uma tentativa bastante louvável para quem deseja encontros alegres com afetos que se combinem, se completem.

Espero que todos procurem bons encontros, encontros alegres, neste Natal e fim de Ano.

Prof. Jackislandy Meira de Medeiros Silva

Bel. em Teologia, Bel. e Licenciado em Filosofia, Esp. em Metafísica, Esp. em Estudos Clássicos.

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Luciano Ezequiel Kaminski

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OUSE SABER! BLOG DO PROFº MARCOS FABIO A. NICOLAU

O blog visa disponibilizar material didático on line das atividades docentes no semestre [aulas, cursos, oficinas, grupos de pesquisa], assim como minha produção acadêmica [publicações, artigos, comunicações e palestras]

kely Brenzan

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